sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Juventude(s), violência e criminalidade: o que a cultura independente tem a ver com isso?

Reproduzimos postagem do Coletivo Cultural Feitoria do Linho Canhamo de hoje.
O que a arte, e o fazer artístico têm que ver com o jovem? O que o jovem e sua vida, suas necessidades, seus anseios, têm que ver com a arte, com a cultura? Arte e cultura podem resolver alguma coisa “de verdade” na vida dos jovens, hoje? Arte prá que? Prá quem?E por quem?
Indo diretamente na questão que mais me inquieta enquanto gente, pai e educador: COMO a arte pode ajudar a diminuir ou prevenir o envolvimento do jovem com as situações de criminalidade e violência?
Sem respostas prontas, prefiro apontar alguns aspectos que penso serem relevantes na relação do jovem com a(s) cultura(s) e de como isso pode ajudar a alterar algumas trajetórias.

O Coletivo Cultural Feitoria do Linho Canhamo e a Rede Metrô Rock estão realizando em 2010 o primeiro Festival MetrôRock. Este festival acontecerá simultâneamente nas cidades de São Leopoldo, Sapucaia, Esteio e Porto Alegre na semana de 11 a 19 de dezembro e propõe uma programação variada e diversa, plena de atividades artísticas, educativas e socioculturais. Poderia ser mais um evento artístico, mais um festival de música, mais um ciclo de oficinas ou, até, tudo isso junto. Seria legal, sim, mas e daí? O que estamos fazendo de diferente? O que esse festival, essa REDE e esses COLETIVOS têm a oferecer que possa efetivamente produzir alguma mudança? Que possa apontar alguma nova perspectiva?

Penso que o primeiro elemento é o fato de termos consciência de que estamos fazendo arte e indo além da arte. Estamos fazendo intervenções estéticas e políticas. Mais do que propondo, estamos inventando. O primeiro fato novo é a existência de um numero considerável de coletivos que tem como ponto comum a produção artística e a circulação desta produção. Tudo isso feito de forma coletiva, solidária e autônoma. O segundo elemento acaba por ser resultado natural deste primeiro: a articulação destes coletivos em uma rede. E não é qualquer rede, não. É uma rede metropolitana de arte independente.

Para nós do Coletivo Feitoria, criar, produzir e articular um evento como este ultrapassa a dimensão artística e torna-se um ato de resistência e de afirmação. É tornar-se protagonista do processo de construção de novas formas de fazer cultura e, portanto, de novas formas de conviver. Afirmamos, assim, nossa identificação com uma arte e um fazer artístico que, para além do entretenimento e do mero deleite estético, assumem lugar central no processo de efetivação da democracia e da justiça social. Nesta perspectiva, a arte vai além da função de veículo da denúncia ou da crítica social e se propõe como espaço de construção de autonomia, fio condutor da organização da comunidade e catalisador do desejo de outros mundos possíveis.

Construir um espaço privilegiado como este, só faz sentido se pudermos compartilhar essa potência criativa com a comunidade e, em especial com os jovens, de nossa cidade e região. Essa expectativa diferenciada tem um motivo muito específico: a Arte, como a entendemos, é um dispositivo de desacomodação, provocação e renovação das formas de ser e de relacionar-se. Sem querer encaixar a juventude numa “categoria” mais ou menos confortável, acredito que neste espírito de inquietação e de provocação os jovens encontrem muita identificação com as artes.

Além dessa convergência mais conceitual, o Coletivo Feitoria também trabalha na perspectiva de geração de trabalho e renda com a juventude, através de empreendimentos de economia solidária nas áreas de construção de instrumentos, produção cultural e ensino da arte. Em breve, estes empreendimentos estarão articulando ações que irão atender preferencialmente aos jovens em situação de vulnerabilidade social e em conflito com a lei.

Poderíamos escrever muitas e muitas páginas sobre as conexões muito particulares dos jovens com as artes e os motivos pelos quais a juventude tem legitimidade para protagonizar eventos como o Festival Metrô Rock, (clique aqui para ver a programação) mas a urgência e o bom senso (que nem sempre andam juntos) nos delegam uma missão: Convidá-los a participar da programação do festival e nos ajudar a criar uma experiência cultural que transborde dos palcos e das salas para as ruas dessa cidade.
Léo Guimarães
Núcleo de Educação do
Coletivo Cultural Feitoria do Linho Cânhamo.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Intuição

Claude Monet - Canal em Amsterdam - 1874


Já repararam que na palavra prostituição, acrescentando a letra “n”, estará contida a palavra intuição? Há muito tempo ouvi uma estória e dela me lembrava ontem à noite. Daí surgiu a observação que faço, em atenção a uma mania que trago desde criança: perceber as relações entre os fatos da vida.

