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quinta-feira, 25 de maio de 2017

Os Concertos de Brandenburgo, de Johann Sebastian Bach


Há uma série cômica de livros ingleses que nos ensina a como blefar culturalmente, a como falar sobre coisas que absolutamente desconhecemos.  A série chama-se Manual do Blefador e divide-se em Literatura, Música, Filosofia, Artes Plásticas, etc. No livrinho de Música, o verbete Bach diz o seguinte: se você quiser impressionar um chefe ou uma potencial futura namorada ou namorado que conheça Bach, jamais tente enganá-los, pois a obra do compositor é muito grande, de alta qualidade — as pessoas tornam-se fanáticas por ele — e não se pode adivinhar sobre o que fanático vai querer falar aquele dia. Então o jeito é preparar o melhor suspiro possível e dizer dramaticamente “Ah… Bach!”, indicando que está absolutamente sem palavras. Deixe que o outro fale.
É sempre surpreendente o tamanho e o grau de influência de Bach, assim como sua colocação como pedra fundamental de toda a cultura musical. E o mundo criado por Bach foi desenvolvido numa época em que não havia plena noção de obra; ou seja, Bach não se colecionava para servir à posteridade como os autores passaram a fazer logo depois. Ele escrevia para si, para seus alunos e contemporâneos. O que se sabe é que ele gostava das coisas bem feitas e era um brigão — passava grande parte de seu tempo solicitando mais e melhores músicos e procurando empregos mais rendosos. Tinha família enorme, conta-se 20 filhos, dos quais dez passaram pela alta mortalidade infantil do início do século XVIII. Mas sabe-se pouco a respeito de suas opiniões e vida interior, há apenas um episódio pessoal bem conhecido:
Johann Sebastian havia feito uma longa viagem de trabalho e ficara dois meses fora. Ao retornar, soube que sua mulher Maria Barbara e dois de seus filhos haviam falecido. Dias depois, Bach limitou-se a escrever no alto de uma partitura uma frase: “Deus, fazei com que seja preservada toda a alegria que há em mim!”. Pouco tempo depois ele casou de novo, continuou fazendo um filho após o outro e, como não existiam, na época, equipes de futebol, ele pode forjar, em seu próprio seio familiar, uma orquestra de câmara… Realmente, ouvir Bach é uma alegria; dá para perceber naqueles contrapontos malucos uma risada contra a fixidez da forma musical barroca.
The Neues Bach Denkmal meaning new Bach monument
stands since 1908 in front of the St Thomas Kirche
 church where Johann Sebastian Bach is buried in Leipzig Germany
Bach costumava ganhar mais que seus pares, mas nada que fosse espantoso. Era respeitado mais como virtuose do que como compositor — Telemann era considerado o maior compositor de sua época. Nosso herói também produzia cerveja em casa, mas este é um tema sobre o qual podemos falar futuramente.
A enormidade e a perfeição daquilo que Bach criava e que era rápida e desatentamente fruída pelos habitantes das cidades onde viveu, era inacreditável. Tentamos dar dois exemplos: (1) Suas obras completas, presentes na coleção Bach 2000, estão gravadas em 153 CDs da mais perfeita música. Grosso modo, 153 CDs são 153 horas ou mais de 6 dias ininterruptos de música original. E, (2), ele parecia divertir-se criando dificuldades adicionais em seus trabalhos. Muitas vezes o número de compassos de uma ária corresponde ao capítulo da Bíblia onde está o texto daquilo que está sendo cantado. Em seus temas aparecem palavras — pois a notação alemã (não apenas a alemã) é feita com letras — e suas fugas envolvem verdadeiros espetáculos circences que só podiam ser apreendidas por especialistas. Em poucas palavras, pode-se dizer que o velho sobrava… E imaginem que durante boa parte de sua vida Bach escrevia uma Cantata por semana. Em média, cada uma tem 20 minutos de música. Tal cota, estabelecida por contrato, tornava impossível qualquer “bloqueio criativo”. Pensem que ele tinha que escrever a música, copiar as partes e ainda ensaiar para apresentar domingo.
Príncipe Leopoldo de Köthen

Poucas obras musicais são tão amadas e interpretadas como os seis Concertos de Brandenburgo de Johann Sebastian Bach. Tais concertos exibem uma face mais leve do gênio de Bach e, na verdade, fizeram parte de um pedido de emprego. Em 1720, aos 35 anos, Bach parecia feliz em Köthen. Ganhava adequadamente, seu patrono não só amava a música como era um músico competente. O príncipe Leopoldo de Köthen, do principado de Anhalt-Köthen, parte do Sacro Império Romano Germânico, gastava boa parte de sua renda para manter uma orquestra privada de 18 membros e convidava artistas viajantes para tocar com eles. Como calvinista, o Príncipe Leopoldo utilizava pouca música religiosa, liberando Bach para compor e ensaiar música instrumental secular. No entanto, o relacionamento pode ter azedado quando Bach solicitou a compra de um órgão. O pedido foi rejeitado.
A capa dos concertos dedicados ao Margrave de Brandenburgo

