Mostrando postagens com marcador POESIA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador POESIA. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Fábio Amaro - Babel - Poesia

 


A LOUCA

Uma louca dançava
arrastando o vestido na chuva.

Não tinha paciência
para absurdos.

Quando a gente lhe dizia
sobre abrigar-se
das águas
ela respondia:

- Conjugo o que vem do céu
com as inexatidões do meu coração
e assim é que desabrocho meus jasmins.

Ninguém entendeu,
mas todos calaram a boca.


Fábio Amaro nasceu na fria noite de 28 de agosto de 1977, na cidade de Pelotas. É poeta, PhD em Relações Internacionais e Professor na Universidade Federal de Pelotas. Publicou dois volumes de poesia, O Carrossel dos Desvarios Voláteis, em 1999 e, O Terceiro Lado da Moeda, em 2017.

Propenso a desvarios, tem na poesia o reduto de seus despautérios e vislumbra nela o pilar de sua sanidade. 




sábado, 19 de março de 2022

Cine Rio Branco - Martim César

 Dedicado a la família Bittar y su pasión por el cine.

CINE RIO BRANCO (Martim Cesar)
Sabemos que já faz tempo
Mas parece que foi ontem
Quando Jaguarão em peso
Cruzava os arcos da ponte
O cine Río Branco anunciava
Outro êxito em cartaz
E três sessões não bastavam...
Todos queriam bem mais
Tinha o porteiro Patrón
Y aquel hombre del ‘franfrut’
E após duas matinés
A famosa sesión ‘Vermut’
Ver algum beijo na tela
E nas poltronas também..
No intervalo em que a lanterna
Relampeava mais além
Quantos encontros vividos
No entrevero de idiomas...
Quantos romances nascidos
Dos olhares nas poltronas!
De vez em quando se ouvia
Nomear fulano de tal
‘Su presencia se exigía...
Fulana estaba en el hall’
E ano 50... quem estava
Jamais esquece um segundo
Parou o filme... o locutor gritava:
Uruguay... ¡Campeón del mundo!
Um dia a enchente invadiu
Grande parte da plateia...
Parecia até que o rio
Também vinha ver a estreia!
O mundo ali foi conhecido
Num balão de Júlio Verne
E o outro mundo... o proibido!...
Numa sessão ‘Franja verde’ !
Poucos lembram quando o cine
Cerrou suas portas pra sempre
Mas Jaguarão ficou mais triste!
E Río Branco... mais carente!
Hoje os turistas te invadem
Sempre apressados, dispersos...
Tudo compram! Nada sabem!...
Mas já morou em ti... o universo.
Fotos: Asientos y cartelera: acervo del museo historico de Juan Carlos Muniz
Franfrut : Ricardo Hernandez.
Fachada del Cine donde estaba ya alquilada al transporte Rio Branco: Maria Fernanda Passos

