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segunda-feira, 15 de março de 2021

Asas, garras e sonhos


 Tinha asas. E pensar que todos nós, caídos do céu, já tivemos asas. 


Tinha asas, não como as de um pássaro precipitado ao precipício,

Resistindo ao vento, irresistível sopro.

Tinha asas, não como as de um anjo, imperfeição perfeita,

Solidão desfeita pela vida eterna.

Tinha asas, não como as que batem fortes, sustentando o corpo,

Imitando as luzes que imitam o tempo.

Tinha asas, não como voluntário apêndice, fantasia crédula,

Poder infinito sob olhar brilhante.


Tinha garras. E pensar que todos nós, única origem, já tivemos garras.

Tinha garras, não como as que sangram presas, necessária luta,

Amoral disputa pela luz do sol.

Tinha garras, não como as que prendem e soltam, liberdade efêmera,

Prisão passageira a caminho, a caminho.

Tinha garras, não como sedução desperta, sussurrar malévolo

Que provoca pânico, convulsões de amor.

Tinha garras, não como defesa lógica, atuar certeiro,

Álibi bendito a esperar momento.


Tinha sonhos. E pensar que todos nós, papéis em branco, já tivemos sonhos. Tinha sonhos, não como delírios súbitos, loucuras secretas,

Obscenas faces ocultas da vida.

Tinha sonhos, não como matéria ampla, fronteiras largas,

Caminho envolto em mantas e pedras (arredondadas).

Tinha sonhos, não despertos ao acaso, prolongada hora

De sabor ardente, de ardor urgente.

Tinha sonhos, não de indecifráveis símbolos, de irrefletida face,

Obscura fonte de mensagens certas.


Tinha asas.

Tinha garras.

Tinha sonhos.

Tinha medo.


E. J. Martins

Nov/99

É verdade?

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Dia de escalada na Maratona das Areias do Saara


Diante dos 1.017 corredores na segunda etapa do SULTAN 28 MARATONA des Sables, uma jornada que previa uma escalada de dois quilômetros inclinação acima, com uma média de 25 graus.  Um percurso de 30,7 km, enfrentando zona montanhosa, na qual a areia se acumulou durante o ano  impulsionada pelos ventos do deserto. Areia que faz  cada passo mais difícil ainda mais quando sob um sol escaldante . O esforço é brutal, intenso. Mas a recompensa no topo é um panorama de 360 º de toda a região e uma vasta extensão de planície lá embaixo, no vale onde está o acampamento para o descanso. O marroquino Mohamad  Ahansal, o líder da prova cumpridas as duas etapas ,  foi o primeiro em chegar , em menos de três horas. Alguns precisaram de mais de 8 horas para atingir a sua tenda e desfrutar de um descanso necessário antes de sair na terça-feira para a terceira fase que será de 38 km.

Resultados da segunda etapa

HOMENS
·         1. Mohamad Ahansal (MAR), 2h44'35''
·         2. Salameh Al Aqra (JOR) em 4'31''
·         3. Aziz El Akad (MAR) em 5'14''

MULHERES
·         1. Laurence Klein (FRA), 3h44'27''
·         2. Meghan Hicks (EUA), 3'53''
·         3. Joanna Meek (GBR) em 14'25''

O brasileiro Edson Martins ( número 52)  está na posição 679 e completou a segunda etapa em  6H47'58 . Avante companheiro! 

domingo, 7 de abril de 2013

Marroquino lidera Maratona do Saara


Concluída a primeira etapa da Sultan Maratona das Areias do Saara neste domingo, o Marroquino Mohamad Ahansal que já foi vencedor desta prova em quatro edições,   lidera a competição. Ele completou o percurso de 37,2 Km no tempo de 2hr50’56, 4 minutos a frente do Italiano Antonio Filippo Salaris, o segundo colocado.

São 1198 competidores enfrentando 230 kilometros pelas areias do deserto em cinco etapas. O Brasileiro Edson Martins terminou a primeira etapa da Marathon des Sables na colocação 669, com o tempo de 3hr35'43.  


