Mostrando postagens com marcador Memória. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Memória. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Jaguarão e Lago Merín - Refúgios de Belchior na Fronteira Sul

 

Programa Café da Manhã do DCM recordou a passagem
 de Belchior por Jaguarão e Lagoa Mirim- Aqui sendo recebido na Casa de Cultura


Montevideo - Rapaz Latinoamericano

O ano era 2010 e estávamos em Montevidéu, no famoso café Tribunales, à espera de um rapaz latino-americano que, em 1976, tinha 25 anos de sonho, de sangue e de América do Sul. Nada podia ser mais surpreendente para as nossas vidas provincianas do que estar ali, à espera dele, ainda que suas canções falassem de uma América que era muito próxima ao nosso cotidiano. Éramos fronteiriços, nascidos e criados entre um país-continente de língua portuguesa (a do Camões que ele tanto conhecia: Mas ando mesmo descontente/desesperadamente eu grito em português) e um continente de língua espanhola (a que ele por diversas vezes aludia em suas músicas inesquecíveis: El condor passa sobre os Andes/e abre as asas sobre nós/Na fúria das cidades grandes/Eu quero abrir a minha voz...).

Meses antes havíamos sido contactados por um amigo que trabalha na Casa de Cultura de Jaguarão, a nossa cidade. “O Belchior esteve aqui e eu o presenteei com um cd de vocês... ele e a companheira dele disseram que queriam falar com vocês... passei o número de telefone... disseram que vão ligar... acho que voltaram para o Uruguai”.

Belchior e a Edna, assim se chamava sua companheira, tinham estado em Jaguarão, do lado brasileiro da fronteira com o Uruguai, provavelmente para que ele conseguisse receber seus direitos autorais. Isso só descobriríamos bem depois.

Após alguns dias, efetivamente, o meu amigo, parceiro de grupo musical, mandou um recado dizendo que o Belchior, através da Edna, tinha mandado uma mensagem eletrônica onde falava que queria nos encontrar. Um único detalhe: eles estavam em Montevidéu e demorariam para voltar à fronteira. Perguntavam se não era possível irmos até lá, pois tinham algo importante para propor.

Assim começava para nós uma espécie de filme de espionagem, onde tudo sempre seria em meias palavras, ou em revelações impactantes sempre adiadas no último segundo. Porém, era o Belchior e não era só o nome dele que chamava nossa atenção. Sabíamos de cor suas músicas, suas letras de rebeldia jovem e singular e, também, conhecíamos algo que poucos sabiam - ou pensávamos que poucos sabiam: suas ligações com a música do Rio da Prata. Do Uruguai e da Argentina.

Há tempos havíamos descoberto que ele havia gravado com o duo folclórico Larbanois-Carrero e com uma amiga nossa, que cantava em nossos cds, Maria Conceição. Depois outra cantora participaria nesse trabalho, a excelente cantora uruguaia Laura Canoura. Ouvíamos também uma outra ótima cantora e atriz argentina, Sandra Mihanovich, que havia gravado diversas músicas suas. E, justamente, naqueles tempos pós 500 anos da chegada de Colombo, uma das canções que embalava nossas mentes de rebeldes latino-americanos, seguidores de ícones como Mercedes Sosa, Atahualpa Yupanqui, Violeta Parra e Víctor Jara, era um contundente manifesto em defesa da América indígena, escrito por Belchior, e musicado pelo uruguaio Mario Carrero (do duo Larbanois): En America la nuestra/de açúcar, cobre y café,/ no hay motivo para fiesta,/ 500 años de qué?

Essa ligação belchiorana com o cone Sul da América talvez explique um pouco a razão de ter escolhido viver seu autoexílio no Uruguai. Lembro sempre que na minha parede de universitário, na república estudantil da cidade de Rio Grande, eu tinha a frase que marcou indelevelmente o que eu queria dizer nas músicas que eu um dia, por ventura, escreveria: O tango argentino me vai bem melhor que o blues. Eu sempre soube que não era algo contra a maravilhosa música afro-americana, claro que não. Era algo que dizia de forma genial que éramos latino-americanos, como Neruda, como García-Márquez, como Benedetti, como Guimarães Rosa. Belchior, para mim, havia dito tudo isso em uma simples frase. A dimensão disso é difícil de conceber. Muitos já disseram que o difícil é fazer o simples. E o que ele escreveu e cantou, em várias de suas obras é simples e simplesmente genial.

------

Assim, voltando ao fio da meada, lá estávamos, minha esposa, meu amigo e eu, no Café Tribunales, na plaza Independência, centro de Montevidéu, esperando há algo em torno de meia hora, quando entrou o casal. Ela, pequena e falante, ele, quase indistinguível, escondido em uma gabardina pesada, que parecia um pouco fora de contexto, pois o frio não era tanto naquele dia. A gola alta deixava ver pouco seu rosto, porém a voz, nos raros momentos em que falou, tinha o sotaque e a tonalidade nasal dos discos que ouvíamos. Essas eram características inconfundíveis. Edna falou e falou, por duas horas ao menos, dizendo que estavam sendo perseguidos, principalmente por uma emissora de televisão que os havia encontrado no centro do Uruguai. E dizia enfaticamente que não poderíamos tirar fotografias pois mostrariam onde estavam e isso seria muito perigoso para eles. E assim, colocando um clima sombrio no ambiente, seguiu falando e falando. De tudo, além de umas poucas palavras do Belchior (ele sempre chamava seus interlocutores de “professor”), eu só recordo que notamos que não tinham como pagar o que pediram. Estavam com fome e isso podíamos perceber claramente. Pagamos de bom grado o que consumiram e, ao nos despedirmos, perguntaram se não podíamos nos encontrar no outro dia, na hora do almoço. Lembrei-me que esse era o título de outra de suas canções. Ela frisou então que o Belchior só comia peixes e frutos do mar. Lembramo-nos de um restaurante na orla de Montevidéu. Ártico, isso, Ártico, no bairro de Punta Carretas. Combinamos o encontro.

No outro dia - um desses em que o céu de Montevidéu não se decide entre uma chuva fina, a famosa llovizna, e um sol de inverno - chegamos ao restaurante. Eles já estavam lá, ao fundo, em um lugar em que se podia enxergar os campos onde havia alguns uruguaios jogando futebol, fazendo pouco caso do chuvisqueiro. Era sábado, dia ideal para exercício naquela orla magnífica.

