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sábado, 21 de março de 2015

Alguns são todos, ou todos são alguns?

Trabalhar com a lógica as vezes nos traz algumas informações bem legais. Num conjunto de 15 cães, 3 são ferozes e maldosos (faz de conta que um cão tem esta característica). Posso dizer que todo o conjunto é feroz e maldoso? Não, seria uma sacanagem com os 12, que inclusive são maioria. E se dizer que todos não são ferozes e maldosos? Também seria sacanagem com os demais de fora, além de acobertar os ferozes e maldosos. A lógica é clara (e usamos em vários conhecimentos, muito comum na matemática). "Alguns não são todos, e todos não são alguns". Quando damos aulas aos alunos do Ensino Fundamental e Médio, é comum, às vezes, colegas comentarem sobre determinada turma, em função de alguns alunos "bagunceiros". Tipo, "aquela turma não dá pra trabalhar", "é horrível". Pronto, transformamos o "alguns no todo". E isto é ruim pra quem? Para aquela maioria que não era "horrível" como se propagava com este discurso, mas pagava o pato. 
O objetivo aqui não é tratar de como os professores devem agir numa situação destas, mas demonstrar como, por falta de uma compreensão elementar de lógica, sacaneia-se muitas pessoas de bem. O senso comum, apesar de ser por onde devemos começar uma análise, é provido de vários preconceitos (conceitos prévios, não provados, portanto não verdadeiros). E também por operações lógicas desatentas. Uma delas é justamente esta: Confundir Alguns com Todos, e Todos com alguns.

Hoje, e de muitos anos, pois já abordava isto lá pelos idos de 1989, no campo da política, há grupos de pessoas alicerçadas por grupos de Mídia (TV, Rádio, Jornal), que alimentam esta terrível argumentação totalmente desprovida de lógica. Vejamos: quando algumas pessoas (políticos) se corrompem, e como é possível corromper individualmente, não há necessidade do todo, no caso os partidos. Estes apenas tem suas Comissões de Ética para tratar do assunto e suas propostas e bandeiras, que é onde as pessoas poderiam e deveriam estabelecer os debates, defendendo ou combatendo (ideias) de um lado ou outro.
Assim, se uma agremiação tiver milhares de membros, e 5 ou 8 forem corrompidos ou corruptores, eu posso dizer que "Alguns são todos". Da mesma forma não. Assim, apenas estaremos sacaneando os corretos, e ainda ajudando os corruptos a se esconderem no meio de todos. Por isso não gosto destas generalizações, que a própria lógica demonstra, não resolvem o problema. Neste caso, teríamos que verificar onde estão as situações mais propícias para a corrupção. Uma delas está bem clara. Financiamento privado por grandes grupos econômicos a candidatos, que eleitos, estão sujeitos a defenderem os interesses destes grupos (até aí, ainda não se configura exatamente a corrupção, mas a opção de lado). Mas em determinado momento em que estas empresas tem interesses em licitações por exemplo, aí sim, percebemos como funciona o causo. E uma vez investigados nomes que, por ventura, possam estar envolvidos, e uma vez comprovados, será que podemos concluir que "Todos são Alguns". 
Esta noção do senso comum, muito apreciada e difundida justamente por grupos econômicos que operam com a corrupção, ajuda em muito a manter os corruptos quase a salvo, no meio de todo o conjunto. Enquanto não aprendermos a dar nome aos bois, de todos os lados, e evitar generalizar para todo o conjunto, também se estará ajudando os corruptos. O importante na política é debater os projetos, sem preconceitos ou lógicas falsas. Defender isto ou combater isto, por conta disso e disso. Pressionar o governo tal para encaminhar tal projeto. De outra forma, ajudar-se-á a manter a situação como está. Em muitas manifestações pairou o senso comum principalmente através da Rede Globo, já que a Reforma Política praticamente não foi apresentada como tema fundamental, porém a ideia de que "Alguns são todos", sim, é o que mais percebi, e pior, de um lado só. Além da falsa lógica que ajuda a corrupção, ainda tem a parcialidade. 


Carlos José  de A. Machado
 
Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 18/03/2015 
 

sábado, 7 de dezembro de 2013

O Presidente Jango e o 13º Salário

A Gratificação natalina, ou décimo terceiro salário, que os trabalhadores devem receber neste mês de dezembro, para quem não sabe, foi instituída no governo do Presidente João Goulart por meio da Lei 4.090, de 13/07/1962. O Globo estampava em sua matéria de capa em 26 de abril de 1962: Considerado desastroso para o País um 13º Salário. “ Mal recebido por meios econômicos e financeiros a aprovação pela Câmara do Projeto que seria uma medida de cunho meramente eleitoreiro”

O conglomerado midiático da “famiglia” (máfia) Marinho sempre defendeu os interesses das oligarquias contra a população. O benefício para a classe trabalhadora foi conquistado e sancionado pelo Presidente, mesmo contra toda a pressão contrária por parte do empresariado, mercado financeiro e mídia conservadora que depois apoiaria o Golpe militar contra Jango para impedir a implementação das reformas de base. Não é por acaso que vemos repetida a mesma história tanto tempo depois. Hoje, a Organização Marinho é uma das maiores opositoras ao Bolsa Família só para dar um exemplo, além de exercer um terrorismo informativo diariamente. As pessoas que assistem ao Telejornal “Mau dia Brasil” são atingidas por um pessimismo em relação ao País que não está de acordo com o que vemos na vida real. Dizem que o pior cego é quem acredita na Globo.