Acompanhe a maratona no site   http://www.marathondessables.com


Instalados no terceiro andar do Edificio Columbia, no extremo meridional do Brasil, a equipe da Confraria dos Poetas de Jaguarão segue de perto a odisseia do único competidor brasileiro, Edson Martins.

sábado, 6 de abril de 2013

Maratona do Saara começa neste domingo, 07. O único brasileiro inscrito faz parte da Confraria


A uns trezentos ou quatrocentos metros da Piramide inclinei-me ,  tomei  um punhado de areia nas mãos e silenciosamente deixei-o cair  um pouco mais longe  e disse  murmurando:   Estou  modificando o Sahara. ( Jorge Luiz Borges)


Neste domingo, 07 de abril de 2013, mais de mil competidores darão inicio à 28ª Sultan Marathon des Sables, Maratona das areias do Saara no Marrocos, norte da África. O Confrade Edson Martins, 48 anos,  único brasileiro inscrito, estará entre eles. E certamente, assim como Borges, estará modificando o Deserto do Saara e sua própria história de vida.

Também podemos encontrar na lista de inscritos, uma única brasileira. É  Analice Fernandes da Silva,  de 69 anos, residente em Portugal.  

Esta maratona é considerada uma das competições mais difíceis da Terra. Num percurso de 230 km, divididos em cinco etapas, a prova submete os corredores a um desgaste inevitável e quase sobre-humano  Dunas, tempestades de areia que podem chegar à velocidade de 100 km por hora,  temperaturas que variam de 50 graus durante o dia aos 5 graus durante a noite são algumas das peripécias que deverão ser enfrentadas. É uma prova planejada para exigir o máximo de cada competidor. todos deverão ainda  carregar nas costas , mochila pesando até 10 kg com todo o equipamento a ser usado durante a corrida, alimentos, roupas e itens de segurança.      

O companheiro Edson vem se preparando bem para esta prova. Esta não é sua primeira competição internacional. Em 2011 participou da Maratona em Atenas e em 2012, Amsterdã.  

O Edson nos mandou uma mensagem que compartimos com os leitores da Confraria:

Pessoal, quem quiser acompanhar a minha aventura no deserto do Saara (Marrocos), na competição chamada Marathon des Sables (talvez alguns de vocês tenha assistido na televisão o episódio de Planeta Extremo, com o repórter Clayton Conservani mostrando a edição de 2012 ), informo a vocês o site correspondente: http://www.darbaroud.com

Lá vocês poderão verificar se eu consegui completar determinada etapa e mesmo por quais postos de controle eu já passei. Lembrando que a competição dura 6 dias, constituída de 5 etapas. Neste ano houve uma mudança e no sétimo dia será realizada apenas  uma espécie de confraternização. Ao todo serão 230 km.

Para acompanhar a minha prova é preciso digitar o meu número de inscrição, aquele que se leva ao peito. É ó número 52.

Vocês podem mandar mensagens de incentivo através do site. Elas são entregues aos competidores nas barracas à noite.  (certamente vou precisar).  

A prova começa dia 07. Até a volta!




terça-feira, 29 de maio de 2012

De Fronte à Juventude

      
A Fonte da Juventude - Cranach, O Velho
Meus quarenta anos se aproximavam com a velocidade de um supersônico, mas o som, ao contrário, vinha à frente, anunciando a chegada da crise; a crise dentro da crise. O chumbo emprestava sua cor ao céu e seu peso a mim naquela tarde. Iludido, imaginando algum poder de influência sobre meu eu em declínio, fiz um poema (1)  que sobreviveu apenas quinze minutos; o malogro em cinzas negras.

No bairro em que eu morava as ruas homenageavam todos os conquistadores da América espanhola; “La Conquista” era o seu nome. A deferência estampada na placa de minha rua nada me dizia de especial, em que pese o nome também remeter-nos ao mundo animal, minha paixão indisfarçada. Dobrando a esquina, ora cabisbaixo, ora levantando a cabeça para respirar fundo, achei curioso que o nome da minha rua estivesse afixado na parede de uma casa em azulejos portugueses. “Ponce de Leon”. “Quem foi Ponce de Leon”?

