sábado, 30 de abril de 2011

Lau Siqueira lança livro em Porto Alegre, Curitiba e João Pessoa.

A editora gaúcha Casa Verde lançará no próximo dia 5 de maio, às 20 horas, na Casa de Cultura Mário Quintana,  em Porto Alegre, o livro "Poesia Sem Pele” do poeta Lau Siqueira. O evento faz parte da programação do IV FestPoa Literária, um dos mais importantes festivais de literatura do sul do país. Poesia Sem Pele será o segundo livro da coleção Cidade Poema – projeto que deixou  a capital gaúcha “de frente pro verso” (www.cidadepoema.com) e será o quinto livro deste gaúcho radicado há mais de duas décadas na Paraíba.
Os próximos lançamentos acontecerão no dia 10 de maio, às 19 horas, em Curitiba, num dos points culturais da cidade, o Brooklyn Café. No Paraná o evento será promovido pelo Jornal Memai, órgão de comunicação da colônia japonesa local. Em João Pessoa será no dia 18 de maio, às 20 horas, no pátio do Complexo Juliano Moreira (Avenida Pedro II), como parte da programação de abertura da Semana de Luta Antimanicomial, evento que terá ampla programação, com participação de artistas importantes como Babilak Bah e Tom Zé.
Segundo o poeta, "será um um prazer enorme lançar livro em Porto Alegre por uma editora que aposta nos escritores gaúchos. Também será uma oportunidade rara lançar em Curitiba, cidade de grande tradição literária e em João Pessoa, cidade que me acolheu e me fez conhecido na literatura brasileira contemporânea." 

O lançamento em João Pessoa acontece dentro de um contexto muito especial: a Semana de Luta Antimanicomial. "A sociedade moderna é palco de injustiças históricas. Uma delas se refere ao preconceito com a doença mental. Um fato amparado em métodos criminosos como o confinamento, a lobotomia, o choque elétrico e outras aberrações. Queremos despertar um olhar carinhoso para esta causa. Os artistas sabem, por exemplo, que o Museu de Imagens do Inconsciente, foi criado em 1952 pela Dra. Nise da Silveira, uma alagoana ex-aluna de Carl Jung que ainda hoje é um ícone da luta antimanicomial. Ela foi presa pela ditadura do Estado Novo e virou personagem do livro Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos. Lançar meu livro nesse contexto foi uma decisão que teve a ver com a literatura e seus motivos, mas sobretudo, tem a ver com a nossa condição humana. Como diz Antônio Cândido, "a literatura é um dos direitos humanos", conclui Lau Siqueira.

Segundo o crítico, poeta e Prof. Dr. do Depto de Letras da UFPB, Amador Ribeiro Neto, "Lau consegue tomar a simplicidade de Bandeira e associá-la a requintes de uma linguagem poética que não se entrega de imediato. Acho que entrega-se parcimoniosa e incompletamente variadas vezes. Como toda boa poesia." O poeta, crítico e Prof. Dr. da UFPB, Hildeberto Barbosa Filho, também faz referências ao poeta gaúcho: "Herdeiro dos modernos, herdeiro das vanguardas, herdeiro dos poetas marginais, o poeta gaúcho/paraibano parece provar a efetividade das fusões estéticas, sem comprometer as propriedades idiomáticas de um estilo pessoal e as marcações pontuais de um olhar autônomo."

Citado por críticos e escritores em diversos estados e até fora do país, Lau Siqueira tem poemas traduzidos em diversos idiomas. Foi um dos poetas publicados Na antologia "Na virada do século – poesia de invenção no Brasil", lançada pela Editora Landy (SP), em 2002. Os organizadores, também poetas e críticos Frederico Barbosa e Cláudio Daniel reuniram nesta antologia, nomes importantes da poesia contemporânea, como Arnaldo Antunes, Cláudia Roquette Pinto  e Glauco Mattoso. Para Frederico Barbosa, "Lau trilha um caminho infelizmente raro na poesia brasileira contemporânea: o da experimentação sem preconceitos e busca uma dicção aparentemente espontânea, mas que é fruto de um intenso trabalho com a linguagem. Lição que nos deixaram poetas como Carlos Drummond de Andrade (nos seus melhores momentos), Manuel Bandeira e Mário Quintana."

PELE SEM PELE - www.lau-siqueira.blogspot.com
“Eu me interesso pela linguagem porque ela me fere ou me seduz”.
(Roland Barthes)

DIA 05 DE MAIO, QUINTA-FEIRA

Casa de Cultura Mario Quintana

17h Auditório Luis Cosme Mesa Canção e letra de canção: Antonio Cicero, Frank Jorge e Felipe Azevedo (mediação) 
  
18h30 Auditório Luis Cosme Mesa Satolep-São Luís, a literatura e a música de Zeca Baleiro e Vitor Ramil. Mediação: Guto Leite 

20h Quintana’s bar (Mezanino) Mostra Artística Cabaré do Verbo:escritores e músicos convidados da FestiPoa Literária. Lançamentos: l’amore no”, de Leonardo Marona, e “Poesia sem pele”, de Lau Siqueira.