A exumação dos restos mortais do Presidente João Goulart, acontecida há poucos dias em São Borja, para tentar elucidar as causas de sua morte representou muito mais que uma mera investigação policial. Representou um verdadeiro desagravo a esse político que teve sua memória aviltada pela mídia antes e depois de 1964. Conta-nos o Saul Leblon na Carta Maior : “ A ditadura só autorizou o sepultamento do ex-presidente, em São Borja, em túmulo a 40 metros do de Getúlio Vargas, com féretro blindado. Mesmo assim, na última hora, o então ministro do Exército, Sylvio Frota, da extrema direita militar, tentou anular a autorização expedida pela cúpula do governo Geisel. Era tarde. Morto, Jango retornava ao Brasil 13 anos depois de expulso pelas baionetas e pelas manchetes do jornalismo conservador. O caixão lacrado, conduzido em carro a alta velocidade, cruzaria a fronteira de Uruguaiana a 120 km por hora, vindo de Mercedes, na Argentina, onde ficava a estância dos Goulart. Ladeava-o um aparato militar com ordens expressas de não permitir manifestações populares no trajeto. Inútil. Quando chegou a São Borja, a população em peso nas ruas cercou o cortejo; o caixão foi conduzido à catedral, de onde cruzaria a cidade em marcha solene até o cemitério. “Jango, Jango, Jango!” Gritos guardados no fundo do peito desafiaram a presença das tropas”.

Leio que a exumação de Jango não mereceu mais que alguns segundos no Fantástico da Globo que no mesmo programa dedicou intensa cobertura aos cinquenta anos do assassinato do Presidente estado-unidense J. F. Kennedy. Isso já era de se esperar, para quem sempre apoiou o Brasil subjugado aos interesses do império norte americano. Por falar em Kennedy, recebi questionamento de um aluno da Unipampa sobre o porquê do bairro onde está instalada a Universidade levar o nome do Presidente ianque. Confessei que não sabia. Teria sido gratidão do governo militar pelo apoio dos EUA ao Golpe de 1964? Uma boa questão para o Curso de História. Quem sabe , consultados os moradores , não seria interessante apresentar um Projeto de Iniciativa Popular trocando o nome do Bairro para Presidente João Goulart?


Jorge Passos

Publicado na coluna Gente Fronteiriça do jornal Fronteira Meridional em 04\12\13



terça-feira, 13 de março de 2012

Julgamento em Jaguarão - Só o povo tem esse direito



      Quem julga hoje, pode ser julgado amanhã. Por isso a ponderação, a serenidade, a capacidade de afastar as suas paixões, na hora de um julgamento, serão sempre os grandes fundamentos de um julgador. Não cremos estar havendo isso neste presente momento no Tribunal montado na Câmara de Vereadores de Jaguarão. Querem julgar um ato mínimo como se máximo fosse. Julgam um ato administrativo, onde houve um erro (se de fato houve), cometido por funcionário da atual administração, como se isso fosse um ato passível da maior das penas. 

        Há, no Direito Penal, um princípio chamado de Princípio da Proporcionalidade na Fixação da Pena, cabível no presente caso. A pena deve, sim, ser aplicada em correspondência ao ato realizado. Quem cometeu o erro que seja julgado proporcionalmente ao erro cometido. No caso do Direito Administrativo, são aplicadas penas que vão desde a advertência, a suspensão, até a pena máxima, para casos extremos, que é a demissão do serviço público. Não nos parece o caso. Muito pelo contrário. Da maneira que vem sendo conduzido o processo atual, chegamos ao ponto de uma total insegurança na hora de se administrar uma cidade; pois se, a cada erro de administrações futuras, houver um julgamento em que a maioria julgadora for de opositores, teremos certamente a mesma situação. Ninguém, portanto, terminará seu mandato. Ressalvados os casos em que, é claro, a maioria for de apoiadores do seu partido. Ora, isso não é – obviamente – um julgamento justo. Desprovido de paixões, em favor da racionalidade e da proporcionalidade da pena a ser aplicada. 

          É hora de todos aqueles que lutaram pela Democracia, pela Legalidade (e nisto lembro a campanha do governador Leonel Brizola lutando contra forças obscuras, há anos atrás; forças obscuras e manipuladoras como também se mostram no cenário atual), aqueles que lutaram pelas Diretas Já, aqueles que ainda lutam pela honestidade como parâmetro político, lutarem agora com as forças democráticas e do bom senso para que não ocorra uma vendetta eleitoreira, capaz de retirar da população o seu direito máximo: o de decidir quem deve ser o seu governante, ou seja, aquilo que muitas gerações lograram conseguir e que, agora, por motivação política, uns poucos querem negar. Que, nas eleições vindouras, o povo diga não ao atual prefeito então, mas que seja o povo. Só o povo. Pois só ele tem esse direito. Que se aplique a pena proporcional a quem errou, mediante o processo administrativo correspondente; mas que se deixe ao povo o direito de escolher quem deve ser o seu governante. O povo brasileiro, e o jaguarense por extensão, conquistou isso e dele não deve ser retirado esse direito, sob pena de estarmos atentando contra a democracia. Sim... a democracia, esse bem que tardou tanto a chegar e que, à custa do sacrifício de muitos,  foi, enfim, por todos nós  conquistado. 

