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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Juremir: Esclarecimentos sobre a Direita Miami

O mais comum é que cada personagem não tenha consciência da sua personalidade. O Brasil vem sendo dominado, na classe média e na mídia, por um tipo muito especial, o lacerdinha, representante da direita Miami. 


É um pessoal que se acha sem ideologia, pois, para o lacerdinha autêntico, ideologia é coisa de esquerdista comedor de criancinha. A direita Miami acredita que todo esquerdista é comunista de carteirinha e que sonha com uma sociedade no modelo da Coreia da Norte.


O ideal da direita Miami é comer hambúrguer na Flórida, visitar a Disney todos os anos, ler a Veja, ver BBB, copiar e colar artigos de colunistas que falam todo dia da ameaça vermelha – e não é o Internacional nem o América do Rio -, esbaldar-se em shoppings sem rolezinhos, salvo de patricinhas e mauricinhos, e denunciar programas governamentais, exceto de isenções de impostos para ricos, como esmolas perigosas e inúteis.


A direita Miami tem uma maneira curiosa de raciocinar.
– Se você é esquerdista, por que vai à Europa?
– Não entendi a relação – balbucia o ingênuo.
– Se você é esquerdista, por que tem plano de saúde?


A direita Miami contabiliza as mortes produzidas pelo comunismo, no que tem razão, mas jamais pensa nas mortes produzidas pelo capitalismo no passado e no presente. Mortes por fome, falta de condições sanitárias e doenças evitáveis não impressionam os lacerdinhas. Não parece possível à direita Miami que se possa recusar o comunismo e o capitalismo brasileiro. A social-democracia escandinava, por exemplo, não chama atenção dos sacoleiros de Miami. É uma turma que quer muito Estado para si e pouco para os outros. De preferência, muito Estado para impedir greves, estimular isenções fiscais para grandes empresas e reprimir movimentos sociais.


O mais curioso na direita Miami é que, embora defenda o Estado mínimo na economia, salvo se for a seu favor, gosta de Estado robusto em questões morais como consumo de drogas e de sexualidade, aquelas que, mesmo criticando, costuma praticar e exigir tratamento diferenciado quando o Estado flagra algum dos dela em conflito com a lei. A direita Miami fala ao celular, dirigindo, sobre a sensação de impunidade no Brasil e, se multada, denuncia imediatamente a indústria da multa.


A direita Miami é contra cotas, Bolsa-Família, ProUni e todos esses programas que chama de assistencialistas e eleitoreiros. Vive de olho no impostômetro e, para não colaborar com a excessiva arrecadação dos governos, faz o que pode para sonegar o que deve ao fisco. Roubar do Estado que gasta mal parece-lhe um dever moral superior.
Um imperativo categórico.


A direita Miami vive denunciando Che Guevara, mas nunca fala de Pinochet. Se dá uma melhorada na economia dos camarotes, pode torturar e matar. As vítimas são esquerdistas mesmo. A direita Miami adora metrô em Paris, quando vai até lá, apesar de achar que tem muito museu chato e pouco shopping bacana, mas é contra estação de metrô no seu bairro. Tem medo que atraia “marginais”. A última moda da direita Miami é o sertanejo universitário. Quanto mais a tecnologia evolui, mais a direita Miami se torna primária. O que lhe falta, resolve com silicone.

Juremir Machado da Silva

         Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 29/01/2014

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O Centenário do Baiano Jorge


Amado , o melhor


Jorge Amado faria 100 anos hoje. É o melhor escritor brasileiro de todos os tempos. Os críticos literários metidos a intelectuais já gastaram muita tinta para diminuí-lo. Inventaram que ser contador de histórias é ruim. Grande escritor seria aquele que reinventa a linguagem. Um Joyce, que ninguém lê, um Guimarães Rosa, cujas cem primeiras páginas derrubam qualquer um. Outros o detonaram por seu militantismo. É a crítica engajada contra o engajamento. Jorge Amado, afora Paulo Coelho, é o único escritor brasileiro realmente conhecido no mundo. Machado de Assis ainda precisa de aval de intelectuais bacanas como Susan Sontag e Harold Bloom para existir no exterior. Todos os outros, mesmo os que mais amamos, inexistem fora do Brasil, salvo nas notas de rodapé de algum especialista. Nem Drummond, nem Clarice, nem Cabral. O mundo dos mortais só conhece e admira Amado.