A zona de meretrício localizava-se próxima ao centro da cidade, num bairro que há muito não sentia o cheiro de tinta fresca. Os quintais das casas e o passeio público rivalizavam na sujeira; era um acordo tácito entre o público e o privado. Ali viviam trabalhadores de baixa renda, alguns desocupados e mulheres que optaram por morar próximo ao local onde ganhavam a vida.


Morava e trabalhava ali uma jovem de vinte e dois anos, que aqui tratarei por N. (acho que foi essa letra inicial que desencadeou o resultado das reflexões de ontem à noite). Tinha mãe ainda viva e jovem, mas ignorava o paradeiro do pai. À insistência da filha em querer conhecê-lo, a mãe reagia com impaciência e, decidida, não tocava no assunto. Fizera apenas duas concessões naqueles anos todos, revelando o nome e as circunstâncias do abandono.


Os sentimentos da mãe também foram revelados juntamente com aquele nome. Era cristalino para N. que a mãe ainda o amava, pois, se lhe revelava o nome, apesar de não admitir maiores conversações a respeito, é porque nominava um sentimento; se preservamos o nome, é porque o objeto, de alguma forma, está a salvo.


Mas a filha sabia mais sobre o pai do que supunha sua mãe. Nunca o vira, nem lhe seguira os passos, mas conseguira uma informação, absolutamente significativa, fruto do mais puro acaso. Pelos sentimentos da mãe e pela importância da informação, jamais revelou o segredo.


N. recebia seus clientes em sua própria casa, visto que não morava com a mãe havia cinco anos. Amava flores e plantas e tinha verdadeira paixão por pintura. O jardim da casa era bem cuidado; seu maior orgulho era uma orquídea que ganhara de um cliente. A partir de reproduções baratas de obras famosas da pintura universal, mantinha espalhados pela casa Picassos, Gauguins, Portinaris e seu autor favorito, Claude Monet. O gosto pela arte, de onde ele vinha, fantasiara que herdara do pai. A verdade é que, quando pequena, ainda freqüentando a escola de uma pequena cidade do interior, participara de uma excursão à capital em visita a uma exposição. O deslumbramento por ver aquela metrópole pela primeira vez fora suplantado pelo esplendor das cores, sombras e luzes.


O que de fato nos interessa ocorreu numa noite de terça-feira. Um homem, que nunca vira, bateu à sua porta em busca de seus serviços. Logo que entrou, causou-lhe uma pequena inquietação que foi aumentando, conforme conversavam e bebericavam antes de irem para o quarto. Ele tinha pouco mais de quarenta anos, estatura acima da média, porte atlético, como se diz. A voz macia e serena, seus gestos delicados, causavam em N. a impressão de aquele era um homem bondoso. Mas era triste aquele homem. Quando N. falava, seu olhar era distante, como se estivesse preocupado; como se fosse preocupado. Carregava um peso consigo, disso não havia dúvida. Freqüentemente olhava para o chão, embora não fosse tímido.


N. não conseguiria ir com ele para o quarto; o melhor a fazer era dispensá-lo, sair e tomar um pouco de ar fresco em alguma rua à beira do cais. Pretextou uma forte dor de cabeça e problemas de pressão baixa e pediu-lhe que viesse outro dia. Em outras circunstâncias, não teria agido assim; os homens costumam ser violentos quando lhe negam o prazer uma prostituta. Mas aquele não; aquele homem seguramente seria compreensivo com ela, como de fato foi.


O gosto pela pintura a levava freqüentemente ao Museu de Arte Moderna no centro da cidade. Nas tardes de sábado gostava de freqüentar galerias, ateliês e esperava ansiosamente por uma nova exposição no museu. Naquele sábado, a tarde seria toda dela. Nenhum dos clientes casados, que não podiam procurá-la à noite, agendou encontro. Vestida com sua melhor roupa, foi ao encontro das obras de artistas hispano-americanos, com destaque para os mexicanos.


Gostava de assinar o livro de presenças; era um ato de comunhão, dizia ela à mãe. Na pequena fila que se formou diante do livro uma visão inesperada quase a fez desistir. O homem daquela terça-feira aguardava a vez imediatamente antes dela. Quando ele assinou e virou-se lateralmente para dirigir-se à porta de saída, ela inclinou o rosto para baixo para não ser reconhecida. Com mãos levemente trêmulas assinou o livro e leu o nome que estava logo acima do seu. A forte emoção tomou-lhe conta do corpo, que caiu ao chão; depois da explosão, a implosão. Quando voltou a si, aceitou um copo d’água que lhe ofereciam, disse que estava bem e que já poderia ir. Saiu e sentou-se em um banco na praça em frente ao museu. Após quinze minutos contemplando os pombos que por ali mendigavam, dirigiu-se à igreja, a dois quarteirões dali.


