terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Marta Suplicy - O "soft power" brasileiro


Londres conseguiu, no período da Olimpíada, construir uma imagem bastante positiva da Inglaterra. Trabalha agora para manter e ampliar esta conquista. Foca nas parcerias e presença cultural que possam gerar este tipo de dividendo no mundo.

Assim como as pessoas desenvolvem -às vezes com muito esforço- uma forma de expressão e conexão com o mundo, os países também constroem imagem e cara.

Podem provocar simpatia, implicância, admiração, desinteresse ou repulsa. No caso de países, esses sentimentos são formados pela atratividade de sua cultura, ideais e práticas políticas externas e internas. Quando essas políticas aparecem como legítimas aos olhos dos outros, o "soft power" daquele país cresce.

Além de suas capacidades militares e técnicas mesuráveis e visíveis, os países, cada vez mais, se esforçam para mostrar qualidades imateriais -veja a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) premiando o frevo como patrimônio imaterial.

Isso se chama "soft power". Se for suficientemente atraente, funcionará como uma luz que conquistará visitantes, investidores e sonhadores. Quando o conjunto é de tal monta consistente, pode exercer extraordinário poder (soft power) como Hollywood em relação aos EUA, a moda e a gastronomia na França, os monumentos históricos da humanidade na Itália e na Grécia...

Trata-se, porém, muito mais que cinema, comida ou monumentos. São valores, posições históricas, políticas externas e autoridade moral que, no conjunto, geram admirações e sonhos.

Com a projeção internacional do Brasil como nova potência econômica agregada ao já admirados futebol e Carnaval mais o interesse despertado por um país que diminuiu a desigualdade social ao eleger um operário para presidente e logo após uma mulher, temos a oportunidade única de fortalecer nosso "soft power" no cenário internacional.

Esse conceito foi criado por Joseph Nye, professor da Universidade Harvard, que define a capacidade de um país influenciar relações internacionais, exercer um papel de encantamento e sedução através de qualidades "softs", em especial manifestações culturais fortes e diversas. O termo se contrapõe ao poder militar chamado "hard power".

Países que já entenderam este "poder" investiram na transmissão de sua língua e presença cultural no exterior. A Inglaterra com o British Council, Alemanha com o Instituto Goethe, a França com a Aliança Francesa, Portugal com o Instituto Camões, a China com mais de mil institutos Confucio. Instituições que vão muito além do ensinamento do idioma.

Esses investimentos (o que temos de bom, o que produzimos para o mundo como cultura) ocorreram quando a maioria desses países começaram a perder suas colônias e precisavam aumentar seu comércio. Nós somos um país emergente, o único sem poderio bélico, mas que está descobrindo outra forma de inserção.

Essa é, acredito, a grande oportunidade de consolidação e ampliação de nossa força como potência atraente para comércio, investimentos e turismo. Temos, portanto, o desafio de somar e coordenar esforços numa articulação estruturada que tenha a capacidade de envolver agentes públicos e privados.

Com o mundo em transformação tão rápida, o desejo de desvendar o diferente, a procura do lazer pelos povos mais afluentes, a mobilidade e fome por conhecimento, sobretudo pela juventude, vislumbramos a condição de exercermos importante e decisiva atração no mundo. 

O Ministério da Cultura estuda os melhores instrumentos para a potencialização desta oportunidade, agora acentuada pelas janelas que serão a Copa e a Olimpíada.

MARTA SUPLICY, 67, é ministra da Cultura. Foi prefeita de São Paulo (2001-2004), ministra do Turismo (2007-2008) e senadora (2011-2012)


Fonte: http://www1.folha.uol.com.br


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Semideuses


É bem provável que os altares

De alguns semideuses

Endeusados

Não tenham a base (verdadeiramente) sólida

Para suportar por muito tempo

O peso de sua soberba

Mórbida e ineficaz.


Daniel Moreira 

Arte: Fabriano Rocha

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Jaguarão, Carnaval, Futebol

Rodri, artista do Grupo Tholl foi um dos destaques

Toda unanimidade é burra. A conhecida frase de Nelson Rodrigues expressa uma situação que, sem dúvida, não se aplica ao evento que movimentou milhares de foliões de todas as partes do Brasil aqui em Jaguarão. É consenso, mesmo os mais pessimistas hão de concordar, que o nosso Carnaval de Rua figura entre os melhores, se não o melhor, do estado. 