Faz sentido. Ele criou personagens, mundos, vidas reais, gente falando linguagem de gente. Só Capitu tem tanta vida quanto um personagem de Amado. E, mesmo assim, perde para a exuberância de Gabriela. Volta e meia, alguém diz que Machado de Assis tem sido atrapalhado pelos limites da língua portuguesa. É balela. Verdade pela metade. A difusão universal da obra Jorge Amado prova que línguas não barram o que encanta as pessoas. A literatura russa está aí para não me deixar mentir. Amado foi um gênio, um craque, um monstro da história popular, da narrativa empolgante, envolvente, completa, com ternura, humor, magia, violência, cor local, sentimentos universais, aspirações transcendentais, sincretismo e tudo mais. Machado de Assis foi Pelé. Jorge Amado foi nosso Garrincha. Em certo sentido, Garrincha foi melhor. Um virtuose no seu gênero, na sua especificidade, o que pode colocá-lo acima de Pelé. O Rei do Futebol tem números que deixam tonto. Amado Garrincha cometeu um erro: ser muito popular. Popular como futebol de rua.

Crítico literário, essa categoria em extinção, adora obra chata. Jorge Amado foi incapaz de ser chato. Tem crítico que só admira um texto se tiver neologismos e afetação. Amado passou longe de qualquer afetação. Era autêntico, espontâneo, vital. Não caiu nas complicações linguageiras de Guimarães Rosa nem na secura de Graciliano Ramos. Foi deliciosamente barroco. Nada a ver com a superficialidade vagabunda de Paulo Coelho. Nem com o umbilicalismo dos autores de agora. Ah, se Cristóvão Tezza, que anda julgando o que teremos de bom no futuro, tivesse escrito uma só página de ficção capaz de atar o cadarço do sapato de Jorge Amado! O Brasil não tem Amado atualmente. Não tem um escritor capaz de emocionar o mundo pela profundidade da sua arte abundante e rica.

A mediocridade impera. Há bons escritores. Nenhum com o porte de Amado. Só se conta historinha. Que saudades de Jorge Amado e do seu tempo. Andei relando Jorge Amado. Pensei em largar tudo só para ter tempo de me exilar dentro dos seus livros. Amado, mil vezes Amado, esse Jorge que mata o dragão com estilo.

Juremir Machado da Silva
juremir@correiodopovo.com.br



segunda-feira, 28 de maio de 2012

Correio do Povo: Jaguarão ganha Centro Público de Economia Solidária

Espaço, localizado no bairro Pindorama, sedia agora cursos
e palestras- Crédito Fernanda Barbier - divulgação - cp

Centro abre chances de inclusão

Comunidades do bairro Pindorama e arredores, em Jaguarão, contam agora com um espaço que oferece alternativas de trabalho às famílias do município. Trata-se do Centro Público de Economia Solidária, situado na esquina das ruas Coronel de Deus Dias e Aurélio Bittencourt. A inauguração ocorreu neste mês.


No local, funcionava o antigo Centro Social do bairro, prédio que ficou abandonado desde o fechamento da entidade e era alvo de constantes depredações, destaca o secretário de Cidadania e Direitos Humanos, Luciano Barreto Terra. Segundo ele, em 2009, a prefeitura lacrou o prédio e apresentou projeto ao Ministério do Trabalho e Emprego para restauração, adequação e recuperação do imóvel. O investimento total na adaptação foi de R$ 217 mil, oriundos do órgão e de contrapartida do município.

O secretário informa que, além da comunidade do Pindorama, são beneficiados moradores de outros 11 bairros próximos. De acordo com ele, o objetivo é capacitar principalmente pessoas que exerçam alguma atividade solidária, como a produção e a venda de pastéis, salgadinhos e rapadas para que possam incrementar sua renda. Entre os cursos estão os de panificação e doceria. Haverá também aulas de corte e costura, trabalhos em lã crua e informática básica. O local tem ainda salas para o programa Brasil Alfabetizado e outras atividades. O Centro funciona diariamente, das 8h às 17h.

