terça-feira, 6 de novembro de 2012

Mote perpétuo



És minha mulher, mi concubina, a minha sina,
Minha canção,
És a rainha, minha farinha, meu pão-de-ló,
És hoje e sempre, o meu inicio, meu precipício
Ontem, agora e doravante, és minha amante
Meu guarda-pó!
Minha pequena, o meu sistema,
Um paraíso, meu dente ciso,
A megassena, meu quiprocó.

Tu és o tudo onde era o nada
A minha amada, sem fim sem não
Minha delicia, a minha flor
Toda a doçura, minha loucura, meu coração
O passo em falso, um equilíbrio
Tu és meu rumo, o meu Xodó.
És afinal, meu bem meu mal
O meu calmante, meu carnaval.

És mais ainda, muito mais linda
Que todo o harém do Grão-Paxá
És minha estrela, toda uma mina
Minha menina, meu ouro em pó
És minha deusa, a pura alma, droga que salva,
Meu talismã
Formosa escuna, mi media luna
És tempestade de Tupã.

Minha sandice,
És criancice em tarde de sol
És minha gula, meu alimento,
O meu sustento, o meu anzol.
Todas as juras, e as conjuras
Um movimento, revolução
Todos os livros, mundo dos vivos, minha paixão.

E além de tudo, és infinita
Paciência como a de Jó
És minha cisma, um cataclisma
Como um estrondo, tu és meu tombo
Fantasia, quando estou só
És o meu riso, minha viagem
Toda a ciclagem, o meu imã
És tudo isso e se for preciso
És arma química de Saddam

És luz de vela, mão de malicia
Minha castiça, um avião
Estrada certa, clarão de lua, gaivota nua
Em minha alcova és cortesã
És a beleza da juventude
A manha esperta da anciã
Tu és a minha queda da bicicleta
És luz do sol, és noite escura
Antecipando a cor da  manhã.

Enfim, tu és minha ideologia
Compressa fria, febre terçã
És a lonjura, és alegria
És todas as praças, cidadania
Tu eres mi chícle,  de hortelã
É muito pouco, tu és demais! 
Aula de língua estrangeira
Flecha certeira, cantiga 
das mil mesquitas em Bagdá
Dança de Umbanda, dentinho aberto
És no deserto, o meu maná.

Jorge Passos

Postar um comentário