Foto J. Passos
A zona de meretrício localizava-se próxima ao centro da cidade, num bairro que há muito não sentia o cheiro de tinta fresca. Os quintais das casas e o passeio público rivalizavam na sujeira; era um acordo tácito entre o público e o privado. Ali viviam trabalhadores de baixa renda, alguns desocupados e mulheres que optaram por morar próximo ao local onde ganhavam a vida.
Morava e trabalhava ali uma jovem de vinte e dois anos, que aqui tratarei por N. (acho que foi essa letra inicial que desencadeou o resultado das reflexões de ontem à noite). Tinha mãe ainda viva e jovem, mas ignorava o paradeiro do pai. À insistência da filha em querer conhecê-lo, a mãe reagia com impaciência e, decidida, não tocava no assunto. Fizera apenas duas concessões naqueles anos todos, revelando o nome e as circunstâncias do abandono.
Os sentimentos da mãe também foram revelados juntamente com aquele nome. Era cristalino para N. que a mãe ainda o amava, pois, se lhe revelava o nome, apesar de não admitir maiores conversações a respeito, é porque nominava um sentimento; se preservamos o nome, é porque o objeto, de alguma forma, está a salvo.
Mas a filha sabia mais sobre o pai do que supunha sua mãe. Nunca o vira, nem lhe seguira os passos, mas conseguira uma informação, absolutamente significativa, fruto do mais puro acaso. Pelos sentimentos da mãe e pela importância da informação, jamais revelou o segredo.
N. recebia seus clientes em sua própria casa, visto que não morava com a mãe havia cinco anos. Amava flores e plantas e tinha verdadeira paixão por pintura. O jardim da casa era bem cuidado; seu maior orgulho era uma orquídea que ganhara de um cliente. A partir de reproduções baratas de obras famosas da pintura universal, mantinha espalhados pela casa Picassos, Gauguins, Portinaris e seu autor favorito, Claude Monet. O gosto pela arte, de onde ele vinha, fantasiara que herdara do pai. A verdade é que, quando pequena, ainda freqüentando a escola de uma pequena cidade do interior, participara de uma excursão à capital em visita a uma exposição. O deslumbramento por ver aquela metrópole pela primeira vez fora suplantado pelo esplendor das cores, sombras e luzes.
O que de fato nos interessa ocorreu numa noite de terça-feira. Um homem, que nunca vira, bateu à sua porta em busca de seus serviços. Logo que entrou, causou-lhe uma pequena inquietação que foi aumentando, conforme conversavam e bebericavam antes de irem para o quarto. Ele tinha pouco mais de quarenta anos, estatura acima da média, porte atlético, como se diz. A voz macia e serena, seus gestos delicados, causavam em N. a impressão de aquele era um homem bondoso. Mas era triste aquele homem. Quando N. falava, seu olhar era distante, como se estivesse preocupado; como se fosse preocupado. Carregava um peso consigo, disso não havia dúvida. Freqüentemente olhava para o chão, embora não fosse tímido.
N. não conseguiria ir com ele para o quarto; o melhor a fazer era dispensá-lo, sair e tomar um pouco de ar fresco em alguma rua à beira do cais. Pretextou uma forte dor de cabeça e problemas de pressão baixa e pediu-lhe que viesse outro dia. Em outras circunstâncias, não teria agido assim; os homens costumam ser violentos quando lhe negam o prazer uma prostituta. Mas aquele não; aquele homem seguramente seria compreensivo com ela, como de fato foi.
O gosto pela pintura a levava freqüentemente ao Museu de Arte Moderna no centro da cidade. Nas tardes de sábado gostava de freqüentar galerias, ateliês e esperava ansiosamente por uma nova exposição no museu. Naquele sábado, a tarde seria toda dela. Nenhum dos clientes casados, que não podiam procurá-la à noite, agendou encontro. Vestida com sua melhor roupa, foi ao encontro das obras de artistas hispano-americanos, com destaque para os mexicanos.
Gostava de assinar o livro de presenças; era um ato de comunhão, dizia ela à mãe. Na pequena fila que se formou diante do livro uma visão inesperada quase a fez desistir. O homem daquela terça-feira aguardava a vez imediatamente antes dela. Quando ele assinou e virou-se lateralmente para dirigir-se à porta de saída, ela inclinou o rosto para baixo para não ser reconhecida. Com mãos levemente trêmulas assinou o livro e leu o nome que estava logo acima do seu. A forte emoção tomou-lhe conta do corpo, que caiu ao chão; depois da explosão, a implosão. Quando voltou a si, aceitou um copo d’água que lhe ofereciam, disse que estava bem e que já poderia ir. Saiu e sentou-se em um banco na praça em frente ao museu. Após quinze minutos contemplando os pombos que por ali mendigavam, dirigiu-se à igreja, a dois quarteirões dali.
