terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Náufragos Urbanos - Deve ser o rio. Só pode

Na Coluna Magis, publicada no Diário Popular nesta segunda-feira, 21 de dezembro, ,  o jornalista Pablo Rodrigues dedica o espaço ao espetáculo Náufragos urbanos, no Teatro Esperança.

Em Jaguarão, todos são devedores do rio. Por lá, quem não conhece o rio, desconhece o homem. O rio - a travessia - o homem. Em Jaguarão, a poesia de Martim César é hoje rosiana e reveladora canoa: “rio abaixo, rio a fora, rio a dentro”. Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça: Náufragos urbanos - Cartas de marear, de Martim César, Ro Bjerk e Ricardo Fragoso. Poesia pura, em canções.
O leitor duvida, crê que exagero? Veja um breve trecho do samba Faca de ponta (Carta 2):
“Às vezes o mundo nos pega de ponta
Nos leva por conta sem nos consultar
E somos tão frágeis pra vencer a corrente
Que nos leva, inclemente, pros perigos do mar
Mas nem por isso, amigo, eu descreio do mundo
Pois já sei, lá no fundo, que viver é lutar
Para aqueles que querem que eu lamente os espinhos
Planto flor nos caminhos e convido a sonhar”

No recital de apresentação de Náufragos urbanos, na última sexta-feira à noite, o público do Teatro Esperança viu-se remoçado. E - “A vida nos pede bem mais!” - despertou, como quem de repente se lembrasse que, postas à parte todas as míseras tristezas cotidianas, teve, tem e sempre terá vocação à alegria. E à beleza. Porque há, sim, o direito à alegria. E à beleza. Sei que não falo só por mim. Definitivamente, não falo só por mim. Falo por quem nem sei. Tanta gente à minha volta.
Tudo em Náufragos urbanos é talento e delicadeza. Em Casa vazia (Carta 4), canção digna de um Lupicínio Rodrigues, o diálogo entre a voz de Ro Bjerk e a flauta de Gil Soares encanta, abre portas e escancara janelas: leva o ouvinte, não sem doçura, à casa da melancolia. Herdeiro de Neruda, Martim César é capaz de falar - com igual engenho - sobre lutas e amores. Ouso dizer que, atualmente, na poesia do Rio Grande do Sul, não há quem dele se aproxime, tamanha versatilidade em compor.
As parcerias do álbum são todas acertadíssimas. O time de músicos foi escolhido a dedo. Além dos excelentes Ricardo Fragoso (que assina quase todas as músicas com Martim), Ro Bjerk e Gil Soares, também transitam pelas canções Paulo Timm, Aluisio Rockemback, Renato Popó, Fabrício Moura (Pardal), Jucá de Leon, Daniel Zanotelli, Lyber Bermudez, Eduardo Varella, Davi Mesquita Batuka, Jortan Lima e Hélio Mandeco.
Ainda na noite da última sexta, o público do Teatro Esperança pôde arrepiar-se, antes da apresentação de Náufragos urbanos, com a voz firme e doce de Laura Correa, cantora uruguaia de apenas 16 anos inacreditavelmente pronta para os palcos. Vê-la, em Jaguarão, misturada a Martim e a tantos outros, é reafirmar que, sim, Schlee esteve sempre certo: na fronteira, tudo é “uma terra só”.
Uma cidade vale pelo tanto que acrescentou de patrimônio cultural ao mundo. A Jaguarão, bastaria ter parido Aldyr Garcia Schlee e sua literatura. Há quem trocaria reinos por O dia em que o papa foi a Melo ou Contos gardelianos. Contudo, esta pequenina terra jaguarense - maravilhoso mundo - não se cansa de parir artistas, de espalhar encantamento e luta. Deve ser o rio. Só pode.
Gracias, Martim! Gracias, Jaguarão!