O autor: 
Lau Siqueira nasceu em Jaguarão,RS. Publicou três livros: O Comício das Veias (Paraíba: Editora Idéia, 1993), O Guardador de Sorrisos (Paraíba: Editora Trema, 1998) e Sem Meias Palavras (Paraíba: Editora Idéia, 2002). Tem poemas publicados nas últimas edições do Livro da Tribo (São Paulo: Editora Tribo) e na antologia Na Virada do Século — Poesia de Invenção no Brasil (São Paulo: Editora Landy, 2002), organizada pelos poetas Frederico Barbosa e Cláudio Daniel.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Pianista Jaguarense Adrian Borges será um dos solistas nos concertos do Projeto SESI Catedrais 2011

Orquestra de Câmara Fundarte anuncia vencedores do Concurso Jovens Solistas

Jovens solistas (Foto Claudio Etges) 

Realizado pela Orquestra de Câmara Fundarte desde 2004, em parceria com o SESI/RS, nesta  edição do Concurso Jovens Solistas, 14 jovens músicos foram aprovados para atuar como solistas dos concertos do Projeto SESI Catedrais realizados em 2011. Os aprovados, com idade entre 14 e 25 anos, são músicos de Porto Alegre (7), Montenegro (2), São Leopoldo (2) Jaguarão (1), Santa Maria (1), Novo Hamburgo (1), que estudam na UFRGS, UFSM e UFPEL no Instituto Educacional de Ivoti e integram a orquestra da ONG IPDAE - Instituto Popular de Arte-Educação.

O Concurso Jovens Solistas
De âmbito nacional para todas as modalidades de instrumentos é indicada para estudantes ou profissionais com até 25 anos. Tem como objetivo oportunizar  a jovens músicos atuarem como solistas da série de concertos do projeto SESI Catedrais e outros projetos da Orquestra de Câmara Fundarte,  bem como descobrir jovens instrumentistas que estão se destacando em seus estudos musicais.

CLIQUE AQUI  para ler mais

ADRIAN BORGES 

Pianista, natural de Jaguarão. Iniciou seus estudos de piano no Instituto Musical de Jaguarão, em 2004, com a professora uruguaia Sandra Freire. Em 2007, ingressou no Curso de Bacharelado em Música, modalidade Piano, da UFPel, orientado pela pianista Joana Holanda. É bolsista como pianista de correpetição na instituição. Participou de Cursos e Master classes com pianistas do Brasil e do Exterior, como Max Uriarte, Ney Fialkow, Olinda Allessandrini, Cristina Capparelli, Fredi Gerling e Ksenia Nosikova (Rússia/USA). Participou do Festival de Inverno do Vale Vêneto, em 2008, com a professora italiana Cinzia Bártoli, e do Festival Internacional de Música no Pampa, em 2010. Apresentou-se em Pelotas, Jaguarão, Bagé, Santa Maria, Vale Vêneto, Curitiba e Rio Branco/Uruguai.
              http://www.muhm.org.br

Theodoro Rodrigues: Um Ilustre Desconhecido


Quando pensamos na história das cidades e das grandes civilizações, sempre vem à nossa mente nomes de homens que se destacaram dentre tantos outros membros que compõem determinada sociedade. Uma história dos grandes feitos e dos grandes homens.

Em Jaguarão não foi diferente. Sempre nos lembramos do Dr. Alcides Marques, Odilo Gonçalves, Barbosa Neto, Carlos Barboza, dentre outras personalidades. Geralmente os nomes que se costuma perpetuar nos anais da história de um povo são membros das elites dominantes, ou seja, homens influentes, tanto no campo político, como nos campos econômicos e intelectuais. Essa, portanto, seria uma história “vista de cima”, a partir dos grupos dominantes.

Entretanto, a história também foi feita por outras classes sociais e aos poucos, foi-se dando destaque para esses “excluídos”, como os negros, as mulheres, as classes operárias, etc. Em nossa cidade também existe ilustres desconhecidos, aqui darei destaque a figura de Theodoro Rodrigues.

Esse homem nasceu em Jaguarão no ano de 1899, na Capela São Luís, no dia 9 de novembro e era filho de Virgínia Rodrigues. Sua paternidade até o momento não se pôde identificar e a partir disso já se pode deduzir que se tratava de um negro saído da escravidão, filho de mãe solteira.

Foi músico da fanfarra do 3º Regimento de Cavalaria General Osório, ingressando nas forças armadas no ano de 1933; três anos mais tarde foi transferido para Porto Alegre, onde também exerceu a profissão de mecânico.

Lendo a história de Rodrigues, poderíamos considerá-lo como mais um homem simples, dedicado ao seu ofício e que primava pelo seu aperfeiçoamento para vencer as adversidades da vida. No entanto Theodoro Rodrigues teve participação ativa nos meios sociais jaguarenses.  No campo do esporte, foi sócio fundador do Jaguarão Esporte Clube, foi também sócio fundador da Sociedade Operária Jaguarense, hoje Círculo Operário Jaguarense, sendo por várias ocasiões presidente desta instituição e grande incentivador da formação de uma banda de música para os operários.