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Soterrados - Martim Cesar

"O Grito" pintura de Edward Munch

SOTERRADOS

Sobre meu corpo uma pedra
Sobre a alma uma montanha
Em volta, uma estranha guerra
Que em lama e sangue se banha
Guerra surda e disfarçada
Como se fosse inventada
Ou fosse em outro país
Guerra com luzes maquiada
Com brindes comemorada,
Sob o espocar dos fuzis
Mas aqui, sob a pintura,
Resta o quadro verdadeiro
A tarde clara é escura
E é intenso o nevoeiro
Nem a certeza do sol
Que voltará algum dia
Cala essa dor de estar só
Sobre uma terra vazia
Vazia, mas não de homens,
Nem de mulheres vazia,
Carente, mas sim da fome
Da vida amena e sadia
Que entenda meu sentimento
Povo do chão de onde eu vim
Esse infindável lamento
Que cresce dentro de mim
Represa em mar rebentando
Punhal cortando a mordaça
Um afogado respirando
O ar que passa... e não passa!
Da gente que é minha gente
Pois de seu barro fui feito
Nascidos do mesmo ventre
Com igual bondade no jeito
Por isso, povo, não cales
Minha voz saindo da tua
Se vivo em teus mesmos bares
Se ando em tuas mesmas ruas
Qual a trincheira, eu sei bem,
Em que devemos estar
Tu, por povo... e eu também,
Nascidos do mesmo lar
Mas, talvez, por artimanha
De quem bate e esconde a mão
Aquele que hoje apanha
Não saiba ver seu vilão
E, assim, em bandos distintos,
Como seres diferentes
Frente a frente, estamos nós.
E essa é a dor que mais sinto!
Ao ver que há tanto inocente
Apoiando seu próprio algoz
Sobre meu corpo uma pedra
Sobre a alma uma montanha
Em volta, uma estranha guerra
Que em lama e sangue se banha
Há lobos feito cordeiros
E mentiras em mil faces
Mas só um rosto verdadeiro
Por trás de tantos disfarces
Tantas perdas, tantas vidas
Cortadas antes do fim
É como se todas elas
Morressem dentro de mim
Por isso, povo, permita
Meu grito desesperado
Bem mais que pedras me oprimem
Tantos sonhos soterrados
Sobre meu corpo uma pedra
Sobre a alma uma montanha
Quero sorrir e não posso
A dor me alcança e me ganha
Pois mesmo que a luz retorne
E derrote essa escuridão
A inocência quando morre
Não volta a seu mesmo chão
Ainda assim seguir lutando
Mesmo assim seguir em frente
E sempre em nós resistindo
Nossa bondade insistente
Quando as palavras não bastam
Frente à imponência das armas
Quando a truculência é aplaudida
E a arte ao lixo é jogada
Quando a ganância triunfa
E polui as águas e as almas...
Não abdicar da utopia
Não se bandear de trincheira
Não crer que a intolerância
É só mais uma bandeira
Não ver a desigualdade
Como um acaso divino
Nem a carência de tantos
Como obra do destino
Assim juntos venceremos
Mesmo sendo derrotados
Porque os rastros que deixamos
Não podem ser apagados
Mesmo que os outros não saibam
E ocultemos nossa essência
O que somos... nós sabemos!...
Não se engana a consciência
Por isso que essa montanha
Que tanto me oprime agora
Pode até ser cordilheira
Ocultando a real história
Mas bem mais cedo que tarde
Bem mais perto que distante
Irá nascer outro sol
De uma manhã mais radiante
E esse dia que sonhamos
E que virá com certeza
Verá o rio da nação
Vencer mais essa represa
E juntos festejaremos
(Mesmo os que já não estão
Pois tudo que aqui fizemos
Deixa suas marcas no chão)
E já não mais soterrados
Sob tanta hipocrisia
Minha mão na tua mão
Feito quem luta e confia
Gritaremos que a ilusão
Que a nossa ingênua utopia
Não se dobraram à opressão
Que a arte e sua rebeldia
Que a luz de cada canção
Que a força da poesia
Semearam, dia após dia,
O fim dessa escuridão.
Martim César


 

segunda-feira, 15 de março de 2021

Asas, garras e sonhos


 Tinha asas. E pensar que todos nós, caídos do céu, já tivemos asas. 


Tinha asas, não como as de um pássaro precipitado ao precipício,

Resistindo ao vento, irresistível sopro.

Tinha asas, não como as de um anjo, imperfeição perfeita,

Solidão desfeita pela vida eterna.

Tinha asas, não como as que batem fortes, sustentando o corpo,

Imitando as luzes que imitam o tempo.

Tinha asas, não como voluntário apêndice, fantasia crédula,

Poder infinito sob olhar brilhante.


Tinha garras. E pensar que todos nós, única origem, já tivemos garras.

Tinha garras, não como as que sangram presas, necessária luta,

Amoral disputa pela luz do sol.

Tinha garras, não como as que prendem e soltam, liberdade efêmera,

Prisão passageira a caminho, a caminho.

Tinha garras, não como sedução desperta, sussurrar malévolo

Que provoca pânico, convulsões de amor.

Tinha garras, não como defesa lógica, atuar certeiro,

Álibi bendito a esperar momento.


Tinha sonhos. E pensar que todos nós, papéis em branco, já tivemos sonhos. Tinha sonhos, não como delírios súbitos, loucuras secretas,

Obscenas faces ocultas da vida.

Tinha sonhos, não como matéria ampla, fronteiras largas,

Caminho envolto em mantas e pedras (arredondadas).

Tinha sonhos, não despertos ao acaso, prolongada hora

De sabor ardente, de ardor urgente.

Tinha sonhos, não de indecifráveis símbolos, de irrefletida face,

Obscura fonte de mensagens certas.


Tinha asas.

Tinha garras.

Tinha sonhos.

Tinha medo.


E. J. Martins

Nov/99

É verdade?

