terça-feira, 31 de maio de 2011

A hora é agora!


Um bom conselho
Lhe dá o espelho
Plante na horta
Se lhe conforta
Muito agrião 
Pro seu pulmão

Somos poetas
e não patetas
Deixamo a sina 
vil nicotina
Vem coração 
Pro meu rincão

Herr Schritt

Há quarenta anos... No Curso Científico

CEES hoje - Desenho de Matheus Costa - 6ª Série
Após uma pausa de seis anos nos estudos a eles voltei e, naquela tarde ensolarada de segunda-feira, oito de março de 1971, fomos à aula inaugural do Curso Científico, no então Colégio Estadual Espírito Santo. Ele estava em novas instalações, sem nenhuma grade à vista e era protegido apenas por uma cerca de quatro espaçados fios de arame liso, em torno do seu amplo pátio, com duas quadras desportivas cimentadas, ao ar livre e em meio a um capinzal indômito.

Designado para a turma “B” do primeiro ano do curso, assistimos a primeira aula. Era de Português Histórico, ministrado pela jovem Professora Maria Ceci Bretanha de Moraes, inesquecível até mesmo por uma interrupção; foi quando adentrou a sala a Diretora Maria Amélia, de supetão.  Tratava-se duma dinâmica administradora e não nos conhecíamos. De perguntas e respostas rápidas, incisiva, queria saber quem éramos. Se não houve a recíproca afeição, reconheço-lhe o desprendimento em prol da nossa Instituição de Ensino.

Naqueles dias a palmatória estava caduca e nem se imaginava o inaceitável desrespeito aos professores; eles eram olhados como se estivessem num patamar superior. As brigas entre gangues estudantis eram abordadas em produções de segunda linha, num ou noutro filme, dos estúdios de Holywood. Mas mesmo lá, ainda não usavam o termo bulling, hoje traduzido como violência desenfreada contra alunos indefesos por... Outros alunos!  Desavenças havia, contudo, confesso por uma questão de consciência, nunca as presenciei. Creio que a maioria dos estudantes estivesse mais atenta ao comprimento das minissaias (algumas muito mini) das colegas, do que com tolas rixas. Era outro tempo; outra realidade e prevalecia o respeito mútuo.

Estudei até ao segundo ano e, mesmo aprovado para o terceiro, tomei o meu Norte, para plagas distantes e só tornaria à cidade natal, na maturidade. Trago comigo uma imensa saudade e um enorme respeito pelo nosso Curso, pois ele me balizou o futuro. Com o que nele absorvi, permitiu-me passar duma só vez, em todas as matérias do Curso Supletivo, o antigo “Artigo 99”. E prestar um único vestibular, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), sendo aprovado para a primeira opção e sem freqüentar curso Pré-Vestibular algum.

Desse tempo imorredouro, com quem ali tive o privilégio de conviver, lembro-me de alguns funcionários, como da Dona Carolina, a doce Dona Carol, do seu Leonel, do seu Paulo e da Secretária, a Profª Maria Sabbado Meroni, por exemplo. Dos nossos Professores – os quais merecem a nossa perene gratidão – cito-os com os prenomes, pois não sei os respectivos sobrenomes, ao lado de suas Disciplinas: BiologiaHercília (Hercilinha); DesenhoSueli; Educação FísicaAntônio; EMC e PortuguêsMaria Ceci; FísicaLiana; HistóriaTerezinha; InglêsRev. Carlos; MatemáticaRosa; QuímicaArnoni.

Também recordo da maioria dos colegas do Primeiro Científico “B”, mas de alguns lembro apenas o prenome, doutros, lastimavelmente, esqueci: Abílio; Alexandre Burch Cassal; Carlos Danilo Morais; Cláudia Maria Neves Dutra; Déa Gomes Ribeiro; Denise Wortmann; Eny Giambastiani; Fernando Gomes Ribeiro; Flávia Rejane Oliveira; Ivelise Biurrum; Jairo Fonseca; Jorge Luiz das Neves Gomes; Mirta Arismendi; Nelson Bittencourt; Nelson Eliseu Rodrigues Nunes; Paulo Osório; Paulo Roberto Medeiros; Paulo Roberto Neves; Ronaldo Nieto; Sidrônio Ubirajara Marques Cardoso; Sônia Santos; Suzana; Therezinha Azambuja; Virgínia Faria e uma Irmã Religiosa.