No domingo, almocei num dos restaurantes que se encontrava repleto, mais de 200 pessoas. Comentei com minha esposa que os únicos clientes de Jaguarão éramos nós. O restante era formado totalmente de turistas. Os efeitos econômicos desta festa se refletiram em quase todos os segmentos, hotelaria, pousadas, gastronomia, segurança, equipes de apoio, músicos, artistas, costureiras, supermercados, padarias, postos de gasolina, ambulantes, alugueis, camping, e até banheiros, o que deveria fazer inveja ao protagonista do filme o banheiro do Papa. Aqui quem alugou banheiro, faturou. A multidão esperada compareceu.

Quais as qualidades que fazem deste carnaval uma festa de tal envergadura? Poderíamos citar muitos motivos, mas talvez o fundamental, ainda seja o clima familiar e de segurança que envolve todos os foliões. Crianças, adultos, jovens, todos irmanados celebrando esta autêntica manifestação da Cultura Popular Brasileira.  Este é o segredo. Quem vem de fora se sente participante desta sensação tão contagiante que é o verdadeiro espírito carnavalesco, de dança, brincadeira, música, alegria, criatividade e amor. Há as exceções, como o sujeito que deu uma de malandro cobrando ingresso para a arquibancada popular. Não se pode negar que teve espírito empreendedor, logo reprimido pela segurança, que, aliás, foi muito eficiente em todos os pontos.

Claro que para o êxito do evento foi decisivo o trabalho desenvolvido pela Organização. A Liga de Carnaval, a Prefeitura, a segurança da BM, os trios elétricos e o próprio povo, afinal, sem ele, não há festa.

O desafio que se nos apresenta para 2014, ano de Copa do Mundo, é manter e melhorar as condições de estrutura para um número ainda maior de turistas que serão atraídos pelo êxito do nosso Carnaval. Sem dúvida, será mais um golaço de Jaguarão.  

Jorge Passos

Texto publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia 15/02/2013


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Igreja Matriz - Eduardo Alvares de Souza Soares


Pronunciamento de Eduardo Alvares de Souza Soares por ocasião do Lançamento do seu livro, IGREJA MATRIZ do Divino Espírito Santo da Cidade de JAGUARÃO, durante cerimônia de celebração pelos 200 anos da Freguesia de Jaguarão em 26 de outubro de 2011.    

Vocês verão neste livro, que a história desta Matriz,  foi uma história de 30 anos de lutas. 

Jaguarão até a concretização da Matriz teve três Vigários Colados. Joaquim Cardoso de Brum, que não viu o inicio desta igreja, viu o segundo Vigário Colado, Padre João Themudo Cabral Diniz, que vocês sabem, está sepultado aqui no Cemitério das Irmandades em Jaguarão, e,  veio a termina-la, de 1859 a 1884,  o terceiro Vigário Colado que teve Jaguarão, padre Joaquim Lopes Rodrigues, que foi o verdadeiro herói da façanha.

Esse livro reúne cerca de 50 documentos inéditos, todos eles garimpados em diferentes artigos, e todos eles trazidos à colação nesta obra, para que se pudesse organizar de forma sequencial, pró-lógica, o que foi a luta de 30 anos para erguer o templo e finalmente concluí-lo. 

Faço minhas as palavras do Dr Claudino ao dizer o quanto nós, jaguarenses, devemos nos unir todos, as entidades, associações, as iniciativas particulares, procurando os recursos necessários. ( refere-se o Dr. Eduardo à  restauração do telhado da Matriz) 
  
Acredito que esta obra, mais que tudo, será um estímulo a que todos que a lerem, sentirem de que, a importância deste prédio na vida comunal, é, talvez, se confunde com a própria historia de Jaguarão. Não há nada mais importante, não há edifício com maior significação simbólica do que o prédio da nossa Matriz. E não creio exagerar em nada, se disser a todas as pessoas aqui presentes, a todos os convidados, a todas as autoridades que nos assistem, que dificilmente uma igreja no Rio Grande do Sul tenha uma história tão rica e tão detalhada quanto tem a nossa Matriz. Bastaria um dado. O vigário de Jaguarão foi o único padre que fez toda a campanha da Guerra do Paraguai, e finda a Guerra do Paraguai em 1870, foi ele, o vigário de Jaguarão, quem celebrou na Catedral de Assunção, o Te Deum da vitória.