Em lágrimas, pediu a Deus que perdoasse e protegesse aquele homem e agradeceu por não ter levado para o quarto o assassino de seu pai.




Edson Martins

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

POR SE A VIDA SE APOTRAR

Ao Gabriel



É lindo ser querido e decente,
ter palavra, honra e fundamento,

que o caráter de todo vivente
é sempre seu melhor documento...

Melhor do que saber patacoadas,
é saber cosas úteis e buenas,
como os melhores pastos e aguadas,
vaus e atalhos, sendas mais amenas...


Mas, às vezes, a cosa tá feia

e temos qu’ estar de olhos abertos,

se a vida se apotra e velhaqueia,

volteia até ginetes espertos...


Se acaso uma caída sofreres,

te levanta e bate a polvadera,

recorda que Deus nos dá poderes

p’ agüentar a vida cabortera...


Não hai que ter vergonha de rodar,

nem de pedir auxílio aos amigos,

feio é fugir, afloxar, se achicar,

é se acadelar ante os perigos...


Mesmo quando a cosa fica preta

e os recursos parecem escassos,

devemos ir tocando a carreta,

‘inda que a los gritos e ponchaços...


Confio que sempre irás te fiar

na grande força do teu coração,

pode que a vida te faça rodar,
mas cairás parado, rédeas na mão!



Brasília/DF, segunda 29/XI/2010

El Chango Duarte.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Jaguarão no Almanaque Brasil da TAM

Reproduzimos matéria publicada no Almanaque Brasil da companhia aérea TAM


JAGUARÃO

Meio pra cá e um tanto lá
A síntese do heroísmo nacional e a arquitetura singular de Jaguarão unem-se nessa cidade gaúcha localizada na fronteira entre Brasil e Uruguai.
Prepare-se para entrar no “país” de horizontes a perder de vista. Os 390 quilômetros que separam Porto Alegre de Jaguarão cortam uma paisagem de domínio das pradarias pampeanas. Nesses campos, destacam-se lagunas e colinas arredondadas, as coxilhas. Ali, à mercê das condições da natureza, com chuvas ciclônicas, granizo e muito vento – “vento que vem ventando”, como disse o poeta gaúcho Mario Quintana –, surgem arrozais e estâncias com cata-ventos enlouquecidos, cercadas de arbustos, compondo verdadeiros mosaicos. Bosques de eucaliptos abrigam o gado contra o frio e o vento. Beneficiada por esses cenários, a natureza foi a primeira herança de Jaguarão.Querer encontrar hoje essa cidade com o mesmo visual do século 19, quando era uma das mais importantes do Sul do País, poderia ser ilusão. Mas não é. Seus habitantes conseguiram preservar a essência em cada detalhe, e ela continua uma das mais belas do Rio Grande do Sul. Exagero? Veremos que não.A começar pela arquitetura, resumo de sua história. Jaguarão foi alvo de disputas sem trégua entre castelhanos e portugueses, brasileiros e uruguaios. Em algumas edificações, como as das ruas 15 de Novembro e 27 de Janeiro, a mescla de culturas atinge o nível máximo. E é por lá mesmo que se pode dar os primeiros passos para desvendar a cidade.As fachadas da rua 15 preservam a arquitetura eclética, com suas altas portas entalhadas, platibandas e bandeiras que fizeram dela a rua das mais belas portas do Brasil. Um inventário elenca 800 construções nos mais variados estilos – colonial português, art déco, neoclássico, eclético, moderno. Não é à toa que, no início de 2011, a cidade deverá ser declarada patrimônio nacional pelo Iphan.Outro charme de Jaguarão é o fato de ser uma cidade de fronteira: em um instante, muda-se de mundo. Basta atravessar uma ponte. E que travessia! A Ponte Internacional Mauá, cujos nove arcos se duplicam no reflexo do rio, foi construída em 1930. Deixe para vê-la no fim do dia, quando o pôr do sol será o coadjuvante de sua arquitetura. Mas o que é uma cidade de fronteira? Composta de duas meias cidades, seus habitantes “vão ao exterior sem sair do interior”, segundo o escritor Aldyr Garcia Schlee. Ou ainda, como define o prefeito e historiador Cláudio Martins: “Estamos meio pra cá e um tanto lá”.