Martim César Gonçalves

domingo, 16 de outubro de 2011

“Jaguarão: alguns aspectos de sua história”


          A região onde hoje se encontra Jaguarão, primeiramente foi território indígena. Neste espaço geográfico do Pampa, uma nação viveu, por milhares de anos, sendo classificada pelos estudiosos como Tradição Umbu.  Com o tempo, tornaram-se ceramistas nômades da zona pampiana, e seus vestígios, potes de barro cozido, são identificados pelos arqueólogos como Tradição Vieira.  Com a chegada dos colonizadores passariam a ser chamados de Minuanos pelos espanhóis e portugueses ou Guenoas pelos jesuítas. (1) Deles sobrou apenas a história e os vestígios arqueológicos.
          Com a vinda dos europeus estas terras passam a ser disputadas  pelas Coroas espanhola e portuguesa,  o que acabou forçando a assinatura de vários tratados. O mais importante foi o de Madri (1750) no qual o RS acaba ficando praticamente com o mapa atual, ligado à Coroa Portuguesa. Porém, na prática isto não se concretiza e só em 1801, com o Tratado de Badajós, fica estabelecida a fronteira, tendo o Rio Jaguarão e o Arroio Chuí como limites entre Portugal e Espanha.  Por conta disso, Portugal envia uma Guarda Militar para às margens do Rio Jaguarão,  dando origem ao povoado que mais tarde se tornaria uma das principais cidades gaúchas no século XIX.   De Guarda da Lagoa e do Serrito (1802) se transformará logo em seguida na Freguesia do Divino Espírito Santo de Jaguarão (1812). 

Fonte: Instituto Histórico e Geográfico de Jaguarão.  Desenho da cidade atribuído a uma equipe francesa, contratada por D.Pedro II, para retratar lugares do Brasil. Desenho de 1817. (Data e autor a confirmar)
      Em 1832 é elevada a Vila, que na época tinha status de município, pela autonomia que possuíam. Neste período havia uma radicalização na província, que geraria em seguida a Guerra dos Farrapos. Nossa Câmara Municipal foi a 1ª a declarar apoio à  República do Piratini.
      A cidade foi se desenvolvendo a partir do comércio e contrabando com o Uruguai, e a partir da 2ª metade do séc. XIX, começa ser edificado o casario que até hoje ostenta sua imponência aos turistas que aqui chegam.
       Em 1845, o então Conde de Caxias determina a construção de várias fortificações no RS para proteção do Brasil, porém só foi erguido efetivamente o Forte D. Pedro II em Caçapava do Sul.  Em Jaguarão, o projeto seria no Cerro da Pólvora,  porém ainda não temos evidência que tenha sido iniciado. O trabalho arqueológico realizado em janeiro de 2011 nas ruínas da Enfermaria, dentro do Processo da  criação do Centro de Interpretação do Pampa, não identificou nenhum registro. No entanto, ainda não está descartada a hipótese, pois esta construção teria sido pensada para mais acima, próximo à torre de TV.
       Em 1846 ganhamos uma sede ecleseástica (Católica), o que levou ao começo das obras da Igreja Matriz do Divino Espírito Santo, concluída em 1867, no local onde se encontrava a antiga Igreja.

    Em 23 de novembro de 1855 Jaguarão é elevada a Cidade.  É considerado o 12º município gaúcho.  Em 1864 são iniciadas as obras do atual Mercado Público, concluído em 1867.    Em 27 de Janeiro de 1865, aconteceu o célebre conflito  com os orientais, dentro do contexto das guerras platinas.  Para desviar a atenção do Brasil sobre Montevidéu, o Cel. Munhós ataca Jaguarão, entrando pelo Paço da Armada. A Guarnição local, em número inferior, sob o comando do Cel. Manuel Pereira Vargas, juntamente com os policiais e a população local, conseguiu resistir, até a retirada dos invasores.  Isto rendeu a Jaguarão o título de Cidade Heróica. 




   Fonte: Instituto Histórico e Geográfico de Jaguarão.  Aquarela achada em um Sebo em Montevidéo e doada ao Instituto Histórico e Geográfico de Jaguarão. Datada de 1880. Autor desconhecido.

          
     Jaguarão se manteve entre as principais cidades gaúchas, tanto na política como na economia, até o início do século XX.  Seu desenvolvimento recuou quando da construção da ferrovia Rio Grande-Bagé e posteriormente Montevidéo-Rio Branco, uma vez que sua economia baseava-se fundamentalmente no comércio com o Uruguai.  A posse de Carlos Barbosa no Governo do Estado em 1909 e a construção da Ponte Internacional Mauá, concluída em 1930, fez com que a cidade ainda mantivesse status político e uma movimentação de capital e trabalho. Contudo, nas décadas posteriores dar-se-á um recuo econômico e a cidade, apesar de ter mantido seu status por longo período, pouco a pouco  vai  perdendo   prestígio e elementos que constituíam sua vida: aeroporto, fábrica de café, atividades culturais, jornais, políticos influentes no Estado, etc.  Isto tudo passou a pesar no inconsciente das pessoas, chegando a formar-se a idéia negativa “Jaguarão do  já teve”.   Este, talvez seja o grande desafio para os atuais gestores, não apenas políticos, mas das mais variadas entidades da cidade.  Resgatar a auto-estima da população, demonstrar que Jaguarão é uma “Jóia rara da arquitetura brasileira” e que estava em processo de hibernação, mais ou menos como nos foi colocado por um fotógrafo da National Geográfica que aqui esteve em setembro de 2009.