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Al Mestre Vado

 

MESTRE VADO
Llora tu viejo cachimbo
en notas enronquecidas
sangra por dentro y no entiende
el porqué de tu partida
El pueblo que tantas noches
se deleitó en tu instrumento
tristemente ve apagarse
la estrella de tu talento
Integrarás otro bloco
con sonido celestial
animando para siempre
otro eterno carnaval
Con la humilde sencillez
de un ser humano ejemplar
nos legaste la enseñanza
que el rumbo, se hace al andar
Mestre Vado, Jaguarense
vivirás en la memoria
de la gente, pues no mueren
quienes marcaron la historia

Carolino Correa

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Lo que realmente Cuesta

Joán Miró


Cuesta más que los cambios
Cicatrizar heridas,
Cuesta más que los cambios
Recuperar la confianza;
Cuesta más que los cambios
Borrar y empezar de nuevo
Con una gota de humedad
Y un gramo de esperanza

Cuesta más que los cambios
Alcanzarlos a la práctica,
Hasta que ellos mismos
Sean imaginarios...
Cuesta más que los cambios
Ver luz jamás esperada. 
Que un dia por milagro
Presencia en las ventanas.

Cuesta más que los cambios
Aceptar la inclemencia
Que el tiempo transitorio
Va transformando el orden.
Cuesta más que los cambios
Aceptar que ya viejos,  
El tiempo futuro
Pertenece a los jóvenes.

Cuesta más que los cambios
contar mi vida muerta,
Mucho antes de la fecha
A ocupar mi féretro.
El tiempo cronológico
Nos cambia por segundos
Y el tiempo psicológico
Jamás fue complacido

Jorge de la Lira
Rio Branco, Septiembre de 2007

La vida prohibida que he tenido,
Es la muerte temprana que me han concedido.

(La vida de los seres humanos no se diferencia por su naturaleza;
Sino, por las injusticias sociales) 

Ruego de discreción


No me diga Usted, solo acepto ché, 
Yo soy la conciencia del que empieza otra vez;
El niño que soñó y pedió su identidad,
De donde aprendió todo menos, el educar

No me diga Usted, aún no he madurado, 
El tiempo no me ha dado la esencia del honor;
Yo soy el aprendiz cual me sigo ilustrando,
La razón me ha indicado que está todo al revés.

Debo de reparar mi estructura interior, 
Ser solo el que espera de la luz del sol;
Que en todas las jornadas que pasan por mi vida,
Debo exponer mi estima como un gran pizarrón.

Y que el aula me responda con la experiencia viva,
Con que la biografia dirá quién soy yo;
Y que mañana indaguen los que quieren historia:
Yo soy la misma estirpe que floreció y murió.

El tiempo es transitorio pero tiene sentido:
Todos los seres vivos tienen una realidad,
Qe explica su existencia por todos los motivos,
Que nunca se hace olvido por más que há de callar.

Hay sapatos en tierra que van dejando huellas, 
Por donde el ser humano llegó, vivió y se fué;
Y que luego los arqueólogos rastrean los vestigios, 
De aquellas impresiones que quedan por saber.

¿Todo el  tiempo devora... Todo lo traga el tiempo?
La grandeza aparente es la gran pedanteria,
Maquillaje de arlequin aplaudido en un dia, 
Donde el vicio evapora la lealtad y la decencia.

Así nunca logramos vivir lo que queremos,
Soñar lo que aprendemos de la propria experiencia;
Que el poder del dinero no es el que tememos,
Sino, lo que nos imponen con el pavor al fuego.

No me diga Usted, solo acepto ché,
Porque aún en estos dias con medio siglo encima:
Sigo tratando el mundo con la misma inocencia,
Donde logro entender que cambiarlo me cuesta.

Jorge de la Lira

Rio Branco, abril de 2017.

Inspirado en el libro de Paulo Freire, Pedagogia de la Autonomia
(Nadie es sujeto de la autoridad de nadie)



sábado, 5 de dezembro de 2015

Poema no meio do mundo


Para Enrique Bacci

          Está certo que a vida é uma sucessão
          E que virão os novos
- que já fomos um dia –
Para nos substituir.
É a lei da vida. Imutável em nossa mutação.
Mas não é justo sairmos de cena
Enquanto ainda há aplausos,
Mesmo que sejam esparsos
E de lugares distantes na plateia.

Pois eu te recordo, Enrique,
Com tua voz suave de metálicas sonoridades,
Com tua poesia de infinitos transvias,
Todos partindo de tua enigmática Paso de los Toros,
Cruzando sem passaporte as fronteiras
De países e de espíritos
Todos sedentos de vida e de utopia.