Livros de história e literatura deram-me a resposta: eu era Ponce de Leon. Academias de ginástica, namoradinhas com metade de minha idade, afrodisíacos, vitaminas; soldados de um exército pretensamente imbatível; guerreiros hunos, mongóis, falange macedônica, mercenários. Tribo cooptada ao sabor do desespero.

Ponce de León, num quadro anónimo do ano 1513.
Após três meses, um a um, na ordem inversa em que contratados, foram dispensados de minhas fileiras. As jovens mulheres, meu primeiro recurso, as deixei por último; o general fora vencido, vitimado pelo fogo amigo. Novamente deprimido, agora sob o peso de um poderoso fracasso, revisitei os livros de história e literatura, com seriedade e sem pudor. Somente algo mágico haveria de me salvar. Em alguma floresta América adentro estava o que eu procurava. Reuni tudo o que eu precisava e parti para uma aventura que duraria dois meses.


Fiquei eufórico quando descobri o grande engano de Ponce de Leon. O segredo o acompanhou por todo o tempo sem que ele percebesse. Às vezes a proximidade do objeto nos embaça a visão e enfraquece o discernimento. Mas eu percebi; sim, eu ouvi quem tinha que ser ouvido; não os matei, não os aniquilei. Valorizei-os, respeitei-os e obtive o que procurava. Os índios da floresta me mostraram a verdadeira fonte da juventude: as ervas da mata.

Não ousei fazer o experimento longe de casa. Em vinte e quatro horas estava recuperado da longa viagem. Outras vinte e quatro horas e o coquetel estava pronto. O único “porém” era o último pio da coruja, momento em que deveria acrescentar o penúltimo ingrediente. Embora vivesse na cidade, havia corujas à noite, mas silenciosas que era o diabo. Quando resolveram se manifestar, o fizeram duas quase ao mesmo tempo. Era uma bobagem pensar nisso. Daria certo. Tinha certeza.

Conforme o ensinado pelos índios, bebi o preparado de um só gole (ao contrário de outras mal-sucedidas receitas que prescreviam provar por três vezes) e fui dormir. Às cinco horas da manhã levantei e senti um mal-estar; diferente do que sentia desde o início da crise, mas familiar. O mal-estar evoluiu para o pânico, suor frio, tremor nas mãos. Ainda assim, familiar. As férias e a licença-prêmio acabaram; o trabalho me esperava após sessenta dias.

Na repartição, meus colegas desejaram-me boas-vindas e quiseram saber das novidades. Como um náufrago que se agarra a um objeto qualquer que flutue e o sustente, preservei minhas energias e pouco falei. Olhava pela janela com insistência, como que estudando um roteiro para fuga.

O primeiro dia de trabalho coincidiu com a reunião mensal, realizada dia cinco de cada mês. Quando todos se dirigiram à sala, peguei minha pasta, desviei o caminho e corri para o elevador.

À noite, em casa, convidei uma ex-namorada para jartarmos e passar a noite juntos. Era uma amiga especial, que às vezes também me procurava. Mas, ao contrário do que supunha, sua presença deixou-me ainda mais inseguro, situação agravada por ser a fuga impossível. Convidei-a para entrar, embaraçado, sem conseguir sustentar o olhar. O calor subia-me ao rosto; faltava-me entre as pernas. Disfarçava o mal-estar mexendo-me muito e levantando-me a toda hora para mostrar-lhe algo.

Decidi apressar nossa ida para o quarto. Lá haveria pouca luz; seria menos observado. Porém, vi-me insensível às carícias e julguei não poder chegar à ereção. Não querendo que ela percebesse minha dificuldade, fui ao banheiro e, sentindo-me menos pressionado, consegui equipar-me.

De volta ao quarto, achei melhor não prolongar as preliminares e fomos direto ao ato em si. Após vários orgasmos dela, eu, banhado de suor, insistia com o corpo, mas vagava em pensamentos, convencido de que o gozo (que não veio) não viria. “Quase matou-me”, diria-me mais tarde. Pedi que parasse de me chamar de “meu garanhão” e ela foi embora feliz, sem se importar com a forma indelicada, seca, com que a ela me dirigi.