Correio do Povo - Cidades - Edição do dia 28/05/2012

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Esperança:Última fase de obras no teatro de 115 anos

Na primeira etapa do restauro, os trabalhadores encontraram 
uma série de objetos ligados à história do prédio.
 Crédito: arquivo da smct / cp

Palco do Esperança é importante espaço cultural para a região desde 1897

O Teatro Esperança, inaugurado em Jaguarão em 1897, passará pela segunda e última etapa de restauro. O edital de licitação foi publicado pela prefeitura neste mês. A edificação é tombada pelo Estado desde 1990 e integra o Conjunto Histórico e Paisagístico da cidade. A fase final terá investimento de R$ 4 milhões, oriundos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, e contrapartida municipal de R$ 156 mil. Segundo a diretora de Patrimônio da Secretaria de Cultura e Turismo, Andréa da Gama Lima, estão previstos 18 meses de trabalho. Serão recuperados palco, camarins, plateia, balcão nobre, escadas, recepção, piso, forro e lustre. O plano inclui os sistemas de iluminação e sonorização, além de novos banheiros

A primeira parte do restauro foi concluída em 2010, na qual o Iphan investiu R$ 1,1 milhão e a prefeitura, R$ 75 mil. Andréa diz que nessa etapa foram recuperados o telhado, a pintura decorativa de mural e as galerias. Também houve a reforma da estrutura de madeira, dos camarotes e do piso principal. Segundo ela, com a remoção do chão, os trabalhadores encontraram uma série de objetos ligados à história do prédio, como antigos folhetos de espetáculos, moedas e louças. "Esses fatos apontam para a necessidade de se realizar um projeto de prospecção e escavação arqueológica no local, a partir de um convênio entre a prefeitura e a Universidade Federal do Pampa, por meio de parceria no campo patrimonial", explica.

O teatro é um importante espaço cultural para a região Sul desde o fim do século XIX. Conforme Andréa, devido à posição estratégica de Jaguarão, a casa recebeu companhias dos grandes centros do país, que seguiam para Argentina e Uruguai. Também funcionou como cinema e palco de apresentações circenses e bailes. 

Caderno Cidades - Correio do Povo, edição de 29/04/2012

sábado, 28 de janeiro de 2012

Coluna do Juremir: Nei e o Fórum

Nei Lisboa no III Canto do Jaguar - Jaguarão - 2010 

Fomos ver Nei Lisboa no Teatro Renascença. Já faz parte das características de Porto Alegre como o calorão de janeiro e fevereiro, o friozão de agosto, as flautas entre colorados e gremistas, as brigas do Cpers com os governos e o muro do Guaíba. Nei Lisboa é dez. Como os vinhos gaúchos, está cada vez melhor, embora bom mesmo é um bom vinho francês. Está cada vez melhor por ser o mesmo. Tem humor, ironia, sofisticação e simplicidade. Não é para poucos. Ver Nei Lisboa em tempos de Fórum Social Temático, cria do Fórum Social Mundial, faz pensar no slogan do FSM, só que como pergunta levemente modificada: um outro mundo musical é realmente possível?

Ao contrário do que alguns pensam, sou chinelo. Gosto de tudo, até do que não gosto, depende do dia. Gostar não me impede de criticar. A maior bobagem para mim é a frase "respeita o gosto dos outros". Desrespeitar é proibir, chamar a Polícia, sair atirando. Criticar é do jogo. Vejo no funk, no pagode e até no sertanejo universitário expressões de vitalidade. Gente querendo viver intensa e facilmente. Talvez facilmente demais. Há em Michel Teló esse vitalismo da carne, essa pulsão do corpo, esse apelo aos instintos do qual quase ninguém escapa. Mas isso poderia acontecer de outra maneira? Todo gosto é relativo? É lícito pensar na existência de gostos mais ou menos apurados? É preconceituoso pensar em levar o fã de Michel Teló a gostar de Nei Lisboa? Ou, como diz aquela letra altamente poética que chegou a andar na boca de muita gente não faz muito, "cada um no seu quadrado?".

Nei Lisboa é o D''Alessandro da música do Rio Grande do Sul. E D''Alessandro é o melhor jogador do Inter desde Falcão e Carpegiani. Nei fez a escolha do verdadeiro artista: a qualidade acima da grana e da fama. Poderia estar rico se tivesse aderido à ascensão da chinelagem. Oportunidades não lhe faltaram. Poderia, por exemplo, ter feito músicas melosas para folhetins de televisão. Há algum tempo, um compositor admitiu que alguém precisa fazer o "serviço sujo". Por que jogador de futebol não faz gol e pede música de Nei Lisboa? Essa é pergunta muita séria? Ela pode ser refeita assim: como é formado o nosso imaginário musical? Chato? Pensar é chato, perguntar é chato, responder é muito mais chato. Críticos existem para chatear os outros com suas questões chatas. Todo crítico é mala. Eu sou mala. Mala e chinelo. Só que mala e chinelo com surtos questionadores. Pior não há.

