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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O Centenário do Baiano Jorge


Amado , o melhor


Jorge Amado faria 100 anos hoje. É o melhor escritor brasileiro de todos os tempos. Os críticos literários metidos a intelectuais já gastaram muita tinta para diminuí-lo. Inventaram que ser contador de histórias é ruim. Grande escritor seria aquele que reinventa a linguagem. Um Joyce, que ninguém lê, um Guimarães Rosa, cujas cem primeiras páginas derrubam qualquer um. Outros o detonaram por seu militantismo. É a crítica engajada contra o engajamento. Jorge Amado, afora Paulo Coelho, é o único escritor brasileiro realmente conhecido no mundo. Machado de Assis ainda precisa de aval de intelectuais bacanas como Susan Sontag e Harold Bloom para existir no exterior. Todos os outros, mesmo os que mais amamos, inexistem fora do Brasil, salvo nas notas de rodapé de algum especialista. Nem Drummond, nem Clarice, nem Cabral. O mundo dos mortais só conhece e admira Amado.

Faz sentido. Ele criou personagens, mundos, vidas reais, gente falando linguagem de gente. Só Capitu tem tanta vida quanto um personagem de Amado. E, mesmo assim, perde para a exuberância de Gabriela. Volta e meia, alguém diz que Machado de Assis tem sido atrapalhado pelos limites da língua portuguesa. É balela. Verdade pela metade. A difusão universal da obra Jorge Amado prova que línguas não barram o que encanta as pessoas. A literatura russa está aí para não me deixar mentir. Amado foi um gênio, um craque, um monstro da história popular, da narrativa empolgante, envolvente, completa, com ternura, humor, magia, violência, cor local, sentimentos universais, aspirações transcendentais, sincretismo e tudo mais. Machado de Assis foi Pelé. Jorge Amado foi nosso Garrincha. Em certo sentido, Garrincha foi melhor. Um virtuose no seu gênero, na sua especificidade, o que pode colocá-lo acima de Pelé. O Rei do Futebol tem números que deixam tonto. Amado Garrincha cometeu um erro: ser muito popular. Popular como futebol de rua.

Crítico literário, essa categoria em extinção, adora obra chata. Jorge Amado foi incapaz de ser chato. Tem crítico que só admira um texto se tiver neologismos e afetação. Amado passou longe de qualquer afetação. Era autêntico, espontâneo, vital. Não caiu nas complicações linguageiras de Guimarães Rosa nem na secura de Graciliano Ramos. Foi deliciosamente barroco. Nada a ver com a superficialidade vagabunda de Paulo Coelho. Nem com o umbilicalismo dos autores de agora. Ah, se Cristóvão Tezza, que anda julgando o que teremos de bom no futuro, tivesse escrito uma só página de ficção capaz de atar o cadarço do sapato de Jorge Amado! O Brasil não tem Amado atualmente. Não tem um escritor capaz de emocionar o mundo pela profundidade da sua arte abundante e rica.

A mediocridade impera. Há bons escritores. Nenhum com o porte de Amado. Só se conta historinha. Que saudades de Jorge Amado e do seu tempo. Andei relando Jorge Amado. Pensei em largar tudo só para ter tempo de me exilar dentro dos seus livros. Amado, mil vezes Amado, esse Jorge que mata o dragão com estilo.

Juremir Machado da Silva
juremir@correiodopovo.com.br



quinta-feira, 12 de abril de 2012

Hoje tem Exílios, filme de Tony Gatlif no Cineclube Jaguarão


Filme será exibido  na Casa de Cultura as 20hs. Entrada franca

Zano (Romain Duris) e Naima (Lubna Azabal) estão na Argélia: franceses, namorados, caminham sozinhos na direção oposta a da multidão, misturando-se com ela. Neste plano emblemático de Exílios, Tony Gatlif (prêmio de melhor direção no Festival de Cannes) promove a migração inversa dos personagens, os quais, em busca das lembranças perdidas, entram em contato físico e corpóreo com a realidade sócio-cultural árabe - que, a princípio estranha, acaba por construir a identidade e a memória afetiva do casal.