O dia seguinte era um sábado. Fui à casa de meu pai, a casa onde passei toda a minha infância, para ajudá-lo a limpar e pôr em ordem o velho porão. Durante o caminho, logo após passado o efeito que o frescor da manhã causa às pessoas, minhas mãos começaram a ficar suadas e a garganta levemente ressecada. No portão, senti-me pequenininho, como que encolhido, com medo de ser visto pelos vizinhos, os mesmos de tantos anos atrás; não sabia se entrava, se me anunciava, se recuava. Meu pai apareceu à janela e mandou-me entrar.

Apertei sua mão sem olhar em seus olhos e fui direto ao porão. Dispensei sua ajuda, mas ele insistiu em supervisionar os trabalhos. Desde criança, quando me dizia “vamos fazer isso, vamos fazer aquilo”, eu já sabia que sua participação se limitaria a dar ordens e fiscalizar. Durante três horas permaneci calado, acuado, temeroso de não estar fazendo o trabalho ao gosto de meu pai. Terminada a tarefa, despedi-me, recusando o convite para jantar. Em casa, exausto, derrotado, amargurado, abri uma garrafa de uísque doze anos, com o que compreendi o que havia acontecido. Definitivamente era preciso procurar ajuda. Liguei para quem achei que nunca mais veria, após aquele último encontro, cinco anos antes: minha ex-terapeuta. No dia e hora marcados, cumprimentei-a e fui logo deitando no divã.

- Sente-se, por favor; não estamos em tratamento. – disse ela com delicadeza.
- Oh, desculpe, a força do hábito. Além disso, receio não poder falar assim, de frente.
- E por quê?
- Bem, – comecei, respirando fundo - vou direto ao assunto. Nossos doze anos de trabalho se perderam, doutora. Voltei a ser o que era antes da terapia. Voltei a ser o jovem que fui.

Edson Júlio Martins

(1) O poema ainda existe na memória de um amigo, para quem recitei por telefone antes de destruí-lo. As fortes emoções por que passei (o leitor poderá atestá-lo) fizeram com que o esquecesse.   

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

UM OUTRO TIPO DE DOR

seres fantásticos de Lautréamont.- Escultura Jorge Añon 


Há, os poetas que cantam o amor
Se soubessem que há outro tipo de dor
Jamais mudariam
Lágrimas, lágrimas, lágrimas
Para todo o sempre amariam

Para quem sente a falta de um perfume
Rogo a Deus que permita
Permaneça a busca
Livrai do pesadelo que, enfim, ofusca
O peito de uma alma aflita

Jamais desista, alma penada
Jamais desvie, animal faminto
Nunca sinta o que eu sinto
Viva o luto, que pra mim é nada


Edson Julio Martins

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Contos da Confraria: O Contrato

Foto Araquém Alcântara

O rio tinha dois quilômetros de largura e estávamos a quinhentos metros de uma das margens. Nadar, eu nadava, mas, quinhentos metros? Era a época das cheias, a correnteza muito forte, troncos enormes e galhos descendo rio abaixo. Em quinze dias, dois troncos chamaram a atenção: dois troncos humanos, inchados e em decomposição. No meu primeiro dia de trabalho, o primeiro. No dia de meu aniversário, o segundo. Junho é mês de cheia na Amazônia, é mês em que troncos descem rio abaixo.

Balsas e dragas eram utilizadas no garimpo do ouro. As balsas eram pequenas embarcações que precisavam ser amarradas umas às outras a fim de viabilizar o trabalho. Onde o metal era abundante, formava-se uma verdadeira cidade flutuante. Entre ela e o rio estabeleciam-se fluxos incessantes de dejetos e ouro. Vez por outra, sangue subia no lugar de ouro, sangue de mergulhador. Na cidade flutuante, a divisão do resultado de árduo trabalho freqüentemente fazia inverter o sentido do fluxo de sangue.

