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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Xarope Infalível


Estava eu a pesquisar nos arquivos da Biblioteca Nacional algo sobre os acontecimentos de 27 de janeiro de 1865 em jornais da época quando me deparei com uma joia no Jornal A Constituição no mesmo ano de 1865 . O anúncio do famoso Xarope Vegetal de Penedo, de cura infalível para as moléstias do peito. O Dr João Augusto Penedo apresenta os títulos de professor de Chymica e Pharmacia pela Faculdade de Montevideo e aprovado pela imperial academia do Rio de Janeiro e cavaleiro da imperial ordem da Rosa. Alerta o doutor Penedo que cada vidro do xarope é acompanhado de um folheto assinado pelo punho do autor, e bem assim na advertência que se acha em uma das faces do vidro se encontra a sua rubrica; além disso cada caixa de 12 vidros conterá um atestado por ele assinado, selado e reconhecido por tabelião. Os vidros que não forem acompanhados destes requisitos são falsos.

Esclarece o João Penedo, que estando uma pessoa de sua família muito enferma de afecção pulmonar e tendo já, perdidas as esperanças, seguiu conselho de um amigo que lhe indicou algumas plantas utilizadas pelos jesuítas que fariam bem aos pulmões. Delas fez um xarope que teve um resultado assombroso. “ Basta dizer-lhes que a doente, que fora reputada perdida e no período mais longo da enfermidade, meses depois se achava nutrida, com boa cor e robusta, deduzindo desta cura que o medicamento tinha feito cicatrizar os tubérculos que já dilaceravam os pulmões”. Resolveu então o Sr Penedo comercializar o produto.

E onde entra Jaguarão nesta história? Ora, no reclame, Penedo publica depoimentos de médicos e de várias pessoas que utilizaram com exito seu Xarope e aqui reproduzo o atestado de dois jaguarenses.

Atesto que padecendo minha mulher de uma afecção pulmonar bastante antiga acompanhada de impertinente tosse e dor no peito, sem que se colhesse resultado algum dos mais judiciosos medicamentos a que foi submetida, me deliberei aplicar-lhe o medicamento que se denomina XAROPE VEGETAL DE PENEDO, com o qual obteve uma cura radical, visto que tendo decorrido bastante tempo desde que isso sucedeu, jamais lhe repetiu tal incomodo: o que atesto é verdade – cidade de Jaguarão , 20 de julho de 1860 – Querubim Furtado

Agora quem depõe sobre as maravilhas da infusão é Manoel Furtado Pacheco, em Jaguarão, na data de 01 de agosto de 1960: atesto que minha mulher foi atacada de uma perigosa enfermidade do peito acompanhada de insuportável tosse: e conquanto sua idade poucas esperanças desse, por ser uma senhora de 78 anos, tive contudo o prazer de a ver completamente restabelecida com o uso do Xarope vegetal de Penedo. Todo referido é verdade, por isso de bom grado passo o presente.

Jornal ligado ao Partido Conservador apoiando a autoridade do Imperador Pedro II, A Constituição foi fundado num momento de prosperidade e efervescência política e intelectual em Fortaleza, decorrente, sobretudo, da riqueza gerada pela alta das exportações nacionais de algodão, o mais importante produto da economia do Ceará.

Sobre os acontecimentos das guerrilhas entre blancos e colorados que deram origem à escaramuça dos blancos em Jaguarão há interessantes aportes em A Constituição. De toda forma, vê-se que região estava muito conturbada e a Guerra do Paraguai viria logo a seguir como consequência dos conflitos no Rio da Prata.

Jorge Passos

Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 21/01/2014




sábado, 17 de novembro de 2012

HEROICIDADES E HONRAS INCERTAS

Por Carlos Rizzon

Capitanes de la Defensa de Paysandú, hermanos Pedro, Maximo y Rafael Rivero, 
capitanes Lidoro Sierra y Garcia. Diciembre de 1864.  
            Na década de 60 do século XIX, às vésperas da Guerra do Paraguai, distúrbios políticos internos no Uruguai provocaram enfrentamentos bélicos que envolveram brasileiros no cerco da cidade uruguaia de Paysandu e, em contrapartida, a invasão da cidade brasileira de Jaguarão por parte de uruguaios. Por suas resistências, ambas cidades passaram a ostentar títulos de cidades heroicas. As glorificações dessas heroicidades permanecem ainda hoje no orgulho dos seus cidadãos, no entanto, de um modo quase total, não se sabe mais as causas que motivaram as guerras entre as nações vizinhas. Atualmente, a rua principal de Jaguarão, por exemplo, tem o nome de “27 de janeiro”. O dia é 27. O mês é janeiro. Mas se refere a qual ano? Fazendo-se essa pergunta às pessoas na cidade, raras são os que respondem “1865”. Isso reflete que o que sobrevive não é o conjunto daquilo que existiu no passado, mas uma escolha de parcialidades. A história contada hoje nas ruas de Jaguarão rejubila-se em falar que sua população se defendeu e “correu os castelhanos” a “pelegaços” e água quente. No outro lado do rio que demarca a divisa entre o Brasil e o Uruguai, livros de história apresentam outra versão sobre o mesmo episódio, enfocando que uma força brasileira de mais de 500 homens foi derrotada, deixando em poder dos blancos uruguaios armas e cavalhadas e um estandarte imperial. Dizem também que, após sitiarem a cidade, retiraram-se por falta de armamento.