Paisagem antiga do Centro Histórico de Jaguarão. Com exceção (infelizmente) da esquina, onde hoje é o Banco do Brasil,  os demais prédios, com algumas variações (o sobrado ganhou mais um andar) e a praça,  que hoje é o Largo das bandeiras, mantém-se tal como eram.

    A publicidade estadual e nacional em torno do Tombamento do Centro Histórico da Cidade, e do tombamento Binacional da Ponte Internacional Mauá, é um dos aspectos que vem demonstrar este novo caminho, ou nova maneira de caminhar. E claro que não chegaríamos a este patamar se não tivéssemos  um grupo  de pessoas certas,  em lugares certos, e no momento certo.   Agora é cuidar e aproveitar aquilo que na maioria das cidades, sobretudo as de grande porte, não existe mais, e que aqui temos em abundância: um patrimônio material e imaterial invejável, prédios, cultura e memória, inclusive na zona rural,  um rio extremamente poético, uma paisagem ímpar, entre outros elementos.  A cidade é capaz de deixar perplexo, positivamente, um turista que por ventura fique algumas horas em Jaguarão, mesmo sem termos ainda infra-estrutura necessária para recebê-los em grande quantidade. Se conseguirmos superar as limitações que possuímos, e partirmos para a ofensiva, seguramente esta cidade, juntamente com seu entorno e a cidade irmã Rio Branco (Uruguai), será parada obrigatória para qualquer viajante ou turista.   “Somos uma pérola que havia ficado perdida.  Agora temos que apossarmo-nos dela, e mostrá-la para o resto do mundo.”

Carlos José de Azevedo Machado  (Prof. Maninho)

 1.     Pereira, Claudio Corrêa. Minuanos/Guenoas. Os Cerritos da bacia da Lagoa Mirim e as origens de uma nação pampeana. Porto Alegre: Fundação Cultural Gaúcha-MTG, 2008. (fragmentos)    

 

terça-feira, 14 de junho de 2011

Reflexões Fundamentais

       
O imediatismo do cotidiano de nossas vidas acaba levando  muitas pessoas a não usarem a capacidade de utilização de uma arma fundamental para a transformação da própria existência.  A possibilidade de enxergar além daquilo que parece ser, de redirecionar nossa vida se assim for necessário. É pensar novos caminhos e não acreditar que é impossível. 
               
           Existe uma parábola que nos ajudará a entender onde quero chegar   “Havia uma corrida de sapinhos onde o ganhador seria condecorado com uma grande premiação.  Mas o público que estava ao redor (achando impossível os sapinhos chegarem  até o final da pista sem desistirem,  uma vez que era muito longa) gritava e ironizava os sapinhos: - Vocês não vão conseguir, vocês não vão conseguir....   E pouco a pouco cada sapinho ia desistindo. Permanecia apenas um. Que, parecendo não dar bola para o que o senso geral dizia, seguiu em frente até chegar ao final.  Foi aí que todos perceberam que o  sapinho em questão não os escutava pois era surdo.”

Ora, é assim que muitos de nós, homo sapiens agimos.  Acreditamos que isso e aquilo  é impossível.  Por isso é preciso, eventualmente,  pararmos e “taparmos nossos ouvidos e olhos” tão acostumados com o dia a dia, e refletir sobre os acontecimentos.  É necessário utilizar aquela arma que citei, que nada mais é do  que a Reflexão Filosófica.  Pensar de forma radical, rigorosa e global sobre os  fenômenos que acontecem (para usar um conceito da filósofa Marilena Chauí). É claro que não precisamos direcionar esta nossa arma para tudo. Mas é fundamental, de vez em quando, utilizá-la com vigor. Claro que,  sem dúvida,  no nosso IMEDIATISMO  seria uma coisa quase “impossível” (não é mesmo?),  uma vez que não paramos para as coisas MEDIATAS (que servem a um propósito maior, ou a um alcance um pouco mais adiante).  O normal é pensarmos: “Quando não tiver nada pra fazer aí então eu paro para  uma reflexão deste gênero”.   Só que aí já poderá ser tarde ou nossa vida já ter andado um longo caminho sem melhoras substanciais.   E daí, acaba-se vivendo  “a  vida que nos é dada, da forma que nos é colocada”, o que não nos difere de forma significativa dos demais primatas.   

Estas pequenas grandes paradas para a reflexão filosófica é que servem para as grandes transformações de nossa vida, de nosso cotidiano e de nosso mundo.   Se isto não for importante então realmente,  não precisamos da FILOSOFIA.  Afinal não “vamos conseguir”, certo?