Então, em 1721, Bach apresentou-se ao Margrave (comandante militar) Christian Ludwig de Brandenburgo com um manuscrito encadernado contendo seis concertos para orquestra de câmara com base nos Concerti Grossi italiano. Não há registro de que o Marqrave tenha sequer agradecido a Bach pelo trabalho — e muito menos pago por ele. O Margrave jamais imaginaria que aquele caderno — mais tarde chamado de Concertos de Brandenburgo — se tornaria uma referência da música barroca e ainda teria o poder de mover as pessoas quase três séculos mais tarde.
O Margrave de Brandenburgo Christian Ludwig
Em outras palavras, Bach escreveu os Brandenburgo como uma espécie de demonstração de suas qualidades, um currículo para um novo emprego. A tentativa deu errado. O Margrave de Brandenburgo nunca respondeu ao compositor e as peças foram abandonadas, sendo vendidas por uma ninharia após sua morte. Mesmo rejeitados, osConcertos de Brandenburgo sobreviveram em seus manuscritos originais, aqueles que tinham sido enviados para o Margrave de Brandenburgo no final de março de 1721. O título que Bach lhes dera era o de: “Six Concerts avec plusieurs instruments” (“Seis Concertos para diversos instrumentos”).
Os Brandenburgo foram encontrados no inventário do Margrave em um lote maior de 177 concertos, entre “obras mais importantes” de Valentini, Venturini e Brescianello. Logo após a morte de Bach, sua música instrumental foi esquecida. Só sua música religiosa permaneceu, ainda que pouco interpretada.
Os Concertos de Brandenburgo são destaques de um dos períodos mais felizes e mais produtivos da vida de Bach. É provável que o próprio Bach tenha dirigido as primeiras apresentações em Coethen. O nome pelo qual a obra é hoje conhecida só apareceu 150 anos mais tarde, quando um biógrafo de Bach, Philipp Spitta, chamou-os assim pela primeira vez. O nome pegou.
Bach pensava nos concertos como um conjunto separado de peças. Cada um dos seis concertos requer uma combinação diferente de instrumentos, assim como solistas altamente qualificados. O Margrave tinha sua própria orquestra em Berlim, mas era um grupo de executantes em sua maioria medíocre. Todas as evidências sugerem que estes concertos adequavam-se mais aos talentos dos músicos de Coethen.
Ora, como é que uma cidade provinciana tinha tão excelentes músicos? Pouco antes de Johann Sebastian ter chegado à cidade, um novo rei tinha assumido o trono da Prússia. Frederico Guilherme I tornou-se conhecido como o “Soldado Rei”, porque estava interessado na força militar do seu reino, não em atividades artísticas refinadas. Um dos primeiros atos reais foi dissolver a prestigiada orquestra da corte de Berlim. Sete destes músicos foram trabalhar em Coethen para o Príncipe Leopold.
É por isso que Bach encontrou uma rica cena musical quando lá começou a trabalhar em 1717. Acostumou-se ao luxo de escrever para virtuosos, como o caso do trompete do Concerto Nº 2 e do violino do Nº 4.
Joshua Rifkin oferece uma explicação para que os Brandenburgo fosse ignorados por quem os recebera: “Como iria acontecer tantas vezes em sua vida, o gênio de Bach criava obras acima das capacidades dos músicos comuns e por isso eram esquecidas. Só mesmo em Coethen poderiam ser interpretadas!”. Com efeito, os Concertos permaneceram desconhecidos por meia dúzia de gerações, até que foram finalmente publicados em 1850, em comemoração ao centenário da morte de Bach. Mesmo assim, sua popularidade teria de esperar pelos toca-discos.
Os Concertos de Brandenburgo talvez sejam um dos maiores exemplos do pensamento criativo de Bach, pois compreende estilo contrapontístico, variedade de instrumentação, complexa estrutura interna e enorme profundidade. Eles não se destinavam a deslumbrar teóricos ou a desafiar intelectuais, mas sim causar puro prazer a músicos e ouvintes.
Manuscrito do terceiro Concerto de Brandeburgo de Bach
O concerto era a forma mais popular de música instrumental durante o barroco tardio, o principal veículo de expressão para os sentimentos, papel depois assumido pela sinfonia. Cada Brandenburgo segue a convenção do concerto grosso, em que dois ou mais instrumentos solo são destacados de um conjunto orquestral. Os concertos também observam a convenção de três movimentos, rápido-lento-rápido.
O único Concerto em quatro movimentos é o primeiro, ao qual foi adicionada uma dança final. Sua orquestração é incomum, podendo ser chamado de “concerto sinfonia.” Talvez Bach quisesse dar um começo forte e rústico, destinado a alguém preguiçoso que fosse julgar o conjunto apenas por sua abertura. No entanto, apesar de seu apelo imediato para os ouvidos conservadores, cada movimento tem a marca de Bach.
Os outros concertos estão mais próximos do modelo de concerto grosso padrão. Para o gosto deste que vos escreve, apesar de suas qualidades, o pesado Concerto Nº 1 é o patinho feio da coleção. É a partir do Concerto Nº 2 — para violino, flauta, oboé e trompete — que a leveza, a ousadia e a invenção tomam conta do conjunto, indo até o final. Na minha opinião, os concertos de Nº 3, 4 e 5 são insuperáveis.
O concerto Nº 3 for escrito para 3 violinos, 3 violas, 3 violoncelos e contínuo, formado normalmente por cravo e contrabaixo.
O Nº 4 foi escrito para violino e duas flautas. O 5º para flauta transversa, violino e cravo.
A enorme inventividade de Bach também reside nas curiosas combinações instrumentais: no quarto, por exemplo, o grupo habitual de cordas e contínuo acompanham o violino solo e duas flautas em um discurso musical brilhante. No quinto, Bach faz uso de uma flauta transversal, de violino e do cravo, mas o que resulta parece ser um antecessor dos grandes concertos para teclado. Ouçam, para exemplo, sua elaboradíssima cadenza do primeiro movimento.
Sem prejuízo dos outros concertos do ciclo, faço uma menção àquele que me trouxe para “dentro” da música erudita: o terceiro, que foi projetado para três grupos instrumentais que consistem em três violinos, três violas e três violoncelos, mais baixo contínuo. Escrito em três movimentos, com o segundo sendo um passeio no campo da improvisação, tem no primeiro e terceiro movimentos fascinantes e alegres temas e contrapontos, verdadeira exposição do virtuosismo de Bach como compositor. Para mim, ele é “o concerto barroco por excelência”.
(Sim, eu estava no banheiro quando meu pai colocou a agulha do toca-discos no começo do Concerto Nº 3. Saí de lá aos gritos, perguntando o que era aquilo. Nunca me recuperei).
Em minha cabeça, esses concertos são das peças mais tocadas. Muitas vezes caminho pelas ruas assobiando-as. E tenho a melhor das convivências com elas).