Os acontecimentos do final de 1864, na cidade uruguaia de Paysandu, e de janeiro de 1865, em Jaguarão, estão diretamente relacionados. No ano de 1864, o caudilho uruguaio do partido colorado Venancio Flores sitia com seu exército a cidade de Paysandu. O caudilho contou com o apoio do presidente da Argentina, o general Bartolomé Mitre, e com a cumplicidade do Império brasileiro, comprometido com interesses de brasileiros que viviam nos campos uruguaios e que estavam ameaçados de expulsão do Uruguai pelo governo dos blancos. Dessa forma, Venancio Flores pôde reunir ao seu lado 16.000 homens dos exércitos de três nações para enfrentar cerca de 700 homens que defendiam aquela cidade. A historiografia tradicional uruguaia costuma colocar o cerco de Paysandu no plano da disputa entre blancos e colorados, minimizando o componente dos interesses estrangeiros. No entanto, para a historiografia tradicional brasileira, o mesmo acontecimento faz parte do preâmbulo da Guerra do Paraguai, o que justifica a intervenção do Império no território uruguaio. Se as interpretações políticas avaliam o episódio em uma ou outra conjuntura, o certo é que o fato representou consequências em quaisquer dos contextos. O sítio a Paysandu durou de 2 dezembro de 1864 a 2 de janeiro do ano seguinte, até a cidade ser tomada pelos colorados que, depois, seguiram com seus aliados rumo a Montevidéu para ocupar o poder. Procurando forçar os brasileiros a recuarem para defender suas fronteiras, os blancos do norte do Uruguai atacaram Jaguarão. Sem alcançar seus objetivos, retiraram-se no dia seguinte, o famoso 27 de janeiro, dia em que a população civil de Jaguarão expulsou os “castelhanos”.


Diário do Rio de Janeiro, edição do dia 11 de fevereiro de 1865, publica carta do correspondente em Pelotas
 sobre os  acontecimentos em Jaguarão - fonte Biblioteca Nacional

A divergência dos discursos entre vencedores e vencidos sobre um mesmo fato do passado é explicada pelo pensador francês Paul Ricoeur, que fala da ficcionalização da história e da historicização da ficção através de um entrecruzamento de narrativas históricas e literárias. Enredando a invenção com os acontecimentos ocorridos nas duas cidades, os escritores Aldyr Garcia Schlee, brasileiro, e Mario Delgado Aparaín, uruguaio, rememoram os fatos para potencializar questionamentos e desmistificar glórias que recobrem o imaginário popular. Em No robarás las botas de los muertos, Delgado Aparaín dá identidade a personagens anônimos que participaram na defesa de Paysandu. Sua obra dialoga com La defensa de Paysandú, texto testemunhal do soldado Orlando Ribero, que é apontado como uma das melhores fontes sobre os acontecimentos do final de 1864 no Uruguai. No entanto, Ribero, ao mesmo tempo em que não esquece de enaltecer seus líderes e de se colocar como protagonista em muitas ações, deixa no anonimato seus companheiros, dando-lhes papel coadjuvante. No romance de Delgado Aparaín, por sua vez, uma personagem apenas mencionada por Ribero como um voluntário espanhol é nomeada e tem história: trata-se de Martín Zamora, que teria se incorporado na defesa da cidade não por um ideal, mas para salvar sua própria pele, uma vez que estaria condenado a fuzilamento por contrabando no momento em que Paysandu é sitiada por exércitos dos uruguaios colorados, do Brasil e da Argentina.

Inversamente, sem pegar em armas, mas igualmente sem reconhecer apego à nação, a personagem don Sejanes, que dá nome a um conto de Aldyr Garcia Schlee, não se envolve na defesa de Jaguarão quando atacada pelos blancos uruguaios. Para ele, nascido na vizinha Melo, no lado uruguaio, e batizado na paróquia de Jaguarão, não existiam motivos para o enfrentamento entre brasileiros e uruguaios. Don Sejanes sequer reconhecia essa divisão, pois tinha consciência que ele mesmo era fruto de uma diversidade de povos: “sabia que era um pouco índio e espanhol e português, mas que era mais oriental e brasileiro, se tivesse que ser algo além de ser gaúcho como queria e gostava”, descreve o narrador. Vivendo no trânsito de um a outro lado do rio Jaguarão, don Sejanes não reconhece a separação estabelecida por aqueles que se julgam donos das terras. Assim, não vê motivos para defender um território que, no seu entender, não pertencia a ninguém e que deveria ser compartilhado entre os que nele vivessem.