Exílios abre com plano fechadíssimo nas costas de Zano que, nu, observa o movimento das ruas a partir de seu apartamento, enquanto música unindo motivos árabes e technos – que não se sabe, de início, fazer parte ou não da diegese do filme – fala sobre a necessidade de ouvir os ausentes. Desde já, Gatlif questiona o corpo enquanto local privilegiado onde ocorre a experiência sensível, ou seja, a pele como elemento de transição entre o interior e o exterior, entre o que não se é no presente para o que se quer ser no futuro, através do passado, movimento que estrutura a narrativa sobretudo por meio das canções (a maioria composta pelo cineasta). Estas em geral se iniciam diegeticamente (ouvidas pelos próprios personagens) para depois se expandirem ao filme em si, combinando-se de maneira melódica com os ruídos específicos de cada seqüência.

À proposta de Zano, Naima aceita ir à Argélia. A jornada, que atravessa a Espanha, o Marrocos e o país-destino, serve para os protagonistas reencontrarem suas lembranças: ele, a família que resta na capital, após o exílio forçado do avô músico; ela, a origem árabe, marcante no nome, que o pai negava ao não conversar com a filha na língua natal. Contudo, se a procura parte de objetivos específicos, Gatlif os esvazia ao longo do filme, uma vez que são os acontecimentos – visuais, sonoros, táteis, palatais, olfativos – experimentados pelo casal ao longo da viagem que interessam à narrativa: seja o olhar sobre a terra árida e as cidades destruídas pelas quais atravessam, seja o contato com os irmãos árabes rumo à França ou com o grupo de ciganos, seja os ataques de mosquitos ou a chuva, seja a festa em Sevilha na qual Naima trai Zano com um nativo, seja a reconciliação do casal na plantação de ameixas, seja a tomada, como clandestinos, do barco errado e a conseqüente e não planejada ida ao Marrocos.

Trata-se do ato de in-corporar, através do que o casal apreende e mergulha na realidade alheia que se lhes apresenta. Criar laços, fomentar relacionamentos com todos os “ausentes”, esquecidos e marginalizados que cruzam o caminho dos personagens principais, como no belíssimo plano em que Gatlif destaca o contato da gota de suor, de uma completa desconhecida, no braço de Naima. Assim, não por acaso, há onipresença de manifestações coletivas – a reunião com os ciganos, a festa em Sevilha, o encontro com a família dos irmãos que foram para a França, além da aproximação de Zano com os parentes – que culminam no longo plano-seqüência no qual a protagonista, mais do que apenas passar por simples transe mediúnico, convulsiona o próprio corpo como símbolo da entrega e da identificação com as memórias e lembranças construídas durante o percurso (e, visto que está em jogo a relação entre o corpo de Naima e o meio afetivo que o abriga, a seqüência somente poderia ser filmada em plano único, que mantém a continuidade espacial negada pelo corte).

Gatlif, porém, sabe que Exílios existe enquanto viagem dupla, e não individual, pois o reconhecimento do casal nos Outros passa  pela comunhão entre Zano e Naima: após o ápice representado pelo plano-seqüência, há o singelo corte para o casal se entreolhando, em primeiro plano, com o fundo inteiramente desfocado, como se nada mais existisse fora daquele momento único envolvendo os dois. Ao final, ambos prosseguem, juntos, caminhando não se sabe para onde – já que, de fato, o destino é menos importante que o deslocamento em si, das mulheres e dos homens anônimos que nele surgem –, enquanto o walkman, colocado por Zano no túmulo do avô, toca: a música, ao mesmo tempo simples onda sensível aos ouvidos e verdadeira força transcendente, realiza a ponte entre as memórias adquiridas e o futuro em aberto.

Paulo Ricardo de Almeida
Crítico de Cinema

terça-feira, 10 de abril de 2012

Cinema: arte ou divertimento?