Depois desse tempo todo, os antigos colegas ficaram-me na memória com a imagem juvenil e nunca mais os vi, na sua quase totalidade.

A todos os alunos do então Curso Científico do já velho CEES, indistintamente e de quaisquer épocas, estejam onde estiverem e simbolizados no Primeiro CientíficoB”, de 1971, ergo o meu brinde silencioso, homenageando a um tempo bom, que foi nosso também, o qual nunca se apagará do nosso espírito.

Há quarenta anos ainda não se comemorava o Dia Internacional da Mulher, portanto, alegro-me perceber que, o dia do nosso início de curso, se transformou numa solene data.

Lino Cardoso

Texto publicado no jornal "A Folha" de Jaguarão, em 10 de março de 2011.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

PROJETO SARAU BPP / UM ANO DE POESIA NA CASA DO LIVRO/ 31 DE MAIO


Projeto Sarau Poético-Musical BPP destaca obra de poetas de cinco países
Projeto Sarau Poético-Musical BPP  completa e comemora, nesta terça (31), um ano de atividades. A edição de número 11 será desenvolvida  em torno da obra dos oito poetas-autores destacados desde o primeiro evento, em maio de 2010. Criado com a proposta  de abrir espaço à poesia de todos os tempos, geografias e escolas, o projeto destacou autores* de cinco países   e de um período que cobre os dois últimos séculos. A XI edição do Sarau Poético-Musical BPP começa às 19:30 horas, no salão térreo da Bibliotheca. Entrada franca, como em todos eventos da instituição.
Na abertura do evento de aniversário, uma apresentação especial do Coral Linguagem de Emoções.O destaque aos  oito poetas-autores do Brasil, Uruguai, Argentina, Chile e Portugal começa com uma exposição sobre vida, obra e contexto , a cargo do jornalista Pablo Rodrigues. Na sequência, blocos alternados de música e poesia. Gilnei  Oleiro, Jorge Braga , Eduardo Pereira , Pedro Moacyr da Silveira e Ricardo Petrucci apresentam poemas de Mário Benedetti, Pedro Wayne, Fernando Pessoa , Pablo Neruda , Patricia Galvão ( Pagu), Lobo da Costa e Esteban Etcheverría. Convidado para os blocos de música ao vivo, Gilberto Isquierdo mostra  parte da obra do poeta-letrista Mauricio Raupp Martins ( Pelotas) , autor regional destacado na edição de novembro de 2010.


* Nesta edição de aniversário são destacados TODOS os autores lembrados desde a primeira , em  maio de 2010:

MARIO BENEDETTI / Uruguai ( 1924 - 2009)
PABLO NERUDA / Chile ( 1904 - 1973)
FERNANDO PESSOA / Portugal ( 1888 - 1935)
PEDRO WAINE / Brasil ( 1904 - 1951)
PATRICIA GALVÃO ( PAGU) / Brasil ( 1910 - 1962)
LOBO DA COSTA / Brasil ( 1853 -1888)
ESTEBAN ETCHEVERRIA / Argentina ( 1805 - 1851)

MAURICIO RAUPP MARTINS ( POETA-LETRISTA /AUTOR REGIONAL)



CONFIRA
O QUE - Edição especial de aniversário ( um ano)  do Projeto  Sarau Poético-Musical BPP.
QUANDO E ONDE: 31 de maio , no salão térreo da BPP. Entrada franca. Inicio às 19:30 horas
CONVIDADOS
Conversa sobre os autores destacados 
PABLO RODRIGUES - Jornalista e cronista.