Edna novamente conversou por todos, mas de vez em quando se ouvia o Belchior falando. Ao pronunciarmos esse nome, ela pediu que mudássemos para “Antônio”. O mistério aumentava. Respeitamos seu pedido e esse passou a ser o nome usado por nós desde então. Perguntamos se comia paella, assentiu. Creio que pedimos dois pratos grandes. Passou o tempo, conversas e conversas, sem a revelação do que eles realmente queriam de nós. Chegou a hora de fechar o restaurante. Edna perguntou se podiam sair conosco à noite para algum outro restaurante. Concordamos. Afinal, era para isso que tínhamos vindo a Montevidéu. Combinamos o encontro.

À noite nos encontramos na frente da parrillada El fogón, aonde sempre íamos em nossas estadias anuais na capital uruguaia. Essa parrillada, uma das melhores de Montevidéu, fica na calle San José, atrás da principal, 18 de Julio, bem no centro da cidade. Nessa noite aconteceu, embora poucos ali percebessem, um dos maiores encontros de músicos latino-americanos da região, pois, ao lado da nossa mesa sentou uma família em que um de seus membros era Daniel Viglietti, o compositor de A desalambrar, Milonga de andar lejos, Canción para mi América, e de outras pérolas do cancioneiro latino-americano. Tínhamos o seu disco A dos voces, com o poeta Mario Benedetti. Um dos trabalhos artísticos fundamentais para quem quer conhecer algo da cultura e da música uruguaia. Belchior, ao vê-lo ali tão perto, em um gesto marcante, fez questão de se levantar e ir falar com seu colega uruguaio. Conversaram um pouco, não mais que 5 minutos, e ouvi que ele dava um “bom proveito” para os que estavam em volta da mesa do Viglietti, despedindo-se. Sobre o que falaram não sabemos. Achei que não me cabia perguntar. Gosto de pensar que falaram de alguma música, de alguma parceria possível, de outros artistas de sua geração, de amigos comuns, ou de encontros que tiveram em festivais pelo mundo.

Daniel Viglietti ao centro
Show no Theatro Esperança de Jaguarão 1998

Na saída do El Fogón, Edna pediu para que os deixássemos onde estavam hospedados. Era um pequeno e velho hotel na rua logo abaixo da San José, mais próxima à rambla (orla). Uma zona menos iluminada e um pouco menos segura. Até os dias de hoje, sempre que vou a Montevidéu, passo em frente ao lugar e relembro a cena. O hotel fica na calle Soriano, já próximo ao seu final (ou seu início), umas três ou quatro quadras do Teatro Solís e do mágico bar Fun Fun (aquele que tem a assinatura do Carlos Gardel no balcão). Antes de deixarmos o casal no hotel, que não recordo o nome, combinamos pegá-los no dia posterior para irmos até a feira de Tristán-Narvaja, no bairro Cordón, evento que sempre ocorre aos domingos sobre as ruas desse mesmo nome.

Ali, sentaram-se em um banco um pouco longe da feira, pois não quiseram percorrê-la conosco. Certamente para ele não ser reconhecido. Sem dar espaço a contra-argumentos, a Edna disse que nos esperariam para a despedida. Quando voltamos estavam ali, no mesmo lugar. Edna então pediu para que arranjássemos um lugar para eles do lado uruguaio da nossa fronteira. Foi com essa proposta na mente que nos despedimos. E partimos rumo ao Brasil, para Jaguarão, com 420 km de estrada plana, tendo a verde e bucólica campanha uruguaia em nossa visão. Essa paisagem é sempre um bálsamo para quem gosta de viajar.

Jaguarão - Lago Merín – Divina comédia humana

Lago Merín - UY - O paraíso ecológico que acolheu Belchior

Mais de dez anos já se passaram, velozes, fugazes como aqueles momentos de Montevidéu e do novo encontro, e cá estou eu, tentando juntar cacos de memórias de imagens que não deveriam ser definitivas, mas que, infelizmente, foram. Sempre pensei que encontraria o Belchior outra vez – e reviveríamos tudo outra vez (outro título de uma de suas canções) - em um show, ou em algum restaurante, talvez em Porto Alegre ou em outro local, onde ele, cercado de fãs, dando autógrafos e sorrindo por baixo do imenso bigode, reconheceria em nós os guris de Jaguarão que foram a Montevidéu encontrá-lo. Diria certamente: “Como vai, professor?”.

Creio que era julho, mas poderia ser agosto, quando fomos encontrá-los novamente. Desta vez em Rio Branco, a cidadezinha uruguaia que fica do outro lado do rio Jaguarão. O combinado por mensagem era que eles desceriam antes do terminal de ônibus, no lugar em que se fazem os documentos de entrada e saída do Uruguai, os vistos, no chamado Passo de Fronteira. Eu havia trabalhado ali e conhecia cada recanto dessa construção. Mas jamais esperava que estivessem sentados, sem malas, no banco que fica do outro lado em relação àquele que chegávamos, ou seja, do lado que aponta para Montevidéu, de onde eles tinham vindo. Por isso passamos diretamente da primeira vez, sem vê-los, e só quando empreendemos a meia-volta com o veículo, já achando que não tinham vindo no ônibus da Expreso Rio Branco, é que nos deparamos com a cena. Os dois sentados, sem nem fazer menção de estarem preocupados com uma não vinda nossa e com apenas uma única maleta como bagagem. Ainda hoje é essa a imagem que mais nos marcou de seus encontros. Ambos ali imóveis, num banco de estação, olhando para o Sul da América, para a imensa planura uruguaia. Esse quadro da memória sempre me lembra a música Carito do argentino León Gieco (para mim um Belchior, em sua versão platina): Sentado solo em um banco en la ciudad/con tu mirada recordando el litoral...