E seu grande destaque nos meios sociais jaguarenses, foi a fundação, em agosto de 1918, do Clube Social 24 de Agosto e do cordão carnavalesco dessa instituição, “União da Classe”. Esse talvez tenha sido um dos grandes legados de Theodoro Rodrigues, que, cansado de sentir a discriminação por conta de sua cor de pele e de ver a exclusão de seus companheiros negros, resolveu unir esforços e fundar essa tradicional agremiação. Há que se destacar ainda, que Theodoro pertenceu a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário na qual participou como festeiro ou juiz de devoção.

Homens como Theodoro Rodrigues devem ser cada vez mais vistos e lembrados; um cidadão simples, mas que deixou grandes contribuições para a sociedade jaguarense e para a comunidade negra local.

Juliana Nunes

Texto publicado no Jornal Fronteira Meridional, edição do dia 21 de abril de 2011.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Encontro Nacional das cidades históricas e turísticas em Belém- PA. Prefeito Cláudio Martins será um dos painelistas


O Prefeito de Jaguarão Cláudio Martins foi convidado no início deste mês para ser um dos painelistas do 3º Encontro Nacional das Cidades Históricas e Turísticas, que vai ocorrer de 28 a 30 de abril, na cidade de Belém (PA). O convite foi feito pelo Ministério do Turismo e Prefeitura Municipal de Belém.

De acordo com os organizadores, o Encontro terá como objetivos principais a promoção e a elaboração de propostas para busca de soluções aos entraves identificados e apresentados durante os Fóruns e Encontros Nacionais de Cidades Históricas e Turísticas, já realizados.

O Prefeito Cláudio Martins conta que foi convidado para participar do painel de apresentação “A organização e criação das Associações das Cidades Históricas no Brasil (ABCH)”, marcado para a manhã do dia 29 de abril. Na oportunidade será realizada uma explanação prática sobre a construção da ABCH no Brasil e estados, os passos para sua institucionalização, sua evolução e resultados práticos para os membros associados. Esse debate deve contar também com a presença do Presidente da Associação Brasileira das Cidades Históricas e da Associação das Cidades Históricas de Minas Gerais.

Em março deste ano Cláudio Martins foi eleito o primeiro presidente da Associação das Cidades Históricas do Rio Grande do Sul.


Não é por acaso que Jaguarão está ponteando as ações no que se refere ao turismo cultural e na preservação do patrimônio histórico. A projeção de nossa cidade com o  tombamento por parte do IPHAN é fruto de muito trabalho por parte dos agentes culturais e de toda a administração municipal que investiu nesses projetos. 
A Confraria parabeniza o Prefeito Claúdio Martins pela liderança na Associação das Cidades históricas do Rio Grande do Sul e deseja que sigamos avançando nessa área.

Investir em cultura, é investir em desenvolvimento.

Torcedor de Jaguarão é noticia no Clic RBS


Reproduzimos matéria do repórter Diego Guichard da ZH - enviado especial a Montevidéu.

Fã de Figueroa, torcedor do Peñarol se rende ao Inter

Xará do ídolo chileno, Elias se mudou para Jaguarão nos anos 70
Elias (centro) vai torcer pelo Colorado no UruguaiFoto: Diego Guichard
Torcedor do Peñarol de nascimento, mas colorado por opção. Natural de Rio Branco, Elias Pereira viveu em solo uruguaio até os 20 anos. Na década de 70, se mudou para Jaguarão, quando conheceu o Inter e se virou fã de um atleta chileno do clube gaúcho: Elias Figueroa.
Desde então, se apaixonou pelo Inter e virou colorado.
— Me chamo Elias, como Figueroa. Cheguei ao Brasil no mesmo ano que ele foi contratado pelo Inter. Desde então, sou colorado por opção — relata.
Elias Pereira é pai de Eduardo Pereira, que já "nasceu colorado" em Jaguarão. Juntos, estarão no Centenário, torcendo pelo Inter.
— Sou Peñarol, mas sou mais colorado — acrescenta "don Elias" Pereira.
Diego Guichard - 

Fonte: 

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Além da paixão pelo futebol, o Jaguarense por adoção Elias Pereira, também é amante das artes, mais especialmente da escultura, com vários trabalhos realizados nesta fronteira. Uma das obras do Elias está exposta na frente do Liceu do Rio Branco. 


Conversando sobre Esteban Echeverría no Sarau da BPP


Eu quero, inicialmente, cumprimentar ao Daniel Moreira pela atitude perseverante que resulta nesta décima edição do Sarau Poético Musical, e na pessoa do Daniel eu estou cumprimentando a todos os demais organizadores e apoiadores, que com toda a segurança darão continuidade a este evento. Aproveito para dizer que estou duplamente vinculado aos apoiadores do Sarau – tanto pela Confraria dos Poetas de Jaguarão, quanto pela nossa Faculdade de Letras da UFPel.

Agradeço o convite que me fizeram para estar aqui “charlando” sobre Esteban Echeverría, poeta argentino, que viveu e morreu no século dezenove.