quarta-feira, 23 de julho de 2014

O varejão evangélico e a sessentona sexy



Vi no centro de Porto Alegre a placa de uma loja: Varejão Evangélico. Vi o anúncio de uma massagista nos classificados do Correio do Povo: Sessentona de Cachoeirinha. O que será que o Varejão Evangélico vende que outros não vendem? Se a moda pega, logo teremos produtos orgânicos evangélicos, refrigerantes zero açúcar e zero tentação, tudo benzido ainda por cima. Isso me lembra de uma campanha bolada por um amigo meu, a Coleção Nosferatu Infantil, com brinquedos para a Romênia. Mas um caderno em forma de ataúde e um lápis que também serve de estaca, ou pasta de dente com sabor de sangue, não dão pra saída, convenhamos.

Quanto à Sessentona de Cachoeirinha, ela diz que faz o diabo a quatro, até inversão. Eu, o sessentão da Vila Nova, não tenho ideia do que seja essa tal de inversão, mas temo que a coisa acabe em torcicolo ou numa crise de ciático ou mesmo numa bacia deslocada. Depois talvez dê para brincar de adeus às armas, quer dizer, de paciente e enfermeira, seu ignorante. De qualquer forma incluí a dita inversão na minha lista de alegrias da melhor idade.

Senti, de um modo obscuro, que há uma ligação entre o Varejão Evangélico e a Sessentona de Cachoeirinha. Mas qual, além da óbvia promessa de uma realização intangível? Será que a Sessentona é tia do dono do Varejão? Não sei. São misteriosos os caminhos do Senhor.

Inteligências e burrices múltiplas
O conceito das inteligências múltiplas pegou, me parece que com razão. Eu, pelo menos, sou bem espertinho para umas coisas, mas até hoje tenho problemas com a tabuada do sete pra cima, por exemplo. Agora, o que há de reconfortante nesse conceito tem também de amedrontador, basta olhar para ele de trás pra frente: as burrices múltiplas. Se fizermos direito as contas, é possível descobrir que somos estúpidos em muito mais coisas do que somos inteligentes. Vou mais longe. Não só não somos inteligentes em tudo, como nem sempre somos inteligentes no que somos comprovadamente inteligentes. Qualquer coisinha do dia a dia pode nos desafinar, uma noite mal dormida, um desencontro, uma chuva, um esquecimento, uma broxada. Quantas vezes uma amizade ou inimizade nos obscureceu o raciocínio? Os famosos testes de QI são ótimos, quando aplicados em máquinas.

QBS
Sempre desejei ver um teste que medisse nosso quociente de bom senso. Acho bom senso mais importante que inteligência. Ou bom senso é um tipo de inteligência? Leva jeito de ser. Mas o diabo é que o bom senso sofre da mesma precariedade. Vi mais de uma vez pessoa de comprovado bom senso cometendo desatinos como qualquer papalvo ou doidivanas.
Em literatura, por exemplo, o bom senso não recomenda usar palavras como papalvo e doidivanas. Por falar nisso, em literatura o bom senso é um bom guia em matéria estilística, uma ferramenta pra hora de passar a limpo, mas pouco mais. Os melhores livros nasceram de apostas loucas, de aventuras extravagantes, de delírios, de pesadelos.