Havíamos conseguido uma casa com uma amiga de Rio Branco, Helen Noble. Seu marido havia morrido faz pouco. Ambos eram os grandes amigos que tínhamos do outro lado do rio. Estavam sempre envolvidos com questões artísticas e de integração. Pouco antes da partida do Carlitos - o marido, que era cantor de murga (maravilhoso teatro cantado uruguaio) e edil (vereador) local – o casal tinha levado o nosso grupo ao Fórum Social Binacional realizado no Chuí. Sensível, solidária, ativista cultural, ela era a pessoa indicada para emprestar uma casa para um artista como o Belchior. E assim foi, de muito bom grado, sempre magnânima, entregou-nos a chave. O lugar onde os hospedamos, Lago Merín, é um balneário tranquilo que fica a uns 20 km de Jaguarão, do lado uruguaio, como eles haviam pedido que fosse. É uma praia de água doce que só tem um movimento considerável nos meses de janeiro e fevereiro. Nos outros, ficam ali só umas duas ou três dezenas de moradores, quando muito. Assim, era certo que não teriam muito com que se preocupar sobre possíveis encontros não desejados. Quanto à alimentação, traríamos tudo o que precisassem uma ou duas vezes por semana. E podiam sempre contar com os peixes que eram pescados na noite anterior, de um ribeirinho que morava a uma quadra da casa da nossa amiga.

La casa de Helem, refúgio de Belchior no Lago Merín

Tudo correria bem, não fossem alguns senões. Mas, porém tem um porém... A casa era de praia e a Edna logo fez questão de mostrar que não estava à altura do que esperava de nós. Sempre que íamos, ela falava de uma casa melhor, mais nova. Quanto ao Belchior, posso afirmar que jamais reclamou de nada. Há que se dizer também que essa casa segue sendo alugada e que ainda nos parece muito propícia para um veraneio em um paraíso natural como é o balneário Lago Merín. Tempos depois foi a mesma casa em que viveu por 6 meses o filho do Atahualpa Yupanqui, para quem conseguimos hospedagem da mesma forma. Até hoje, O Roberto Chavero, conhecido por Coya Yupanqui, que mora na província argentina de Córdoba, fala em retornar e veranear na mesma casa.

Voltando ao Belchior. Nesses meses de convivência na fronteira, tivemos uma dúzia de encontros. Pouco mais ou pouco menos, não recordo todos. Lembro-me de alguns deles. Uma janta no restaurante do hotel, vários peixes assados na grelha, diversos passeios com ele sempre escondido no banco de trás do veículo. Tudo fica bastante difuso quando as imagens e os locais se repetem.

Lembro que ele pediu material para pintura. Em seguida conseguimos. E vimos que pintava impressionantemente bem. Anos depois o amigo, jornalista e crítico musical, Juarez Fonseca, uma das maiores autoridades sobre música do Brasil, mostrou-me algumas pinturas e desenhos do cantor, a maioria com imagens do Carlos Drummond de Andrade, os quais recebera como presente e haviam sido publicados anteriormente por uma revista e também publicados em um livro em parceria com o cartunista Mino. Eram estupendos. Aliás, esse termo “estupendo”, era um que ele utilizava bastante. Naquele então, no seu autoexílio no Lago Merín, na casa da Helen, vimos que ele fazia de cavalete uma mesinha, forrada com uma toalha de linho, onde distribuía os pincéis harmonicamente.

As pinturas do Drummond, álbum especial, presente aos leitores da revista Caras. 
 Os desenhos, livro do Belchior em parceria com o cartunista Mino.

Em uma das primeiras tertúlias que fizemos recordo que pedimos para que cantasse algo. Edna interveio dizendo que ele não podia, pois a gravadora não permitia. Em outra vez, o meu irmão, depois de cantar uma música, em um gesto espontâneo, passou o violão para ele. Foi uma expectativa imensa quando vimos que tomou o violão em suas mãos. Ela estava em outra sala, mas percebeu o que ocorria, talvez pelo silêncio expectante do momento, e chegou logo dizendo que ele não podia, repetindo que estava proibido terminantemente pela gravadora. Nunca soubemos a que gravadora se referia. Ele, constrangido, entregou o violão, concordando com ela que não podia cantar, mas completou que recitaria uma poesia do Baudelaire e prontamente nos brindou com um excerto que creio ser de Fleurs du mal, em um francês que para nós, brasiguaios, sem muito conhecimento do idioma de Victor Hugo, pareceu-nos (e devia ser) perfeito. Penso que lembrei logo, sorrindo, que era também contraditório, pois ele havia dito muito antes: Minha fala nordestina/quero esquecer o francês...

Nessas noites de encontro com eles nos fundos da casa da Helen, onde ficava a parrilla para os assados, levávamos um amigo nosso árabe, conhecido por ser bom cozinheiro e, também, por estar sempre disposto para uma festa. Era ele quem assava os peixes para o “Antônio”, descobrindo os gostos culinários do cantor. Sempre recebia em troca palavras elogiosas para o tempero e a textura dos peixes que preparava. “Estupendo”. Em uma dessas vezes, ele, para agradar, resolveu fazer uma torta especialmente preparada segundo as preferências do Belchior. Para sua surpresa, quando, depois da janta, trouxe do carro a iguaria, foi cortado abruptamente pela Edna, que logo atalhou dizendo que ele não poderia comer algo que era nocivo à sua saúde. E que ele não poderia nem mesmo ver a torta, fazendo com que o Said, o amigo árabe (chamado de turco, como todos seus compatriotas da fronteira), com a torta ainda sendo equilibrada perigosamente na mão, voltasse quase instantaneamente com a sua surpresa para o nosso carro. No momento rimos muito da cena. O “turco-árabe-palestino” não gostou nada do que ocorreu e lembra até hoje da afronta.

Por último, recordo que montamos uma estratégia. Enquanto minha esposa conversava com a Edna, eu falaria com o Belchior. Nas poucas palavras que dizia, ele sempre gostava de falar comigo sobre literatura e um pouco de filosofia. Falava que estava trabalhando em umas traduções, creio que do Dante. Como eu tinha diversos livros que poderiam lhe interessar, combinamos que eu levaria alguns para que ele pudesse retomar seu hábito de leitura. Disse-lhes alguns títulos, ele escolheu os que queria, ou que não tinha lido. A memória pode me enganar, mas se não recordo com clareza, ao menos imagino um brilho diferente em seu olhar, ou mesmo um leve sorriso.

No próximo encontro, que foi o último, levei os livros que me pediu. Pedro Páramo, Por quem os sinos dobram, Sobre heróis e tumbas... creio que eram esses. Quero, mas não consigo recordar como foi exatamente a despedida. Havia um certo clima diferente, porém nunca fui dado a percepções mais detalhistas. Tenho para mim que deve ter sido somente um “até mais, professor”, como das outras vezes.