Essa “conversa”, que abre as edições de nossos saraus, ao que me parece, tem se caracterizado por “lembrar um autor”; o que delimita o contorno de minha fala, como o fez com a fala daqueles que me precederam. Não se trata de uma “ponencia” acadêmica senão que é apenas uma “charla nomás”. É como se continuássemos a conversa que vínhamos tendo a caminho daqui. De modo que estejam à vontade para a interposição de apartes e etc.

Bueno, mas desde onde lhes falo? Poderia invocar a carta de intenções da Confraria dos Poetas de Jaguarão: “nenhum assunto é estranho a mim e a meus confrades”, porém mais do que isto, o eixo motivador do aceite ao convite é a convergência fortuita entre uma obra de Echeverría e meu interesse de pesquisa. Esta obra é a mítica narrativa El Matadero. E o meu interesse de pesquisa: “A fantasia do estado de natureza no par de opostos barbárie versus civilização”. Por cautela trato de lhes assegurar o viés literário – no entanto o viés político é quase inarredável.

Quando um autor é apresentado, é costume anotar-lhe dados biográficos; de momento é suficiente dizer que se trata de um argentino, que viveu um par de anos na Europa, que retornando à Argentina filiou-se àqueles que se opunham à ditatura de Rosas e que, por força disto teve de exilar-se em Montevidéu onde, por fim, vem a morrer na pobreza. Por que nesta nossa conversa importa falar do El Matadero? falar deste conto é contextualizar Echeverría.

Disse do fortuito convergir desta obra com meu interesse de pesquisa no campo da Filosofia Política e da Filosofia do Direito. E se me perguntam se ela integra algum artigo meu publicado, digo que não, ainda, pois tem sido um interesse, embora já de algum tempo, marginal e obsedante. Surgiu-me por acaso em uma circunstância em que assistia o depoimento de um diretor de cinema à televisão, no qual o referido cineasta menciona o seguinte. Numa entre safra, ao tempo em que garimpava um bom roteiro para seu próximo filme, entrevistou-se com o grande escritor argentino Jorge Luis Borges – pois o interesse era adaptar o conto A Intrusa para o cinema. Na circunstância o cineasta justificara seu interesse na obra de Borges dado a que esta trabalhava a questão da barbárie. Borges teria contra-argumentado que o diretor estaria melhor servido, da dobradinha civilização/barbárie, caso visitasse outras obras – conhecedor da literatura norte-americana teria citado inclusive o Gangues de Nova York, posteriormente indicado ao Oscar nas mãos do genial Scorcese - e, e Borges teria mencionado, além do Facundo, de Sarmiento, também o texto em questão, de nosso Esteban Echeverría, El Matadero. Bueno, assim é que recordo a primeira menção ao conto. A partir daí o tenho lido e relido; vamos a ele.

A polêmica em torno de qualquer mito é sua plurivalência, sua multifuncionalidade. Tenho para mim que este texto é tão polêmico justamente por isso. Primeiro, do ponto de vista literário, ele propõe a renovação da estrutura da narrativa argentina, até então centrada nos moldes europeus, dirá:

A pesar de que la mía es historia, no la empezaré por el arca de Noé y la genealogía de sus ascendientes como acostumbraban hacerlo los antiguos historiadores españoles de América que deben ser nuestros prototipos. Tengo muchas razones para no seguir ese ejemplo, las que callo por no ser difuso.

El Matadero é apontado, por uns, como o primeiro conto genuinamente argentino, outros discordam, não vendo na narrativa um conto, segundo as normas da Teoria literária, outros alegam não ser a primeira prosa argentina por que só foi publicado postumamente, em 1871 ( por Juan María Gutiérres, amigo do poeta), embora seja incontestável que Echeverría escreveu El Matadero quase uma década antes da publicação do Facundo, civilização e barbárie, em 1845, de Sarmiento, esta obra que é tida como a inaugural da prosa argentina. Ainda do ponto de vista do estilo literário, El Matadero vai erigir outra esfinge; embora Esteban Echeverría seja tido como o primeiro poeta romântico argentino, esta peça pode ser vista como prenunciadora do realismo, até mesmo avant la lettre de um realismo naturalista de um Emile Zola (1840-1902).

Muito bem, mas o aspecto mítico que se quer aqui destacar é o de ter tratado, mediante um discurso estético espetacular, a questão do par a barbárie X civilização, que permeia toda a história política argentina, que, como se sabe, é marcada pela oposição entre federalistas e unitários. Argentina recém liberta do jugo colonial espanhol, qual seria sua nova condição política. Cito, rapidamente, o artigo de Roberto Fiorucci, O conto hispano-americano: relação entre história e literatura em El Matadero:

As divisões internas diante do espólio colonial espanhol dividiram politicamente o que seria o futuro território do país austral. A crença em um futuro modernizador levou os políticos liberais a questionar as práticas consolidadas e, ao mesmo tempo, a sinalizar outros processos históricos que tinham um perfil hierarquizador. Um setor defendia uma ordem “moderna” e o outro representava uma tradição “arcaica”. Estes dualismos favoreceram as explicações esquemáticas, mas na prática, as divergências eram mais complexas. O tema principal da Argentina do século XIX foi apresentado por Domingo Faustino Sarmiento ao escrever o clássico “Facundo: civilização e barbárie” (1845).

