
Amanheceu.
Da quinta vem o ruído da enxada limpando o pasto na volta dos
morangos. São poucos, mas bem cuidados. O terreiro das galinhas já
foi varrido e os ovos das poedeiras colhido. Ouço o trotezito do
carro de la panaderia Los Claveles entregando o pão recém saído do
forno. Rio Branco vai acordando. Tomo café para ir ao colégio das
Freiras e o pai me avisa que a Rural não pegou. "Sobe lá na
aduana e vê se não tem algum marinero, o Medina ou o Borges pra me
ajudar a dar uma empurrada. "
Subo
pelas escadinhas da ponte onde já se ve a correria com o carromotor
chegando. Passou pela estação Presidente Getulio Vargas, Poblao de
Vargas como se dice por acá. Vem apinhado.
No
meio da ponte já está se aninhando na calçada o nego Véio
vendedor de bananas. Ele larga as bananas ali no chão e os
passantes, com suas maletas de garupa sobre os braços que vão
comprar açúcar, yerba, rapadura y otras cositas más no Armazém
Oscar Amaro em Jaguarão, ja vão adquirindo una penca que vai ser
derrubada de uma sentada ali na sombra dos arcos da ponte.
Do
outro lado, também de um trem, este, um Maria Fumaça que veio de
Rio Grande e passou pela estação Basílio, vai descendo o pessoal
cruzando a Mauá destino à Casa Azpiroz, Tienda Machado, Casa de las
Lanas, Casa Simon, Casa Martinez, el almacen del basco don Amado e
outros comercios chicos que vendem de tudo que é bom do Uruguay,
lanas, cobertores, telas balmoral, casacos de burma, quesos, dulce de
leche, aceite y galletas Maestro Cubano, aquelas que vem nuns latões
grandes que depois é bom de guardar os mantimentos em casa. Algum
desses viajantes até pensa em passar uns dias na fronteira hospedado
ali no hotel italiano, comer una buena parrilla no Oásis acompanhado
por una Norteña e quem sabe dar un paseo de bolanta por la cuchilla,
visitar os parentes que aqui ficaram e curtir la sesion de sabado nel
cine Rio Branco que en la cartelera anuncia la pelicula de guerra
"Los Cañones de Navarone". Imperdible.
O
velho, depois de me dar uma carona na rural até o colégio, já está
na loja. As vezes, quando tem muito movimento, como parece ser hoje,
até almoça por lá. De tarde, depois dos temas feitos, também vou
pra loja, ajudo com algum pacote, cevo o mate, mesmo pra algum
cliente que puxa conversa, e me entretenho, por entre o burburinho
das mulheres , que essas são mais falantes, experimentando roupas, o
recrecrec das tesouras cortando telas, as negaceadas murmuradas da
balconista Muñeca dizendo pra minha mãe: "esa, baja todo y no
compra nada."
Volta
e meia, uma vez por mês, no começo da temporada, aparece algum
viajante de Montevideo com sua mala cheia de novidades que vai
abrindo e mostrando pro Velho. "Ney, eso se va a vender mucho
este año" dizia o vendedor, enquanto eu e minha irmã menor
ficávamos encantados ali na volta, só mirando porque não se podia
falar, admirando aquele mascate fumando cachimbo com relogio de
corrente de ouro e mostrando as mais lindas mercadorias da capital
del país y que a los brasileños les iba a gustar mucho.
Depois,
já à tardinha, sentado num dos degraus da loja, ficava só
observando tranquilo aquele mundo de gente percorrendo a rua central
do Rio Branco, num ir e vir, no fervor de consumo, a esperar a
passagem das gurias que saem do liceo.
Jorge Passos
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Antigo Liceo- hoje Restaurante Batuva |
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