Anúncios fúnebres
Notei que os anúncios de falecimento ou convite para missa de sétimo dia costumam sair no rodapé da seção de polícia dos jornais. Por quê? O mistério é metafísico ou essas páginas são mais baratas apenas? Notei outra coisa também: nomes como Carlinda, Estranzulina, Herculano ou Libânio são vistos apenas nesses anúncios. Jamais se viu uma Estranzulina viva e atuante. Essa gente parece sair do nada direto pro cemitério. O pior é que as fotos que ilustram os anúncios são típicas. Mesmo fora de contexto, sabemos: trata-se de defunto.

Paternalismo
Vi muitos empresários dizerem que o povão não deve ver no Estado um pai, mas, sim, botar o pé na rua e se virar em nome da livre concorrência. Mas vi esses mesmos empresários mamando nas tetas do Estado a vida toda. Oquei, oquei. É preciso ver uma mãe no Estado, não um pai. Que cabeça a minha.

Choros
Quem não chora não mama, como dizia o bebê de Rosemary.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Um novo partido político no Rio Grande

Durante estes longos anos, em que os partidos políticos e seus representantes se alternaram no poder aqui no estado, um novo partido foi crescendo no Rio Grande do Sul e ainda que formalmente nunca disputasse um pleito político, está mostrando que é cada vez mais capaz de influenciar no voto de todos os gaúchos.

Falamos da RBS, a poderosa rede de comunicação que através dos seus veículos determina a pauta dos assuntos que lhe interessa que sejam discutidos.

“É sabido que a RBS é, também, além de um grupo midiático, um grupo político-ideológico de comunicação. Não faz, assim, uma cobertura isenta, não só das questões nacionais, como das regionais. Pode-se dizer até que grupos como a RBS e a Rede Globo são, na verdade, um novo tipo de partido político. Eles hierarquizam e organizam a apresentação dos fatos de acordo com a sua visão de mundo”. Quem disse isso, foi o Governador Tarso Genro, essa semana, em entrevista para o Sul21.

É interessante ver como este grande grupo de mídia, que como a Rede Globo, só cresceu durante o regime militar, intervém permanentemente no dia a dia da vida dos gaúchos, pautando os assuntos a serem discutidos, sempre a partir de uma ótica que defende os interesses privados, apresentados como éticos e progressistas, em detrimento do público, onde sempre grassa a corrupção.

Hoje, com um grau de eficiência muito maior, os veículos aprenderam que dar algum espaço para o contraditório, ajuda a construir a imagem de imparcialidade que seus dirigentes apregoam.

Sábado, por exemplo, no seu caderno cultural, Zero Hora publicou um belo texto do historiador Mário Maestri sobre Jacob Gorender, o mais importante intelectual marxista brasileiro, recentemente falecido e cujo desaparecimento mereceu na ocasião umas poucas linhas do jornal.

No passado, estes veículos eram mais diretos e menos eficientes. No governo Collares, RBS instrumentalizou, por incrível que pareça, o moralismo pequeno burguês do PT na Assembléia, levantando questões ridículas como a reforma do banheiro do Palácio Piratini e a compra de bolachas, que tinham o nome da mulher do governador, para distribuir nas escolas.

Mais adiante, foram os deputados do PDT, com o imenso apoio da mídia da RBS que tentaram desestabilizar o governo de Olívio Dutra com a chamada CPI do Jogo do Bicho.
Hoje, seus veículos se dizem imparciais, embora, como perguntou o Governador Tarso Genro em sua entrevista, “porque, no Governo Britto a RBS “jogava o Estado para cima” e agora faz tudo para “jogar o Estado para baixo?”

Pena que percebendo tudo isso, o Governador autorize a publicação da parcela maior da verba publicitária do Estado em veículos da RBS, como percebeu um leitor do Sul21, que flagrou no mesmo dia da entrevista. um anúncio institucional do Governo a cores, ocupando toda uma página de ZH.

Os publicitários costumam dizer que se trata de uma mídia técnica: levam a verba maior os veículos com maior audiência. Só que isso se transforma num círculo vicioso, onde os veículos mais poderosos têm a maior fatia da verba publicitária e porque têm esta fatia maior, continuam sempre mais poderosos.


( Professor universitário - Sul21)

Publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 14/08/2013


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Sul21: O interessante patrimônio de Jaguarão


Por Nubia Silveira do Sul21

Depois de passar por cinco pedágios e pagar mais de R$ 40,00, chega-se a Jaguarão, na fronteira com o Uruguai. Cidade tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), com povoamento datado do início do século XIX, é um ótimo destino de fim de semana ou ponto de passagem para quem pretende ir até Montevidéu. Jaguarão fica equidistante das capitais gaúcha e uruguaia, a exatos 380 quilômetros de cada uma. E é o caminho mais curto entre elas.

Pequena, simpática, acolhedora, banhada pelo rio que lhe dá o nome, Jaguarão conquista o visitante. É com prazer que se caminha por suas ruas de paralelepípedos, admirando o casario construído no século XIX e início do XX. A maioria das casas é baixa, com fachadas trabalhadas, janelas recortadas e, no alto, a reprodução de alguma figura. A rua 15 de Novembro é famosa pelas casas e pelo Museu Dr. Carlos Barbosa, que por si só justifica uma ida a Jaguarão.