Uma primeira marca simbólica deste bi-partidarismo é espacial, no conto, a ação se desenvolve na zona intermediária entre a cidade e o campo. Portanto, a dicotomía “civilização e barbárie” já aparece na ambientação dos fatos narrados, porque o abate era o lugar de encontro entre o rural - a barbárie, segundo a visão dos unitários – e a cidade – a civilização. As reses eram trazidas do campo para alimentar a população urbana.

No mundo do matadouro viviam os pialadores, os magarefes, os retalhadores, as “achuradoras” - as mulatas e as negras que juntavam as vísceras as carcaças, a graxa e o sangue. A ambientação é minuciosa e outra metáfora é articulada é a do tempo da cuaresma – que prega a abstinência da carne e a falta de carne que vinha já assolando a população:

Algunos médicos opinaron que si la carencia de carne continuaba, medio pueblo caería en síncope por estar los estómagos acostumbrados a su corroborante jugo; y era de notar el contraste entre estos tristes pronósticos de la ciencia y los anatemas lanzados desde el púlpito por los reverendos padres contra toda clase de nutrición animal y de promiscuación en aquellos días destinados por la iglesia al ayuno y la penitencia. Se originó de aquí una especie de guerra intestina entre los estómagos y las conciencias, atizada por el inexorable apetito y las no menos inexorables vociferaciones de los ministros de la iglesia, quienes, como es su deber, no transigen con vicio alguno que tienda a relajar las costumbres católicas: a lo que se agregaba el estado de flatulencia intestinal de los habitantes, producido por el pescado y los porotos y otros alimentos algo indigestos.
     Esta guerra se manifestaba por sollozos y gritos descompasados en la peroración de los sermones y por rumores y estruendos subitáneos en las casas y calles de la ciudad o donde quiera concurrían gentes. Alarmose un tanto el gobierno, tan paternal como previsor, del Restaurador creyendo aquellos tumultos de origen revolucionario y atribuyéndolos a los mismos salvajes unitarios, cuyas impiedades, según los predicadores federales, habían traído sobre el país la inundación de la cólera divina; tomó activas providencias, desparramó sus esbirros por la población y por último, bien informado, promulgó un decreto tranquilizador de las conciencias y de los estómagos, encabezado por un considerando muy sabio y piadoso para que a todo trance y arremetiendo por agua y todo se trajese ganado a los corrales.

A fabulação do relato permite sintetizar dizendo que devido a intensas chuvas faltou reses para o abate no “matadero de la Convalecencia”. Duas células dramáticas ocorrem acolheradas neste mesmo cenário: independentemente de ser tempo da cuaresma a autoridade decreta que sejam trazidas e abatidas reses, um touro escapa e foge pelas ruas da cidade, na perseguição ao animal, um laço decepa a cabeça de um menino; um unitário aparece no matadouro e é torturado e assassinado pelos “mazorqueros” (polícia política de Rosas – arregimentada nos extratos mais baixos da população: mazorca = mas horca ou mazorca = espiga de milho).
O conto pode ser lido como estruturado em duas partes: uma ambientação espaço-temporal; que pode remeter à que o Matadouro seja a própria Argentina ao tempo da ditadura do caudilho Juan Manuel de Rosas; e uma segunda parte que descreve a humilhação e o suplício do unitário.
Para finalizar este primeiro segmento de nossa “charla”, que pode ser seguido por intervenções da platéia, eu selecionei algumas passagens do texto, além desta que foi lida acima, que gostaria de dividir com vocês.

Da primeira parte ainda, merece atenção a visão panorâmica da atividade no matadouro que segue o decreto que autorizou o abate de uma tropa de 50 novilhos gordos – “cosa poca por cierto para una población acostumbrada a consumir diariamente de 250 a 300”. Diz o texto:

La perspectiva del matadero a la distancia era grotesca, llena de animación. Cuarenta y nueve reses estaban tendidas sobre sus cueros y cerca de doscientas personas hollaban aquel suelo de lodo regado con la sangre de sus arterias. En torno de cada res resaltaba un grupo de figuras humanas de tez y raza distintas. La figura mas prominente de cada grupo era el carnicero con el cuchillo en mano, brazo y pecho desnudos, cabello largo y revuelto, camisa y chiripá y rostro embadurnado de sangre. A sus espaldas se rebullían caracoleando y siguiendo los movimientos una comparsa de muchachos, de negras y mulatas achuradoras, cuya fealdad trasuntaba las harpías de la fábula, y entremezclados con ella algunos enormes mastines, olfateaban, gruñían o se daban de tarascones por la presa.