Time de músicos do Náufragos Urbanos no Teatro Esperança


segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Aldyr Garcia Schlee em Defesa da Democracia

Escritor, jornalista e professor emérito da UFPel, o jaguarense Aldyr Garcia Schlee, que recentemente foi agraciado com a Ordem do Mérito Cultural do Brasil, em ato político realizado no sábado , dia 19 de dezembro,  diante do Teatro 7 de abril, na praça Cel. Pedro Osorio, por ocasião da aula pública em “Defesa da Democracia”,  manifestou-se assim:
"Lamento que precisemos estar aqui, hoje, em praça pública para defender a Democracia. Lamento muito, porque, aos 81 anos, já não imaginava mais… ver a democracia ameaçada em nosso país.
E percebam que agora, já não são os bandidos fardados de ontem que nos ameaçam e ameaçam o povo brasileiro; agora são os filhotões da ditadura militar outrora acobertados na velha Arena, são eles que se arrogam a dar o golpe, disfarçados escandalosa e convenientemente de arenistas em pepistas e de pepistas em “progressistas”; ou disfarçados escandalosa e convenientemente de arenistas em pefelistas e de pefelistas em “democratas” – a contar ainda os metidos na conveniente, escandalosa e disfarçada absorção do periclitante comunismo do PCB pelo pseudo socialismo direitoso do PPS; – e a contar ainda o constante e inabilitante afundamento político-eleitoral do outrora democrático e promissor PSDB, nas suas sucessivas derrotas nacionais e nas ridículas brigas internas de seus caciques, que transformaram o partido, agora, na desarticulada máquina que se quer escandalosamente, disfarçadamente e convenientemente, detonadora e propulsora do golpismo brasileiro, com o irrestrito, incondicional e mal-disfarçado apoio (como não poderia deixar de ser) das máximas entidades patronais da indústria, do comércio, da agricultura… e de toda a mídia monopolista com elas mancomunada no país inteiro, chancelando, difundindo e propalando as campanhas de desinformação, ignorância, intolerância, ódio, rancor, mentira, injúria, difamação e calúnia, especialmente contra a presidenta da República.
Fora Dilma, fora PT são expressões postas na boca de uma pobre gente – não de gente pobre – pobre gente que vemos por aí desinformada, ignorante, intolerante, cheia de ódio e rancor injustificáveis; e difusora irresponsável de mentiras grosseiras e de criminosas injúrias, difamações e calúnias contra quem quer que seja o objeto de sua ira e raiva. Uma pobre gente – não uma gente pobre – que, portando contraditórios símbolos nacionais, inclusive a camiseta canarinho enxovalhada pela CBF, nem ao menos sabe, certamente, por que mesmo poderia desejar Dilma fora da presidência e o PT fora da luta política –a não ser para que, assim, não houvesse necessidade nem perigo de eleição, e os caciques seguidamente derrotados nas urnas não corressem risco de mais um tombo eleitoral, capaz de conduzi-los ao ostracismo que os ameaça e que tanto merecem.
Tenho por certo que o golpe contra o qual nos manifestamos aqui, hoje, não haverá: a Justiça já corrigiu e recompôs os limites da ação política desencadeada pelo golpismo no Congresso. Mas a defesa da democracia continua.
Com ela, com a defesa da democracia, estamos comprometidos – o que significa estarmos comprometidos com a vontade do povo brasileiro, expressa nas urnas em eleições livres, democráticas e inquestionáveis que garantiram e garantem à presidenta Dilma Rousseff uma mandato que vai até 2018.
Não ao golpe!
Não à infâmia!
Não à mentira!
Não à injúria, à difamação e à calúnia!
E viva o povo brasileiro! "

sábado, 5 de dezembro de 2015

Poema no meio do mundo


Para Enrique Bacci

          Está certo que a vida é uma sucessão
          E que virão os novos
- que já fomos um dia –
Para nos substituir.
É a lei da vida. Imutável em nossa mutação.
Mas não é justo sairmos de cena
Enquanto ainda há aplausos,
Mesmo que sejam esparsos
E de lugares distantes na plateia.

Pois eu te recordo, Enrique,
Com tua voz suave de metálicas sonoridades,
Com tua poesia de infinitos transvias,
Todos partindo de tua enigmática Paso de los Toros,
Cruzando sem passaporte as fronteiras
De países e de espíritos
Todos sedentos de vida e de utopia.

Eu te recordo, Enrique
Amigo de cafés montevideanos
Onde nunca estivemos juntos.
Mas onde, eu sei, sempre estivemos
Conversando sobre a magia das palavras,
Divagando sobre Quixotes e amores felinianos,
Perdidos – eles e nós – no meio do mundo
Em Midland, Enrique... em Midland.