As dragas eram autônomas. Nada de mergulhadores, nada de cidades flutuantes. Eram dotadas de um mecanismo hidráulico que substituía os mergulhadores na coleta de material no fundo do rio. Presas em uma das extremidades por uma âncora e em constante contato com o solo na outra, através de um robusto cano de ferro que sugava o material, as dragas descreviam um movimento pendular que não admitia qualquer tipo de vizinhança.

Éramos três os operadores da draga. Raimundo e Silvério, cunhados, nativos da região, acostumados aos galhos e troncos rio abaixo, deparavam-se agora com uma novidade. Tradicionalmente os operadores sempre foram da região, mas por uma mudança na política de administração do negócio, os proprietários resolveram introduzir alguém de fora, alguém do sul, como eles.

Para a dupla eu era “brabo” na operação da draga e eles eram “mansos”. Não gostavam muito de conversar comigo. Em meu primeiro dia e em meu aniversário o sorriso dos dois me impressionou a ponto de perder o sono por duas noites. Somadas, quatro. Quatro horas para cada um na operação da draga, lado a lado com um motor de caminhão Mercedes ou Scania, não lembro bem. No auge do calor amazônico, acrescido da temperatura do motor, tive momentos de profunda angústia. Voltar para casa era impossível; havia o contrato, mas o que mais determinava a minha presença naquele lugar era o poder dos sorrisos. 

Dormíamos em um triliche apertado em um quartinho pouco maior do que as camas. A minha era a última. Logo abaixo de mim, Raimundo. Raimundo e Silvério costumavam interromper a conversa que mantinham quando eu me aproximava. Guardavam prolongado silêncio até que eu me afastasse. Comecei a fumar. Os cigarros me deixavam tonto, de início, mas, com o passar dos dias, tonto eu ficava sem eles.

Vivíamos uma temporada fraca no garimpo. A cada três ou quatro dias de trabalho promovíamos uma “despescada”. Depois de horas batendo os carpetes ao chão, de onde ouro, terra e outras impurezas eram retirados, utilizávamos o azougue para agrupar o metal precioso. Bastava queimar em um cadinho aquela bola cor de prata por alguns minutos e tínhamos em mãos cerca de duzentos gramas de ouro. Era pouco. Em temporadas passadas, contavam, era comum despescadas de quatrocentos, seiscentos gramas. A cada operador cabia cinco por cento do resultado. 

Em meados de julho eu continuava “brabo” e eles “mansos”. No entanto, sentia que minhas habilidades no manejo de alavancas, cabos, brocas, melhorara, minha confiança aumentava a cada dia. Mas cometi um erro. Ao içar o cano para retirar algumas pedras que obstruíam a passagem de material, não percebi – era noite – que o cano já encostara em uma das longarinas que davam sustentação à embarcação. O estrondo foi medonho, a draga inclinou-se rapidamente. Uma mão nervosa, mas decidida, surgiu de repente a minha frente e manejou com habilidade as alavancas, cessando o movimento do cano. O silêncio que se seguiu me era insuportável. Ficaríamos dias parados por conta dos reparos a serem feitos. 

Naquela noite resolvi não dormir no quarto. Uma rede ficava estendida estrategicamente à frente da porta de acesso ao quarto e ali permaneci insone, fumando. Após trinta minutos ouvi um barulho, barulho de gente pulando do segundo andar do triliche. Imediatamente ergui-me na rede, assumindo a posição de sentado. Meu coração parecia denunciar minha presença na escuridão. Ao pensar nisso, joguei o cigarro no rio. Raimundo saiu do quarto com um facão em punho, dirigindo-se a mim, e , três passos após, dobrou à esquerda velozmente, agachou-se e abriu o baú das ferramentas. Não pude ver o objeto que pegara, mas vi que não largara o facão. Entrou no quarto e reinou o silêncio.