A interação do carnicero com os demais - esta mistura de muchachos, de negras y mulatas achuradoras, mais os cachorros e gaivotas é fantástica – uma visão do inferno numa versão barro, sangue e vísceras, onde os direitos individuais são disputados sem nenhuma dignidade (barbárie absoluta). Fica o convite para a leitura das demais passagens que acompanha a carneada. Em seguida, há o episódio de passagem, em que um touro escapa pelas ruas da cidade e na fuga, o laço em que se encontrava preso decepa a cabeça de um menino que assistia a tudo montado em um cavalo de pau:

Y en efecto, el animal acosado por los gritos y sobre todo por dos picanas agudas que le espoleaban la cola, sintiendo flojo el lazo, arremetió bufando a la puerta, lanzando a entrambos lados una rojiza y fosfórica mirada. Diole el tirón el enlazador sentando su caballo, desprendió el lazo de la asta, crujió por el aire un áspero zumbido y al mismo tiempo se vio rodar desde lo alto de una horqueta del corral, como si un golpe de lacha la hubiese dividido a cercén una cabeza de niño cuyo tronco permaneció inmóvil sobre su caballo de palo, lanzando por cada arteria un largo chorro de sangre.

Este animal escapado foge pelas ruas da cidade, é recuperado e uma hora depois é trazido de volta ao matadouro da Convalescência, onde é sacrificado em um espetáculo bárbaro de desjarreteamento – nos moldes do que é narrado por Simões Lopes Neto no conto “Correr Eguada”. A estrela do sacrifício, o algoz é o famoso Matasiete.

Este personagem continua a brilhar no episódio final, que é a segunda parte, onde o unitário é morto. Morto o touro, findaria o trabalho no matadouro, porém:

(...) de repente la ronca voz de un carnicero gritó: -¡Allí viene un unitario!, y al oír tan significativa palabra toda aquella chusma se detuvo como herida de una impresión subitánea.
-¿No le ven la patilla en forma de U? No trae divisa en el fraque ni luto en el sombrero.
-Perro unitario.
(...)
-Monta en silla como los gringos.
-La mazorca con él.
-¡La tijera!
-Es preciso sobarlo.
-Trae pistoleras por pintar.
-Todos estos cajetillas unitarios son pintores como el diablo.
-¿A que no te le animas, Matasiete?
-¿A que no?
-A que sí.
Matasiete era hombre de pocas palabras y de mucha acción. Tratándose de violencia, de agilidad, de destreza en el hacha, el cuchillo o el caballo, no hablaba y obraba. Lo habían picado: prendió la espuela a su caballo y se lanzó a brida suelta al encuentro del unitario.
Viva Matasiete! -exclamó toda aquella chusma cayendo en tropel sobre la víctima como los caranchos rapaces sobre la osamenta de un buey devorado por el tigre.
(…)
-Degüéllalo, Matasiete -quiso sacar las pistolas-. Degüéllalo como al Toro.
-Pícaro unitario. Es preciso tusarlo.
-Tiene buen pescuezo para el violín.
-Tócale el violín.
-Mejor es resbalosa.
-Probemos - dijo Matasiete y empezó sonriendo a pasar el filo de su daga por la garganta del caído, mientras con la rodilla izquierda le comprimía el pecho y con la siniestra mano le sujetaba por los cabellos.
-No, no le degüellen -exclamó de lejos la voz imponente del Juez del Matadero que se acercaba a caballo.
A la casilla con él, a la casilla. Preparen la mashorca y las tijeras. ¡Mueran los salvajes unitarios! ¡Viva el Restaurador de las leyes!
(…)
El joven, en efecto, estaba fuera de sí de cólera. Todo su cuerpo parecía estar en convulsión: su pálido y amoratado rostro, su voz, su labio trémulo, mostraban el movimiento convulsivo de su corazón, la agitación de sus nervios. Sus ojos de fuego parecían salirse de la órbita, su negro y lacio cabello se levantaba erizado. Su cuello desnudo y la pechera de su camisa dejaban entrever el latido violento de sus arterias y la respiración anhelante de sus pulmones.
-¿Tiemblas? -le dijo el Juez.
-De rabia, por que no puedo sofocarte entre mis brazos.
(…)
Sus fuerzas se habían agotado; inmediatamente quedó atado en cruz y empezaron la obra de desnudarlo. Entonces un torrente de sangre brotó borbolloneando de la boca y las narices del joven y extendiéndose empezó a caer a chorros por entrambos lados de la mesa. Los sayones quedaron inmobles y los espectadores estupefactos.

-Reventó de rabia el salvaje unitario -dijo uno.

Diante da morte do unitário o juiz pondera:

 -Pobre diablo: queríamos únicamente divertirnos con él y tomó la cosa demasiado a lo serio (...) Es preciso dar parte, desátenlo y vamos.

Último destaque: el violin, la masorca, las tigeras, la refalosa todas estas expressões referem requintes de práticas usadas pela masorca para torturar os adversários políticos de Rosas. La refalosa merece uma atenção especial. Quando Juan María Gutiérrez traz ao público este conto, em 1871, na Revista del Río de la Plata, ele o precede de um estudo crítico onde diz: "La Refalosa", composición poética de Hi­lario Ascasubi que aparece en su Paulino Lu­cero, puede considerarse antecedente de El Matadero. En ella, un mazorquero y degollador amenaza al gaucho Jacinto Cielo con el mar­tirio que padecen los unitarios, si no se convierte en adepto del Restaurador. Antecedendo a morte do unitário, quando o carregam para o local do calvário, Echeverría narra:

Un hombre, soldado en apariencia, sentado (…) cantaba al son de la guitarra la resbalosa, tonada de inmensa popularidad entre los federales, cuando la chusma llegando en tropel al corredor de la casilla lanzó a empellones al joven unitario hacia el centro de la sala.
     -A ti te toca la resbalosa -gritó uno.