Martim César Gonçalves






domingo, 15 de novembro de 2015

1001 noites: Da lama de Mariana ao caos de Marianne


Por Joanneliese Freitas * 

A lama, apesar de ter sido vomitada de modo repentino, contínuo e violento para quem lá estava, chegou em minha mente e coração aos poucos. Adentrou como é propriedade da lama aquosa: lentamente, invadindo sem permissão, sub-repticiamente contaminando cada canto. E vai secando e endurecendo ali onde eu ainda podia ter um pouco de esperança.

A lama vai secando e endurecendo minha visão e meu entendimento – em um processo vagaroso e lento, porém contínuo e decisivo. Aos poucos, tomo ciência, mas também em um processo contínuo e violento: perdemos referenciais históricos, perdemos vidas. Acidente. Perdemos peixes, perdemos um rio, não, a bacia hidrográfica, o bioma. Acidente? Terror? Gente brigando por água.

Perdemos o senso, e o futuro? Ah, o futuro deságua no mar... De repente: bombas, bombas, gritos, tiros, confusão, o que está acontecendo? Pessoas arrastando seus mortos pelas ruas de Paris! Paris! Não é de lá que herdamos nossos valores de liberdade, igualdade, fraternidade?


Ao jogarem uma bomba em Marianne os estilhaços pararam em Minas Gerais. Também nossa referência de luta pela liberdade, da negritude aleijada produzindo arte, com suas riquezas agora jogadas no inconsciente da lama coletiva. Marianne, embale e vele suas centenas de mortos de uma noite, nós embalaremos e velaremos nossa noite de lama por centenas de anos... Mas o dia em Curitiba amanheceu azul! Será ainda um sinal de esperança? Não, pois os sonhos que também herdamos de Beirute e de Bagdá com suas histórias que nos embalam também ardem, a 1001 noites... Mas quem se lembra delas? São histórias para crianças...  

* Psicóloga, Professora da UFPR (Universidade Federal do Paraná). 

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Poema sobre o empedrado



Gosto da solidão dos meus passos sobre a rua
Dentro da noite...
Nada perturba meus pensamentos nessas horas
Pois minha cidade tem ruas silenciosas
Que ainda não aprenderam a linguagem barulhenta
Das cidades grandes

E se um galo canta ao longe
Eu me rio só
Recordo as buzinas que infernizavam meus ouvidos
E eu me rio só

Não sou um mero passante
Numa noite qualquer

Sou e sempre vou ser
Parte de tudo isto.

Martim César Gonçalves

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Jaguarenses levam a maioria dos prêmios no Festival Nacional da Moenda da Canção de Santo Antônio da Patrulha

Martim César e Zebeto Correia, grandes  vencedores com "Aprendizagem"

Por Elis Vasconcellos

O festival terminou na madrugada do dia 16 de agosto e premiou a música Aprendizagem, de Martim César e Zebeto Correia, representando Jaguarão e Belo Horizonte-MG, como a grande vencedora, melhor letra e melhor melodia do festival. A música As mãos de um mago, de Martim César e Alessandro Gonçalves, representando Jaguarão, obteve o terceiro lugar, fazendo assim com que a cidade de Jaguarão tivesse duas músicas premiadas nesse que é um dos maiores festivais do Brasil, atualmente, tanto em número de inscrições, como em participações de outros estados do país.

A milonga-tango “As Mãos de um Mago”, com letra de Martim César, música de Alessandro Gonçalves e arranjo do também jaguarense Fábio Costa, foi interpretada por Chico Saratt e é uma homenagem a um dos grandes nomes do cenário artístico do Rio Grande do Sul: o uruguaio Carlitos Magallanes, que reside há 40 anos no nosso estado e se notabilizou como um dos mais importantes instrumentistas de tangos e milongas em terras brasileiras, bem como solista da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) e como músico premiado em quase todos os festivais do sul do país.

"As Mãos de um Mago", interpretada por Chico Saratt, foi terceira colocada 


segunda-feira, 1 de junho de 2015

Juca Ferreira defende política cultural para as fronteiras

Uma política cultural para as fronteiras e medidas para lançar um edital específico para pontos de cultura de fronteira. Estas foram algumas propostas anunciadas no último sábado (30) pelo ministro Juca Ferreira, em Jaguarão (RS), na divisa do Brasil com o Uruguai, onde participou de uma roda de conversa chamada Diálogo da Fronteira, com artistas, gestores, produtores e fazedores de cultura locais. A ministra da Educação e Cultura do Uruguai, Maria Julia Muñoz, também participou do debate.