Quando ouço Nei Lisboa, penso: é possível fazer música popular e inteligente. Mas daria para usar embaixo do edredom no "BBB12"? Tenho a impressão que não. Aí Nei Lisboa é um fracasso. Não atingiu esse nível de criatividade. Não é fácil fazer música capaz de cair no gosto dos participantes do programa mais vagabundo da história da televisão brasileira. Até a revista Oia, sempre tão populista, admitiu que se trata de um caso de escola de baixaria. Por isso, fui ver o show do Nei Lisboa. Para me limpar. Sair purificado. Uma mala nova.


Juremir Machado da Silva 
juremir@correiodopovo.com.br

Coluna publicada no Correio do Povo em 27/01/2012 - 

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Coluna do Juremir: Reflexões sobre o Enem


Reproduzimos a Coluna do Juremir Machado no Correio do Povo, edição do dia 26/10/2011 

<br /><b>Crédito: </b> ARTE PEDRO LOBO SCALETSKY

Crédito: ARTE PEDRO LOBO SCALETSKY
Todo ano, na época do Enem, reflito sobre o vestibular. É o sistema mais cruel já aplicado por um país contra os seus jovens. Está baseado na falsa justiça da meritocracia. Um país sério estabelece o escore mínimo a ser alcançado por um estudante para entrar na universidade e banca vagas para todos os aprovados. Esse conhecimento mínimo é exigido em nome do bom acompanhamento das atividades universitárias. Já o vestibular cria uma competição entre os adolescentes, isenta o Estado de abrir vagas para todos e gera a ideia de que só os "melhores" devem chegar à universidade. O primeiro erro é pensar que os vencedores são, de fato, os melhores. Fazer a mesma prova no mesmo horário não estabelece igualdade na competição. As condições de preparação são profundamente desiguais. Salvo exceção, vence o que teve mais tempo e melhores condições de preparação. O vestibular reproduz a desigualdade social.

A segunda falácia do vestibular diz respeito à ideia de que só os melhores devem entrar na universidade. Por quê? É uma concepção elitista, discriminatória e oportunista. Permite a um extrato social manter a ocupação dos melhores espaços da sociedade. A universidade deve receber todo mundo e "melhorar" os menos bons ou os piores. Cada jovem deve ter o direito de ser "melhorado" nos bancos do ensino superior. Deve ser fácil entrar na universidade. Difícil tem de ser a saída. A justificativa para a utilização do vestibular sempre foi a de que não haveria recursos para bancar todo mundo na universidade. É conversa fiada. Por trás dessa racionalização esconde-se a mentalidade meritocrática de reprodução do modelo social dominante. Aos ricos, a universidade. Aos pobres, o ensino técnico. Salvo, obviamente, as exceções que confirmam as regras. O Brasil ficará muito mais decente quando o vestibular acabar.

Volta e meia alguém deixa escapar seu elitismo com um "agora qualquer um entra na universidade" ou "o ensino superior já não é mais o mesmo, pois recebe todo mundo". É isso aí. A universidade precisa receber qualquer um. Exames de saída do ensino médio também são seletivos. Podem ser feitos por fileiras (científica, literária, ciências humanas). Para vencer em cada fileira é adequado fixar um rendimento mínimo em certas matérias. Todos que atingem a meta passam a ter direito a uma vaga. Claro que é mais fácil jogar os jovens numa luta fratricida e lavar as mãos. Chama-se isso de seleção dos melhores. O governo economiza e a sociedade atualiza o mecanismo, denunciado pelo sociólogo Pierre Bourdieu, da distinção social reproduzida pela educação classificatória. O Chile escolheu um modelo ainda mais perverso: a privatização total da educação. Só estuda quem pode pagar caro. É o mesmo que muitos desejam para a saúde. Um tiro no pé.

O Enem precisa transformar-se no exame único de saída do antigo segundo grau e de entrada no mundo do ensino superior. As resistências são óbvias. É muito mais simples organizar tudo como se fosse um campeonato com troféus para quem faz mais gols. Só que é injusto. A época do vestibular passou. Já é tempo de um novo tempo.
Juremir Machado da Silva 
 juremir@correiodopovo.com.br

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Da Coluna do Juremir: Amy e Harry