Do Blog do André Setaro 


No seu excelente Ponto de Encontro, coluna que saia todo domingo no Mais! (que acabou) da Folha de S.Paulo, o Professor Jorge Coli, que sempre escrevia coisas pontuais e interessantes, tocou num assunto fundamental, qual seja o do "cinema de arte". Não resisto à transcrição. Saiu no dia 21 de setembro de 2008. O tempo decorrido não desatualiza o que está dito.


"Inácio Araujo, com seu sentido certeiro das formulações, escreveu outro dia em uma de suas críticas na Ilustrada: "Mas, ainda assim, não mais que um "filme de arte'".
É uma frase que abala convenções. Se fosse "não mais que um blockbuster" ou "não mais que um filme de shopping", tudo pareceria coerente. Do jeito que ficou, tem o aspecto de uma contradição: a noção "filme de arte", em princípio, elevada, foi percebida como pejorativa.


É que o chamado filme de arte deixou de ser o campo da invenção e da ousadia, como era percebido até algumas décadas atrás. Existe agora uma concepção preestabelecida que enquadra "filme de arte", com algumas receitas mais ou menos explícitas. Passou a existir o academismo do "filme de arte". Ele cumpre parâmetros e se submete a convenções implícitas, que restringem o espírito criador em benefício de um trabalhinho bem feito.


A razão principal não é cinematográfica.  Ela formou-se a partir de um pacto entre público e diretores culturalmente sofisticados, pacto que se estabelece por meio de sinais exteriores de reconhecimento, espécie de feromônios sem cheiro. Tudo isso substitui a criação cinematográfica mais autêntica.


Sim, perfeito, digo eu, passou a existir o academismo do "filme de arte". Os pseudo-cinéfilos que se deliciam com tudo que passa em sala alternativa da cidade, a pensarem, eles, que se trata de "filmes de arte", estão a trocar bolas, a misturar alhos com bugalhos. É interessante observar o comportamento dos pseudo-cinéfilos quando nas citadas salas alternativas. O Professor Coli foi preciso e tocou no ponto certo, quando diz da existência de um pacto entre público e certos diretores sofisticados, da "moda". Mas, por outro lado, pode advir do chamado cinemão (da indústria cultural hollywoodiana) filmes de grande expressão cinematográfica (Sangue negro, de Paul Thomas Anderson, A árvore da vida, de Terrence Mallick, entre tantos). Já vi gente a torcer o nariz para os filmes de Clint Eastwood, o que é revelador de uma grande, profunda, imensa, ignorância. O grande cinema pode existir em qualquer lugar, quer seja pela obra autoral, quer seja pela obra oriunda de um esquema industrial. O resto é besteira. Cinema de arte não existe!


Os filmes resultam cheios de bons sentimentos, os temas são definidos de antemão como profundos; têm boa iluminação, boa filmagem, boa montagem. Os espectadores se encantam com algumas metáforas fáceis ou alusões que se querem densas. No fim, sai do cinema levemente entediado, mas com a satisfação de um dever cultural cumprido. Tudo isso é bastante simbólico e meio cerimonial. Cinema é uma arte, e a noção "cinema de arte" não é um título de nobreza, mas um pleonasmo. Ninguém consegue dizer de onde vai brotar a criação artística.


Mas voltando às palavras do Professor Jorge Coli: “Clint Eastwood, que nasceu de um cruzamento entre filmes baratos de Hollywood e o western spaghetti, tornou-se um artista maior na história do cinema. As seqüências dos "Alien", dos "Batman", para além da discussão sobre cada filme, formam magníficas sagas. É bobagem multiplicar os exemplos: um filme não é bom apenas porque é "de arte" ou ruim porque blockbuster.
A sensação de tédio, nada boa em princípio, pode, curiosamente, ter um papel valorizador no campo da arte. É um fenômeno perverso. Espera-se das obras que elas ofereçam prazeres superiores, mas não muito bem definidos, que elas tragam revelações preciosas, que agucem a sensibilidade. Em nome deles, suporta-se estoicamente o tédio, imaginando-se que, de algum modo, a recompensa virá mais tarde. Muita gente faz uma distinção nítida entre arte e divertimento, como se divertir com arte fosse quase um pecado.