Em lágrimas, pediu a Deus que perdoasse e protegesse aquele homem e agradeceu por não ter levado para o quarto o assassino de seu pai.
Edson Martins

Ao Gabriel
É lindo ser querido e decente,
ter palavra, honra e fundamento,
que o caráter de todo vivente
é sempre seu melhor documento...
Melhor do que saber patacoadas,
é saber cosas úteis e buenas,
como os melhores pastos e aguadas,
vaus e atalhos, sendas mais amenas...
Mas, às vezes, a cosa tá feia
e temos qu’ estar de olhos abertos,
se a vida se apotra e velhaqueia,
volteia até ginetes espertos...
Se acaso uma caída sofreres,
te levanta e bate a polvadera,
recorda que Deus nos dá poderes
p’ agüentar a vida cabortera...
Não hai que ter vergonha de rodar,
nem de pedir auxílio aos amigos,
feio é fugir, afloxar, se achicar,
é se acadelar ante os perigos...
Mesmo quando a cosa fica preta
e os recursos parecem escassos,
devemos ir tocando a carreta,
‘inda que a los gritos e ponchaços...
Confio que sempre irás te fiar
na grande força do teu coração,
pode que a vida te faça rodar,
mas cairás parado, rédeas na mão!
Brasília/DF, segunda 29/XI/2010
El Chango Duarte.
Prepare-se para entrar no “país” de horizontes a perder de vista. Os 390 quilômetros que separam Porto Alegre de Jaguarão cortam uma paisagem de domínio das pradarias pampeanas. Nesses campos, destacam-se lagunas e colinas arredondadas, as coxilhas. Ali, à mercê das condições da natureza, com chuvas ciclônicas, granizo e muito vento – “vento que vem ventando”, como disse o poeta gaúcho Mario Quintana –, surgem arrozais e estâncias com cata-ventos enlouquecidos, cercadas de arbustos, compondo verdadeiros mosaicos. Bosques de eucaliptos abrigam o gado contra o frio e o vento. Beneficiada por esses cenários, a natureza foi a primeira herança de Jaguarão.Querer encontrar hoje essa cidade com o mesmo visual do século 19, quando era uma das mais importantes do Sul do País, poderia ser ilusão. Mas não é. Seus habitantes conseguiram preservar a essência em cada detalhe, e ela continua uma das mais belas do Rio Grande do Sul. Exagero? Veremos que não.A começar pela arquitetura, resumo de sua história. Jaguarão foi alvo de disputas sem trégua entre castelhanos e portugueses, brasileiros e uruguaios. Em algumas edificações, como as das ruas 15 de Novembro e 27 de Janeiro, a mescla de culturas atinge o nível máximo. E é por lá mesmo que se pode dar os primeiros passos para desvendar a cidade.As fachadas da rua 15 preservam a arquitetura eclética, com suas altas portas entalhadas, platibandas e bandeiras que fizeram dela a rua das mais belas portas do Brasil. Um inventário elenca 800 construções nos mais variados estilos – colonial português, art déco, neoclássico, eclético, moderno. Não é à toa que, no início de 2011, a cidade deverá ser declarada patrimônio nacional pelo Iphan.Outro charme de Jaguarão é o fato de ser uma cidade de fronteira: em um instante, muda-se de mundo. Basta atravessar uma ponte. E que travessia! A Ponte Internacional Mauá, cujos nove arcos se duplicam no reflexo do rio, foi construída em 1930. Deixe para vê-la no fim do dia, quando o pôr do sol será o coadjuvante de sua arquitetura. Mas o que é uma cidade de fronteira? Composta de duas meias cidades, seus habitantes “vão ao exterior sem sair do interior”, segundo o escritor Aldyr Garcia Schlee. Ou ainda, como define o prefeito e historiador Cláudio Martins: “Estamos meio pra cá e um tanto lá”.
Lugar heroico
Portas encantadas
Preste AtençãoAs ruínas da antiga enfermaria militar, construída em 1883, serão parte de uma das obras culturais mais importantes do Sul do País. O conjunto será concluído em 2011 e deverá abrigar material interativo e explicativo, remetendo-se à época da ocupação dessa região, à sua gente e à importância do bioma pampa.

Assim como o Said, milhares de palestinos tiveram de deixar seu país buscando refúgio em outros lugares do mundo. Radicado nesta fronteir...