Publicamos da Coluna do Juremir Machado no Correio do Povo do dia 27/07/2011

<br /><b>Crédito: </b> ARTE PEDRO LOBO SCALETSKY
Crédito: ARTE PEDRO LOBO SCALETSKY
Ficção e realidade confundem-se cada vez mais. Amy Winehouse se foi ao mesmo tempo em que chegou ao fim a saga cinematográfica do personagem mais chato da história das telas e da literatura, o bruxinho insípido Harry Potter, grande formador de futuros leitores de Paulo Coelho. Amy, como Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix, Brian Jones e Kurt Kobain, morreu antes dos 30. Os bons morrem aos 27. Os médios, aos 72. Os ruins parecem imortais. É o meu consolo. E dos meus críticos. O grande poeta Jean-Arthur Rimbaud, um dos maiores de todos os tempos, também morreu cedo. Largou a poesia aos 20 e foi traficar armas na África, o que, já naquela época, era mais rentável e admirado. Os bons querem viver intensamente. Podem errar brutalmente o caminho, mas buscam sempre o máximo. Amy era personagem de um mundo anacrônico, ultrapassado pela ideologia esotérica e mercantil da era insossa de Harry Potter.

A revista francesa Les Inrockuptibles lançou um manifesto de repúdio a Harry Potter, o eleito sem mérito, cujos "poderes" são inatos ou concedidos por seus protetores, o bonzinho insuportável, o bom menino que não faz artes. Especialmente não faz arte, "inodoro, incolor e sem sabor, garoto intelectualmente banal num universo extraordinário". Um medíocre com bom comportamento. Assino embaixo. Amy era mau exemplo? Pode ser. Não soube viver mais. Naufragou no álcool e nas drogas. Perdeu o controle do seu lado maldito. Harry Potter é bom exemplo? Não. Era o bem transformado em lição permanente de moral. Estou de luto pela morte de Amy Winehouse. Em contrapartida, espero que Harry Potter não volte para atormentar nossas crianças e nossos adolescentes com seu mundo mágico barato. Chega de bruxos, de vampiros e de malas.

Tem muito psicanalista tecendo loas a Harry Potter. Conversa fiada. A única bruxinha interessante era Amy. Morrer cedo é sempre um bom caminho para a sobrevivência. Che Guevara virou mito. Não pagou o mico de ser visto, como Fidel Castro, com um abrigo horrível da Adidas. Humor sombrio à parte, não estamos mais nos anos 1960, como qualquer um já deve ter percebido, se bem que alguns são lentos, e não cabe elogiar a loucura, a morte precoce ou a abertura das "portas da percepção", ou do outro lado, pelo consumo de drogas. Há algo, porém, de inquietante e provocativo nessa sede de viver e nessa incapacidade de aquietar-se. Dizem que Amy não soube lidar com a fama. Besteira. A fama não lhe bastava. Ela não soube encontrar satisfação apenas na fama, que parece bastar aos medíocres. Amy foi o oposto de Harry Potter.

Terrível é saber que ela não voltará. Já Harry Potter sempre poderá ressurgir. Que medo! Amy provou que não há reabilitação para o excesso de talento e para a inconformidade com o trivial do cotidiano. O que ela queria? Não sei. Certamente prazer, felicidade, amor, satisfação e todas essas coisas que para alguns não se resumem a ser famoso ou a poder voltar para casa cheio de sacolas com produtos de grife. Na maldição de Amy havia alguma coisa a ser aproveitada. Xô, Harry Potter. Vai.

Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br
http://www.correiodopovo.com.br

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Conselho do IPHAN confirma Jaguarão como cidade histórica e a Ponte Mauá é o primeiro bem Binacional tombado


Ponte Mauá é o 1º bem binacional tombado

Via une Jaguarão a Rio Branco, no Uruguai

Em reunião realizada do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em Brasília, a Ponte Internacional Mauá, em Jaguarão, no Sul do Estado, é o primeiro bem binacional tombado pelo órgão. Construída no início do século 20, a via une a cidade brasileira a Rio Branco, no Uruguai.



Segundo comunicado de hoje do Iphan, os conselheiros aprovaram também o tombamento do conjunto histórico e paisagístico da cidade gaúcha de Jaguarão como patrimônio cultural do País, "uma área urbana que guarda um acervo considerável de bens culturais, com edificações coloniais, ecléticas, art déco e modernistas".

Na mesma reunião foi decidido que o acervo do Museu do Trem, no Rio de Janeiro, uma das maiores referências da memória ferroviária brasileira, e dois bairros de Belém do Pará (Cidade Velha e Campina) são patrimônio cultural.

Com mais de mil itens considerados de valor histórico, o acervo abrange equipamentos ferroviários, utensílios, mobiliário e até locomotivas como a Baroneza, construída na Inglaterra, movida a vapor e a primeira a trafegar na estrada de ferro de Petrópolis. Outros destaques do acervo são um vagão usado pelo ex-presidente Getúlio Vargas e outro em que viajou o Rei Alberto, da Bélgica, quando esteve no Brasil em visita oficial, em 1922.