Carlos José de A. Machado
     (Prof.  Maninho)

Texto publicado no Jornal Fronteira Meridional, edição do dia 09/06/2011

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Jaguarão como patrimônio histórico e cultural – a importância de uma universidade



Há muito tempo esta cidade clamava por um reconhecimento de seu patrimônio arquitetônico e de sua cultura fronteiriça, o que hoje é uma realidade. Há aproximadamente seis anos temos instalado em solo jaguarense a Universidade Federal do Pampa, a qual tem contribuído para legitimar Jaguarão como patrimônio histórico cultural nacional. A UNIPAMPA não é só mais uma Universidade em nossa cidade como tantas outras já foram como extensões, ela é o caminho para nós, jaguarenses, estudarmos nosso passado, conhecermos nosso presente e projetarmos para o futuro a cidade que queremos.
Como moradores desta cidade, quer sejamos alunos ou tenhamos algum membro de nossa família freqüentando os bancos universitários, precisamos abrir nossas mentes e nossos corações para acolher os professores e os estudantes que escolheram o nosso chão para trabalhar e estudar, com a hospitalidade que é característica da nossa cidade fronteiriça. Chamo atenção para o fato de que nós ainda não nos demos conta da grande conquista que é ter uma Universidade Federal em nosso território, ter o privilégio de conhecer e interagir com outras culturas de diversos cantos do nosso Brasil, tão rico em diversidade. Essas pessoas, que agora vivem e convivem conosco no dia a dia, vem para contribuir para o conhecimento de nossa história, através de projetos de pesquisa ligados ao patrimônio cultural da cidade, pois um povo sem memória é um povo fadado à estagnação e, portanto, a desaparecer.
O nosso papel, como moradores conscientes desse apoio vindo de fora, é o de contribuir nessa busca pela nossa identidade cultural. Por isso temos que parar de pensar na Universidade Federal do Pampa – UNIPAMPA – como um freeshoping, que se instalou no nosso quintal para que alguns obtivessem lucro com a vinda dessas pessoas para cá. Como diria Cazuza: “Eu vejo o futuro repetir o passado...”, porque quantas oportunidades tivemos de mudar o futuro de nossa cidade para melhor e acabamos fazendo com que esse futuro nunca chegasse,  por sermos um povo arredio e avesso a mudanças.
A UNIPAMPA e seus professores têm uma tarefa muito maior do que simplesmente formar professores, gerenciadores de turismo e pedagogos que é de fazer com que nossa cidade continue a ser reconhecida por sua cultura material, conseqüência do trabalho de seu povo.

Nelson Luís Corrêa 
acadêmico do curso de História 

Texto publicado no jornal Fronteira Meridional , edição do dia 02/06/2011. 

domingo, 10 de abril de 2011

Caso Realengo. Em defesa da Educação, da Escola e dos Professores

Publicamos a seguir, carta da Professora de Letras da Unieuro de Brasília,  Ruth Ester Poitevin, sobre o caso Realengo e as repercussões na mídia.

Será mesmo que tudo é culpa da Educação, da Escola e dos Professores?
Qual é a minha parte como mãe, como pai,  como família no comportamento da criança, do adolescente, do jovem?
Será mesmo que os professores e as escolas deverão tomar para si uma responsabilidade que é dos pais - a de criar um filho emocionalmente saudável, preparado para viver em sociedade, que tenha respeito e dignidade?
Estou cansada de ouvir frases como estas que ouvi da imprensa nesta semana: "A educação, no Brasil, está falida" ; "As escolas, no Brasil estão atrasadas, são obsoletas!"; "Os professores brasileiros são despreparados; não sabem lidar com crianças, com os jovens muito menos".
Realmente, ninguém que seja professor está preparado para assumir responsabilidades que não são suas, muito menos criar e educar filhos de outros.; ser agredido, verbal ou fisicamente por crianças e jovens emocionalmente perturbados!
É fácil  responsabilizar os outros pelo nosso fracasso como pais, pela nossa omissão perante os atos de nossos filhos. É conveniente passar para os outros uma responsabilidade que é nossa, porque jamais seremos cobrados!
Professor, colega! Chega de sermos  chamados de irresponsáves, despreparados, atrasados, obsoletos, etc.
Está na hora de pensar e agir em relação a isso. Está na hora de cada instituição da sociedade assumir a sua função e com muita responsabilidade!

Professora  Ruth Ester Poitevin

Considerações sobre Realengo

Publicamos a seguir,  carta do leitor Arnaldo D'Ávila sobre tragédia de Realengo.


Temos que refletir... por que isso aconteceu? O que você está ensinando para o seu filho? Quais valores você está passando para ele? Você ensina ele a respeitar as diferenças?

Ah! aquele dali é estranho... ah! aquela ali é maçaneta... ah! aquele ali é gordo... ah! aquele outro dali é preto, amarelo, azul, aquele outro é mulherzinha, bicha, viado... ah,  a mãe dele é puta... dizem que o pai dele é maconheiro e por aí vai... O que estamos fazendo com as nossas crianças heim? Quem está criando esses monstros? Revejam seus conceitos, pois isso pode ser apenas o começo.
Nos Estados Unidos já passam de 20 chacinas como essa. Tomara que essa fatalidade faça as pessoas refletirem sobre suas passagens na terra e sobre o que elas estão fazendo para que se tenha uma sociedade verdadeiramente humana e igualitária. Agora, se as pessoas contiuarem pensando somente nos seus umbigos, nos seus bolsos, suas casas, seus carros, seus mundinhos particulares e de futilidades, não se espante se você ou alguém de sua família ou círculo de amizades for a próxima vítima, no cinema, na escola, no parque.
Não quero causar pânico em ninguém, apenas suplico que as pessoas reavaliem seus conceitos, porque a maior culpa é da sociedade e a sociedade somos nós.
Atenção! Eu falo de fazer alguma coisa verdadeiramente! Não é mudando seu status no ORKUT ou no Facebook, trocando sua foto por um símbolo de luto ou entrando na comunidade A, B ou C relacionadas à tragédia que as coisas vão mudar, É hora de nos abraçarmos e sentirmos o amor verdadeiro e incondicional e respeitarmos uns aos outros, termos compaixão, praticarmos a caridade, quem pratica a verdadeira caridade não sai divulgando, isso é outra coisa,  é marketing pessoal. E não leva a lugar nenhum. Respeito, amor, solidariedade, amizade, inclusão... é disso que precisamos, não exclua o outro por ele ser diferente, por pensar diferente, por ser calado, etc. etc. etc.
No fundo o que todos querem é serem amados, portanto ame para ser amado também e lute contra as injustiças.
Agora,  só nos resta orar pelas crianças mortas nessa tragédia, por suas famílias e por todos que estão traumatizados por sobreviver e presenciar esse horror.
                                                                          Arnaldo D'Ávila