Apresentando considerações mais amplas, o romance No robarás las botas de los muertos e o conto “Don Sejanes” desestabilizam os motivos que sustentam o orgulho afirmado em Paysandu e em Jaguarão. Na obra do autor uruguaio, denuncia-se a formação de uma aliança entre os colorados uruguaios, a Argentina e o Império brasileiro para derrubar um governo constituído legalmente. Contrariamente à glorificação de personagens famosas que lutaram na defesa da cidade que textos canônicos, históricos ou literários, manifestam, Delgado Aparaín oferece uma trama que envolve espaços que vão para além do território uruguaio, onde os combatentes, com a defesa da cidade sitiada, estavam resistindo à destruição de valores universais. O conto de Schlee também não se restringe a um único fato histórico e, retratando a invasão uruguaia à Jaguarão, coloca vários outros questionamentos em pauta, desmistificando a bravura da defesa da cidade. Tomados isoladamente, os acontecimentos em Paysandu e em Jaguarão reforçam a construção de glórias e heroicidades. Elevadas a “cidades heroicas”, constituem versões únicas dos fatos, não considerando as diferenças e a diversidade da complexa conjuntura das nações no século XIX. Existem razões para valorizar Jaguarão como heroica se habitantes seus constituíam o exército brasileiro que, covardemente, sitiou e atacou Paysandu? Existem razões para considerar Paysandu heroica se seus correligionários atacaram covardemente a população de Jaguarão?


Carlos Rizzon
Professor  do Curso de Letras da Unipampa - Jaguarão 


Texto publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia 07/11/2012

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Acervo histórico preservado


Foto: Gesner Vaz

Uma das importantes ações da Unipampa, Campus Jaguarão, é o  Projeto de extensão Catalogação e Digitalização de Documentação Histórica que têm por objetivo geral a catalogação e digitalização do acervo de periódicos, livros de atas da Intendência e Câmara de vereadores da cidade de Jaguarão, datadas do século XIX que estão armazenados no Instituto Histórico e Geográfico , as quais são fontes de pesquisa sobre a memória da comunidade e estão em precário estado de conservação, sendo através da digitalização preservados e disponibilizados na forma de mídias como CD, DVD e página na internet. O Projeto é composto por uma equipe multidisciplinar de áreas do conhecimento como informática, história, biblioteconomia, letras e produção cultural.

A propósito de acervo digitalizado, a Biblioteca Digital Nacional disponibiliza para consulta no seu site na internet, http://memoria.bn.br,  riquíssimo acervo de jornais do século XIX, já extintos. Sabemos da importância que isto tem para a pesquisa, ainda mais com os Cursos de História, Letras e Produção Cultural presentes na Unipampa. Por curiosidade, consultei um das centenas de periódicos disponíveis. Escolhi o Annuario da Provincia do Rio Grande do Sul - 1885 a 1891 – sobre as ocorrências com a palavra Jaguarão. Os resultados são muito interessantes.

Em 1885 , informa o Annuario, em Notas sobre a Imprensa do Rio Grande do Sul, havia em Jaguarão quatro Diários.  A Ordem (órgão do Partido Liberal) , O Tempo (conservador) , A Tribuna, A Grinalda ( de cunho literário).  No mesmo ano, para viagens, anunciava-se que aos domingos, o vapor Mirim saia de Rio Grande para Jaguarão com escalas em Pelotas e Santa Izabel, retornando nas quartas -feiras. Aqui em Jaguarão o passageiro poderia utilizar a diligencia agenciada pelo Hotel Frances com destino a Montevidéu ou se pretendesse ir a Bagé, no dia seguinte à chegada do vapor, a empresa Progresso de Diligencias, o levaria em um dia e meio, se primavera ou verão, e em tempo incerto de percurso caso fosse temporada de outono-inverno.

Para expedir um telegrama no Estado do Rio Grande do Sul para os principais países da Europa e América do Norte, por Jaguarão, através do Telegrapho Oriental e Via Galveston, o preço já vinha com o custo do telegrama do Telegrapho Nacional a Jaguarão, de 400 réis.

O Annuario também contém problemas de xadrez, charadas , poemas, crônicas, estatísticas, quadro de arrecadação de impostos do estado, uma visão geral da época. Ernesto Machado, poeta jaguarense, para nós desconhecido, tem três belos sonetos publicados na edição de 1891. Escolhemos um deles:

Sinhá     

Da janella da alcova alcatifada
Ao lado d’um esplendido jardim,
Vem a brisa travessa e perfumada
Da essência peregrina do jasmim.

Corre, voa, perscruta vivamente
Esse ninho de fada embalsamado;
Sobe e desce, brincando doudamente...
Abre e cerra o discreto cortinado! ...

Dorme agitada em sonhos deslumbrantes,
De fórmas quasi nuas, palpitantes,
Mimo de Deus, a divinal sinhá!

Junto à janella, doudo, extasiado,
Canta, canta sorrindo, extenuado,
No leque da palmeira – um sabiá!

(Ernesto Machado)

Faça uma viagem por esse acervo da Biblioteca Nacional enquanto aguardamos a digitalização dos jornais de Jaguarão! 

Jorge Passos

Texto publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia 12/09/2012

Clandestino - Gilberto Isquierdo e Said Baja

  Assim como o Said, milhares de palestinos tiveram de deixar seu país buscando refúgio em outros lugares do mundo. Radicado nesta fronteir...