O bairros da capital paraense são "um dos maiores e mais íntegros conjuntos urbanos do País, dando à cidade de Belém configuração peculiar", segundo o Iphan. O conjunto arquitetônico, que compreende cerca de três mil edificações, mistura "traços básicos da arquitetura europeia com a cultura local, arquitetura neoclássica, exemplos arquitetônicos expressivos do período eclético, com grande concentração de exemplares de arquitetura azulejar, e arquitetura de ferro".

Fonte: http://www.correiodopovo.com.br

Lástima que esse tombamento não tenha vindo há quarenta anos. Teria evitado crimes como a retirada das antigas luminárias da Ponte e a construção dos mostrengos do Banco do Brasil, CEF e Banrisul no lugar onde havia prédios históricos admiráveis.  

quinta-feira, 31 de março de 2011

Coluna do Juremir no Correio do Povo: Seres infames

Reproduzimos coluna do Juremir Machado no Correio do Povo de hoje sobre luta de Joaquin Nabuco. 


Luta que ainda perdura, mesmo que nossa cidade não tenha, graças ao bom Deus, nenhum indicio de racismo, somos exemplo para o Brasil.  "Não , nós não somos racistas." (clique aqui para ler).
Segundo as ponderadas  palavras da Promotora de justiça  em pronunciamento ( clique aqui pra ler)  sobre caso de estudante baiano pretensamente agredido pela BM em Jaguarão , casos como esses ela tem mais de 40 por dia e , pelas suas palavras, chegamos à conclusão de que a truculência com que seriam tratados os "arruaceiros" por aqui é sem distinção de cor, raça ou credo. Portanto,o corretivo é aplicado democraticamente.
Também digno  de nota,  manchete do semanário "A Folha" de Jaguarão . A Escola Bolsonaro tem seus discípulos espalhados pelo país , inclusive na fronteira. Ei-la: "Estudante baiano mancha imagem da Cidade Heróica em rede nacional de TV, jornais e internet."    ( Jorge Passos)


SERES INFAMES

<br /><b>Crédito: </b> ARTE RODRIGO VIZZOTTO

Crédito: ARTE RODRIGO VIZZOTTO
Mostrei ao governador Tarso Genro, na terça-feira, antes de entrevistá-lo na comemoração do primeiro ano do "Esfera Pública", programa que apresento todos os dias, entre 13h e 14h, na Rádio Guaíba, junto com Taline Oppitz, um parágrafo do livro "O Abolicionista", de Joaquim Nabuco, um dos maiores intelectuais brasileiros. Tarso, homem de livros e de sensibilidade social, sabe perceber a força das palavras. Dizia Nabuco, antes da abolição da escravatura: "Tudo o que significa luta do homem com a natureza, conquista do solo para a habitação e cultura, estradas e edifícios, canaviais e cafezais, a casa do senhor e a senzala dos escravos, igrejas e escolas, alfândegas e correios, telégrafos e caminhos de ferro, academias e hospitais, tudo, absolutamente tudo que existe no país, como resultado do trabalho manual, como emprego de capital, como acumulação de riqueza, não passa de uma doação gratuita da raça que trabalha à que faz trabalhar", doação forçada dos negros aos brancos.

Os negros "doaram gratuitamente" o Brasil construído aos brancos, que nunca os indenizaram por isso. Sempre que alguém brada contra as cotas, eu penso nessa dívida jamais quitada. Somos todos beneficiados por essa "doação" obtida de maneira infame. Pensei nisso ao ler as declarações do indigesto Jair Bolsonaro ao ser questionado por Preta Gil, no programa "CQC", se aceitaria o relacionamento de seu filho com uma negra. O infame Bolsonaro, com quem já discuti na Rádio Guaíba, respondeu que "não corria o risco", pois "eles foram muito bem-educados". Bolsonaro deveria ler esse texto de Joaquim Nabuco. Mas seria inútil. Analfabeto intelectual, ele não o entenderia. Nos últimos anos, só discuti com um sujeito tão intragável quanto Bolsonaro, o insuportável Juca Chaves, cujo reacionarismo já não faz mais ninguém rir.