Quem passa para o país vizinho conhece outra obra de arte da cidade: a ponte internacional Barão de Mauá, que liga Jaguarão à uruguaia Rio Branco. Construída entre 1927 e 1930, é reconhecida como patrimônio cultural do Mercosul, tendo sido tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A ponte de 2.113 metros (340m sobre o rio Jaguarão) tem 12 metros de largura. Sobre ela ainda estão os trilhos que ligariam Brasil e Uruguai por via férrea.

Museu– Próximo do Museu Carlos Barbosa estão as casas que chamam a atenção por suas portas e janelas trabalhadas. Há construções em que a entrada tem de duas a três portas em sequência. O mais importante, porém, da rua 15 de Novembro é o Museu, que foi residência do ex-governador do Rio Grande do Sul. Um atestado de inteligência, consciência e responsabilidade da família. A viúva de Carlos Barbosa, dona Carolina Cardoso de Brum, determinou que a casa fosse preservada.  O desejo foi cumprido por sua filha Eudóxia Barbosa de Lara Palmeiro, que a transformou em museu, em 1975, e destinou os bens da família para uma Fundação, responsável pela conservação do local. O objetivo é manter o prédio como foi construído. O verbo restaurar não faz parte do vocabulário da fundação.


O casarão foi construído em 1886 por Martinho de Oliveira Braga, que presenteou a família com pinturas na entrada da residência representando os setores da economia gaúcha. No interior estão totalmente preservados os móveis, a louça, os lustres e os biscuits. 



É interessante ver funcionando as primeiras lâmpadas que chegaram a Jaguarão e foram instaladas na casa de Carlos Barbosa, filho de Pelotas, que governou o estado de 1908 a 1913. Foi ele que deu início à construção do Palácio Piratini.

Ali também está o primeiro telefone que a cidade conheceu. Ele foi colocado na casa do então presidente do Rio Grande do Sul para facilitar a sua comunicação.

Outra particularidade: a família foi uma das primeiras a ter banheiro dentro de casa. Ali está a banheira que mandaram construir. O autor – o nome se perdeu no tempo – acreditava que tomar banho todos os dias era prejudicial à saúde e poderia até matar. Por isso, esculpiu nas bordas alças usadas em caixões mortuários.


Passadiço – Construída em formato de U, a casa tem um passadiço largo, todo envidraçado, que separa a parte principal da residência do jardim. Esse passadiço ajuda a iluminar e ventilar a casa, dividindo-a em cômodos de inverno e de verão. Neste corredor estão as máquinas de costura usadas por dona Carolina e suas filhas.
No bem cuidado jardim, encontra-se uma cisterna, pronta para recolher a água da chuva e abastecer a casa.

Teatro – No centro de Jaguarão, a restauração do Teatro Esperança está chegando ao fim. De acordo com as explicações colocadas nos tapumes que rodeiam o teatro, as obras começaram em 2010 e deverão estar concluídas em 2014.
O prédio foi tombado pelo IPHAE em 1990 e pelo IPHAN em 2011. O Esperança que costumava receber companhias de teatro vindas dos países do Prata, se prepara para voltar a ser palco de grandes espetáculos.

Jaguarão recebe bem o visitante e tem o que mostrar. Aproveite um fim de semana, siga pela 116 até a entrada de Rio Grande. Não dobre à esquerda. Siga reto. E aproveite para conhecer um pouco da história rio-grandense.

Fonte: http://www.sul21.com.br





sexta-feira, 10 de maio de 2013

Montevideo - Ciudad de Todos los Vientos

Do Sul21

Montevideo quince de noviembre
de mil novecientos cincuenta y cinco 
Montevideo era verde en mi infancia 
absolutamente verde y con tranvias
Dactilógrafo, Mario Benedetti

Entre as capitais do continente, Montevidéu pode parecer distinta, em um primeiro olhar, por certos fatores: é a capital mais ao sul da América, já que se localiza um pouco abaixo de Santiago do Chile e Buenos Aires; é banhada, em sua costa, por duas águas que se encontram e se misturam, a do Atlântico e a do Rio da Prata. Para o turista que por ali permanece poucos dias, Montevidéu é a cidade dos prédios antigos, do vento frio que sopra do Rio e, às vezes, a que se confunde com o próprio país. Aos olhos do morador, que cresceu enquanto crescia Montevideo, talvez seja uma cidade que destoe do que se pensa de uma capital latino-americana. Mas, como disse um dia o poeta e escritor argentino Jorge Luis Borges, a cor de uma cidade é mais uma invenção estrangeira, uma impressão dos que não vivem ali, do que algo pensado por seus habitantes.