Música
GILBERTO ISQUIERDO
CORAL LINGUAGEM DE EMOÇÕES
Poesia recitada ( dos autores em destaque)
Gilnei Oleiro , Jorge Braga , Pedro Moacyr Silveira , Ricardo Petrucci e Eduardo Pereira
Realização
Bibliotheca Pública Pelotense
Coordenação Projeto Sarau Poético BPP
Daniela Pires de Castro
Getulio Matos
Mara Agripina Ferreira
Pedro Moacyr Perez da Silveira
Parceiros Institucionais

Confraria dos Poetas de Jaguarão
Faculdade de Educação / UFPel
Faculdade de Letras / UFPel
Instituto Estadual de Educação Assis Brasil
Apoiadores Culturais
Labore Engenharia
RádioCOM.104.5FM
STUDIO CDs
Centro de Estudios en Lengua Española

sexta-feira, 27 de maio de 2011

El País Cultural: a resenha de Soledad Platero sobre livro de Joyce Carol Oates

Oates in 2006. Photo: Sarahana Shrestha

NOVELA DE JOYCE CAROL OATES

La destreza de una experta


Soledad Platero
JOYCE CAROL OATES lo hizo una vez más. Publicó otra de esas novelas que hacían crispar de horror y envidia a Truman Capote, y que la vienen manteniendo entre los autores más leídos en su país desde hace décadas.
Hay quienes dicen que el Gran Novelista Norteamericano -una fantasía que ronda toda producción de largo aliento ambientada en los Estados Unidos- no es un hombre, sino una mujer, y se apellida Oates. La afirmación es verosímil. Esta mujer menuda, con cara de ratón de biblioteca y ojos agrandados por lentes gruesísimos, lleva publicada una centena de títulos entre los que hay novelas, cuentos, poesía, ensayo y teatro. Aunque sería exagerado decir que todos son buenos, hay que reconocer que con los que son muy, muy buenos, ya se ganó un lugar indisputable en las letras en lengua inglesa.
Ave del paraíso es una muestra de lo mejor de Oates: un novelón gótico escrito con la inteligencia y la destreza de una experta. En el comienzo hay un crimen. Una joven mujer, esposa y madre, aparece asesinada brutalmente en su cama, en la vivienda barata que compartía con una amiga desde que había tomado la decisión de cambiar de vida, dejando atrás a su marido. El que la encuentra es Aaron, su hijo adolescente. La policía comienza inmediatamente a buscar sospechosos, y los que se perfilan con más posibilidades son el ex marido, Delray Kruller, y el amante, Eddy Diehl. Como en una novela de James Ellroy, esa muerte brutal, especialmente violenta, pondrá en marcha una historia que se abre siguiendo a dos personajes: Aaron, el hijo de Zoe Kruller, y Krista, la hija de Eddy Diehl.
Pero Oates es una escritora superior a Ellroy. Sus novelas son mucho más que los truculentos temas que elige (o que la eligen, de creer en sus declaraciones). Es en el notable manejo de las voces narrativas, en el exacto aire que da a cada personaje -a los pensamientos y sensaciones de cada personaje- que se sostienen sus dramones, siempre a un paso de tocarse con la literatura más barata y sensacionalista, pero siempre a un paso también, y mucho más corto, de las grandes novelas clásicas.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Show do Caminhos de Si é atração musical e poética na programação do Fórum Jaguarão Cidade Patrimônio



Programação

27/05
14h – Solenidade de Abertura
Local: Biblioteca Pública

Mesa - “Preservação e recuperação dos bens culturais na cidade”

Arq. Marcelo Ferraz – Brasil Arquitetura. Apresentação dos Projetos do Mercado Público de Jaguarão e Centro de Interpretação do Pampa.

Arq. William Pavão - Patrimonium Arquitetura Restauração do Teatro Esperança e Projeto da Ponte Internacional Mauá – 1° bem binacional tombado pelo IPHAN.

Historiadora Juliana dos Santos Nunes - “Somos o Suco do Carnaval!” A Marchinha Carnavalesca e o Cordão do Clube Social 24 de Agosto

16:30h – Reunião do Colegiado de Memória e Patrimônio da Secretaria de Estado da Cultura.