Ministros Juca Ferreira e Maria Julia Muñoz ressaltaram
                importância de políticas culturais para a fronteira -Foto Lia de Paula    
       

O ministro defendeu a construção, na fronteira, de um território de "amizade, parceria, vivência cultural e integração com países irmãos". O anúncio do possível lançamento do edital para pontos de cultura nas divisas já em 2016 arrancou aplausos dos participantes da roda de conversa.

"Pretendo construir uma política cultural para fronteira e Jaguarão é um ícone, um ponto de partida para isso", afirmou. "É preciso ser uma política que dê conta da diversidade presente nessas regiões e que, ao mesmo tempo, estimule a integração e as parcerias. Pensem no Ministério como um parceiro para apoiar esse processo que vocês já vivem", destacou.

A proposta recebeu apoio da ministra da Educação e Cultura do Uruguai. "Vamos estar sempre atentos a fomentar a cultura de fronteira. Ela nos une entranhavelmente. Nossos povos têm sonhos em comum", afirmou Maria Julia Muñoz.

Pontos de Cultura


Pontos de Cultura são entidades culturais ou coletivos culturais que, por desenvolver ações de impacto sociocultural em suas comunidades, são certificados pelo Ministério da Cultura, recebendo dele apoio institucional e financeiro. O Plano Nacional de Cultura - PNC (Lei 12.343/2010) estabelece em seu Plano de Metas o fomento de 15 mil Pontos de Cultura até 2020.

Em Jaguarão, o ministro ressaltou a importância dos Pontos de Cultura para o fomento da cultura de base comunitária no país. "Historicamente, as comunidades acharam uma forma de qualificar seu ambiente e superar a ausência do Estado. Muitas vezes, em um ambiente degradado e submetido à violência, as pessoas produzem um ambiente mágico que só a arte e a cultura são capazes de fazer", comentou.

Ferreira enfatizou, ainda, que os Pontos de Cultura são "parte insubstituível" da Cultura brasileira, presentes em todo o país, desde a periferia até as comunidades indígenas. "É preciso reconhecer o direito do povo brasileiro de ter apoio do Estado para que se desenvolva. Nós vamos trabalhar para ampliar essa experiência", frisou.

Outras demandas


Ao longo do evento, participantes puderam expor seus pontos de vista e fazer demandas. Luta contra a intolerância religiosa, maior acesso à cultura, investimentos para o setor do audiovisual da região e a cultura vista como vetor de integração e de desenvolvimento regional foram alguns dos temas tratados.

Outro pedido de destaque foi a necessidade de descentralização na distribuição de recursos para a área cultural. Em relação a esse aspecto, mais uma vez, o ministro foi enfático ao defender a reforma da Lei Rouanet.

"A lei Rouanet representa 80% do dinheiro que o governo tem para aplicar na cultura. É mal aplicado porque, em última instância, quem define o uso é o departamento de marketing da empresa. E a empresa se associa a quem pode dar retorno de imagem a ela, então, a restrição é imensa", lamentou.

Além de Juca Ferreira e da ministra da Educação e da Cultura do Uruguai, estiveram presentes à roda de conversa o prefeito de Jaguarão, Cláudio Martins, a presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Jurema Machado, e o diretor do departamento de Relações internacionais do MinC, Gustavo Pacheco, entre outros.

O Diálogos da Fronteira foi um dos compromissos cumpridos pela comitiva do Ministério da Cultural em Jaguarão ao longo do último sábado (30). Ao longo do dia, o ministro visitou espaços culturais e participou de cerimônia de celebração do reconhecimento da Ponte Barão de Mauá como primeiro bem binacional reconhecido como Patrimônio Cultural pelos países do Mercosul.

Fonte: Cecília CoelhoMinC

Ministro Juca Ferreira caminhou pela Ponte Mauá
Cerimônia de descerramento de Placa na Ponte Mauá, Patrimônio Cultural do Mercosul


 

Clandestino - Gilberto Isquierdo e Said Baja

  Assim como o Said, milhares de palestinos tiveram de deixar seu país buscando refúgio em outros lugares do mundo. Radicado nesta fronteir...