Em um continente em que as capitais se diferem explicitamente, algo deve ter Montevidéu para ser vista como ainda menos semelhante às demais. Além da sua organização urbana – uma cidade iniciando pelo porto, voltada ao mar – a afirmação se refere também ao estilo de vida da sua população. Seus habitantes (hoje quase um milhão e quatrocentos mil) reconhecidamente vivem sem pressa – mesmo que nas últimas décadas os montevideanos tenham corrido mais, como aconteceu na maior parte do mundo. As avenidas antigas do Centro e as largas ramblas que contornam o litoral dificilmente enfrentam congestionamentos – problema comum das demais metrópoles latino-americanas. Nas ruas centrais, o pedestre ainda encontra a tentação de diminuir o passo e entrar em um dos tantos cafés ou pequenos restaurantes da área, ainda que parte dos famosos bolichos da capital, autênticos símbolos da cidade nas primeiras décadas do século passado, tenham perdido espaço na modernidade. Nos calçadões das ramblas, no entanto, são muitos os que escolhem o caminho para correr, andar de bicicleta ou sentir a brisa do Rio da Prata.





terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Prêmio Açorianos de Literatura de 2012





Milton Ribeiro, coeditor do site, recebeu o prêmio em nome do Sul21 
 Foto: Ramiro Furquim/Sul21
A cerimônia de entrega dos troféus do Prêmio Açorianos de Literatura de 2012 aconteceu nesta segunda-feira (10) no Teatro Renascença, em Porto Alegre. O evento, que premia as obras mais representativas da produção literária gaúcha, teve como maior vencedorAfrontar Fronteiras, de Donaldo Schüler, escolhido como livro do ano. O jornal digital Sul21 recebeu o troféu de destaque do ano por sua contribuição na divulgação e no entendimento da literatura em mídia digital.

A cerimônia teve a jornalista Tânia Carvalho como mestre de cerimônias e os músicos Claudio Levitan e Duda Guedes como animadores. Durante a noite, a Coordenação do Livro e Literatura da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre premiou profissionais envolvidos com o livro em 10 categorias (Narrativa Longa, Conto, Poesia, Crônica, Ensaio de Literatura de Humanidades, Especial, Capa, Projeto Gráfico, Infantil e Infanto-juvenil), além do Livro do Ano, Destaques do Ano e do Açorianos de Criação Literária. (veja abaixo a lista dos vencedores)

DESTAQUES DO ANO: 
Jornal digital Sul21
Fronteiras do Pensamento

CAPA: 
- Juliana Dischke, por A Primeira Vez que Eu Vi Meu Pai (Editora Artes e Ofícios)

PROJETO GRÁFICO: 
João Carlos Camargo Guimarães, por A Primeira Vez que Eu Vi Meu Pai (Editora Artes e Ofícios)

INFANTIL: 

Maria Teresa e o Javali, de Luís Dill (Editora Scipione)

CRÔNICA: 
Borralheiro: Minha viagem pela Casa, de Fabricio Carpinejar (Editora Bertrand Brasil)

CONTO: 
Enquanto Água, de Altair Martins (Editora Record)

POESIA: 
A Chama Azul, de Maria Carpi (Editora Age)

NARRATIVA LONGA: 
Neptuno, de Leticia Wierzchowski (Editora Record)

ENSAIO DE LITERATURA E LIVRO DO ANO: 
Afrontar Fronteiras, de Donaldo Schüler (Editora Movimento)

ESPECIAL: 
O Tempo e o Rio Grande nas Imagens do Arquivo Histórico do RS, organização de Rejane Penna (Instituto Estadual do Livro)

AÇORIANOS DE CRIAÇÃO LITERÁRIA:
Entrechos ou Valas do Silêncio, de Guto Leite

Fonte: http://www.sul21.com.br 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Andrei Rublióv (Rublev), de Andrei Tarkovski



Eu não procurei este livro para comprar, eu cruzei com ele. Estava caminhando por uma livraria e dei de cara com o volume da Martins Fontes. Estranho, não era um DVD do filme, mas um livro de mais de 300 páginas escrito pelo próprio diretor e roteirista Andrei Tarkovski. Comprei imediatamente e não é que o tenha lido, eu o engoli imediatamente com os olhos.

Trata-se de um roteiro literário, que na verdade é um romance escrito por Tarkovski para servir de base para as filmagens. O  roteiro final foi escrito em parceria com Andrei Konchalovsky e parece  consistir apenas no acabamento dos diálogos e no corte de descrições e cenas, pois o livro (ou roteiro literário) possui 14 capítulos, 5 capítulos a mais do que o filme.

OK, mas porque tanta expectativa? Ora, pelo imenso filme de Tarkovski, um dos melhores de toda a história do cinema, pelo profundo humanismo que se desprende da história e pela grande carga emocional de um filme que parece não terminar nunca, tal a impressão deixada nas mentes de quem o vê. Com a publicação deste roteiro — falemos sério, deste romance — ficam inequívocas as intenções do cineasta soviético. Tarkovski pretendia mesmo discutir o papel do artista e da fé na sociedade. Se o palco é a Rússia (Rus) da invasão tártara do século XV, a alegoria serve a qualquer outro tempo e sociedade.  No livro, Rublióv está muito mais completo e complexo do que no filme, o que, se não significa uma obra de arte melhor — e certamente não significa — , significa explicações para vários trechos apenas intuídos.

