domingo, 22 de março de 2015

PEDRA SÓ - Poema de José Inácio Vieira de Melo




Às cinco horas da tarde,
no céu da Pedra Só,
um cavalo emerge das nuvens
e uiva para a lua.
Às cinco horas em ponto,
na fazenda Pedra Só,
a lua é o olho do dragão.

E a moça de Jorge de Lima
é enorme, enorme,
e engole a lua
e vai ficando
menor, menor.

Mas continua caindo
num desembesto sem fim
até virar Alice.

E logo ali, um alce.
E logo ali,
o galo de Abraão Batista
numa briga feroz
com o boi do Patativa.

Às cinco em ponto da tarde,
no reino da Pedra Só,
Federico Garcia Lorca
montado num corcel de algodão
crava seu punhal de prata
nos olhos da escuridão.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

PEDRA SÓ - Poema de José Inácio Vieira de Melo, do livro "Pedra Só" (Escrituras Editora, 2012). Recitado por José Inácio Vieira de Melo. Ilustrações de Juraci Dórea. Músicas: JIVM, Uakti, Oliveira de Panelas & Téo Azevedo, Quinteto Armorial, Zabé da Loca. Edição de audio: Vandex. Edição de vídeo: Ricardo Bertol. Direção: Gabriel Gomes e José Inácio Vieira de Melo.

sábado, 21 de março de 2015

Alguns são todos, ou todos são alguns?

Trabalhar com a lógica as vezes nos traz algumas informações bem legais. Num conjunto de 15 cães, 3 são ferozes e maldosos (faz de conta que um cão tem esta característica). Posso dizer que todo o conjunto é feroz e maldoso? Não, seria uma sacanagem com os 12, que inclusive são maioria. E se dizer que todos não são ferozes e maldosos? Também seria sacanagem com os demais de fora, além de acobertar os ferozes e maldosos. A lógica é clara (e usamos em vários conhecimentos, muito comum na matemática). "Alguns não são todos, e todos não são alguns". Quando damos aulas aos alunos do Ensino Fundamental e Médio, é comum, às vezes, colegas comentarem sobre determinada turma, em função de alguns alunos "bagunceiros". Tipo, "aquela turma não dá pra trabalhar", "é horrível". Pronto, transformamos o "alguns no todo". E isto é ruim pra quem? Para aquela maioria que não era "horrível" como se propagava com este discurso, mas pagava o pato. 
O objetivo aqui não é tratar de como os professores devem agir numa situação destas, mas demonstrar como, por falta de uma compreensão elementar de lógica, sacaneia-se muitas pessoas de bem. O senso comum, apesar de ser por onde devemos começar uma análise, é provido de vários preconceitos (conceitos prévios, não provados, portanto não verdadeiros). E também por operações lógicas desatentas. Uma delas é justamente esta: Confundir Alguns com Todos, e Todos com alguns.

Hoje, e de muitos anos, pois já abordava isto lá pelos idos de 1989, no campo da política, há grupos de pessoas alicerçadas por grupos de Mídia (TV, Rádio, Jornal), que alimentam esta terrível argumentação totalmente desprovida de lógica. Vejamos: quando algumas pessoas (políticos) se corrompem, e como é possível corromper individualmente, não há necessidade do todo, no caso os partidos. Estes apenas tem suas Comissões de Ética para tratar do assunto e suas propostas e bandeiras, que é onde as pessoas poderiam e deveriam estabelecer os debates, defendendo ou combatendo (ideias) de um lado ou outro.
Assim, se uma agremiação tiver milhares de membros, e 5 ou 8 forem corrompidos ou corruptores, eu posso dizer que "Alguns são todos". Da mesma forma não. Assim, apenas estaremos sacaneando os corretos, e ainda ajudando os corruptos a se esconderem no meio de todos. Por isso não gosto destas generalizações, que a própria lógica demonstra, não resolvem o problema. Neste caso, teríamos que verificar onde estão as situações mais propícias para a corrupção. Uma delas está bem clara. Financiamento privado por grandes grupos econômicos a candidatos, que eleitos, estão sujeitos a defenderem os interesses destes grupos (até aí, ainda não se configura exatamente a corrupção, mas a opção de lado). Mas em determinado momento em que estas empresas tem interesses em licitações por exemplo, aí sim, percebemos como funciona o causo. E uma vez investigados nomes que, por ventura, possam estar envolvidos, e uma vez comprovados, será que podemos concluir que "Todos são Alguns". 
Esta noção do senso comum, muito apreciada e difundida justamente por grupos econômicos que operam com a corrupção, ajuda em muito a manter os corruptos quase a salvo, no meio de todo o conjunto. Enquanto não aprendermos a dar nome aos bois, de todos os lados, e evitar generalizar para todo o conjunto, também se estará ajudando os corruptos. O importante na política é debater os projetos, sem preconceitos ou lógicas falsas. Defender isto ou combater isto, por conta disso e disso. Pressionar o governo tal para encaminhar tal projeto. De outra forma, ajudar-se-á a manter a situação como está. Em muitas manifestações pairou o senso comum principalmente através da Rede Globo, já que a Reforma Política praticamente não foi apresentada como tema fundamental, porém a ideia de que "Alguns são todos", sim, é o que mais percebi, e pior, de um lado só. Além da falsa lógica que ajuda a corrupção, ainda tem a parcialidade. 