Na manhã seguinte, sem se importar com a minha presença, Raimundo contava a Silvério que tivera um pesadelo. Ao acordar, assustado, utilizando-se do facão e de uma chave de boca número quarenta, armou uma cruz em baixo das camas e dormiu profundamente. Sobre as águas de um rio na Amazônia sentei aliviado à beira da embarcação e mergulhei meus pés nas águas turvas. Relaxei. Estiquei o olhar e apreciei a revoada dos pássaros. Ao fundo, percebi algo diferente, cinco pontos no horizonte. Após alguns minutos, os pontos foram ganhando nitidez, forma, movimento. Cinco dragas vinham em nossa direção. Fumei meu último cigarro. 


Edson Júlio Martins

Draga utilizada para o garimpo de ouro clandestino, no Rio Bóia.
 Foto: Dida Sampaio/A
E

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Poema de um ser desajustado para outro


Sim, sou culpado pela tua dor.
Reconheço que tuas lágrimas são meu tributo.
Entrego-me; confesso.

Sou peso de uma cruz
Que se carrega injustamente.
Estou preso aos teus pés,
Frustrando teus vôos mais e mais altos.

De tua boca, pouco se sorri;
De teus olhos, muito se navega.
Tu, com certeza, serias feliz
Se tivesses, infeliz, um outro alguém.

No entanto, não quiseste;
Ficaste comigo.

Mas,
Se aguardo pacientemente tua confissão,
Embora com a minha se pareça,
É porque desejo espaço à tua coragem
E que tua infelicidade
Não me esqueça!

Edson Júlio Martins

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O mar é meu





Dentro de uma lógica subterrânea, onde tudo é visto de forma obtusa, inclinada, mas não às avessas, percebo que o mar naufraga. Com um risco calculado, de errar o tamanho do mar ou do ocaso, submeto à avaliação de mim mesmo o fim de um ciclo. Mare Nostrum qual, o mar era meu.

Muitos não voltaram. Descanso meu corpo na areia, desde que o tempo pare por algum tempo. Recupero as forças perdidas.

Qual sentido tomarão, não sei dizer. Numa ilha deserta nem sempre caminhamos para o lado do mar.

Edson Martins

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Cães, gatos e tigres asiáticos

Arte: G. Steps



Naquela manhã de inverno intenso, os cães se aproximavam como gelo que se quebra, movimentos trincados ao sabor da névoa espessa. De cada caverna urbana o vazio se fazia com a revoada dos cães de rua; a rua magnética suprimia o aconchego da má noite.

Eu procurava mover-me pouco, para não espantá-los, o espetáculo e a preguiça. A cada três minutos um bocejo sonoro, ar quente devorado na manhã faminta, de calor, de som, de imagens, sobretudo de movimentos.

Estivesse à procura de paisagem para pincelar, mudaria apenas o bonito e moderno prédio da esquina próxima, com seus vidros inflacionados e desenho a la Tigre-Asiático-montado-no-dinheiro. Suprimiria o prédio e incluiria uma sapataria, um salão de beleza e um bolicho seria demais, seria demais.

Há mais ainda o cão de raça desafortunadamente à janela, janela bonita, mas de raça o cão; também mudaria, por um gato, ainda que de raça, pois mesmo puros os gatos são impuros, e apropriados para aquela manhã de inverno intenso. Quem sabe um gato à janela não assustaria os ratos que, ingressando no quadro, seriam bem vindos, mesmo que espantados, corridos, que para isso é que existem.

Mas a manhã se vai, a neblina se vai, os personagens se vão, o olhar do sol se apura e depura, eu sofro mais a cada instante, sou varrido da calçada por quem de direito, meu olhar perde a sensibilidade que o olhar sem sensibilidade não sentia. Levanto e sigo a passos arrastados na direção do poente, lugar que nos aguarda, a mim e meu olhar.

Edson Júlio Martins

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Intuição

Claude Monet - Canal em Amsterdam - 1874


Já repararam que na palavra prostituição, acrescentando a letra “n”, estará contida a palavra intuição? Há muito tempo ouvi uma estória e dela me lembrava ontem à noite. Daí surgiu a observação que faço, em atenção a uma mania que trago desde criança: perceber as relações entre os fatos da vida.