18:00 - Aldyr Garcia Schlee, homenagem ao autor e sua obra".

19h -  “O Tombamento do Conjunto Histórico e Paisagístico de Jaguarão”

Arq. Eduardo Hahn – Diretor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado - IPHAE
Arq. Ana Lúcia Goelzmer Meira – Superintendente do IPHAN – RS
Arq. Simone Neutzling – Coordenadora da Equipe de Pesquisa do Dossiê de Tombamento da Cidade.
Prefeito Municipal José Cláudio Ferreira Martins




22h – Show - “Caminhos de Si”
Local: Clube Jaguarense


Participação de Paulo Timm, Hélio Ramirez, Martim César, Leonardo Oxley, Gil Soares, Regis Bardini, Alencar Feijó, Fernando Petry, Sandro Calvetti e Jorge Passos

Entrada Franca - Não é necessário retirar convite

28/05


9h – Apresentação de Trabalhos

Local: Biblioteca Pública
“Arqueologia nas Ruínas da Antiga Enfermaria Militar”.
Prof. Dr. Fábio Vergara Cerqueira

“Fortins e Fazendas: patrimônio ibero-americano sulino”.
Profa. Dra. Ester Gutierrez

“Museu e Memorial da Matriz do Divino Espírito Santo”.
Prof. Ms. Jonas Klug da Silveira

“O Museu Comunitário Treze de Maio de Santa Maria-RS e a Construção do Portal para os Clubes Sociais Negros do Brasil como Instrumento de Difusão e Salvaguarda do Patrimônio Cultural Afro-Brasileiro”
Profa. Ms. Giane Vargas Escobar

terça-feira, 24 de maio de 2011

Projeto Cultural América & Pampa da Bibliotheca Pública Pelotense

Conversa sobre Jornalismo & Literatura





Evento abre programação  2011 do Projeto Cultural  América & Pampa
Em forma de mesa redonda e com o título Conversa sobre Jornalismo & Literatura, um encontro  que reúne profissionais que transitam pelas duas áreas abre, na proxima quarta (25), a programação anual do Projeto Cultural América & Pampa , da Bibliotheca Pública Pelotense (BPP). Fazem parte da mesa os jornalistas-escritores Elmar Bones da Costa e Euclides Pinto Torres, a jornalista e editora Patricia Marini e  o professor  João Luis Ourique, representando o Curso de Jornalismo/Centro de Letras e Comunicação da UFPel , que assina a parceria institucional do evento. Conversa sobre Jornalismo & Literatura - 43º evento do Projeto América & Pampa, criado em novembro de 2003 -  tem  o apoio institucional da RadioCOM.104.5FM ,  homenageada especial pelos dez anos de atividades, iniciadas em 12 de junho de 2001. 

Com entrada franca - regra de todas promoções da Casa -  o encontro começa às 19 horas, no salão térreo da Bibliotheca.

CONFIRA

O QUE - Mesa redonda sobre jornalismo e literatura

QUANDO E ONDE - 25 de Maio , 19 horas , salão térreo da Bibliotheca Pública Pelotense - Praça Cel Pedro Osório, 103, centro, Pelotas RS. ENTRADA FRANCA.

CONVIDADOS
Elmar Bones da Costa - Jornalista e escritor
Euclides Pinto Torres - Jornalista e escritor
João Luis Ourique - Professor de Estudos Literários / Curso de Jornalismo UFPel
Patricia Marini - Jornalista e editora ( JÁ Editores, Porto Alegre)

REALIZAÇÃO: Bibliotheca Pública Pelotense. Evento do calendário anual do Projeto Cultural América & Pampa.

PARCEIRO INSTITUCIONAL - Curso de Jornalismo/Centro de Letras e Comunicação da UFPel  ( Universidade Federal de Pelotas) / Coordenação professor João Luis Ourique.