Existe, por sinal, uma história filosófica desse pecado, que Hans Robert Jauss retraçou em sua "Pequena Apologia da Experiência Estética". A cultura norte-americana, com sua forte pregnância classificatória, insiste muito na separação entre "art" e "entertainment". Simplificando: se é arte, é chato, se é gostoso, não é arte. Esse jogo preconceituoso é péssimo: ele faz engolir gato por lebre e recusar lebre por gato. Há certas obras que são apaixonantes, mas consideradas difíceis. É que o espectador não encontrou as boas chaves para elas. Procurá-las é um desafio: dificuldade não quer dizer tédio, mas estímulo. As artes foram feitas para oferecer prazeres dos tipos e gêneros diversos. “Se eu me aborreço, é que alguma coisa está errada”.


SOBRE ANDRÉ SETARO

Crítico de cinema do jornal Tribuna da Bahia desde agosto 1974, 
pesquisador, professor de Cinema da Faculdade de Comunicação da UFBA 
e autor de Escritos sobre Cinema – Trilogia de um tempo crítico

Fonte: http://terramagazine.terra.com.br

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

El País cultural: A pele dura de Almodóvar


Álvaro Buela

LUEGO DEL ACCIDENTE automovilístico que costó la vida de su esposa, el doctor Robert Ledgard (Antonio Banderas) está empeñado en la creación de una nueva piel sintética en su laboratorio high-tech. Lo está logrando con un cobayo humano de nombre Vera (Elena Anaya), a quien tiene prisionera en su mansión bajo la atenta custodia del ama de llaves (Marisa Paredes) y del control de cámaras de vigilancia. Ledgard ha hecho con Vera una réplica exacta de su esposa muerta, despojándola de su personalidad y aspecto originales.

La identidad remota de Vera se revelará cerca del final, una vez que también se develen otros traumas enterrados en el pasado de Ledgard: el secreto que guarda el personaje de Paredes, la existencia de una hija que se ha suicidado luego de una violación y, sobre todo, el vínculo entre el violador y Vera.

A primera vista, poco hay en La piel que habito (2011) de los manierismos que hicieron de Pedro Almodóvar una celebridad global. En efecto, la gélida textura de la imagen, que se mimetiza con la asepsia del laboratorio de Ledgard, la casi total ausencia de humor, el anclaje en un género más o menos específico (el horror científico) y el tono hierático de las actuaciones se desmarcan de la vitalidad tragicómica y sensual que irradiaba el sector más celebrado de su filmografía.

Ello contribuyó al rechazo de todo espectador que esperara encontrarse con los viejos tópicos con que Almodóvar redefinió la representación de la mujer, la pasión y la hispanidad cinematográficas. En su lugar, dominando con maestría la cámara, el espacio y el tiempo, el cineasta da un salto conceptual de alto riesgo y entrega un artefacto de extraordinaria complejidad que ofrece un permanente juego de polarizaciones entre el qué y el cómo.

MELODRAMA HELADO. Sin embargo, por debajo de esa piel (la del film y la de Vera) al mismo tiempo helada y ardiente, líquida y concreta, controlada y feroz, discurren temáticas y signos propios del cine almodovariano, sólo que acá asumen un aspecto sublimado cercano a la abstracción.




sábado, 28 de janeiro de 2012

Coluna do Juremir: Nei e o Fórum

Nei Lisboa no III Canto do Jaguar - Jaguarão - 2010 

Fomos ver Nei Lisboa no Teatro Renascença. Já faz parte das características de Porto Alegre como o calorão de janeiro e fevereiro, o friozão de agosto, as flautas entre colorados e gremistas, as brigas do Cpers com os governos e o muro do Guaíba. Nei Lisboa é dez. Como os vinhos gaúchos, está cada vez melhor, embora bom mesmo é um bom vinho francês. Está cada vez melhor por ser o mesmo. Tem humor, ironia, sofisticação e simplicidade. Não é para poucos. Ver Nei Lisboa em tempos de Fórum Social Temático, cria do Fórum Social Mundial, faz pensar no slogan do FSM, só que como pergunta levemente modificada: um outro mundo musical é realmente possível?