Bolsonaro alega que se enganou. Não teria pensado que Preta falava em relacionamento do filho dele com uma negra, mas com um gay. Tenta escapar da infâmia racista abrigando-se na infâmia do preconceito sexual. Além de racista e homofóbico, parece burro, se isto não for preconceito meu com esses pobres animais. O preconceito corre solto no Brasil. Tapamos o sol com a peneira nos estádios de futebol. Depois que publiquei "História Regional da Infâmia, O Destino dos Negros Farrapos e Outras Iniquidades Brasileiras", vi pessoas mudaram de comportamento comigo. Não me assusto. Releio Nabuco sobre o primeiro dever de qualquer um no século XIX: "Antes de discutir qual o melhor modo para um povo ser livre de governar-se a si mesmo - é essa a questão que divide os outros - trata de tornar livre a esse povo, aterrando o imenso abismo que separa as duas castas sociais".

Para Joaquim Nabuco não havia dúvida, "o abolicionismo deveria ser a escola primária de todos os partidos, o alfabeto da nossa política". Tudo o mais era menor. Continua sendo. Precisamos abolir o preconceito. Enquanto os Bolsonaro da vida vomitarem infâmias, será preciso combatê-los a golpes de Nabuco. Demora. A inteligência cala lentamente no concreto da estupidez.

Juremir Machado da Silva 
 juremir@correiodopovo.com.br

sexta-feira, 25 de março de 2011

Correio do Povo: Denúncia de racismo e agressão contra estudante da Unipampa

Universitário abandona Jaguarão após denunciar agressão e racismo de PMs


Estudante da Unipampa será recebido por representantes da Secretaria de Direitos Humanos na Capital


O estudante de História da Unipampa, Helder Santos, que denunciou ser vítima de racismo e agressões por integrantes da Brigada Militar (BM) de Jaguarão, no Sul do Estado, abandonou o município na noite dessa quinta-feira. Ele está em Porto Alegre, onde será recebido por representantes da Secretaria Estadual de Direitos Humanos. O acadêmico, que trabalhava na prefeitura, alega que foi obrigado a deixar a cidade por conta de ameaças recebidas de Policiais Militares (PMs). Ele pretende voltar à Bahia, onde nasceu, e ainda não sabe se conseguirá tocar os estudos. 



O caso está sob análise da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial, ligada à Presidência da República, e da Promotoria de Direitos Humanos do Ministério Público gaúcho. A Brigada Militar tem duas sindicâncias em andamento contra um soldado, um sargento e o comandante da BM de Jaguarão, major José Antônio Ferreira.


O major disse que houve “sensacionalismo” e afirmou que está apurando o que aconteceu. No entanto, o secretário Estadual de Justiça e Direitos Humanos, Fabiano Pereira, afirma que a denúncia é grave e será alvo de atenção da pasta. Ele designou duas equipes, uma de investigação e outra de proteção, para a cidade de Jaguarão. 


Na Capital, Santos será enviado para um abrigo de acolhimento provisório. Depois, vai voltar para a Bahia. “Eu não sei nem o que falar, porque eu vim pra cá com tantos sonhos, já estava concretizando alguns deles trabalhando como estagiário de história na prefeitura, e vou ter que abandonar tudo e retornar para casa”, lamentou ele, em entrevista à Rádio Guaíba.


Santos é o primeiro integrante da família a iniciar formação universitária, mas corre o risco de ter de parar de estudar, caso o Ministério da Educação não consiga sua transferência para uma universidade no Nordeste. 
                                                                                  LEIA MAIS >>>> 


O estudante  Helder vinha desenvolvendo um bom  trabalho junto à  Coordenação da Juventude da Secretaria de Cidadania e Direitos Humanos de Jaguarão com o Projeto Cine Resistência vai ao Presídio,  voltado à juventude carcerária. (Clique aqui para ler)


Sobre a discriminação racial no Brasil:

 "Em 3 assassinados, 2 são negros. Não , nós não somos racistas."  (Clique aqui para ler) , matéria publicada na  página do PHA,  Conversa Afiada , refere-se à reportagem da Carta Capital sobre   racismo e violência no Brasil,  na qual é revelado que  " nunca o fosso entre a segurança dos brancos e negros foi tão grande no Brasil. Enquanto o número de assassinatos de uns cai, o dos outros segue em alta." 


Lamentamos o acontecido e aguardamos o esclarecimento dos fatos e a punição dos responsáveis. A Brigada Militar é uma Instituição que é patrimônio do Estado e nos orgulha pelos grandes serviços prestados à comunidade e não pode ser prejudicada por alguns elementos que não cumprem seus preceitos legais. O cidadão dela espera a segurança para todos, sem distinção. 

Agora que contamos com uma Universidade Federal que atrai estudantes de todas as partes do Brasil,  a imagem da Jaguarão sempre hospitaleira  não pode ser maculada por ações que não fazem parte de nossa história. 