APOIADOR - RádioCOM104.5FM ( Pelotas)

HOMENAGEM ESPECIAL - Sociedade Civil RádioCOM104.5FM , parceira dos projetos culturais da BPP, pelos dez anos de atividades.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

ALEXANDRIA


Em uma redoma vivemos – em cima o vidro! -
Que pensamos ser o céu... grande ilusão!
Embaixo está o gado – o andar contido -
A viver temendo a Deus, e a olhar o chão.

Se um se aparta da manada... está perdido!
Deve ser logo execrado – e sem perdão! -
Antes que crie algum invento sem sentido
E acenda a luz que ponha fim à escuridão.

Não à ciência! Deve haver somente um livro!
Que - por antigo - se atribua à divindade,
Embora escrito não se sabe bem por quem...

Não à mulher! …e ao seu pecado primitivo!
Tolas hereges que apregoam a igualdade...
Que Deus nos livre desse mal! Orai! Amém!!!

                  Martim César

domingo, 22 de maio de 2011

Patrimônio estadual abandonado em Jaguarão



Na esquina das ruas Andrade Neves com Mal. Deodoro encontra-se um belo prédio, pertencente ao Governo do Estado do Rio Grande do Sul, onde antigamente estava localizada a Inspetoria Veterinária estadual.
Atualmente, o casarão está em situação de completo abandono e ameaçado de ruir, apesar do enorme valor imobiliário e do inestimável valor histórico e patrimonial.
No momento em que Jaguarão é agraciada pelo IPHAN com o tombamento do conjunto histórico e paisagístico do centro urbano da cidade, esperamos que a atual administração estadual sensibilize-se em prol da preservação do seu patrimônio.
Há alguns órgãos estaduais na cidade funcionando em prédios alugados, portanto um projeto de restauração do bem, sem dúvida, proporcionará um bom retorno aos cofres públicos.

Jorge Passos

sábado, 21 de maio de 2011

Língua e Ignorância

Nas duas últimas semanas, o Brasil acompanhou uma discussão a respeito do livro didático Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, distribuída pelo Programa Nacional do Livro Didático do MEC. Diante de posicionamentos virulentos externados na mídia, alguns até histéricos, a ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LINGUÍSTICA - ABRALIN - vê a necessidade de vir a público manifestar-se a respeito, no sentido de endossar o posicionamento dos linguistas, pouco ouvidos até o momento.

Curiosamente é de se estranhar esse procedimento, uma vez que seria de se esperar que estes fossem os primeiros a serem consultados em virtude da sua expertise. Para além disso, ainda, foram muito mal interpretados e mal lidos.
O fato que inicialmente chama a atenção foi que os críticos não tiveram sequer o cuidado de analisar o livro em questão mais atentamente. As críticas se pautaram sempre nas cinco ou seis linhas largamente citadas. Vale notar que o livro acata orientações dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) em relação à concepção de língua/linguagem, orientações que já estão em andamento há mais de uma década. Além disso, não somente este, mas outros livros didáticos englobam a discussão da variação linguística com o intuito de ressaltar o papel e a importância da norma culta no mundo letrado.

Portanto, em nenhum momento houve ou há a defesa de que a norma culta não deva ser ensinada. Ao contrário, entende-se que esse é o papel da escola, garantir o domínio da norma culta para o acesso efetivo aos bens culturais, ou seja, garantir o pleno exercício da cidadania. Esta é a única razão que justifica a existência de uma disciplina que ensine língua portuguesa a falantes nativos de português. 

A linguística se constituiu como ciência há mais de um século. Como qualquer outra ciência, não trabalha com a dicotomia certo/errado. Independentemente da inegável repercussão política que isso possa ter, esse é o posicionamento científico. Esse trabalho investigativo permitiu aos linguistas elaborar outras constatações que constituem hoje material essencial para a descrição e explicação de qualquer língua humana.