O certo é que, alguns dias depois, recebi uma mensagem eletrônica onde o contato deles dizia:

Prezado. Falei com a Edna e com o Belchior, e eles me pediram para te enviar este recado: Agradecem pelo empréstimo dos livros e DVDs. Os seus pertences estão na casa da sra. Helen. No entanto, outros dois livros seus e um livro e canetas da sra. Helen ficaram no hotel em seu nome, onde eles disseram que jantaram com vocês uma noite. Até. Rafael.

Assim, abruptamente, terminavam os nossos encontros com o Antônio, mais conhecido por Belchior, um dos poetas-músicos-filósofos mais importantes da música brasileira e latino-americana.

Em respeito ao que nos foi pedido, jamais tiramos uma fotografia ao seu lado. Nem em Montevidéu, nem no Lago Merín. Essa não-evidência em imagens é justamente o que nos faz sentir mais próximos a ele. Tenho certeza de que se ele tivesse seguido seu caminho natural e nos encontrasse hoje em dia, certamente diria, com seu maravilhoso sotaque nordestino: “Obrigado, professor!”.

P.S.:

Tempos depois eu soube que o Belchior seguiu vivendo mais um ou dois meses no Lago Merín, hospedado por um conhecido personagem local. A prova inconteste disso era uma série de fotografias. Fotografias... e não eram 3x4. Eis a divina comédia humana. Soube também que houve um dia em que uma das músicas dele, de eterna incompreensão, de alguma forma havia se materializado em Jaguarão. Mas por favor, não saque a arma no saloon, eu sou apenas um cantor....

Nesse dia, a Leci Brandão tinha vindo fazer um show na cidade. Ao saber disso, Belchior conseguiu que o levassem discretamente de carro até a frente da Casa de Cultura, local onde a cantora estava aguardando para a hora do espetáculo que iria se realizar no Largo das Bandeiras, o ponto central de Jaguarão. Então, segundo o que me foi contado, ele pediu para alguém avisar a Leci que “o Belchior queria falar com ela”. A Leci, obviamente, ficaria surpresa com a notícia e, também, obviamente - imensamente solidária como sempre foi, ativista cultural, além de cantora da gema -, iria ao encontro do famoso colega na mesma hora. Mas qual? Um dos promotores do evento, talvez se arvorando de protetor da contratada, simplesmente barrou o mensageiro e, ainda pior, barrou a própria mensagem. Creio que a Leci nunca soube do fato e o Belchior voltou para o balneário como um simples adolescente que fora barrado em um baile. Em cada esquina que eu passava, um guarda me parava, pedia os meus documentos e depois sorria, examinando o três-por-quatro da fotografia....


Sim, Antônio, ou melhor, Belchior, tinhas razão, sempre tiveste razão. O tempo passa, as gerações mudam, mas ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.

Martim César - Jaguarão, maio de 2022. 

domingo, 12 de outubro de 2014

Jaguarão Recantos e Encantos - TVE 1983 - Parte II


Programa da TVE do RS sobre a Cidade de Jaguarão, sua Memória, sua Cultura, sua Política. Participação de Valdo Nunes e Jorge Garcia, mentores do Projeto Jaguar. Neste segmento são enfocados prédios históricos que hoje são tombados pelo IPHAN. Sobrado do Barão com depoimento do dono de retificadora localizada no térreo do Sobrado, Senhor Gilberto Mesones.

A seguir é mostrado o Mercado Público tendo por fundo musical um chorinho executado pelo Mestre Vado, "Tira-Teima", do compositor jaguarense Carmelo Goulart. No final desta sequencia temos a imagem do inesquecível expert do saxofone. 

Finalizando esta parte, imagens do casario e interior do jardim do Museu Carlos Barbosa e porta esplendidamente trabalhada em casa da Rua XV.

domingo, 14 de setembro de 2014

A Banda Feminina do Imaculada

Pude apreciar neste 7 de setembro, com a tarde maravilhosa de sol que fez, alguns desfiles na 27 de Janeiro. Escolas, Programas Sociais, Projetos Educativos, Bandas marciais, abrilhantaram os festejos. Este jeito de comemorar a Independência creio que já é patrimônio cultural de nossa cidade. Peculiar, típico de cidades do interior onde ainda é prestigiado. A comunidade toda se envolve, tanto os que vão às ruas para presenciar seus filhos, parentes e amigos desfilando, como os que participam efetivamente nos cortejos. 
 
Defronte aos Correios, onde ocorria a Concentração, pude ver um menino vestido com um uniforme tipo Dragão da Independência, casaco azul, barretim com penacho branco. Olhei para ele e me vi em 1965, ano no qual fui convidado a ser, o que muito ainda me orgulha de ostentar em meu currículo, mascote da Banda Marcial do Colégio e Escola Normal Imaculada Conceição. E não era qualquer Banda! Era a Primeira Banda Marcial Feminina do Estado do Rio Grande do Sul formada pelas alunas do Ginasial e Normal! Eu era do primário, que era mixto. 
 
Apesar do tempo transcorrido, ainda recordo as repercussões de espanto e incredulidade quanto ao êxito da proposta que esse ambicioso Projeto de montar uma banda marcial exclusivamente feminina, idealizado e bancado pela Irmã Corália, provocou na cidade e no próprio Colégio. Tratava-se de um grande desafio para as alunas tocar instrumentos de sopro, clarineta, trompete, pistón e de percussão mais pesados, que eram tradicionalmente exclusividade masculina. Faziam parte das primeiras voluntárias para dar inicio ao aprendizado com o saudoso Professor Rossi, conceituado maestro da Banda do Exercito, minha prima Maria Rita Campos e sua colega de ginásio, Ana Luiza Silveira. Depois, por falta de tempo do Rossi e porque a nossa incansável freira queria intensificar os estudos musicais de suas meninas, foi contratado um professor da Banda do Gonzaga de Pelotas que se hospedava na Casa do Maestro Rainha. Estive conversando com a Rita, ela contou-me que hoje se assombra ao recordar, como na época, podia tocar com destreza aqueles toques de reunir, dispersar. O Projeto da Banda Marcial Feminina só pode ser concretizado pela dedicação total da Irmã Corália. Professora de matemática, ela era de uma rigidez e cobrança severíssima! Mas quem estivesse participando da Banda tinha sua proteção. Fazia vistas grossas para algum errinho de equação. Mas ai da aluna que errasse um tom no trompete, ou quebrasse o ritmo da batida no surdo! 
 