Esta igreja foi partícipe da invasão de Jaguarão em 1865, partiu da igreja as iniciativas da luta que mantiveram os jaguarenses por duas epidemias de cólera morbus, em 1855 e 1868. E esta obra não se limita apenas à atual Matriz, mas vai ao antigo barracão de palha que sobreviveu anteriormente neste mesmo local e que, com a criação da Freguesia a 31 de janeiro de 1812, permitiu que o catolicismo se instalasse em Jaguarão e aqui através do padre, primeiro provisional, Joaquim Cardoso de Brum, iniciasse as atividades católicas nesta cidade.

Não devo me estender mais, muito obrigado a todos. Acreditem-me , esta obra, como diz Sérgio da Costa Franco , e não são palavras minhas, deve ser de presença obrigatória em todos os lares e bibliotecas de Jaguarão e acredito que quem a levar, estas páginas, por certo , guardará um tesouro para filhos, netos e bisnetos.

Obrigado. 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Washington Benavides - Desfrutando Don Frutos


III Feira Binacional do Livro de Jaguarão. 09 de dezembro de 2011, Colóquios da Feira. O escritor e poeta uruguaio Washington Benavides fala sobre o romance Don Frutos de Aldyr Garcia Schlee.

Hace décadas nos une una profunda amistad, con ese hombre múltiple nacido en Jaguarão, que ustedes,  afortunadamente me imagino, no voy a decir,   desgraciadamente conocen (risos).  Desde nuestro primer encuentro en Montevideo; se iba publicar en español "El día en que el Papa fue a Melo" - tu sabes Schlee, que todavía se sigue discutiendo, pero esta fue la que sirvió para el filme?  Porque Uds. sabrán que, en la muy incipiente fílmica uruguaya, salió un filme que prácticamente es el mismo título casi, y toca el tema más bien de el contrabando hormiga y la dura vida .  

"El día que el Papa fue a Melo" es editado por Banda Oriental en 1991. Y junto a Heber Raviolo, colaboramos en la relectura de este hermoso y popular libro. En adelante, nos encontramos en ferias del libro en Porto Alegre, en tareas de investigación universitaria en Pelotas, donde Garcia Schlee fue Vicerrector , en nuevos encuentros en Montevideo. Publicaría también en Evo, Cuentos de futbol, y ahí nos liga a otra de las manías, prácticamente podremos decir, que compartimos. Siempre compartiendo una atmosfera cordial y aparceros en una serie de deportes, el futbol, la hípica, etc. Bueno, y tenemos atracciones comunes, que permanentemente las recreamos cuando dialogamos. Hace una hora, más o menos, un poco más, estábamos en el hotel y empezamos a recordar nuestras andanzas en Garibaldi, cuando fuimos al Hotel Conventos, con aquella magia de un patio que era una pequeña selva llena de “passarinhos” y flores, y toda una aureola, en medio de una mañana neblinosa, y allí andábamos como dos seres usurpadores, como voy a decir, el Schlee y yo y algunos otros, Tabajara, el inolvidable Julián Murguía, un uruguayo que luchó, mientras vivió, precisamente por confraternizar, uruguayos y brasileños.

La alegre energía, que es el temperamento dominante en Aldyr, nos llevó a conocer a fondo sobre su vida, su impecable familia, sus metas de vida y arte, recorrer sus aportes a la narrativa riograndense y uruguaya, está allá de seminarios, pero digamos que el Uruguay para él no fue, no es, una segunda patria, es una sola cosa entrañable como lo es también para nosotros en relación a la patria amada Brasil.