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Inquietações - Caso Helder Santos

INQUIETAÇÕES

As violações de nossos direitos básicos, onde as desigualdades, marginalização e exclusões, em muitos momentos, parecem ser encaradas com naturalidade, precisam ser enfrentadas. Não podemos esquecer que vivemos numa democracia, ainda que recente, e precisamos lutar por ela, no sentido de direitos humanos e cidadania. Nós, jaguarenses, não gostaríamos de passar por essa situação falsamente estereotipada em nosso município. O fato ocorreu e, todavia, além de lutarmos para garantia dos Direitos Humanos, precisamos também labutar contra programas sensacionalistas, de audiência e promoção pessoal, que não levam em consideração o outro, desabonando, portanto, a dignidade da pessoa humana, que não é respeitada. Contudo, nesse momento temos que abolir preconceitos já estabelecidos, e nos permitirmos aguardar as averiguações que estão sendo feitas no presente caso, para que a dignidade da pessoa humana seja entendida e respeitada em sua plenitude.

Nós, jaguarenses, não somos racistas, mas a mídia, em muitos momentos, se acha no direito de fazer seus pronunciamentos, de dar suas notícias de forma a criar factóides impactantes no mundo societário, e justamente é contra esse tipo de procedimentos que precisamos labutar, para que seja respeitada a dignidade da pessoa humana.

No presente contexto, penso que cabe uma reflexão: o povo jaguarense, na última eleição, elegeu, na condição de cargo máximo do município, um professor de História negro, identificado com as discussões inerentes às suas raízes. Este fato deve ser levado em consideração, nos momentos em que mídia larga uma notícia bombástica, determinando que a cidade de Jaguarão seja racista, e outra ainda, de que o estudante Helder teve de sair às pressas da cidade. Ora, vivemos em democracia, e as relações não mais se estabelecem com a ponta de um fuzil, e mesmo que essa democracia ainda seja jovem, esse tipo de prática já ficou para trás, desde há muito tempo. Precisamos lembrar que, para gozarmos deste estado democrático e de direitos, muitos desapareceram, outros tantos sucumbiram, por isso, o que mais me espanta é ver jovens comparando o que vivemos hoje com o vivenciado à época da ditadura militar.

Espanta-me também um jovem dizer que está exilado na capital do estado do Rio Grande do Sul, pois esta época não mais nos pertence. Não esqueçamos que vivemos num estado democrático e de direito, e, mesmo que nem todos os direitos sejam garantidos, não podemos e não devemos ser saudosistas à ditadura. Vivemos em democracia e acreditamos na busca contínua da dignidade da pessoa humana, onde cada ser humano deve ser reconhecido como membro inerentemente valioso da comunidade humana e como uma expressão única de vida, como um corpo integrado do convívio com o outro e com o diferente.

A tentativa de comparar Jaguarão a uma cidade do faroeste estadunidense, não é de todo mau, em verdade, me agrada, pois as cidades do faroeste norte americano, no Séc. XIX, eram locais de aventuras dos desbravadores. O que me inquieta neste momento é o fato da mídia divulgar que nós, jaguarenses, somos racistas. Consiste em inverdade por vários motivos, mas me atenho, no presente momento, ao fato de termos um governo de base popular e democrático em todas as suas ações, onde a participação popular é o sangue que move todo o funcionamento governamental.

Sabemos que existe racismo camuflado em nossa sociedade, assim como o abuso de poder, mas essas atrocidades são pautadas de forma contundente em um governo onde o acesso popular é permitido. Disso, nós jaguarenses não podemos esquecer. As averiguações no caso do estudante da UNIPAMPA estão sendo realizadas, e espero que seja colocado a público pela grande mídia da mesma forma, mas com atenção a não descriminalização de ninguém, levando em conta o principio constitucional da dignidade da pessoa humana, tanto para corporação da Brigada Militar, quanto para o estudante. É sabido que em alguns momentos os policiais estão tensos, considerando cada cidadão um suspeito, um sujeito perigoso, além do fato de que esse cidadão deve obedecer às ordens, simplesmente, sem questionar, só que esse modus operandi tem que se tornar apodrecido, pois nós, cidadãos, elegemos, com a democracia, uma polícia cidadã, e essas práticas não cabem mais.