Em 1966 a Banda do colégio das Freiras já estava no auge. Participou em Porto Alegre de um concurso de Bandas Marciais sendo premiada nas primeiras colocações, só ficando atrás da Banda do Colégio São João, que tinha perto de 160 componentes. Aqui em Jaguarão, havia forte competição com a Fanfarra do Espírito Santo. Era moeda corrente que muitos alunos do Colégio Estadual, que depois também foi o meu, não se conformavam com o sucesso das gurias do Imaculada e num desfile de 7 de setembro, seguiram atrás da Banda feminina tentando atrapalhar com o barulho forte de seus tambores (porque sopros não tinham), as evoluções das meninas. A Corália ficou brabíssima e na hora, mandou parar de tocar enquanto não se dispersassem os inimigos. Foi uma verdadeira guerra!

Eu me saía relativamente bem na minha missão de mascote. Nessa de Porto Alegre não participei, mas lembro de que fomos numa exibição da Banda em Melo. Naquela época, ir a Melo, capital de Cerro Largo, era uma aventura e tanto. Lá ia eu, girando meu bastão de malabarista, liderando as quarenta belas meninas da Irmã Corália. Só uma vez passei por apuros na minha exitosa carreira de mascote. Num arriamento de bandeiras no Largo, posicionei-me arriscadamente perto demais do bumbo manejado por uma das mais possantes alunas do Imaculada. Tinha um braço de fazer inveja ao Thor manobrando o martelo. No momento solene em que se deu inicio ao Hino Nacional, na introdução épica em que rufam os tambores, na reboleada evolutiva das baquetas, senti um estouro na minha testa. Aquilo foi como um raio em céu azul. Atordoei quase chegando a desmaiar. A Corália lançou-me um olhar desesperado. Mantive a altivez e galhardia apesar do golpe. Afinal era a honra e a imagem do nosso Colégio que estava em jogo. 

Jorge Passos 

Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 10/09/2014 

Pátio Interno do Colégio Imaculada Conceição
 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Xarope Infalível


Estava eu a pesquisar nos arquivos da Biblioteca Nacional algo sobre os acontecimentos de 27 de janeiro de 1865 em jornais da época quando me deparei com uma joia no Jornal A Constituição no mesmo ano de 1865 . O anúncio do famoso Xarope Vegetal de Penedo, de cura infalível para as moléstias do peito. O Dr João Augusto Penedo apresenta os títulos de professor de Chymica e Pharmacia pela Faculdade de Montevideo e aprovado pela imperial academia do Rio de Janeiro e cavaleiro da imperial ordem da Rosa. Alerta o doutor Penedo que cada vidro do xarope é acompanhado de um folheto assinado pelo punho do autor, e bem assim na advertência que se acha em uma das faces do vidro se encontra a sua rubrica; além disso cada caixa de 12 vidros conterá um atestado por ele assinado, selado e reconhecido por tabelião. Os vidros que não forem acompanhados destes requisitos são falsos.

Esclarece o João Penedo, que estando uma pessoa de sua família muito enferma de afecção pulmonar e tendo já, perdidas as esperanças, seguiu conselho de um amigo que lhe indicou algumas plantas utilizadas pelos jesuítas que fariam bem aos pulmões. Delas fez um xarope que teve um resultado assombroso. “ Basta dizer-lhes que a doente, que fora reputada perdida e no período mais longo da enfermidade, meses depois se achava nutrida, com boa cor e robusta, deduzindo desta cura que o medicamento tinha feito cicatrizar os tubérculos que já dilaceravam os pulmões”. Resolveu então o Sr Penedo comercializar o produto.

E onde entra Jaguarão nesta história? Ora, no reclame, Penedo publica depoimentos de médicos e de várias pessoas que utilizaram com exito seu Xarope e aqui reproduzo o atestado de dois jaguarenses.

Atesto que padecendo minha mulher de uma afecção pulmonar bastante antiga acompanhada de impertinente tosse e dor no peito, sem que se colhesse resultado algum dos mais judiciosos medicamentos a que foi submetida, me deliberei aplicar-lhe o medicamento que se denomina XAROPE VEGETAL DE PENEDO, com o qual obteve uma cura radical, visto que tendo decorrido bastante tempo desde que isso sucedeu, jamais lhe repetiu tal incomodo: o que atesto é verdade – cidade de Jaguarão , 20 de julho de 1860 – Querubim Furtado

Agora quem depõe sobre as maravilhas da infusão é Manoel Furtado Pacheco, em Jaguarão, na data de 01 de agosto de 1960: atesto que minha mulher foi atacada de uma perigosa enfermidade do peito acompanhada de insuportável tosse: e conquanto sua idade poucas esperanças desse, por ser uma senhora de 78 anos, tive contudo o prazer de a ver completamente restabelecida com o uso do Xarope vegetal de Penedo. Todo referido é verdade, por isso de bom grado passo o presente.

Jornal ligado ao Partido Conservador apoiando a autoridade do Imperador Pedro II, A Constituição foi fundado num momento de prosperidade e efervescência política e intelectual em Fortaleza, decorrente, sobretudo, da riqueza gerada pela alta das exportações nacionais de algodão, o mais importante produto da economia do Ceará.

Sobre os acontecimentos das guerrilhas entre blancos e colorados que deram origem à escaramuça dos blancos em Jaguarão há interessantes aportes em A Constituição. De toda forma, vê-se que região estava muito conturbada e a Guerra do Paraguai viria logo a seguir como consequência dos conflitos no Rio da Prata.

Jorge Passos

Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 21/01/2014




quinta-feira, 21 de março de 2013

Lembranças do Caminho

A Lua da Minervina - Devoto da Imaculada, meu pai sempre tirou o chapéu quando passava por aqui.

Que saudade!

- Das pandorgas feitas pelas mãos de pianista do meu Pai – artísticas confecções – inigualáveis no acabamento e na graciosidade de vôo.


- Da “Hora do Ângelus”, pela voz do Padre Mário, na Rádio Cultura. Sentados à cozinha a Mãe e eu. Ela concentrada na Ave-Maria e eu sonhando em ter a perna mais comprida que a da cadeira.


- Dos divinos sorvetes da Dona Fifa, quando os raros cobres do vazio bolso paterno nos permitiam.


- Das matinês do Cine Theatro Esperança; dos seriados de Buck Jones e Hopalang Cassidy; dos filmes antigos/atuais do Carlitos/Chaplin; da ingênua beleza da Marilyn (embora os mais velhos enxergassem outros atributos).