De ahí, su enjundioso trabajo en torno a las mujeres en la vida de Carlos Gardel, con un acopio documental que se amplifica en este “romance” Don Frutos, edición Ardotempo, 2010, Porto Alegre, Rs. Porqué Aldyr llega a la polémica figura del General Fructuoso Rivera?  Talvez lo explique el autor con su rica leva, nosotros imaginamos que precisamente por lo controvertido de su existencia.   

Allí radicó el disparador tan grande en dos sentidos, novela o romance. Precisamente en los días que corren , en el Diario la Republica, del 14 de 11,  un convencional del partido nacional escribe un largo artículo sobre don Frutos titulado Brigadeiro do Império y Barón de Tacuarembó, título que adjudicó el mariscal Federico Lecor a su amigo personal. Pero resulta que este hombre Don Frutos, es el creador del Partido Colorado, partido que administró a este país, me refiero a  Uruguay, en buena parte de su historia, hombre cuestionado desde sus motes, el Pardejón , por su piel trigueña, se transforma en el Padrejón, por la cantidad de hijos que Don Frutos fue sembrando a su paso. Cuestionado por su actitud ante los charrúas, a quienes, por medio de un ardid reunió y ultimó en Salsipuedes, cuestionado como ya vimos por su tarea cisplatina y vuelto a la defensa de su país en un encuentro con el general Lavalleja, La Cruzada Libertadora, que desde el partido colorado y la dictadura cívico militar de los años 73 – 85 también, se le llamó el Abrazo del Monzón ( o el Abrazo del Oso) y, desde filas nacionalistas, se rechazó tal abrazo desnudando que en el Monzón, Lavalleja capturó a Rivera obligándolo a pelear por su causa. Creemos que aquí también la polémica seria razón de un seminario por lo menos.

Volvamos a la novela o romance de Aldyr  Con una prosa atrapante por su belleza, precisa en su determinación de personajes y  circunstancias, desde esa terrible y helada presencia del invierno en Jaguarão, adonde fue a parar el enfermo y alicaído Brigadier General, la descripción de ese  helado invierno y del propio protagonista de la novela son una perfecta utilización de la relación clímato anímica y difícilmente el lector no sentirá lo que con tanto énfasis nos ofrece Garcia Schlee. 

Cada capítulo con una capte tomado de las famosas Coplas a la Muerte del padre del poeta Jorge Manriques, siglo XV, y que el novelista utiliza por su triple motivación, sobre la vida eterna, la vida terrena y la sobrevida de la fama. Y acaso también, porque es uno de los poemas donde   con mayor perfección se utiliza el ubi sunt, el  “donde está” clásico. 

Creemos que es un romance de culminación dentro de la obra de Garcia Schlee y el disfrute de la misma, se nos dará precisamente por la perfección y profundidad  de su cala en la vida de tan controvertido personaje. Como podemos disfrutar de la metamorfosis kafkiana aunque el relato sea terrible, o de “Crimen y Castigo” de Dostoievski aunque su protagonista Rodia Raskolnikov movido por entrañables propósitos llegue a la conclusión feroz  de que el fin justifica los medios.

Aquí estamos pues, en su tierra natal, y no es el hijo pródigo de las sagradas escrituras quien está con nosotros, es un hombre que en el fondo justifica aquellas luchas por las Provincias Unidas del Sur que otro defenestrado tuvo como blasón de su amarga lucha. Disfrutemos entonces de la creación excepcional de Don Frutos y reflexionemos con las coplas Manriqueñas, ese helado final del Brigadeiro do Império y Barón de Tacuarembó. 

Gracias                        
                      

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Unipampa oferta 35 vagas em curso de Especialização em Direitos Humanos e Cidadania em Jaguarão


A Universidade Federal do Pampa Campus Jaguarão mantém inscrições abertas para o curso de Especialização em Direitos Humanos e Cidadania. As referidas inscrições podem ser realizadas até o dia 11 de março. Para mais informações CLIQUE AQUI.

As aulas serão ministradas de forma presencial em período diurno nas sextas-feiras e sábados entre os meses de abril de 2013 até abril de  2014 e não é cobrada nenhuma taxa para os ingressantes.