Ao contrário do que alguns pensam, sou chinelo. Gosto de tudo, até do que não gosto, depende do dia. Gostar não me impede de criticar. A maior bobagem para mim é a frase "respeita o gosto dos outros". Desrespeitar é proibir, chamar a Polícia, sair atirando. Criticar é do jogo. Vejo no funk, no pagode e até no sertanejo universitário expressões de vitalidade. Gente querendo viver intensa e facilmente. Talvez facilmente demais. Há em Michel Teló esse vitalismo da carne, essa pulsão do corpo, esse apelo aos instintos do qual quase ninguém escapa. Mas isso poderia acontecer de outra maneira? Todo gosto é relativo? É lícito pensar na existência de gostos mais ou menos apurados? É preconceituoso pensar em levar o fã de Michel Teló a gostar de Nei Lisboa? Ou, como diz aquela letra altamente poética que chegou a andar na boca de muita gente não faz muito, "cada um no seu quadrado?".

Nei Lisboa é o D''Alessandro da música do Rio Grande do Sul. E D''Alessandro é o melhor jogador do Inter desde Falcão e Carpegiani. Nei fez a escolha do verdadeiro artista: a qualidade acima da grana e da fama. Poderia estar rico se tivesse aderido à ascensão da chinelagem. Oportunidades não lhe faltaram. Poderia, por exemplo, ter feito músicas melosas para folhetins de televisão. Há algum tempo, um compositor admitiu que alguém precisa fazer o "serviço sujo". Por que jogador de futebol não faz gol e pede música de Nei Lisboa? Essa é pergunta muita séria? Ela pode ser refeita assim: como é formado o nosso imaginário musical? Chato? Pensar é chato, perguntar é chato, responder é muito mais chato. Críticos existem para chatear os outros com suas questões chatas. Todo crítico é mala. Eu sou mala. Mala e chinelo. Só que mala e chinelo com surtos questionadores. Pior não há.

Quando ouço Nei Lisboa, penso: é possível fazer música popular e inteligente. Mas daria para usar embaixo do edredom no "BBB12"? Tenho a impressão que não. Aí Nei Lisboa é um fracasso. Não atingiu esse nível de criatividade. Não é fácil fazer música capaz de cair no gosto dos participantes do programa mais vagabundo da história da televisão brasileira. Até a revista Oia, sempre tão populista, admitiu que se trata de um caso de escola de baixaria. Por isso, fui ver o show do Nei Lisboa. Para me limpar. Sair purificado. Uma mala nova.


Juremir Machado da Silva 
juremir@correiodopovo.com.br

Coluna publicada no Correio do Povo em 27/01/2012 - 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Umberto Eco: "O Cânone Ocidental"de Harold Bloom



“O Cânone Ocidental” de Harold Bloom define o cânone literário como “a escolha de livros em nossas instituições de ensino”, e sugere que a verdadeira questão que ele suscita é: “o que o indivíduo que ainda deseja ler deveria tentar ler, a essa altura da História?” E ele observa que, na melhor das hipóteses, dentro do tempo de uma vida é possível ler somente uma pequena fração do grande número de escritores que viveram e trabalharam na Europa e nas Américas, sem contar aqueles de outras partes do mundo. Mesmo nos atendo somente à tradição ocidental, quais são os livros que as pessoas deveriam ler? Não há dúvidas de que a sociedade e a cultura ocidentais foram influenciadas por Shakespeare, pela “Divina Comédia” de Dante, e – voltando atrás no tempo – por Homero, Virgílio e Sófocles. Mas será que somos influenciados por eles porque os lemos de fato em primeira mão?