Uma dessas constatações é o fato de que as línguas mudam no tempo, independentemente do nível de letramento de seus falantes, do avanço econômico e tecnológico de seu povo, do poder mais ou menos repressivo das Instituições. As línguas mudam. Isso não significa que ficam melhores ou piores. Elas simplesmente mudam.
Formas linguísticas podem perder ou ganhar prestígio, podem desaparecer, novas formas podem ser criadas. Isso sempre foi assim. Podemos ressaltar que muitos dos usos hoje tão cultuados pelos puristas originaram-se do modo de falar de uma forma alegadamente inferior do Latim: exemplificando, as formas “noscum” e “voscum”, estigmatizadas por volta do século III, por fazerem parte do chamado “latim vulgar”, originaram respectivamente as formas “conosco” e “convosco”.

Outra constatação que merece destaque é o fato de que as línguas variam num mesmo tempo, ou seja, qualquer língua (qualquer uma!) apresenta variedades que são deflagradas por fatores já bastante estudados, como as diferenças geográficas, sociais,etárias, dentre muitas outras. Por manter um posicionamento científico, a linguística não faz juízos de valor acerca dessas variedades, simplesmente as descreve. No entanto, os linguistas, pela sua experiência como cidadãos, sabem e divulgam isso amplamente, já desde o final da década de sessenta do século passado, que essas variedades podem ter maior ou menor prestígio. O prestígio das formas linguísticas está sempre relacionado ao prestígio que têm seus falantes nos diferentes estratos sociais. Por esse motivo, sabe-se que o desconhecimento da norma de prestígio, ou norma culta, pode limitar a ascensão social. Essa constatação fundamenta o posicionamento da linguística sobre o ensino da língua materna.

Independentemente da questão didático-pedagógica, a linguística demonstra que não há nenhum caos linguístico (há sempre regras reguladoras desses usos), que nenhuma língua já foi ou pode ser “corrompida” ou “assassinada”, que nenhuma língua fica ameaçada quando faz empréstimos, etc. Independentemente da variedade que usa, qualquer falante fala segundo regras gramaticais estritas (a ampliação da noção de gramática também foi uma conquista científica). Os falantes do português brasileiro podem fazer o plural de “o livro” de duas maneiras: uma formal: os livros; outra informal: os livro. Mas certamente nunca se ouviu ninguém dizer “o livros”. Assim também, de modo bastante generalizado, não se pronuncia mais o “r” final de verbos no infinitivo, mas não se deixa de pronunciar (não de forma generalizada, pelo menos) o “r” final de substantivos. Qualquer falante, culto ou não, pode dizer (e diz) “vou comprá” para “comprar”, mas apenas algumas variedades diriam 'dô' para 'dor'. Estas últimas são estigmatizadas socialmente, porque remetem a falantes de baixa extração social ou de pouca escolaridade. No entanto, a variação da supressão do final do infinitivo é bastante corriqueira e não marcada socialmente. Demonstra-se, assim, que falamos obedecendo a regras. A escola precisa estar atenta a esse fato, porque precisa ensinar que, apesar de falarmos “vou comprá” precisamos escrever “vou comprar”. E a linguística ao descrever esses fenômenos ajuda a entender melhor o funcionamento das línguas o que deve repercutir no processo de ensino.
Por outro lado, entendemos que o ensino de língua materna não tem sido bem sucedido, mas isso não se deve às questões apontadas. Esse é um tópico que demandaria uma outra discussão muito mais profunda, que não cabe aqui.
Por fim, é importante esclarecer que o uso de formas linguísticas de menor prestígio não é indício de ignorância ou de qualquer outro atributo que queiramos impingir aos que falam desse ou daquele modo. A ignorância não está ligada às formas de falar ou ao nível de letramento. Aliás, pudemos comprovar isso por meio desse debate que se instaurou em relação ao ensino de língua e à variedade linguística.

Maria José Foltran 
Presidente da Abralin


Capítulo do livro didático que gerou a polêmica: Clique aqui para ler

Inércia


In+®rcia - Jairo Tx 
Depois das paredes
Testemunhas confidentes
Janelas embaçadas
Como se a noite
Estivesse toda desenhada
Na ilusão de um segundo

[Casual

Depois do gozo
Fraterno e delinqüente
Sussurros ardentes
Confissões insolúveis
Daquele beijo quente
Não irei me esquecer

[Jamais

Depois de ti...
Não houve mais nada


                                                            Daniel Moreira
                                                   revista-seja.blogspot.com

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Língua. Rio que não pode ser represado

Foto Araquem Alcântara


“A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil”     
( Manuel Bandeira)



Reproduzimos resposta do Prof. Dr. Clecio dos Santos Bunzen Júnior à Procuradora Janice Ascari.