A especialização contará com professores dos diversos campus da Unipampa, bem como de outras instituições: UFPel, UCPel, FURG, UFSC e do Uruguay assinala o coordenador Prof. Vagner Silva da Cunha.

O curso se constitui em uma oportunidade impar a reflexão da problemática contemporânea dos direitos humanos em um mundo em constante transformação, em níveis de exclusão social acentuados com múltiplos desafios para a efetivação da cidadania na sociedade brasileira. Acrescenta-se o fato que o curso será ministrado em uma zona de fronteira (Jaguarão/Rio Branco) onde o multiculturalismo esta sempre presente.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Das minhas reminiscências

O primeiro da esquerda, o "grande" Heponino Costa (maior folião de todos os tempos), 
Tutuca (camisa brilhante), bem atrás o altão Abregildo (foi zagueiro do Cruzeiro), 
"loco" Ever Nieto (primo do Vitor Hugo), corneteiro desconhecido,  e Osmar Garcia
 (lutador e centroavante do Jaguarão). Agachados: Adão (do Sheda), Guilherme 
(zagueiro do Navegante)  e  o José Alberto de Souza.

Preciso esclarecer que, órfão de pai e mãe, José Dalberto e Maria Francisca, fui criado como filho pelos meus tios Cantalício e Florisbela, que me acolheram em sua residência em Jaguarão. Era um sobrado, onde funcionava a livraria e tipografia na parte térrea, sendo a parte de cima ocupada como moradia da família; situava-se na esquina das ruas 27 de Janeiro e Andrade Neves, a bem dizer o coração da cidade, pois ali também estavam localizados o Banco do Estado do Rio Grande do Sul, o restaurante Gruta Jaguarense e o Café do Comércio, tradicionais pontos de encontro da população. Contíguos ao nosso prédio, tínhamos a Prefeitura Municipal, pela 27, e o Snooker do Oliosi, pela Andrade Neves. O sobrado possuía seis sacadas, cinco das quais davam para a rua principal, a 27, e dali se podia observar todo o movimento urbano. No carnaval, não se dormia a noite inteira e ficávamos assistindo de camarote o desfile dos blocos carnavalescos e dos carros alegóricos, além do corso das rainhas dos clubes Harmonia, Jaguarense, Caixeiral, Instrução e Recreio, 24 de Agosto. Na época, os principais blocos carnavalescos eram o Bataclã, os Marujos do Amor e o Troveja Mas Não Chove, que costumavam se apresentar durante o dia, antes dos desfiles, na frente das residências para angariarem recursos ou para agradecerem àqueles que tinham assinado os seus Livros de Ouro.

Assim, apesar de introspectivo, posso dizer que, cercado pela agitação de tantos ruídos urbanos, os mesmos sempre soaram para mim como uma sinfonia, contribuindo bastante para me despertar uma provável paixão sonora. Ainda hoje, ecoam nítidos os acordes de é com este que eu vou sambar até cair no chão, aquele samba de Pedro Caetano que ficou gravado em minha memória, desde o tempo em que seguia o bloco Marujos do Amor, comandado pelo incrível folião Heponino Costa, através das ruas de Jaguarão. Ou então ia assistir a passagem do Troveja Mas Não Chove, o cordão do Curto, precedido pelas evoluções das asas imensas do morcego do Ari, seguido pelo carro da Arara – “arara aí vai, arara aí vem” –. Que, dizem as más línguas, certa ocasião, obrigou a que se aumentasse a altura do portão da garagem onde fora construído, para sair à rua. E ainda tinha a borboleta do Rosa que abria caminho ao passo imponente do seu Teodoro, presidente perpétuo da Sociedade 24 de Agosto, dirigindo o tradicional Bataclã. E aí me animei a botar na rua minha fantasia de cowboy, calça, colete, chapéu e canana para revólver de chumbo, máscara preta tipo zorro, que eu mesmo confeccionei com a embalagem das resmas de papel da tipografia costurada em barbantes. Saí de fininho. Quando o pessoal em casa me viu na avenida, eu estava sendo depenado pela molecada, Cho mascarado, deixando-me de cuecas. Depois, comecei a sassaricar nos bailes do Clube Jaguarense, cujo presidente, Comendador Arnaldo Dutra, mandava-me permanente para todos os dias de folia a fim de preceder a comparsa. Na rua, desfilávamos fardados com camiseta de time de futebol, correndo como se estivéssemos entrando em campo, junto com alguns aspirantes cariocas do Regimento que batiam triângulo ao estribilho de Dim-dim-dim, saravá pai Joaquim. Ou então nos ensinavam a cantar Oi, Iaiá, cadê o vaso, / o vaso de fazê cocô? / Eu vou lhe contar um caso, / eu defequei no vaso, / me limpei co’a flô. / Sacanage, sacanage / e você não sabia / que o vaso era só / de fazê lavage. Por pouco, pouco, não apanhamos da assistência.