Isso lembra o argumento de Pierre Bayard, em “Como Falar Sobre Livros que Você Não Leu”, de que não é essencial ler de fato um livro de capa a capa para entender sua importância. Por exemplo, é nítido que a Bíblia teve uma profunda influência tanto sobre a cultura judaica como sobre a cristã no Ocidente, e mesmo sobre a cultura de não-crentes – mas isso não significa que todos aqueles que foram influenciados por ela a tenham lido do começo ao fim. O mesmo pode se dizer sobre os escritos de Shakespeare ou James Joyce. É necessário ter lido o Livro dos Reis ou o Livro dos Números para ser uma pessoa culta ou um bom cristão? É necessário ter lido Eclesiastes, ou basta simplesmente saber em segunda mão que ele condena a “vaidade das vaidades”?

Sendo assim, a questão do cânone não é homóloga à do currículo escolar, que representa o conjunto de obras que um estudante deverá ter lido ao fim de seus estudos. Hoje o problema é mais complicado do que nunca e, durante uma recente conferência literária internacional em Mônaco, houve um debate sobre o lugar do cânone na era da globalização. Se roupas de marca “europeias” são produzidas na China, se usamos computadores e carros japoneses, se até em Nápoles comem hambúrgueres em vez de pizza – resumindo, se o mundo encolheu a dimensões provincianas, com estudantes imigrantes em todo o mundo pedindo para aprender sobre suas próprias tradições – então como será o novo cânone?

Em certas universidades americanas, a resposta veio na forma de um movimento que, mais do que “politicamente correto”, é politicamente estúpido. Como temos muitos estudantes negros, algumas pessoas sugeriram ensinar-lhes menos Shakespeare e mais literatura africana. Uma ótima piada à custa de todos aqueles jovens destinados a saírem pelo mundo sem entender referências literárias universais como o solilóquio do “ser ou não ser” de Hamlet – e, portanto, condenados a permanecerem à margem da cultura dominante. Se tanto, o cânone existente deveria ser expandido, e não substituído. Como foi sugerido recentemente na Itália, a respeito de aulas semanais de religião nas escolas, os estudantes deveriam aprender algo sobre o Corão e os ensinamentos do Budismo, bem como sobre os Evangelhos. Assim como não seria mau se, além de suas aulas sobre a civilização grega antiga, os estudantes aprendessem algo sobre as grandes tradições literárias árabe, indiana e japonesa.

Não faz muito tempo, fui a Paris para participar de uma conferência entre intelectuais europeus e chineses. Foi humilhante ver como nossos colegas chineses sabiam tudo sobre Immanuel Kant e Marcel Proust, sugerindo paralelos (que poderiam estar certos ou errados) entre Lao Tsé e Friedrich Nietzsche – enquanto a maioria dos europeus entre nós mal conseguia ir além de Confúcio, e muitas vezes com base somente em análises em segunda mão.

Hoje, no entanto, esse ideal ecumênico esbarra em certas dificuldades. Você pode ensinar a jovens ocidentais a “Ilíada” porque eles ouviram algo sobre Heitor e Agamêmon, e porque seus rudimentos de cultura incluem expressões como “o julgamento de Páris” e “calcanhar de Aquiles” (embora em um recente exame de admissão de uma universidade italiana um candidato tenha pensado que o termo “calcanhar de Aquiles” se referia a uma doença, como cotovelo de tenista).  Ainda assim, como conseguir fazer com que esses estudantes se interessem pelo poema épico sânscrito “O Mahabharata”, ou pelos poemas dos “Rubaiyat de Omar Khayyam” de forma que essas obras permaneçam em suas memórias? Será que realmente podemos adaptar o sistema educacional a um mundo globalizado quando a vasta maioria dos ocidentais cultos ignora totalmente que, para os georgianos, um dos maiores poemas na história literária é “O Cavaleiro na Pele de Pantera” de Shota Rustaveli? Quando acadêmicos não conseguem nem concordar se, na versão georgiana original, o cavaleiro do poema está na verdade usando uma pele de pantera e não de tigre ou de leopardo? Chegaremos sequer a esse ponto, ou continuaremos simplesmente a perguntar: “Shota o quê?”