Eu te recordo, Enrique
Amigo de cafés montevideanos
Onde nunca estivemos juntos.
Mas onde, eu sei, sempre estivemos
Conversando sobre a magia das palavras,
Divagando sobre Quixotes e amores felinianos,
Perdidos – eles e nós – no meio do mundo
Em Midland, Enrique... em Midland.

Martim César Gonçalves






quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Poema sobre o empedrado



Gosto da solidão dos meus passos sobre a rua
Dentro da noite...
Nada perturba meus pensamentos nessas horas
Pois minha cidade tem ruas silenciosas
Que ainda não aprenderam a linguagem barulhenta
Das cidades grandes

E se um galo canta ao longe
Eu me rio só
Recordo as buzinas que infernizavam meus ouvidos
E eu me rio só

Não sou um mero passante
Numa noite qualquer

Sou e sempre vou ser
Parte de tudo isto.

Martim César Gonçalves

domingo, 22 de março de 2015

PEDRA SÓ - Poema de José Inácio Vieira de Melo




Às cinco horas da tarde,
no céu da Pedra Só,
um cavalo emerge das nuvens
e uiva para a lua.
Às cinco horas em ponto,
na fazenda Pedra Só,
a lua é o olho do dragão.

E a moça de Jorge de Lima
é enorme, enorme,
e engole a lua
e vai ficando
menor, menor.

Mas continua caindo
num desembesto sem fim
até virar Alice.

E logo ali, um alce.
E logo ali,
o galo de Abraão Batista
numa briga feroz
com o boi do Patativa.

Às cinco em ponto da tarde,
no reino da Pedra Só,
Federico Garcia Lorca
montado num corcel de algodão
crava seu punhal de prata
nos olhos da escuridão.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

PEDRA SÓ - Poema de José Inácio Vieira de Melo, do livro "Pedra Só" (Escrituras Editora, 2012). Recitado por José Inácio Vieira de Melo. Ilustrações de Juraci Dórea. Músicas: JIVM, Uakti, Oliveira de Panelas & Téo Azevedo, Quinteto Armorial, Zabé da Loca. Edição de audio: Vandex. Edição de vídeo: Ricardo Bertol. Direção: Gabriel Gomes e José Inácio Vieira de Melo.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Nautilus


No meu barco-corpo
Anfibiamente
Naveguei o Jaguarão

Ao outro lado do rio
Me percebi
Andar escasso de poesia

Zumbido a estibordo
rasante a bombordo
Sobrevoante à proa

Haverá paraíso sem mutuca?

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Don Quijote- parte IV


IV - La Taberna, la consagración, el encuentro con Dulcinea, el bendito bálsamo de Fierabrás

Em cena: Magda Burch, recita poema, Fernanda C. de Ávila como bailarina, Fernando Petry, don Quijote, Sandro Calvetti, Sancho Panza, Jorge Passos, Posadero, Giovanna Ávila, pícaro viajero, Nedison Souza, viajero risueño, Michely Gualano, viajero silencioso, Cintia Croucillo, Dulcinea

          Poema:   Por amor a Dulcinea

 Nunca hubo un otro amor más verdadero
 Tal vez ni mismo el de la Penelope de Homero
 Siempre esperando Ulises en su eterna Odisea...

 Tampoco Shakespeare, el bardo incomparable
 Ha narrado uno más bello e inquebrantable
 Que el de Don Quijote por su amada Dulcinea.

 Quiza todas las estrellas que comprende el universo
 O acaso el mejor poeta al escribir su mejor verso
 Puedan expresar ese sentir tan venturoso...

 Porque todas las glorias en batallas desiguales...
 Porque todas las vitorias y hazañas imortales
 Se las ofreció a su señora... Dulcinea del Toboso.
                             
                                  ( Martim Cesar)

Numa Produção do Grupo Ala de Cervantes, formados por alunos de Letras da UCPel, Extensão Jaguarão, Don Quijote de La Mancha, El Ingenioso Hidalgo,  de Miguel de Cervantes. Adaptação para o teatro por Jorge Passos e Martim César Gonçalves.
Apresentação no Teatro Sete de Abril , Pelotas, em 13 de julho de 2002.
Guión, textos y diálogos:   Jorge Passos y Martim César

terça-feira, 25 de março de 2014

"Os Estatutos do Homem", indignação do poeta contra o arbítrio, também faz 50 anos