Pois bem a refalosa ou resbalosa é um ritmo popular rural, chileno e argentino, o qual é dançando com os pés arrastando no chão, como se estivessem os pares a resvalar. O mórbido é que os torturadores de então divertiam-se, logo após à degola, mirando os passos derradeiros do degolado, como se este dançasse a refalosa, ou resbalosa.

Sérgio Batista Christino

quarta-feira, 27 de abril de 2011

António Cabrita: Dúvidas de um Professor

Reproduzimos do " Raposas a Sul" , blog do António Cabrita, escritor e jornalista português residente em Maputo.

matta, coigitum: o mundo é complexo, não é?

Há situações que nos deixam desarmados, sem saber exactamente como reagir.
Procurava explicar aos meus alunos da universidade, do curso de Teatro, a diferença entre “teatro psicológico” e “teatro metafísico”, segundo o Artaud. E deu-me para exemplificar com a possessão.
Expliquei-lhes, na Europa acredita-se mais na dimensão psicológica: que uma pessoa cresce fomentando uma personalidade própria e que esta é intencional, dotada de vontade própria, pelo que cada um pode moldar o seu destino; enquanto aqui, em África, se acredita mais no agente externo, na influência que um espírito possa exercer sobre nós, apesar de nós e muitas vezes contra nós.
E, continuei, isto implica horizontes virtuais muito diferentes: na Europa as barreiras, os condicionamentos do que nos pode limitar, são tangíveis, são as circunstâncias sociais, as quais podem dificultar mas não impedem o acesso a uma consciência de si, portanto, há a sensação de que moldar, mudar o destino e a vida só depende de nós, i. é, idealmente, a vontade pode controlar o destino.
Aqui as barreiras são mistéricas, invisíveis, sobrenaturais, e não há limites para os efeitos dos espíritos sobre nós (O Espírito sopra onde quer, lê-se no Ezequiel), pelo que estamos mais indefesos e menos capacitados para dizer «eu», no sentido duma potência que se exerça. E então ficamos mais nas mãos do destino, sofremo-lo, não o dominamos.
E por isso, concluía, os africanos estão mais em condições de produzirem um teatro trágico ou metafísico do que um teatro psicológico.
Estou a reduzir muito, aquilo que foi uma longa exposição. Que acabava brincando: «mas como só na semana passada fomos possuídos 3 vezes, e já somos  experts na possessão, podemos passar aos meandros da psicologia, e minuciar agora as suas ilusões…». E vejo que se alastra um silêncio pesado, com velame e fortes rajadas de vento. Com a pulga atrás da orelha, ataco a coisa de frente: já alguém aqui esteve possesso?
E quatro alunos levantam o braço. Quatro em nove.
Peço que me contem como foi, e relatam-me experiências de alteração da consciência mas demasiado vagas e acostadas à crendice. E chego ao último que me diz: eu fui possesso há duas semanas. Peço-lhe então que pormenorize, pois tem ainda a memória fresca do que lhe aconteceu. E diz-me, eu estava no culto… Que culto? Da Igreja Universal, retorque. Fui tomado por uma inquietação e perguntei, há mais alguém aqui da Igreja Universal, e quatro alunos levantam o braço. Fiquei paralisado.
Não é a primeira vez que deparo com este facto, aqui. Normalmente metade da turma vive a cavalo entre duas epistemes, digamos assim, entre dois tempos históricos e cognitivos. Lembro-me, no ano em que cheguei, do longo debate entre os alunos, na universidade onde então dava aulas, porque no noticiário da maior televisão privada tinha passado “uma reportagem” sobre uma mulher que havia parido um bule e três chávenas de chá. E do burburinho, da discussão apaixonada que isso provocou na cidade, com metade da gente a jurar já ter assistido a fenómenos semelhantes. Mas para além do caricato, na verdade, não sei se sei exactamente lidar, enquanto professor, com quem vive entre dois modos de vida e de percepção tão distintos, vestindo um e outro consoante a conveniência. Tento, mas têm sido incertos os resultados.
E posso adquirir, assimilar, aprender uma coisa – o que quer que seja – se a minha gramática emocional pertencer a «outro lugar»? Ou posso ter dois amores, absolutos de manhã, parcelares à tarde, sem estoirar com os dois a prazo? Do ponto de vista da língua este “bilinguismo” não tem sido fértil: há mesmo um fosso de aprendizagem entre quem teve o português como língua mãe desde sempre e quem mamou primeiro noutra língua – o shangana, o ronga, o bitonga –, é uma coisa que qualquer professor isento sente. E pode-se ser um “actor completo” sem, dominarmos a língua a ponto de nos perdermos nela? Podemos de manhã fazer exercícios a partir dos métodos stanilavskianos e à noite participarmos na orgia dos espíritos do bispo Macedo, servindo dois deuses? Como “dar a ver” Picasso por braile? O teatro para eles é uma extensão do rito, ou é ao contrário? Há evidentemente pontos de contacto, mas eu que sempre fui um homem de fé (que se vestisse alguma religião seria budista) pressinto que terei de penar para converter em melhores alunos quatro flechas do Macedo.
Falo disto porque acho mesmo que é um desafio e que deve ser debatido e já decidi: na próxima aula incidirei nesse cruzamento entre teatro e rito.
Teremos de aprender conjuntamente, se calhar terei de me converter para captar o âmbito. Já me vejo de bispo, Bispo Cabrita. Ou será mais vantajoso ser Apóstolo, como o Tadeu? Talvez o Grotowski me promova a cardeal. Mas aí só trilarei ou acederei à palavra?   