A penalização é algo que levamos muito em conta, mas já paramos para pensar que a linha é tênue entre sermos ou não penalizados? O poder de polícia sobre nossas vidas, neste momento e no caso em tela, encontra-se, a meu ver, tanto no fardado quanto no civil, e fortalece uma austeridade e um autoritarismo escancarados no cotidiano de nossa sociabilidade. Quando sentimos a necessidade de punir muito maior do que o aguardo pelas averiguações, é esse sentimento que demonstramos. Se a penalização fosse a garantia de vivermos em paz, sem violência e atrocidades, tudo seria maravilhoso, mas o que nos é revelado é que as penalizações não reabilitam a ninguém.

Todavia, o que me parece sensato é trabalharmos com uma concepção de respostas percursos, que provem da problematização, da ultrapassagem dos modelos propostos às situações problema. Nessa concepção, não se comporta começo nem fim, ela é deliberadamente inacabada. É um meio possível para o encontro de outras respostas, sem a pretensão da universalização como comporta o conceito de modelo, mas sim buscando elementos que possam contribuir para um processo contínuo. Sou uma apreciadora da liberdade e as palavras intencionadas de um discurso não me convencem. Precisamos das respostas percursos, na idéia de termos ações mais humanísticas e amorosas.

Raquel Couto Moreira 
Jaguarense, Pedagoga, Psicopedagoga, 
Acadêmica 10º sem/ Direito, Mestre em Política Social.

Reflexões - Caso Helder Santos


O  fato em si já é  conhecido por todos que acompanharam as entrevistas e notícias.  Com a proporção do caso, e considerando o velho ditado  que diz  “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”, resolvi discorrer sobre o assunto.


A princípio, baseado nos fatos relatados, tivemos uma atuação lamentável de  alguns policiais (que inclusive seriam  de fora da cidade e que estão lotados aqui), quando foi demonstrado um sentimento racista, além de mostrar quanto ainda é falha a formação destes profissionais.   O fato é lastimável  e o amigo Helder deve levar adiante suas denúncias. Agora,   outro fato,  é o que saiu através de entrevistas com a vítima (Helder), onde o estudante cita o fato de existir um Comando  ou Milícia a serviço de um grupo social aqui em Jaguarão.     Bom, se isso é verdade, tem que ser investigado até a raiz (a partir de fatos), porém nada tem a ver com o primeiro caso (abordagem truculenta e racista).    A citação deste caso acabou desviando a atenção do foco principal, embora também seja  uma denúncia grave, que precisa de provas.

Outro aspecto que não pode ficar para trás, foi que nas reportagens que assisti,  Jaguarão aparece como uma cidade perseguidora e racista. Com certeza, e infelizmente,  aqui também tem  pessoas racistas como em qualquer lugar do país, e problemas similares aos de  outras cidades.      Assim, assistindo as entrevistas,  percebi que o Helder, na raiva pelo que aconteceu, imagino,  acabou esquecendo de fazer uma retrospectiva de sua estadia em Jaguarão desde sua chegada em 2010.   Conheço o Helder e sei que é uma pessoa de bem, e tenho certeza que ele irá corrigir este lapso.   Aqui me resta dizer que  foi bem recebido, teve amparo na Unipampa para uma monitoria (se não estou enganado), conseguiu um estágio na Prefeitura Municipal e sempre foi parceiro em várias atividades, em especial ao Movimento Negro.  Não é à toa que muitos jaguarenses se somaram na tentativa de fazer com que  aqui permanecesse, inclusive criando uma comunidade no Orkut. 

Fui Secretário de Cultura e Turismo e  presenciei  isto, bem como o recebi várias vezes em minha casa juntamente com uma galera de estudantes, todos de fora, nessas ocasiões nos brindamos com comidas típicas da Bahia e do Sul, de forma descontraída como nas repúblicas estudantis.   Por tudo isso o  Helder teria fortes e bons motivos para ficar aqui, mas infelizmente, este aspecto não tem aparecido nas reportagens, o que gerou algum constrangimento por várias pessoas que estão juntos com ele na luta contra a discriminação  que sofreu.  Tenho certeza que o estudante baiano conseguirá corrigir estes equívocos gerados pelas reportagens e quero em seguida brindar com sua presença, mesmo que seja em visita, em minha cidade, a qual  nos últimos anos tem feito um resgate intenso da história do negro em Jaguarão, inclusive identificando uma Comunidade Quilombola na Zona Rural.

Por fim, entendo e respeito a decisão pessoal do Helder de retornar para a Bahia, uma vez que não posso julgar seus atos movidos pelo receio  de uma possível vingança,  em função das  cartas que recebeu.      Desejo-lhe toda a sorte do mundo,  e aos meios  de comunicação que deram esta cobertura,  uma retificação em relação à cidade,  separando a ação individual de pessoas desqualificadas com o resto das instituições e da comunidade.


                                                                                                            02/04/2011

              Carlos José de Azevedo Machado (Maninho)

                        Professor e Ativista Cultural

domingo, 27 de março de 2011

A opinião de Caetano Veloso sobre o Caso Bethânia

Reproduzimos do blog do Murilo, Perca tempo. 