A zona de meretrício localizava-se próxima ao centro da cidade, num bairro que há muito não sentia o cheiro de tinta fresca. Os quintais das casas e o passeio público rivalizavam na sujeira; era um acordo tácito entre o público e o privado. Ali viviam trabalhadores de baixa renda, alguns desocupados e mulheres que optaram por morar próximo ao local onde ganhavam a vida.


Morava e trabalhava ali uma jovem de vinte e dois anos, que aqui tratarei por N. (acho que foi essa letra inicial que desencadeou o resultado das reflexões de ontem à noite). Tinha mãe ainda viva e jovem, mas ignorava o paradeiro do pai. À insistência da filha em querer conhecê-lo, a mãe reagia com impaciência e, decidida, não tocava no assunto. Fizera apenas duas concessões naqueles anos todos, revelando o nome e as circunstâncias do abandono.


Os sentimentos da mãe também foram revelados juntamente com aquele nome. Era cristalino para N. que a mãe ainda o amava, pois, se lhe revelava o nome, apesar de não admitir maiores conversações a respeito, é porque nominava um sentimento; se preservamos o nome, é porque o objeto, de alguma forma, está a salvo.


Mas a filha sabia mais sobre o pai do que supunha sua mãe. Nunca o vira, nem lhe seguira os passos, mas conseguira uma informação, absolutamente significativa, fruto do mais puro acaso. Pelos sentimentos da mãe e pela importância da informação, jamais revelou o segredo.


N. recebia seus clientes em sua própria casa, visto que não morava com a mãe havia cinco anos. Amava flores e plantas e tinha verdadeira paixão por pintura. O jardim da casa era bem cuidado; seu maior orgulho era uma orquídea que ganhara de um cliente. A partir de reproduções baratas de obras famosas da pintura universal, mantinha espalhados pela casa Picassos, Gauguins, Portinaris e seu autor favorito, Claude Monet. O gosto pela arte, de onde ele vinha, fantasiara que herdara do pai. A verdade é que, quando pequena, ainda freqüentando a escola de uma pequena cidade do interior, participara de uma excursão à capital em visita a uma exposição. O deslumbramento por ver aquela metrópole pela primeira vez fora suplantado pelo esplendor das cores, sombras e luzes.


O que de fato nos interessa ocorreu numa noite de terça-feira. Um homem, que nunca vira, bateu à sua porta em busca de seus serviços. Logo que entrou, causou-lhe uma pequena inquietação que foi aumentando, conforme conversavam e bebericavam antes de irem para o quarto. Ele tinha pouco mais de quarenta anos, estatura acima da média, porte atlético, como se diz. A voz macia e serena, seus gestos delicados, causavam em N. a impressão de aquele era um homem bondoso. Mas era triste aquele homem. Quando N. falava, seu olhar era distante, como se estivesse preocupado; como se fosse preocupado. Carregava um peso consigo, disso não havia dúvida. Freqüentemente olhava para o chão, embora não fosse tímido.


N. não conseguiria ir com ele para o quarto; o melhor a fazer era dispensá-lo, sair e tomar um pouco de ar fresco em alguma rua à beira do cais. Pretextou uma forte dor de cabeça e problemas de pressão baixa e pediu-lhe que viesse outro dia. Em outras circunstâncias, não teria agido assim; os homens costumam ser violentos quando lhe negam o prazer uma prostituta. Mas aquele não; aquele homem seguramente seria compreensivo com ela, como de fato foi.


O gosto pela pintura a levava freqüentemente ao Museu de Arte Moderna no centro da cidade. Nas tardes de sábado gostava de freqüentar galerias, ateliês e esperava ansiosamente por uma nova exposição no museu. Naquele sábado, a tarde seria toda dela. Nenhum dos clientes casados, que não podiam procurá-la à noite, agendou encontro. Vestida com sua melhor roupa, foi ao encontro das obras de artistas hispano-americanos, com destaque para os mexicanos.