Cara Procuradora da República, 

Como professor adjunto de uma universidade pública, sinto-me “chocado”. O meu “choque” (diferente do seu) não é com a proposta didática da coleção “Viver, Aprender”, mas com a postura da mídia e de seus interlocutores. Ao ler a notícia sobre uma possível ação no Ministério Público, fiquei pensando como vocês não conhecem as discussões sobre ensino de língua, materiais didáticos e, especialmente, de Educação de Jovens e Adultos. 
A coleção em discussão não apresenta novidade, uma vez que os livros didáticos de ensino fundamental I, II e Médio já apresentam tal discussão desde o final dos anos 70. A grande novidade (talvez!) é apresentar tal questão sobre a língua para jovens e adultos. Então, qual seria o problema? A ação no Ministério Público será contra todas as coleções didáticas e gramáticas pedagógicas que mostram que a língua não é estática? Se tais coleções fazem tal proposta é porque há uma discussão no Brasil, legitimada pela academia e pelos documentos oficiais. A falta de conhecimento sobre ensino de língua materna, sobre os Referenciais Curriculares da EJA e sobre os critérios de avaliação mostra que a ação no Ministério tende a fracassar. Qual é o argumento? Que o livro didático (“a”, “b”, “c”, “n”) ensina o aluno a falar errado? Se for, há vários equívocos: (1) o livro não ensina ninguém a falar, mas promove atividades que façam o falante refletir sobre sua língua; (2) não é apenas essa coleção que faz tal trabalho com a variação linguística; (3) tal coleção se baseia em discussões teóricas no campo da Sociolinguistica, da Linguistica Aplicada, da Sociologia da Educação, etc. Como a autora da coleção falou, ela não estava ensinando a escrita formal e pública, mas estava discutindo sobre diferentes formas de “falar” e sua adequação a uma situação específica. Tal questão já foi discutida em outros países, por isso ela não é “recente”. Talvez, o que é recente é saber que as pessoas sabem pouco sobre Educação de Jovens e Adultos. Então, como discutir a proposta do livro em análise sem pensar que os cursos de licenciatura no Brasil não discutem o ensino de EJA.
Acho que há vários problemas na EJA que poderiam ser alvo de discussão e de políticas públicas, mas a discussão parece-me que é outra: vocês atacam o atual Ministro da  Educação, o PT, o ex-presidente através da autora do livro didático. Parece-me um bom momento para discutirmos o ensino de língua no Brasil, mas, repito, tal discussão não é nova. 
Enfim, acho completamente impossível defender uma ação no Ministério Público sem conhecimento sobre os direitos universais linguísticos, as propostas de ensino de língua no Brasil desde os anos 70, as outras coleções de livros didáticos de ensino de língua materna, sobre os critérios de avaliação do PNLA, etc. 
A autora do livro didático está sendo acusada de uma questão que não é pessoal (por isso, não é um erro), mas uma posição política e pedagógica que defendemos em várias obras, discussões, cursos de formação, avaliação de materiais didáticos, etc. Por tal razão, não é um crime. Se fosse um crime, teríamos que prender muitas pessoas. Quando começará a caça às bruxas? No entanto, antes de afirmarmos que tal ação pedagógica é um “crime”, sugiro definir que tipo de “crime” com base nas discussões sobre política linguística. O total desconhecimento dessa política nos faz afirmar informações (na mídia, nos blogs) que deixam muitos professores, pesquisadores e interessados no ensino de língua literalmente “chocados”. 


Prof. Dr. Clecio dos Santos Bunzen Júnior 

Mestre e Doutor em Linguistica Aplicada pela Unicamp
Professor da Universidade Federal de São Paulo