Bethânia 
CAETANO VELOSO


O GLOBO - 27/03/11


Não concebo por que o cara que aparece no YouTube ameaçando explodir o Ministério da Cultura com dinamite não é punido. O que há afinal? Será que consideram a corja que se "expressa" na internet uma tribo indígena? Inimputável? E cadê a Abin, a PF, o MP? O MinC não é protegido contra ameaças? Podem dizer que espero punição porque o idiota xinga minha irmã. Pode ser. Mas o que me move é da natureza do que me fez reagir à ridícula campanha contra Chico ter ganho o prêmio de Livro do Ano. Aliás, a "Veja" (não, Reinaldo, não danço com você nem morta!) aderiu ao linchamento de Bethânia com a mesma gana. E olha que o André Petry, quando tentou me convencer a dar uma entrevista às páginas amarelas da revista marrom, me assegurou que os então novos diretores da publicação tinham decidido que esta não faria mais "jornalismo com o fígado" (era essa a autoimagem de seus colegas lá dentro). Exigi responder por escrito e com direito a rever o texto final. Petry aceitou (e me disse que seus novos chefes tinham aceito). Terminei não dando entrevista nenhuma, pois a revista (achando um modo de me dizer um "não" que Petry não me dissera - e mostrando que queria continuar a "fazer jornalismo com o fígado") logo publicou ofensa contra Zé Miguel, usando palavras minhas.
A histeria contra Chico me levou a ler o romance de Edney Silvestre (que teria sido injustiçado pela premiação de "Leite derramado"). Silvestre é simpático, mas, sinceramente, o livro não tem condições sequer de se comparar a qualquer dos romances de Chico: vi o quão suspeita era a gritaria, até nesse pormenor. Igualmente suspeito é o modo como "Folha", "Veja" e uma horda de internautas fingem ver o caso do blog de Bethânia. O que me vem à mente, em ambas as situações, é a desaforada frase obra-prima de Nietzsche: "É preciso defender os fortes contra os fracos." Bethânia e Chico não foram alvejados por sua inépcia, mas por sua capacidade criativa.
A "Folha" disparou, maliciosamente, o caso. E o tratou com mais malícia do que se esperaria de um jornal que - embora seu dono e editor tenha dito à revista "Imprensa", faz décadas, que seu modelo era a "Veja" - se vende como isento e aberto ao debate em nome do esclarecimento geral. A "Veja" logo pôs que Bethânia tinha ganho R$1,3 milhão quando sabe-se que a equipe que a aconselhou a estender à internet o trabalho que vem fazendo apenas conseguiu aprovação do MinC para tentar captar, tendo esse valor como teto. Os editores da revista e do jornal sabem que estão enganando os leitores. E estimulando os internautas a darem vazão à mescla de rancor, ignorância e vontade de aparecer que domina grande parte dos que vivem grudados à rede. Rede, aliás, que Bethânia mal conhece, não tendo o hábito de navegar na web, nem sequer sentindo-se atraída por ela.
Os planos de Bethânia incluíam chegar a escolas públicas e dizer poemas em favelas e periferias das cidades brasileiras. Aceitou o convite feito por Hermano como uma ampliação desse trabalho. De repente vemos o Ricardo Noblat correr em auxílio de Mônica Bergamo, sua íntima parceira extracurricular de longa data. Também tenho fígado. Certos jornalistas precisam sentir na pele os danos que causam com suas leviandades. Toda a grita veio com o corinho que repete o epíteto "máfia do dendê", expressão cunhada por um tal Tognolli, que escreveu o livro de Lobão, pois este é incapaz de redigir (não é todo cantor de rádio que escreve um "Verdade tropical"). Pensam o quê? Que eu vou ser discreto e sóbrio? Não. Comigo não, violão.
O projeto que envolve o nome de Bethânia (que consistiria numa série de 365 filmes curtos com ela declamando muito do que há de bom na poesia de língua portuguesa, dirigidos por Andrucha Waddington), recebeu permissão para captar menos do que os futuros projetos de Marisa Monte, Zizi Possi, Erasmo Carlos ou Maria Rita. Isso para só falar de nomes conhecidos. Há muitos que desconheço e que podem captar altíssimo. O filho do Noblat, da banda Trampa, conseguiu R$954 mil. No audiovisual há muitos outros que foram liberados para captar mais. Aqui o link: http://www.cultura. gov. br/site/wp-content/up loads/2011/02/Resultado-CNIC-184%C2%AA.pdf. Por que escolher Bethânia para bode expiatório? Por que, dentre todos os nossos colegas (autorizados ou não a captar o que quer que seja), ninguém levanta a voz para defendê-la veementemente? Não há coragem? Não há capacidade de indignação? Será que no Brasil só há arremedo de indignação udenista? Maria Bethânia tem sido honrada em sua vida pública. Não há nada que justifique a apressada acusação de interesses escusos lançada contra ela. Só o misto de ressentimento, demagogia e racismo contra baianos (medo da Bahia?) explica a afoiteza. Houve o artigo claro de Hermano Vianna aqui neste espaço. Houve a reportagem equilibrada de Mauro Ventura. Todos sabem que Bethânia não levou R$1,3 milhão. Todos sabem que ela tampouco tem a função de propor reformas à Lei Rouanet. A discussão necessária sobre esse assunto deve seguir. Para isso, é preciso começar por não querer destruir, como o Brasil ainda está viciado em fazer, os criadores que mais contribuem para o seu crescimento. Se pensavam que eu ia calar sobre isso, se enganaram redondamente. Nunca pedi nada a ninguém. Como disse Dona Ivone Lara (em canção feita para Bethânia e seus irmãos baianos): "Foram me chamar, eu estou aqui, o que é que há?"

Caetano Veloso 

Clandestino - Gilberto Isquierdo e Said Baja

  Assim como o Said, milhares de palestinos tiveram de deixar seu país buscando refúgio em outros lugares do mundo. Radicado nesta fronteir...