- Da “Maria-fumaça”, partindo da estação, carregada de lenha e viajantes, no furioso resfolegar, silenciado antes do seu desaparecer na planície sem fim.


- Dos banhos no riacho do Empedrado - menos do afogamento, quando fui salvo pelos cabelos. Uma dívida impagável. O meu benfeitor foi abatido, pouco depois, por uma leucemia aos doze anos.


- Da minha primeira Professora (com P maiúsculo!) – Jalusa Pereira Borges. Austera, uma esfinge de rigidez, e extremamente simpática ao ofertar-me o brinde pela primeira colocação (dez/56). Guardei-o, até extraviar-se no espólio do matrimônio anterior.


- Da doce coleguinha das aulas do Joaquim Caetano, pouco mais velha do que eu. Quase namoradinha. Nunca tomei coragem da iniciativa, outro tomou.


- Da velha pereira do quintal vizinho, até que o galho, insatisfeito com o meu cavalgar, quebrou, e o braço direito também se partiu (dez/57). Ainda assim, adoro pera.


- Dos civilizados, ingênuos e alegres carnavais de antigamente, embora o sono chegasse antes do encerramento do desfile.


- Dos Ford Fairlane/56 e dos Chevrolet Bel Air/57, nos seus flamantes e exibidos passeios pela rua principal; a Vinte e Sete.


- Do final do campeonato mundial de 58, quando a cidade explodiu numa só alegria. Não sabia que tantos gostassem de futebol.


- Do meu primeiro – e único – cachorro. Em homenagem ao herói das histórias em quadrinhos, batizei-o de Valente. Extrema ironia; apanhava de todos. A única batalha enfrentada com estardalhaço era com a roda do velho táxi do seu Pelufo. Perdeu-a também e enterrado no quintal ficou.


- Das “charretes”, puxadas por cavalos, lá do Uruguai; transporte pessoal de outro tempo em tempo alheio.

 
Que saudade da década de cinquenta! Da criança que um dia também o fui. 


Envelhecemos,  a década e eu. Mas esse detalhe pouco importa. O mais importante é que, daqui a cinquenta anos, as crianças de hoje possam também sentir uma benéfica saudade de um tempo que não mais voltará.

Lino Marques Cardoso
 escrito em 12/09/2005

Publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia 05/03/2013

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

JAGUARÃO - A Cidade. (parte I)


Extraído da coluna Jaguarão: ontem, hoje... de Cleomar Ferreira do Jornal Fronteira Meridional, edição do dia 28/11/12.


Antiga rua General Deodoro, hoje promovida a  Marechal Deodoro

Por ocasião do “Centenário da Proclamação da República – 1822/1922”, o jornalista Pedro Lacombe, proprietário do jornal “O Commércio”, que circulou entre os anos de 1895 e 1911, fez uma coletânea de notícias relacionadas com nossa cidade, bem como propaganda impressa nos jornais locais das casas comerciais existentes na época. Esta obra chama-se “Jaguarão no Centenário da Independência da Pátria”.

Trata-se de uma raridade, cujo proprietário, demonstrando muito apreço por esta “obra”, como não poderia deixar de ser, emprestou-me por um breve período, do qual tentarei extrair de suas páginas algumas noticias que circularam nos primeiros anos da década de “vinte”, mais precisamente por volta de 1923. Nesta edição, apresento um texto que dá uma idéia sobre o que era nossa cidade nesta época.

“A cidade de Jaguarão, colocada à margem esquerda do rio do mesmo nome e que serve de divisa natural com a República Oriental do Uruguai, teve início, ao lado desse curso d’água, em 1801. Formando-se daí a antiga “Rua da Praia”, depois chamada de “Conde d’Eu”, e hoje “20 de Setembro”, continuando sua edificação até a antiga “Rua das Trincheiras”, hoje, “Gen. Barroso”, limite entre as denominadas “cidade velha e nova”, e onde se encontram a “Pharmácia Graciliano, o Cinema Ponto Chic e a Funilaria de Tristão Pinto da Silva”.

Da rua “General Barroso” até a rua “Nova Humaitá”, estende-se um vasto planalto, muito bem arejado por todos os lados. Ao norte desta rua, começam duas notáveis elevações de terreno, mais ou menos para a mesma direção, formando os cerros da Pólvora, onde existe o Hospital Militar, e o cerro onde está o Cemitério das Irmandades.

Desses planaltos, tanto a Oeste como de Leste, as águas escoam facilmente para o Rio Jaguarão, sendo a cidade a mais bem drenada  do Estado, não se encontrando nem águas empossadas, mesmo ante a mais torrencial chuva.

A cidade ocupa uma extensa área, sendo as ruas principais, perpendiculares ao rio, banhando o sol, com extrema franqueza, as fachadas de seus magníficos prédios, de manhã e a tarde.

As ruas mais antigas tem 10 metros de largura, com passeios de Lages e de mosaicos, de 2 metros, havendo ainda 3 avenidas, sendo 2 com 2 filas de arvores (plátanos e catalpas do Japão), formando cada avenida, 3 passeios, sendo a central mais larga, e por onde podem transitar 2 e até 3 veículos, afora os lados, margeando os passeios e outra com uma plantação central.

Todas as ruas são calçadas, algumas à pedra, outras com meio “macadam” (tipo de pavimento onde era empregado o uso de pedras, diferente dos paralelepípedos), nelas vendo-se excelentes e confortáveis prédios de moradia.

A praça principal é a “13 de Maio”, com lindos passeios de mosaicos aos lados e dois centrais em forma de cruz, com árvores recentemente remodeladas.


Praça 13 de Maio, hoje Alcides Marques. Rua General Osório com calçamento tipo "macadam"

Nesse aprazível local, ficam os clubes Harmonia, Jaguarense, Instrução e Recreio. A Igreja Matriz, Mesa de Rendas Estadual, Susini Hotel, Telégrapho Nacional, Maçonaria, residências de Mario Pereira Bretanha, Hermenegildo Correa, Zeferino Lopes de Moura, Dr. Alcides Pinto, Conceição Olegário de Mattos, Gabriel Gonçalves da Silva, Maria Faustina Gonçalves, José Luiz Terra, etc.