Na leitura, capta-se melhor a personalidade do trio de pintores de ícones, perdidos ou indo de igreja em igreja na paupérrima e faminta Rússia medieval. Andrei é um jovem quieto e misterioso. Daniil é resignado, propondo sacrifícios a si mesmo. Kiril é esperto, lógico mas ciumento. O trio representa a Trindade do ícone mais famoso de Rublióv. As cenas — todas passadas por volta do ano de 1400 — nem sempre são contadas do mesmo ponto de vista, podem variar, assim como a ordem de apresentação delas é diferente no filme.

Andrei Rublióv é um surpreendente painel sociológico sobre a Rússia medieval. Os estranhos rituais, a fé, a necessidade da igreja para não passar fome, a busca da própria identidade, a busca da verdade. Há violência extrema na cena em que a igreja é invadida e saqueada, com o sacerdote sendo marcado por uma cruz incandescente. Ali, Rublióv perde a fé para reencontrá-la no filho de um fabricante de um sineiro, um menino que, sem saber muito bem o que faz e ameaçado de morte se não for capaz de forjar um sino, vai adiante movido por não se sabe o bem o quê– pela mera intuição, pela fé ou pela observação e desespero. Ali, Rublióv vai reencontrar deus e o espírito para voltar a criar beleza religiosa para um mundo absolutamente bárbaro.

O filme, de 1966, foi somente liberado em 1969, assim mesmo com cortes impostos pela censura soviética, que não aprovava a alegoria de Tarkovski contra a intervenção das instituições no trabalho do artista. Isto é algo quase não lê no “roteiro literário” do diretor.


Andrei Rublev: Trindade. Galeria Tretyakov

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Sul21: Aldyr Garcia Schlee: entre os livros, o futebol e a fronteira


                  Em entrevista ao Sul21, Aldyr Garcia Schlee fala sobre seu mais recente livro, 
Don Frutos, sua paixão pelo futebol e suas impressões sobre outra grande paixão, o Uruguai | Foto: Iuri Müller/Sul21


Iuri Muller e Maurício Brum
Especial para o Sul21
Aldyr Garcia Schlee sabe, como poucos, descrever o cenário do pampa sem recorrer aos clichês da literatura campeira. A visão diferenciada da fronteira começa na própria experiência pessoal do jornalista e escritor nascido em 1934 no sul gaúcho. Jaguarão, sua cidade natal, localiza-se na divisa com o município uruguaio de Río Branco. Dali, Schlee tirou as referências para construir o contexto de culturas irmanadas e a eterna tentativa de fundir os idiomas de um lado e outro do rio, tão presentes em sua obra.
O jornalista Schlee trabalhou no diário porto-alegrense Última Hora, extinto com o golpe militar, e ganhou o Prêmio Esso em 1963. Fora do País, o jaguarense é mais conhecido pelo seu trabalho como artista gráfico: além de planejar visualmente seus livros, ele é o desenhista do uniforme “canarinho” da Seleção Brasileira. Em 1954, aos 19 anos, Schlee venceu um concurso nacional que buscava um novo fardamento para a Copa do Mundo da Suíça, após a frustração sofrida no Maracanã em 1950.
Curiosamente, a ligação com a Seleção se restringe àquele desenho de 57 anos atrás. A proximidade com o Uruguai se refletiu em outros aspectos da biografia de Schlee, que não hesita em se declarar torcedor da Celeste Olímpica. Em tempos mais sombrios, essa identificação com a realidade do país vizinho permitiu que Schlee mantivesse contato com integrantes do Movimento Tupamaro, que lutava contra a repressão no Uruguai – o escritor chegou a abrigar guerrilheiros em sua casa de Porto Alegre.
Hoje, Schlee passa a maior parte do tempo em um sítio na bucólica Capão do Leão, perto de Pelotas, onde avança com seus projetos literários. Autor de muitos livros de contos (entre eles O Dia em que o Papa foi a Melo, de 1991, que inspirou o filme O Banheiro do Papa), o escritor lançou no fim do ano passado o romance Don Frutos, sobre a vida de Fructuoso Rivera, primeiro presidente do Uruguai. Na mesma época, foi surpreendido com a conquista do Prêmio Fato Literário, que acreditava estar nas mãos de Lya Luft.
Aldyr recebeu nosso telefonema no final de uma tarde de fevereiro, poucos dias depois de retornar das férias em Punta del Este, solicitando uma entrevista. Prestativo, o escritor sugeriu um encontro em Pelotas já na manhã seguinte. Na conversa reproduzida abaixo, o escritor fala de suas paixões – literatura, política, futebol e, claro, o Uruguai.
Sul21 – Comecemos falando sobre a ilustração que abre Don Frutos, o último livro lançado.
Aldyr Garcia Schlee – No meio de toda a papelada, dos documentos que eu tive que consultar, que um amigo (Amílcar Brum) conseguiu, havia um inventário da Dona Bernardina Rivera, a esposa do Rivera (Fructuoso Rivera, primeiro e terceiro presidente da República Oriental do Uruguai e protagonista do romance). Quando ela morreu, fizeram um inventário e nos bens constava um retrato do Rivera sem assinatura do autor. Mas cruzando por casualidade a informação com a de um escritor que publicou um livro só com a iconografia do Rivera, achei uma nota dizendo: “há também um retrato do Rivera de autor desconhecido que nunca ninguém viu e que estaria no inventário da Dona Bernardina”. Foi um achado, nada mais literário que isso. Agora eu pinto o retrato do Rivera, atribuo ao desenhista, pintor e gravurista que teria convivido com ele (Herrmann Rudolf Wendroth) e está tudo resolvido. Fiz o desenho, envelheci o Rivera a partir de outros retratos, pintei a forma com que ele teria sido pintado, com cores, um retrato grande, que me deu muito trabalho (demorei quinze dias para pintar) e fiquei cada vez mais entusiasmado com a história, que coloquei no livro. Esses dias estive no Uruguai e acertei a publicação de Don Frutos. Agora eles viram o livro pronto e querem, com pressa.
O outro livro, o do Gardel, dos “Contos Gardelianos” (Os limites do impossível), eu combinei com os uruguaios que eles fazem como quiserem, mas a forma gráfica faz parte do livro e eles precisam respeitar como aqui. E a última revisão precisa ser minha, com cuidado. Isso porque lá no Uruguai eles são escravos do dicionário da Real Academia Espanhola, e como o livro tem muitas expressões em portunhol, com americanismos, mesmo em português, a forma gráfica, a formação da frase, a sintaxe, eu quero manter em espanhol como eu fiz. O primeiro livro que eu fiz em espanhol, O Dia em que o Papa foi a Melo, o cara para qual eu mandei disse “ah, muy bien, tu español es un poco excéntrico, pero tenemos que abrandarlo um poco,  hay muchas palabrotas, impropiedades, situaciones de relaciones sexuales. Hay que abrandarlo”. O cara queria mexer nesse aspecto. Que nem padre jesuíta! Tive que tirar do cara para que saísse como eu queria.