José Alberto de Souza

poetadasaguasdoces.blogspot.com.br

Texto publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia 06/02/2013


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Jaguarão é incluída no PAC das Cidades Históricas

Foto: Elisabete Alves
Jaguarão é uma das quatro cidades gaúchas contempladas com o PAC das Cidades Históricas


Por Fernanda Cassel

O Prefeito Cláudio Martins trouxe boas notícias de Brasília para a comunidade jaguarense. Uma de suas agendas, na capital federal, foi na quarta-feira (30), no Ministério do Planejamento, onde participou da reunião de trabalho conduzida pela ministra da pasta, Miriam Belchior, pela ministra da Cultura, Marta Suplicy e pela presidente do Instituto Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Jurema Machado.

Jaguarão foi um dos 44 municípios selecionados em todo Brasil e está entre as quatro cidades gaúchas que receberão recursos do PAC das Cidades Históricas.

De acordo com o Prefeito Cláudio, foi anunciado no encontro que o governo federal prevê a liberação de R$ 1 bilhão para restauração de monumentos e edificações de uso público e para requalificação de espaços públicos. Além desses recursos foi confirmada a destinação de R$ 300 milhões em linha de crédito para restauro de imóveis privados.

“ É um orgulho para nós ver o nosso município entre os quatro únicos do Rio Grande do Sul que irão receber esses recursos, exatamente pelo fato de termos priorizado as políticas de valorização do patrimônio cultural e histórico do município. A nossa dedicação com projetos e ações nessa área ,sem dúvida, foram decisões acertadas que hoje estão trazendo grandes benefícios para nossa cidade”, destaca o prefeito.

Ainda segundo Cláudio Martins ele retorna a Brasília no mês de março para apresentar os projetos de prioridade no município, na área do patrimônio histórico. “ Neste momento vamos focar na garantia de recursos para restaurar a Matriz do Divino Espírito Santo e também o Mercado Público, importante prédio na história do nosso povo e fundamental para se consolidar como mais um espaço de potencialização do turismo em nossa cidade”, observa.

No Rio Grande do Sul, além de Jaguarão, conquistaram recursos do PAC, as cidades de Porto Alegre, Pelotas e São Miguel das Missões.

Fonte: http://decomjaguarao.blogspot.com.br

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O Lado de ver a Fronteira

Vaivém das fronteiras- diversidade além dos limites geopolíticos impostos

Na concepção topográfica determinada pelas cartografias da criação e fortalecimento dos Estados modernos durante o século XIX, na invenção de territórios homogêneos que se organizavam segundo exigências de aparelhos e estratégias estatais, reconheciam-se as fronteiras em confins naturais, constituindo-se por elementos de uma doutrina chamada geopolítica, o que atribuía a marcos geográficos uma função determinante na história política. No entanto, um rio, um deserto ou uma montanha só podem ser considerados referências de divisão quando ainda não tocados pelas sociedades. Se, em casos de expansão militarizada, eles oferecem obstáculos notáveis, em tempos de paz um rio, por exemplo, pode ser uma via de transporte, mobilidade das pessoas e intercâmbio de mercadorias, ocasionando relações culturais, o que pulveriza as clássicas soberanias e dilui as definições rígidas da fronteira. Opera-se aí um modus vivendi que conforma um espaço que contém influxos para além das nacionalidades, resultando em dinâmicas sociais compartilhadas entre fronteiriços de ambos países em contato.