Na antiga Praça da Marinha, hoje Paisandú no porto, ficam a Usina Elétrica e o excelente Mercado de alvenaria, onde figuram a carne vinda do matadouro e frutas nas inúmeras bancas dos hortaleiros.  Possui na sua zona urbana 36 ruas assim denominadas: Fernandes Vieira, Lima Barros, Uruguaiana, Julio de Castilhos, XV de Novembro, 27 de Janeiro, Gen. Osório, Gen. Deodoro (sim, à época não era “marechal”), Andradas, Gen. Câmara, Riachuelo, Curuzú, Caxias, Bento Martins, Amazonas, Curupaiti, Liberdade, 20 de Setembro, Gen. Marques, Carlos Barbosa, 19 de Fevereiro (depois Centenário), Andrade Neves, Gen. Barroso, Gen. Delphin, 03 de Novembro, Gen. Menna Barreto, Aquidaban, 24 de Maio, 7 de Abril, Venâncio Aires, Independência, Da Paz, Humaitá, Cristóvão Colombo, Floriano Peixoto. Nos subúrbios existem 83 casas, sendo um total de 1563 residências na cidade.  O número de prédios é de 1960, incluindo 278 na zona “suburbana”, não havendo nenhum desocupado.

. . . Continua na próxima edição.

Abraço a todos. Boa leitura.

(fonte: Do livro – Jaguarão no Centenário  da Independência da Pátria – Apontamentos para uma monografia de Jaguarão.)

sábado, 8 de dezembro de 2012

A dura rotina de um jornaleiro



A Cândido Rodrigues, engraxate e jornaleiro

Naquele sábado, eu corria que nem um louco para aprontar o jornal. A impressão andava péssima, o mecânico custava a acertar o nível do rolo na chapa. Eu ainda tentava compor alguma matéria na tipografia. O pó, na caixa dos tipos, entranhava-se em minhas narinas e eu espirrava a toda hora, mal conseguindo respirar. Meus dedos estavam encardidos com a tinta preta, não podiam coçar o nariz nem espantar as moscas. E a caspa, no cabelo, comichava minha cabeça. Ali perto, debruçado na bancada, avental todo lambuzado, a careca brilhando sob o quebra-luz que pendia do teto, o velho Arcanjo resmungava por se encontrar atrasado na montagem da chapa.

Odores fortes de tintas e suores sobrepairavam no ar. Alguém entrou na oficina me procurando. Sobrancelhas e bigode cerrados e negros, um porte respeitável não fosse a boca desdentada, vestia uma camiseta de lã desbotada, calça xadrez, cordão amarrando a cintura, chinelos de dedos: era seu Cândido, o engraxate da praça, que se dispunha a distribuir o jornal em troca de algum a mais, reforçando a féria do dia.

Logo o prelo fazia trepidar o prédio inteiro, o rolo girando envolto no papel enquanto a chapa deslizava e voltava à posição inicial, depois de largar a folha maculada no aparador. Dobrávamos os jornais, acomodando-os dentro das bolsas. Era a primeira vez que seu Cândido fazia esse tipo de serviço. Competia-me indicar as casas em que devia proceder a entrega. Lá fora, raios e trovões, uma chuva torrencial. Era nossa obrigação atender os assinantes, apesar da precariedade dos guarda-chuvas como abrigo.

A sensação de desconforto se acentuava à medida que progredíamos nessa tarefa, ansiosos por trocar a roupa ensopada, beber um café quente, esquentar o corpo. Eu cantava o número de cada casa, seu Cândido passava o jornal amolecido pela umidade na soleira das portas e respondia com o nome do bicho. Ele tinha a sua ilusão de acertar e se despedir dos biscates. Era simplório, mas possuía um senso de humor incomum. Assim, eu ficava observando aquela criatura que parecia se derreter, gotas pingando do rosto vincado pelas rugas de um envelhecimento precoce, que nem o capuz do impermeável amarelo conseguia esconder.

Ruas encharcadas, o barro grudando nos pés pesados que chacoalhavam em lâminas de água. Sapos, grilos, um rádio tocando, a madrugada tinha seus ruídos. Alguma luz por detrás de um postigo encostado numa janela qualquer, por certo, um notívago assuntando entre paredes, no calor das cobertas.

- “Mil duzentos, cinquenta e cinco” - dizia eu apontando para o armazém do Armando Costa e me imaginava chegando mais cedo: a venda logo fecharia e o dono, aguardando o jornal, chamar-nos-ia para dentro, ofereceria mortadela fatiada e pedaços de pão. O apetite voraz, a saliva se esgotando na boca, o picante de uma pimenta inesperada, o copo de vinho para não engasgar, uma vontade danada de ficar por ali, sentado nos sacos de batata, esperando a chuva passar...  

- Gato” - berrava seu Cândido, à porta do armazém em que havia deixado o jornal, arrancando-me daquelas cismas.

José Alberto de Souza
poetadasaguasdoces.blogspot.com.br


Texto publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia 28/11/2012


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Por que não se "tomba" o Mackinley Rosa?

Palco de grandes espetáculos, o Mackinley Rosa
em imagem do curta Gaúchos Canarinhos, com Aldyr Schlee e José Orcelli

Acerca da matéria que postei em meu blog “Duas equipes jaguarenses no Gauchão?”, em 04/10/12, escreve-me um leitor anônimo, a quem solicito para que se identifique: “Eu não entendo como Jaguarão com um estádio como o Mackinley Rosa e com um passado bonito no futebol amador da região e no estado deixou o futebol de campo morrer por completo. Hoje não se tem um campeonato varzeano forte com equipes tradicionais como Andradas, Florestal, Pindorama, Imperial, Mauá, Vila Kennedy e outros. Entendo que a fase áurea do futebol de salão do Navegantes contribuiu para o fim de participações estaduais do Cruzeiro, mas o fundo do poço que chegamos ao nosso futebol nunca pensei que aconteceria.”

Inclusive já ouvi falar que a Associação Cruzeiro Jaguarense estaria loteando o seu estádio a fim de pagar dívidas acumuladas, mesmo depois de se desfazer da sua área de piscinas, lá pelos lados da “rua do cordão”. Custo a acreditar que ali perto da antiga Estação da Viação Férrea, permanece abandonado um patrimônio que foi erguido com o grande esforço dos associados do Esporte Clube Cruzeiro do Sul que o nosso Clube Jaguarense recebeu de mão beijada através de uma fusão infeliz. Perguntar não ofende: porque não se recupera aquela área como Estádio Municipal?