Carlos José  de A. Machado
 
Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 18/03/2015 
 

AS “JUSTIÇAS” BRASILEIRAS


Que o Brasil é um país politicamente singular nenhum brasileiro tem dúvida. O que pode variar é a maneira como cada um argumenta para concordar com a afirmativa. Há justificativas para todos os gostos, desde a extrema esquerda até a extrema direita. Neste último caso estamos procurando quem assuma essa condição, embora se saiba que seus adeptos são numerosos. Ninguém quer ser direitista, no Brasil.

Quis iniciar com a afirmativa acima para justificar que também reconheço a existência de peculiaridades “inexplicáveis” em todos os campos do relacionamento da comunidade com as lideranças responsáveis pela condução do País e, mais importante ainda, daqueles organismos que têm o compromisso de servir de elo de ligação confiável entre governo e sociedade, mais comumente designada como “mídia” (aportuguesando), seja ela falada, escrita ou televisionada e todas demais que tenham a faculdade de lidar, diretamente ou indiretamente, com as questões de opinião pública.

Grosso modo poderia dizer-se que temos “três justiças” no Brasil, todas elas com suas causas e consequências inerentes à responsabilidade com que cada uma é aplicada ou faz produzir seus efeitos. A primeira, lógico, é a “justiça oficial” que, definida pela nossa Constituição é exercida através de seus inúmeros organismos estatais, obedecendo às regras estabelecidas em lei. De um  modo geral funciona razoavelmente bem não fora reconhecidamente lerda. Como toda iniciativa humana, comete suas falhas. Sobre ela, assim se referiu nosso mais ilustre sábio, Ruy Barbosa: “Justiça que tarda não é justiça”. Isso, talvez, tivesse servido para a época em que foi feita a declaração. É uma discussão para outro espaço.

A segunda justiça é a da sociedade. Levados, às vezes, pelos mais estranhos motivos, os cidadãos, geralmente reunidos em um grupo ocasional, tomam a deliberação de decretar que determinada pessoa é culpada de um crime baseados apenas em pequenos indícios mesmo sem qualquer comprovação concreta. É o tipo de justiça que nos transforma em seres incapacitados de pensar racionalmente e pode ocasionar, inclusive, a prática da pena capital – até de forma bárbara -, como ocorreu recentemente (No Estado do Paraná, se não me falha a memória) e ocasionou a morte de uma pessoa por espancamento sob suspeita de um crime que, depois, foi concluído que não havia de fato cometido.

A terceira justiça é a praticada pela mídia. Embora não venha implicar uma pena capital em sua ação, é a mais devastadora delas pelo número de pessoas que pode atingir com uma simples citação. Tão logo um crime é trazido ao conhecimento da opinião pública pelos responsáveis pela investigação, mesmo que ainda não exista qualquer decisão judicial os nossos comunicadores já escolhem a “quem” culpar. A partir daí já podem começar a atribuir uma infinidade de irregularidades que passam a manchetear em caixa alta em jornais ou até em especiais de TV. Se o denunciado é uma personalidade no meio político as suas mazelas passam a dominar o noticiário e os principais âncoras fazem citações quotidianas sob qualquer pretexto, reforçando sua “condenação”. Alguém poderia perguntar: “Mas, e se o denunciado for absolvido em todas as instâncias?”. A resposta vem da forma mais sem compromisso possível: “Bem, ele não é culpado, mas poderia ser, não é? Desculpem a nossa falha...”