António Cabrita  (27/04/2011)

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terça-feira, 26 de abril de 2011

Hoje é noite de Sarau na Bibliotheca Pública Pelotense.

Décima edição do Sarau Poético musical da BPP acontece hoje. 

Com entrada franca e inicio às 19:30 horas, o evento segue o modelo adotado desde o inicio do projeto, em maio do ano passado. Desenvolvido em blocos e de forma intercalada, reserva espaço para a poesia recitada de autores da cidade e região, para a música ( estilo violão e voz) e ainda para uma fala sobre o poeta em destaque. O autor destacado na edição deste mês é o poeta-contista-ativista cultural argentino Esteban Echeverria ( 1805-1851). Nomes convidados para o X Sarau BPP: Ediane Oliveira, Gustavo Arruda , Janete Flores ,Luis Felipe Ribeiro (autores) e Sérgio Christino ( exposição sobre vida e obra do poeta argentino). Janete Flores participa também do espaço da música ao vivo.

Na conversa sobre o autor destacado do mês, o quase desconhecido para nós, Esteban Echeverria. Sérgio Christino, representando a Confraria dos Poetas de Jaguarão, nos trará alguns aportes sobre este personagem importante na construção da Argentina como nação. 

Uma das obras mais impactantes do poeta, contista, romancista e ativista político Echeverría, é o conto El Matadero (1838).
Impressionante narrativa, descreve de forma macabra o ritual do matadouro,  comparando a festa bárbara com os métodos despóticos do ditador Rosas, líder dos federalistas. Abaixo, um  trecho do conto.

El matadero de la Convalecencia o del Alto, sito en las quintas al Sud de la ciudad, es una gran playa en forma rectangular colocada al extremo de dos calles, una de las cuales allí se termina y la otra se prolonga hacia el Este. Esta playa con declive al Sud, está cortada por un zanjón labrado por la corriente de las aguas pluviales en cuyos bordes laterales se muestran innumerables cuevas de ratones y cuyo cauce, recoge en tiempo de lluvia, toda la sangraza seca o reciente del matadero. En la junción del ángulo recto hacia el Oeste está lo que llaman la casilla, edificio bajo, de tres piezas de media agua con corredor al frente que da a la calle y palenque para atar caballos, a cuya espalda se notan varios corrales de palo a pique de ñandubay con sus fornidas puertas para encerrar el ganado. 

Estos corrales son en tiempo de invierno un verdadero lodazal en el cual los animales apeñuscados se hunden hasta el encuentro y quedan como pegados y casi sin movimiento. En la casilla se hace la recaudación del impuesto de corrales, se cobran las multas por violación de reglamentos y se sienta el juez del matadero, personaje importante, caudillo de los carniceros y que ejerce la suma del poder en aquella pequeña república por delegación del Restaurador. Fácil es calcular qué clase de hombre se requiere para el desempeño de semejante cargo. La casilla, por otra parte, es un edificio tan ruin y pequeño que nadie lo notaría en los corrales a no estar asociado su nombre al del terrible juez y a no resaltar sobre su blanca pintura los siguientes letreros rojos: "Viva la Federación", "Viva el Restaurador y la heroína doña Encarnación Ezcurra", "Mueran los salvajes unitarios". Letreros muy significativos, símbolo de la fe política y religiosa de la gente del matadero. Pero algunos lectores no sabrán que la tal heroína es la difunta esposa del Restaurador, patrona muy querida de los carniceros, quienes, ya muerta, la veneraban como viva por sus virtudes cristianas y su federal heroísmo en la revolución contra Balcarce. Es el caso que un aniversario de aquella memorable hazaña de la mazorca, los carniceros festejaron con un espléndido banquete en la casilla a la heroína, banquete al que concurrió con su hija y otras señoras federales, y que allí en presencia de un gran concurso ofreció a los señores carniceros en un solemne brindis, su federal patrocinio, por cuyo motivo ellos la proclamaron entusiasmados patrona del matadero, estampando su nombre en las paredes de la casilla donde se estará hasta que lo borre la mano del tiempo.

CLIQUE AQUI para ler o conto completo. 


Também muito significativo na sua trajetória,  o engajamento político do intelectual Esteban Echeverría. Participou da  formação de uma "Associação de jovens" da qual foi presidente. Pretendia a Associação propor um  caminho pacífico para o conflito entre unitários e federalistas, com a implantação de um programa de governo fundamentado no dogma socialista, escrito pelo próprio Echeverría e baseado nas democracias modernas.

   

Leia também a  APOLOGIA DEL MATAMBRE