segunda-feira, 14 de março de 2011

Discussão sobre direitos autorais coloca ministra da Cultura em xeque

Reproduzimos matéria publicada na editoria Cultura do  Sul 21 do dia 12/03/2011



Felipe Prestes
Comunicação Social/MinC
A ministra da Cultura, Ana de Hollanda, chegou à Esplanada com os jornais noticiando que era a “irmã do Chico”. Mesmo militantes da área da cultura que apoiam o governo pouco conheciam suas ideias sobre o tema antes que ela assumisse. E com pouco mais que dois meses de Governo Dilma, parece que a maioria deles não gostou nada dos primeiros passos de Ana no cargo. As reclamações contra ela se propagam rapidamente na internet e na imprensa. O motivo é que a ministra teria se tornado um obstáculo ao projeto de reforma da Lei de Direitos Autorais (LDA), que fora discutido durante os últimos quatro anos do Governo Lula.
Por meio do Fórum Nacional do Direito Autoral que, entre 2007 e 2010, realizou mais de 80 encontros com a presença de cerca de dez mil pessoas, o MinC elaborou uma proposta de reforma que estava em fase de consulta pública pela internet. A proposta elaborada quando Juca Ferreira era ministro da Cultura prevê, dentre vários pontos, uma flexibilização do direito autoral para o uso privado. Foi o que gerou a celeuma.
As evidências de que Ana de Hollanda se opõe a esta flexibilização foram se acumulando durante este início de gestão. Primeiro, Ana de Hollanda mandou retirar o selo da licença Creative Commons do site do Ministério da Cultura (MinC). Depois, em uma ação mais concreta, destituiu do cargo de diretor de Direitos Intelectuais do MinC Marcos Alves de Souza, que tinha capitaneado todo o debate público ocorrido durante o Governo Lula. Para seu lugar, Ana nomeou Marcia Regina Barbosa, a quem os descontentes acusam de defender os interesses do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD), órgão privado responsável por cobrar os direitos autorais de compositores a emissoras de rádio e televisão, bares, casas noturnas, entre outros locais de reprodução pública de músicas.
Críticas ao ECAD
A proteção a artistas também estaria colocada pela criação de um órgão público para resolução de conflitos entre o ECAD e os artistas, e também entre ECAD e as empresas que sofrem cobranças do escritório. Hoje, são inúmeras as queixas contra o ECAD. Músicos reclamam sobre falta de transparência nas remunerações. Bares e casas noturnas reclamam de cobranças abusivas.
Há ainda contestações sobre o modelo de arrecadação. O ECAD é uma entidade privada, formada por dez associações de músicos. O escritório não só detém o monopólio das cobranças, como cobra direitos sobre músicas até mesmo compostas por autores não filiados a estas associações, que nunca receberão este dinheiro. Algumas aberrações no modus operandi da entidade são relatadas por muitos músicos. O escritório costuma cobrar, por exemplo, de artistas que tocaram apenas canções de sua autoria em um show. Ou seja, o artista é cobrado por tocar suas próprias músicas.           LEIA MAIS >>>>

Clandestino - Gilberto Isquierdo e Said Baja

  Assim como o Said, milhares de palestinos tiveram de deixar seu país buscando refúgio em outros lugares do mundo. Radicado nesta fronteir...