Em 1964, logo depois do golpe, Thiago de Mello renunciou ao posto de adido cultural no Chile. E escreveu o seu poema mais famoso. Prepara-se para lançar o último livro de poemas, com 100 inéditos
Desde que voltou ao Brasil, o poeta decidiu viver na Amazônia, longe de problemas urbanos
por Vitor Nuzzi, da RBA
São Paulo – Thiago de Mello já avisou há tempos: “Não tenho caminho novo./ O que tenho de novo/ é o jeito de caminhar”. O poeta, que completará 88 anos no próximo dia 30, já percorreu muitos caminhos. Agora, prepara o que considera seu último livro de poemas, Ajuste de Contas. O trabalho, com 100 inéditos, deverá ser publicado em até três meses. Outros dois, de prosa, ainda devem vir.
Um ajuste com ele mesmo, explica, em um final de tarde paulistano, sempre de branco, enquanto se preparava para voltar à floresta – desde que voltou ao Brasil, em 1978, mora à beira do rio Andirá, no Amazonas, onde, como conta, gaviões e urubus não costumam deixar chegar a internet. Thiago é filho da floresta. Nasceu na cidade de Barreirinha, a mais de 300 quilômetros de Manaus.
O golpe de 1964 fez com que Thiago renunciasse ao posto de adido cultural no Chile, cargo que ocupava na ocasião. Ele tomou a decisão, segundo conta, em resposta ao Ato Institucional número 1 e por ver a tortura se institucionalizar como método de interrogatório. E essa indignação resultou em seu poema certamente mais conhecido, Os Estatutos do Homem, que também está completando 50 anos.
Quando o golpe aconteceu, Thiago morava em La Chascona, casa de Pablo Neruda, em Santiago. Em 1º de abril de 1964, ouviu pronunciamento de João Goulart (que ainda estava em Brasília) ao lado do poeta chileno e do futuro presidente Salvador Allende. Em entrevista dada em 2009 à revista do Movimento Humanos Direitos, ele narra o diálogo que se seguiu.
Pablo Neruda: Tu pueblo, compañerito, no va a salir a las calles. Eso jamás pasará en Chile. El dia en que los militares intenten levantar la cabeza, hasta las amas de casa saldrán a las calles, con sus escobas, en defensa de la democracia.
Allende: Lo que yo siento es que ese golpe militar en el Brasil va a desencadenar una ola de levantes en países de nuestra América. Y hasta Chile podrá ser alcanzado.
“Fiquei silencioso. Nem preciso falar agora. A história já falou”, comentou Thiago.
Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)

Artigo I 
Fica decretado que agora vale a verdade. 
agora vale a vida, 
e de mãos dadas, 
marcharemos todos pela vida verdadeira. 

Artigo II 
Fica decretado que todos os dias da semana, 
inclusive as terças-feiras mais cinzentas, 
têm direito a converter-se em manhãs de domingo. 

Artigo III 
Fica decretado que, a partir deste instante, 
haverá girassóis em todas as janelas, 
que os girassóis terão direito 
a abrir-se dentro da sombra; 
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, 
abertas para o verde onde cresce a esperança. 

Artigo IV 
Fica decretado que o homem 
não precisará nunca mais 
duvidar do homem. 
Que o homem confiará no homem 
como a palmeira confia no vento, 
como o vento confia no ar, 
como o ar confia no campo azul do céu. 

Parágrafo único: 
O homem, confiará no homem 
como um menino confia em outro menino. 

Artigo V 
Fica decretado que os homens 
estão livres do jugo da mentira. 
Nunca mais será preciso usar 
a couraça do silêncio 
nem a armadura de palavras. 
O homem se sentará à mesa 
com seu olhar limpo 
porque a verdade passará a ser servida 
antes da sobremesa. 

Artigo VI 
Fica estabelecida, durante dez séculos, 
a prática sonhada pelo profeta Isaías, 
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos 
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora. 

Artigo VII 
Por decreto irrevogável fica estabelecido 
o reinado permanente da justiça e da claridade, 
e a alegria será uma bandeira generosa 
para sempre desfraldada na alma do povo. 

Artigo VIII 
Fica decretado que a maior dor 
sempre foi e será sempre 
não poder dar-se amor a quem se ama 
e saber que é a água 
que dá à planta o milagre da flor. 

Artigo IX 
Fica permitido que o pão de cada dia 
tenha no homem o sinal de seu suor. 
Mas que sobretudo tenha 
sempre o quente sabor da ternura. 

Artigo X 
Fica permitido a qualquer pessoa, 
qualquer hora da vida, 
uso do traje branco. 