Nas escolas situadas nas proximidades do limite entre o Brasil e o Uruguai, tanto antes como agora, os falares mesclados de português e espanhol evidenciam a interação existente na fronteira. Sérgio da Costa Franco destaca, no livro Origens de Jaguarão, o discurso de um inspetor de escola em 1907, quando advertia as autoridades do seu país sobre dificuldades no ensino causadas pelo contato com o brasileiro. Dramaticamente, como funcionário público que zela por rígidas e definitivas identidades nacionais, o tal inspetor uruguaio não percebia a riqueza da diversidade cultural e fazia a crítica:

Nuestras escuelas fronterizas, diseminadas en la extensa región donde domina la lengua portuguesa y los hábitos y costumbres brasileños, y donde nuestros compatriotas no saben que lo son – o parecen no saberlo –, requieren, exigen, imponen una especial enseñanza para los niños que las frecuentan. Esos niños son orientales sí, casi en su totalidad, pero abrasilerados!

Na contramão desse posicionamento está a produção do poeta Fabián Severo, natural da fronteiriça cidade de Artigas, Uruguai, que busca a poesia na alma e o que encontra é uma linguagem original que dá uma tonicidade própria e libertária, fora de qualquer padrão restritivo, como no poema intitulado “Trinticuatro”:

Mi madre falava mui bien, yo intendía.
Fabi andá faser los deber, yo fasía.
Fabi traseme meio litro de leite, yo trasía
Desí pra doña Cora que amañá le pago, yo disía
Deya iso gurí i yo deiyava.
Mas mi maestra no intendía. […]

Indiferentes ou hesitantes em sua consciência de nação, os habitantes da fronteira criam a sua pátria particular e heterogênea, como evidencia o poeta jaguarense Martim César ao declarar o reconhecimento de histórias e culturas diferentes, mas que se conjugam na mesma raiz:

Venho da mesma raiz
Profunda e antiga do pago
E essa estirpe que eu trago
Desde a ancestral matriz
Moldou a pátria que eu fiz
No vaivém das fronteiras
Em duas Américas lindeiras
No garrão do continente...
Dois idiomas diferentes
Mas só uma gente campeira”!

Parece também ser essa a identificação que Sergio Faraco encontra na narrativa de Mario Arregui, como declarou em correspondência ao autor uruguaio no período em que fazia a tradução para o português de contos do seu amigo. Na carta, expõe diferenças entre seus territórios, mas mais do que isso percebe aproximações que os fazem conterrâneos da mesma “nação pampiana”: “O Uruguai e o Rio Grande se parecem. O Rio Grande padece a influência deletéria do imperialismo cultural do centro do país e é nessa medida que teus contos recobram a índole do homem do campo – inclusive o rio-grandense – e, exagerando, sua ‘nacionalidade’”. Essa é a perspectiva que aponta o pensador Homi Bhabha ao perceber uma cultura que se situa em um terceiro espaço, onde o lado de lá e o lado de cá se encontram nas travessias, no alargamento das margens e nos limites apagados, conformando um entre-lugar.

Entendida nas suas referências simbólicas e por seu caráter cultural, esse terceiro espaço transcende ao imaginário e coloca em evidência outras percepções geográficas, onde as direções de fronteira afora impõem revisões políticas, históricas, linguísticas e identitárias para mostrar outras dimensões do seu significado, o que dispersa centralismos, homogeneidades e únicas verdades.

Carlos Rizzon
Professor Letras Unipampa

Texto publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia 30/01/2013

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

La Mancha com o melhor do nativismo

Everson Maré, Roberto Luzardo, Luiz Marenco, Robledo Martins, Volmir Coelho e Mano Jr
La Mancha em noite mais campeira que mugango no leite.   Fotografia Elis Vasconcello
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Na noite de sexta-feira,  primeiro de fevereiro, data tradicionalmente consagrada a Iemanjá , a arte e  a  música contaram com a ajuda da Orixá das águas. A chuva que ameaçava durante o dia amainou e o Espaço Cultural La Mancha lotou para mais um espetáculo de luxo.