Gostava de assinar o livro de presenças; era um ato de comunhão, dizia ela à mãe. Na pequena fila que se formou diante do livro uma visão inesperada quase a fez desistir. O homem daquela terça-feira aguardava a vez imediatamente antes dela. Quando ele assinou e virou-se lateralmente para dirigir-se à porta de saída, ela inclinou o rosto para baixo para não ser reconhecida. Com mãos levemente trêmulas assinou o livro e leu o nome que estava logo acima do seu. A forte emoção tomou-lhe conta do corpo, que caiu ao chão; depois da explosão, a implosão. Quando voltou a si, aceitou um copo d’água que lhe ofereciam, disse que estava bem e que já poderia ir. Saiu e sentou-se em um banco na praça em frente ao museu. Após quinze minutos contemplando os pombos que por ali mendigavam, dirigiu-se à igreja, a dois quarteirões dali.


Em lágrimas, pediu a Deus que perdoasse e protegesse aquele homem e agradeceu por não ter levado para o quarto o assassino de seu pai.




Edson Martins

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Poema Sem Fim

Arte J. Passos

Para quem morreu, enterro
Pra quem nasceu, palmada
Pra quem não escuta, um berro
Pra quem berrou, mamada

Para os amigos, tudo
Pros inimigos, lei
Pra quem não sabe, estudo
Pro sabe-tudo, não sei

Pra quem tem fome, pão
Pra quem é triste, circo
Pra quem precisa, religião
Pro olho-grande, cisco  (Jorge Missaggia)

Para o arco-íris, íris
Para o pincel, tela
Para meu ódio, bílis
para meu amor, donzela  (Edson Martins)

Ao barnabé, carimbo
Pra quem arrisca, sorte
Para a alma perdida, limbo
Pros que navegam , norte  (Jorge Passos)

Para quem parte, adeus
Para quem fica, saudade
Para dor, doses de amor
e um pouco de mertiolate (Maria Fernanda Passos)

Para um bom santo, trago
Para um amor eterno, paixão
Para o universo vazio, vago
Para a lira da vida, canção (Alessandro Gonçalves)

Para o pato, lógico
Para quem ama, dor
Para o psico, pata
Para quem beija, flor
Para quem vaga, lume
Para quem lê, gume...
(Se for com faca, dois!)
E para Cervantes...ceva
Antes, durante, depois... ( Martim César)




Para o laico, certeza
Para a certeza, ilusão,
Para o religioso, fé,
Para o pecado, perdão. (Fábio Oliveira)

Aos astronautas, chão,
Para uma serenata, lua.
Aos poetas de plantão,
Para a boemia, rua.  (Daniel Moreira)




Para o auto, móvel
Para o guarda, chuva
Para a grama, lama
Para os pingos, olhos
Para quem está longe,
Um beijo de perto!

Para falta de lua, sol.
Para o perdão, reza.
Para a ave, Maria.
Para o Império, nobres.  (Analva Passos)
     
Pra quem chora, lenços
Pra quem ama, lençóis
Pra quem tira, manchas
Pra quem guarda, sóis   (Silvio)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

UM OUTRO TIPO DE DOR


Há, os poetas que cantam o amor

Se soubessem que há outro tipo de dor

Jamais mudariam

Lágrimas, lágrimas, lágrimas

Para todo o sempre amariam


Para quem sente a falta de um perfume

Rogo a Deus que permita

Permaneça a busca

Livrai do pesadelo que, enfim, ofusca

O peito de uma alma aflita


Jamais desista, alma penada

Jamais desvie, animal faminto

Nunca sinta o que eu sinto

Viva o luto, que pra mim é nada.


Edson Martins (março de 2003)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Mar enclausurado

Foto J. Passos




Trezentas ondas circularam minha casa

Vindas de abundante costa brasileira

Baías acima, enseadas desenhadas

Retilínea reta, abaixo transpassada


Trezentas ondas velejaram minha casa

Transatlântico quase nunca naufragado

Contidos continentes que ignoram nua África


Dezesseis anos ignoraste minhas ondas

Te perdoo pelo voo retardado

Me perdoa pelo mar enclausurado


Edson Martins


Clandestino - Gilberto Isquierdo e Said Baja

  Assim como o Said, milhares de palestinos tiveram de deixar seu país buscando refúgio em outros lugares do mundo. Radicado nesta fronteir...