Artigo XI 
Fica decretado, por definição, 
que o homem é um animal que ama 
e que por isso é belo, 
muito mais belo que a estrela da manhã. 

Artigo XII 
Decreta-se que nada será obrigado 
nem proibido, 
tudo será permitido, 
inclusive brincar com os rinocerontes 
e caminhar pelas tardes 
com uma imensa begônia na lapela. 

Parágrafo único: 
Só uma coisa fica proibida: 
amar sem amor. 

Artigo XIII 
Fica decretado que o dinheiro 
não poderá nunca mais comprar 
o sol das manhãs vindouras. 
Expulso do grande baú do medo, 
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal 
para defender o direito de cantar 
e a festa do dia que chegou. 

Artigo Final 
Fica proibido o uso da palavra liberdade, 
a qual será suprimida dos dicionários 
e do pântano enganoso das bocas. 
A partir deste instante 
a liberdade será algo vivo e transparente 
como um fogo ou um rio, 
e a sua morada será sempre 
o coração do homem.
Fonte: http://www.redebrasilatual.com.br

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Devir

Compor poesia é sobrevivência,
é saber que há um fluxo que grita de dor,
nas linhas duras onde se inscrevem as palavras doces
que permitem que a alma não feneça com a saudade,
as perdas e o tempo que tudo consome.

Ah, linhas duras do meu ser incompreendido!
Ah, desespero de pulsões ardentes que se consomem com o ato do escrito
Que dor sadia que permite o compor de minhas ânsias e o livrar de minhas palavras trancadas!
Quero sempre sobreviver ao fenecimento das palavras que se esvaem de minha mente
Para deleitar, com meus olhos e, já de volta, trazê-las ao deleite de minha alma poética.

Magnum Patron Sória

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Clandestino

Vagou pelo mundo, sem rumo e sem destino,
tendo sempre vivo na lembrança, seu sonho de menino.
Pois quando criança corria livremente em solo pátrio
Eis que de repente assim quis o destino,
Roubaram-lhe o chão e seu sonho de menino.
Quando velho, olha o passado quase em desatino,
Sem entender por que
Em seu próprio lar tornou-de um clandestino.
O que fazer agora se a hora o ponteiro não parou!
O tempo passa, mas o hospedeiro ficou!
Fincou raízes e o lar ser seu jurou!
Disse que o profeta
Nos tempos antigos assim prometeu!
Mas como pode alguém prometer
Algo que nunca foi seu?
E agora o que fazer?
Se o mundo olha e diz:
O problema não é meu!
Mas quando repartiram o chão
Pensando ser seu,
esqueceram daqueles que como ele
tiveram que buscar refúgio em lugares
que jamais poderão chamar de seu.
Said Baja


Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 13/11/2013 


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Calmaria

Fotografia Araquém Alcântara


Vejo as luzes do navio, não sei se é cedo ou tarde, ainda não dormi.

De certo modo tenho ciúme dele, pelo fato de que tem um porto aonde chegar.

Olho pra ele: claridade em meio à escuridão; presença no vazio; imponência na simplicidade; Gigante que rasga o céu de Poseidon, mas que se obriga a ser guiado por um simples rebocador.

Algo me atormenta e não é a tormenta que se anuncia. Os clarões dos raios se confundem com os lampejos de lembranças...

O mar me parece doce, se comparado com o gosto das lágrimas que derramei... na verdade, ainda derramo.

E junto delas vem uma tormenta pior do que as do alto mar... a tempestade que um coração inquieto provoca... e eu, um nau à deriva, tenho ciúmes de um barco, só porque ele tem um porto para lhe fazer abrigo.

Um porto que espera por barcos, por outros barcos talvez... não sei dizer.

Ainda espero que venha a calmaria.

Jorge Araújo Azambuja
(Rio Grande,19/12/2012)

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Rebenqueador

Fotografia Daniel Giannechini

um certo Caboclo DaMatta me disse
que um tal de Simões Lopes Neto
deixou escrito numa nota promissória
que o rebenqueador
“o rebenqueador..., eram os olhos!”

então me pus a pensar
ainda arrepiado
arredio a qualquer chibatada
que se o rebenqueador eram mesmo os olhos
meu amigo Caboclo
a lágrima era a pele marcada.



Daniel Moreira



Clandestino - Gilberto Isquierdo e Said Baja

  Assim como o Said, milhares de palestinos tiveram de deixar seu país buscando refúgio em outros lugares do mundo. Radicado nesta fronteir...