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Entrevista com Helder
http://rsurgente.opsblog.org/



Último Segundo - iGEstudante diz que foi chamado de "negro sujo" e ameaçado pela PM - Hélder é baiano e estuda no Rio Grande do Sul. Reitora também recebeu carta, dizendo que a universidade traz "lixo" para o Estado.



Correio do Povo - Jovem deixa o RS após denúncias
http://www.correiodopovo.com.br/Impresso/?Ano=116&Numero=182&Caderno=0&Noticia=274944

ZH -

Denúncias envolvendo PMs por supostas agressões em estudante geram surpresa em Jaguarão

http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1&section=Geral&newsID=a3258601.xml


Blog do Juremir - Atos Infames e dia de recordar a infâmia de 1964

sexta-feira, 4 de março de 2011

Luta pela imortalidade

Reproduzimos a Coluna do Juremir Machado no Correio do Povo de hoje


Arte: Pedro Lobo Scaletsky
<br /><b>Crédito: </b> PEDRO LOBO SCALETSKY      Essa não! Merval Pereira na Academia Brasileira de Letras em lugar de Moacyr Scliar? É piada. Só pode ser sacanagem do Macaco Simão. Quem conhece Merval Pereira? É aquele colunista do jornal O Globo cujos textos são quilométricos e planos como certas rodovias atravessando desertos. No caso, imensos desertos de ideias, imagens e figuras de linguagem. Merval Pereira é o grau zero da literatura. Na televisão, os seus comentários são hesitantes, tatibitates, povoados pela inexistência absoluta de humor, ironia ou qualquer frase inteligente. Merval publicou um livro: "O Lulismo no Poder". Um monumento ao reacionarismo rasteiro, trivial e metódico. A grande qualidade literária de Merval é ser da Globo.

Sei, sei: estou com inveja. Eu sou a pessoa menos invejosa do mundo. Só tenho inveja de 6 bilhões de pessoas no planeta. Sou megalomaníaco. Capaz! Se eu fosse, me candidataria para a Academia. A Francesa. Que a brasileira não está à minha altura. Alguém acredita numa bobagem dessas? É pura brincadeira com o senso comum. Dã! Tenho de explicar a piada. Merval Pereira vai concorrer certamente com Antonio Torres, que é um escritor de verdade. O poeta Ferreira Gullar, pelo jeito, não vai encarar. Só pode ser vaidade ou medo de perder. Gullar é um baita poeta, um gigante, da estatura de Drummond, Quintana, Vinicius, Bandeira e João Cabral. "Poema Sujo" é melhor do que Ana Paula Arósio e Gisele Bündchen à disposição da fruição estética numa mesma cama. Imaginem só, perder para o escritor Merval Pereira! Aí é a várzea.

Essa vaga, contudo, devia ficar com um escritor gaúcho: Luiz Antônio de Assis Brasil, Luiz de Miranda ou Luis Fernando Veríssimo. O Miranda merece. É um ótimo poeta. Muita gente nunca o leu, mas não gosta dele com aquela alegação preconceituosa: ele é chato. Assis Brasil é um craque como romancista. Veríssimo é vaidoso demais para candidatar-se. Anotem aí, eu, o invejoso e megalomaníaco, defendo que a vaga do Scliar na ABL poderia ser do Veríssimo, de quem sou o único desafeto. E não comecem com papinho furado do tipo "ele está arrependido, "está pedindo desculpas", "deu o braço a torcer" e outras baboseiras dignas de um Merval Pereira. O problema da ABL é que para cada grande, como Scliar, são escolhidos seis toupeiras como José Sarney, Ivo Pitanguy, Paulo Coelho e outros ainda bem menos cotados.

Qual a importância de pertencer a Academia Brasileira de Letras? Nenhuma. Qual a importância de torcer para um time de futebol? Nenhuma. Então, está visto, é muito importante. Além de extremamente perigoso. Entrou, morreu. Mas não é por isso que estou indicando o Veríssimo. Longa vida ao meu mais célebre inimigo. Na verdade, isso de que o cara dura pouco na ABL é mito. O Sarney está lá desde o século XVIII. Apenas um século depois de ter assumido o poder no Maranhão e chegado ao Senado. De minha parte, quero me equiparar a Machado de Assis. É o mínimo que posso merecer e desejar. Fundarei uma academia. A Academia Palomense de Letras. A APL.

Juremir Machado da Silva
juremir@correiodopovo.com.br

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