O Show de abertura contou com o grupo uruguaio de Carolino Correa Almeida, Marcelo Fernandez (violão),  Marcos Correa (Percussão) e Fernando Campelo (Flauta transversa). O candombe e o folclore oriental em grande estilo.

Depois foi a vez da música gaúcha com o compositor, músico e intérprete Volmir Coelho de Livramento, o melhor da Filosofia do campo. Sentia-se um cheiro a tapera, a criolina no galpão, que me fez até lembrar meu velho tio lá no Telho. Coisas do tempo ido. No compasso andariego das milongas, recordei o momento em que fomos buscá-lo na campanha. O rancho havia desabado pra um lado e ele tava morando embaixo da carroça. Era um taura mesmo. Veio pra cidade, mas não perdeu os costumes. Volta e meia me pedia pra comprar gasolina numa garrafa de litro. Era pra se afumentar, tirar as coceiras.  Mas coceira mesmo é que não se sentiu nesta noite do La Mancha. Só sede. E para amenizar isso estava a cerveja gelada do parceiro Said, inigualável. ( Quando os bares de Jaguarão irão fazer um cursinho rápido de gelar loiras com o nosso poeta da meia lua?) Em seguida veio o lançamento do CD Sinceridade com  Everson Maré  e o gaiteiro Mano Júnior. Foi prá não se botar defeito mesmo, essa noitada,  ainda mais com as participações especiais de Robledo Martins, Roberto Luzardo e Luiz Marenco .  O melhor do Nativismo em Jaguarão.

Agora é esperar o próximo espetáculo no dia primeiro de março, com a participação do Mário Barbará. Imperdível! 


sábado, 2 de fevereiro de 2013

É tarde



É tarde sabe, talvez seja tarde demais, talvez, sei lá. Ando bebendo (não que isso seja estranho), o estranho nisso tudo é que bebo por que preciso e não tenho por que tenho vontade, ando tão sem vontade de ter vontade, que ando numa vontade enorme de não ter vontade alguma. Ando caminhando rápido, logo eu que sempre presei os passos lentos. Queria as vezes estar melhor comigo mesmo, não sentir que tô sempre torto, ando cansado de acreditar que de tanto entortar, vou acabar me endireitando de novo, ou melhor me esquerdando, ir pra direita, jamais.

Mas é muito tarde pra acordar tão cedo e pensar que as coisas vão de mal a pior, que o mundo inteiro tem esse tom cinza, qual fosse aquarela surrealista, andei pensando em morrer, mas os bons morrem jovens, não eu, nós os que nem eu, sabe? Nós ficamos velhos e caídos na sarjeta bebendo o que tiver pra beber, ainda sem vontade, ainda sem querer, ainda, apenas por que precisamos.

E é tarde demais pra dormir cedo e acordar amanhã fingindo que tenho mil coisas pra fazer, tarde pra fingir que posso virar as madrugadas e amanhã estar bem, não tenho mais idade pra isso, ou até tenho, o que eu não tenho é vontade, o que eu não tenho é saco. Acabou a cerveja, mas um tinha um keep cooler de pêssego na geladeira, isso mesmo, vocês leram certo, keep cooler de pêssego, poderia me levantar, colocar um tênis e ir atrás da porcaria de uma cerveja, mas ando sem vontade, abro o keep mesmo, ele me bebe e eu o bebo, acho que o gosto dele deve ser melhor.

E então quando já não nos beijamos, a garrafa e eu, ela me encara, como perguntando, qual fosse eu, esfinge a devorá-la por não entender-me, e suas perguntas( que são a coisa mais valiosa do mundo, sim, as perguntas, jamais as respostas) não me dizem nada, soam silenciosas como a vontade muda de gritar até minha voz se extinguir, não me dizem nada, e enfim, eu entendo o porque, no final, afinal, eu não tenho perguntas, e sem perguntas ando meio sem vontade de perguntar, sem vontade de ter vontade alguma, sem vontade alguma de dizer que é tarde.

Nicolás Gonçalves

Texto publicado na coluna Gente Fronteiriça do jornal Fronteira Meridional do dia 23/01/2013