Lugar heroico

Uma cidade não é feita só de tijolos, mas de personagens e acontecimentos do passado. A saga do povoamento do extremo sul brasileiro desdobrou-se por vários caminhos: pelo expansionismo dos portugueses e depois pelos bandeirantes. No alvorecer do século 19, a rixa estava feia nessa faixa territorial do rio Jaguarão. Nascia assim, em 1802, a guarnição militar do Cerrito, a fim de proteger nossas fronteiras. Dez anos mais tarde, ela se tornaria Vila de Espírito Santo do Cerrito de Jaguarão.Em 1865, a coisa piorou. Os uruguaios voltaram à carga, invadindo a vila. Com uma força militar inferior, mas com a ajuda da população, os jaguarenses reagiram e colocaram os invasores para escanteio. No mesmo ano, dom Pedro 2° outorgaria a Jaguarão o título de “Cidade Heroica”. Mas o bafafá na área só terminaria mesmo em 1909, pelas mãos do Barão do Rio Branco – sempre ele –, que intermediou o conflito e demarcou definitivamente as fronteiras. Não por menos, a cidade do outro lado do rio, em sua homenagem, mudou de nome: de General Artigas, tornou-se Rio Branco.


Portas encantadas

Não se pode deixar Jaguarão sem conhecer seu envolvimento com a música. Você já ouviu falar de Eduardo Nadruz? Não? Que pena! Mais conhecido como Edu da Gaita, era obstinado e doce com seu instrumento musical. De todas as suas interpretações, a mais célebre foi Moto Perpétuo, de Niccolò Paganini. Na década de 1940, Edu foi o primeiro do mundo a interpretar a magnífica obra desse violinista italiano em outro instrumento. São 150 compassos representados por 2.400 notas musicais, sem pausa, em quatro minutos. Apesar de tudo, Edu morreu esquecido.Para conhecer essas e outras histórias, só mesmo flanando pelas ruas desse finzinho de Brasil. A senha é bater em uma das portas encantadas da rua 15, pedir licença e entrar em alguma outra história.



Preste Atenção

Apure os ouvidos para palavras da região: tirãozinho, guaiaca, guaipeva, chinoca, caturrita, butiá, guaiba, charrua… Em Jaguarão, elas se traduzem respectivamente por: pequena distância, cinto, cão, garota, papagaio, palmeira, pântano e indígenas que habitavam os pampas.

Não deixe de assistir

Antes de visitar Jaguarão, uma boa mostra para se compreender os habitantes de fronteira está no filme O Banheiro do Papa, dos diretores uruguaios César Charlotte e Enrique Fernández. Eleito o melhor filme do Festival de Gramado de 2007 e da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2007, a história baseia-se num conto do escritor jaguarense Aldyr Garcia Schlee.

O Jaguarão tem mais
Estâncias
As estâncias fazem parte da história dos pampas e revelam a razão do orgulho de ser gaúcho. Agende uma visita nas fazendas centenárias Bandeira e São João do Juncal, que contam com criações de cavalos crioulos, ovelhas e gado.


Museu Dr. Carlos Barbosa

Só a casa de estilo eclético, construída em 1886, já vale a visita. Mas ela abriga rica coleção de móveis, obras de arte e louças do início do século passado. Chamam a atenção as lâmpadas com filamento de carbono, de 1900, ainda em funcionamento.

Museu do Pampa

As ruínas da antiga enfermaria militar, construída em 1883, serão parte de uma das obras culturais mais importantes do Sul do País. O conjunto será concluído em 2011 e deverá abrigar material interativo e explicativo, remetendo-se à época da ocupação dessa região, à sua gente e à importância do bioma pampa.

Heitor e Silvia Reali
Clique aqui para ver que o presente trabalho jornalístico foi custeado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, IPHAN, conforme registrado no Blog da Secretaria de Cultura e Turismo de Jaguarão.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Aprender a aprender

Foto J. Passos

Há tanto nos conhecemos,
Quanta coisa te ensinei!


Te ensinei a ver o lado oculto da lua,
Ensinei a sentir o gosto do vento
Ensinei a brincar com a areia,
a olhar pra frente e
seguir adiante o momento
Movimento.


Te ensinei a ser corpuscular
Na relatividade à luz dos fatos
Ensinei a ser dodecaedro,
Quintessência que permeia o universo.


Mas como bom observador
Mediu em ondas de probabilidades,
Assumindo o estado previsto.


E foi assim, na evidente contradição
Que aprendi sob a luz de teus olhos a ver
O princípio do fogo.


Aprendi que a atração entre os corpos é propriedade
Do espaço/tempo:
Quando um escorrega em direção
Ao outro por causa das curvaturas!

É filho! Não é fácil estudar física!



Analva Passos

Clandestino - Gilberto Isquierdo e Said Baja

  Assim como o Said, milhares de palestinos tiveram de deixar seu país buscando refúgio em outros lugares do mundo. Radicado nesta fronteir...