Meu amigo José Nunes Orcelli tem desfraldado a ideia de formar uma seleção de futebol com jogadores que se tem destacado no campeonato varzeano local para disputar um dos certames estaduais da Federação Gaúcha, o que me faz lembrar o Jaguarão Esporte Clube, quando entrava em campo nas partidas do Estadual de Amadores com aquelas camisas brancas com letras vermelhas estampadas no peito – JAGUARÃO – que muito me enchia de orgulho, apesar de cruzeirista declarado. A nossa comunidade precisa se unir em torno dessa bandeira, deixando de lado antigas preferências clubísticas para retomar o seu lugar no cenário esportivo do Estado. Creio que basta vontade política para instalação de uma sede desportiva já existente - Estádio Municipal Mackinley Rosa.

Fui testemunha de como foi construído o antigo Estádio Minervina Corrêa, tijolo a tijolo, com o labor voluntário de atletas e torcedores que se juntavam nos fins de tarde e à noite, sacrificando preciosas horas de descanso para cercarem a sua área de competições. E o que hoje resta da praça de desportes do Jaguarão Esporte Clube, o primeiro a ter seu patrimônio dilapidado com esses malfadados “casamentos”? Um esplêndido pavilhão social dando vistas para um minguado campo de “futebol sete” destinado a práticas recreativas, afora a ampliação da sede das piscinas da Sociedade Harmonia Jaguarão. Mais trágico ainda o desfecho da união entre Clube Caixeiral e Navegantes Futebol Clube por demais sabido de qualquer jaguarense que se preze.

Sou do tempo em que os atletas do meu saudoso Esporte Clube Cruzeiro do Sul tinha o seu campo no terreno em que atualmente se encontra estabelecido o Asilo de Meninas “Felisbina Leivas” e sua sede social, também utilizada como residência para os jogadores mais necessitados, funcionava no prédio que era da extinta Sociedade Italiana. Naqueles idos, nem Jaguarão nem Navegantes possuíam os seus campos próprios e mandavam seus jogos ali no “arrabalde” do IPA, onde hoje se situa a Praça Comendador Azevedo. Pois daquela sede na Rua 15 de Novembro, próxima dali, os atletas marchavam uniformizados em direção à antiga praça de desportes do Harmonia. Tradições como essa precisam ser preservadas na memória esportiva da cidade, tão evidente no símbolo que hoje representa o velho Estádio Mackinley Rosa como baluarte da alma cruzeirista.

José Alberto de Souza

Texto publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia 17/10/2012




terça-feira, 18 de setembro de 2012

Acervo histórico preservado


Foto: Gesner Vaz

Uma das importantes ações da Unipampa, Campus Jaguarão, é o  Projeto de extensão Catalogação e Digitalização de Documentação Histórica que têm por objetivo geral a catalogação e digitalização do acervo de periódicos, livros de atas da Intendência e Câmara de vereadores da cidade de Jaguarão, datadas do século XIX que estão armazenados no Instituto Histórico e Geográfico , as quais são fontes de pesquisa sobre a memória da comunidade e estão em precário estado de conservação, sendo através da digitalização preservados e disponibilizados na forma de mídias como CD, DVD e página na internet. O Projeto é composto por uma equipe multidisciplinar de áreas do conhecimento como informática, história, biblioteconomia, letras e produção cultural.

A propósito de acervo digitalizado, a Biblioteca Digital Nacional disponibiliza para consulta no seu site na internet, http://memoria.bn.br,  riquíssimo acervo de jornais do século XIX, já extintos. Sabemos da importância que isto tem para a pesquisa, ainda mais com os Cursos de História, Letras e Produção Cultural presentes na Unipampa. Por curiosidade, consultei um das centenas de periódicos disponíveis. Escolhi o Annuario da Provincia do Rio Grande do Sul - 1885 a 1891 – sobre as ocorrências com a palavra Jaguarão. Os resultados são muito interessantes.

Em 1885 , informa o Annuario, em Notas sobre a Imprensa do Rio Grande do Sul, havia em Jaguarão quatro Diários.  A Ordem (órgão do Partido Liberal) , O Tempo (conservador) , A Tribuna, A Grinalda ( de cunho literário).  No mesmo ano, para viagens, anunciava-se que aos domingos, o vapor Mirim saia de Rio Grande para Jaguarão com escalas em Pelotas e Santa Izabel, retornando nas quartas -feiras. Aqui em Jaguarão o passageiro poderia utilizar a diligencia agenciada pelo Hotel Frances com destino a Montevidéu ou se pretendesse ir a Bagé, no dia seguinte à chegada do vapor, a empresa Progresso de Diligencias, o levaria em um dia e meio, se primavera ou verão, e em tempo incerto de percurso caso fosse temporada de outono-inverno.

Para expedir um telegrama no Estado do Rio Grande do Sul para os principais países da Europa e América do Norte, por Jaguarão, através do Telegrapho Oriental e Via Galveston, o preço já vinha com o custo do telegrama do Telegrapho Nacional a Jaguarão, de 400 réis.

O Annuario também contém problemas de xadrez, charadas , poemas, crônicas, estatísticas, quadro de arrecadação de impostos do estado, uma visão geral da época. Ernesto Machado, poeta jaguarense, para nós desconhecido, tem três belos sonetos publicados na edição de 1891. Escolhemos um deles:

Sinhá     

Da janella da alcova alcatifada
Ao lado d’um esplendido jardim,
Vem a brisa travessa e perfumada
Da essência peregrina do jasmim.

Corre, voa, perscruta vivamente
Esse ninho de fada embalsamado;
Sobe e desce, brincando doudamente...
Abre e cerra o discreto cortinado! ...

Dorme agitada em sonhos deslumbrantes,
De fórmas quasi nuas, palpitantes,
Mimo de Deus, a divinal sinhá!

Junto à janella, doudo, extasiado,
Canta, canta sorrindo, extenuado,
No leque da palmeira – um sabiá!

(Ernesto Machado)

Faça uma viagem por esse acervo da Biblioteca Nacional enquanto aguardamos a digitalização dos jornais de Jaguarão! 

Jorge Passos

Texto publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia 12/09/2012

Clandestino - Gilberto Isquierdo e Said Baja

  Assim como o Said, milhares de palestinos tiveram de deixar seu país buscando refúgio em outros lugares do mundo. Radicado nesta fronteir...