Umberto Eco
Fonte: The New York Times
http://www.nytimes.com/ 


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Luzes! Câmeras! Poesia! Balde- Ação! Babel!!


Baldeação remete aos idos do transporte ferrocarril. Para mim evoca o trajeto da estrada de ferro Jaguarão-Pelotas. Na Estação Basílio baldeavam-se os passageiros para o trem que vinha de Bagé e que ia para Rio Grande passando pela Princesa. A pequena Basílio – que, na Revolução da Degola, resistiu ao tiroteio maragato em 1895 – era para mim a fronteira entre o trem bonachão, pasmo e o outro, a babel de negociantes que iam tratar de assuntos no Porto de Rio Grande, uma passagem forçada para o frenesi da vida moderna. Para os basilienses a baldeação era, quiçá, a celebração do evento histórico da Revolução Federalista – vinham todos à pequena estação e sempre mofavam um pouco dos passageiros.

Retomo o significado e a sonoridade da palavra baldeação no contexto do vídeo genial de Jorge Passos, que faz a leitura fílmica do poema Ode à Confraria, de Martim Cesar. Na verdade, um belo soneto cuja irônica chave de ouro constata que: O poeta, enfim, é o caranguejo que se libertou do balde.

O balde é o avesso, o que é imposto. Ora o baldear-se é fugir disto, da imposição. Bueno em termos da semântica, se pode dizer que o vídeo arrancou a poesia do balde, baldeou-a, fez do soneto – rimado, metrificado, disciplinado – palavra social. Baldeou-se a Ode. Confesso minha quase fanática admiração pela obra poética de Martim Cesar. Mas aqui é outro trem. A viagem é que é a mesma, a linguagem do cinema é o movimento, circulação de palavra-moeda, palavra sem dono, porém com seu atributo maior que é o valor.

Não se trata de uma arremetida contra a palavra escrita – são coisas diferentes. Não que as rebeldias intramuros de qualquer arte sejam condenáveis, pelo contrário a dialética das formas estéticas é que impulsiona a criação e o surgimento da renovação em novas escolas. A propósito, aproveito para saudar a antipoesia de Nicanor Parra – irmão mais velho de Violeta – que, do alto de seus 97 anos, logrou o Cervantes em 2011. Ele que viveu à sombra e na antítese da poesia bem escandida de Pablo Neruda. Permito-me seu Autorretrato:

Soy profesor en un liceo obscuro,
He perdido la voz haciendo clases.
(Después de todo o nada
Hago cuarenta horas semanales).
¿Qué les dice mi cara abofeteada?
¡Verdad que inspira lástima mirarme!

Y qué les sugieren estos zapatos de cura
Que envejecieron sin arte ni parte.
(fragmentos)

Sérgio Christino
Jaguarense, radicado em Pelotas, servidor público, advogado, especialista e mestre em Filosofia, tem trabalhos publicados em periódicos científicos nacionais, nas áreas de Ética, Filosofia Moral e Filosofia Política; dedica-se à pesquisa do Idealismo Alemão, donde traduziu, em co-autoria, o ensaio de Hegel sobre o Direito Natural, obra até então inédita em Português.  Militou no teatro amador, por dez anos, no grupo "Cabe na sacola", que se notabilizou pela proposta de um teatro pocket. Perfila-se com a Confraria dos Poetas de Jaguarão
Artigo publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia 15/12/2011

Clandestino - Gilberto Isquierdo e Said Baja

  Assim como o Said, milhares de palestinos tiveram de deixar seu país buscando refúgio em outros lugares do mundo. Radicado nesta fronteir...