Só para não deixar a afirmativa sem ao menos algum exemplo, basta rememorarmos casos que tiveram grande repercussão entre os muitos que já ocorreram nos mais diversos meios de comunicação. Quem não lembra dos episódios “Ministro Alceni Guerra”, e dos professores da “Escola de Base de Brasília”?. Todos “condenados” pela mídia e, depois, inocentados pela justiça oficial. E há, também, um que atingiu diretamente os gaúchos. Quem não sabe que um de nossos deputados federais foi lançado à execração pública e acabou perdendo seu mandato? Uma revista semanal de circulação nacional “confundiu” cem dólares com cem mil dólares e não quis voltar atrás porque as suas revista já haviam sido impressas? Recentemente, a mesma revista teve um de seus diretores envolvido com o doleiro do caso Senador Demóstenes/Carlos Cachoeira, só que a única menção que ela fez sobre o fato foi a de que os duzentos contatos telefônicos feitos, pelo jornalista, com o doleiro eram por motivos “profissionais”.

Na verdade, o objetivo principal deste artigo é lançar um alerta para o que está ocorrendo em relação à divulgação de diversos problemas que o País vem enfrentando, sejam eles econômicos ou políticos. A grande mídia oligopólica, a serviço da direita e da elite brasileira, está cerrando fileiras na busca de um impedimento da Presidenta e, para tanto, qualquer meio é válido para atingir seu objetivo. É necessário que cada brasileiro, antes de tomar qualquer posição, faça uma análise profunda da situação não se deixando levar pela massificação da ideia de que tudo no Brasil se tornou um caos. Não sou defensor incondicional de tudo o que o Governo vem fazendo. Acredito que há muitas falhas, mas não vou incorrer na leviandade de querer contribuir para a instalação de um quadro reacionário, a serviço de interesses que não são os da população menos favorecida, mas, apenas, concorrerá para a manutenção de benesses seculares que uma parcela reduzida de privilegiados continua a desfrutar.
 
Wenceslau Gonçalves
 
Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 11/03/2015

 

Mulheres Guerreiras

Já me lembro certa feita do ocorrido, na volta das barrancas de água doce do rio Jaguarão! Entrando de passo lento e firme, os valentes soldados uruguaios embretam na terra brasileira, na terra do Pedro II. Quem estava lá para defendê-la? Quem cuidaria de tamanho infortúnio? Os homens seus lutavam lá pelas bandas do Paraguai. Até seu pároco não estava presente para consolar e defender deste empreendimento bélico.

Elas! Sim, elas - as heróicas mulheres prendadas e guerreiras de sangue cozido na mistura charrua-lusitana-castelhana! Com poucos homens: dizem que havia somente alguns velhos e uns poucos jovencitos, seguem elas impondo a lei natural de preservação e contando com a escolta do General Marques de Souza. - Hasta luego!!! Gritam as heróicas guapas, munidas de seus óleos quentes, pelegos e armas caseiras das mais exóticas. Jamais se viu um quartel tão audacioso! Felizes, retornam para suas casas, trazendo na alma e nas mãos, não só a terra conquistada e defendida, mas a soberania do Império Del Rei, o poder da conquista, a imposição de uma nação. Nesta terra de nação alguma, vinte e sete de janeiro declarará esta conquista – a conquista das heróicas. Assim são as mulheres desta terra: guerreiras, heróicas, fortes, valentes, audaciosas. Filhas talvez de Ana Terra, ou simplesmente “Anas que a dor não quebra nem consome, Anas da terra-mãe e nada mais”, já dizia o poeta campeiro. 
Hoje estas guerras são estórias, pois o combate da vida, da garantia do amor contínuo e da esperança dos filhos crescerem felizes é o foco destas jaguarenses. Em suas preces, prantos e atitudes, deixam um legado universal para todos que precisarem de uma referência de como a vida pode transcender diante das situações limiares, uma vez que a bravura e a maternidade, aqui nesta terra de mulheres fortes, caminha de mãos dadas. 
 
Magnum Patrón Sória
 
Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 04/03/2015  

domingo, 1 de março de 2015

Mar de Gente


Por Jorge Passos

Mar de gente. Foi essa a expressão usada por um morador da General Osório na janela do seu camarote privilegiado para assistir o Circuito dos Trios Elétricos do Carnaval 2015. Sob o olhar imponente da Torre da Minervina, mar de gente também era a cena que se via na confluência da Deus Dias com a  Avenida 27 (foto). Desse ponto foi que acompanhei a maior parte da folia.

Houve espaço para todos,  apesar da multidão. Nos camarotes, nas janelas, nas calçadas, nos ombros dos pais, nos Trios, nos Blocos, nas Escolas de Samba, nas arquibancadas,  a maior festa popular do Brasil tinha palco magnífico em Jaguarão. Tirando-se a fatalidade que ocorreu na noite de sábado e aquela briga ocorrida entre grupos rivais de bairros da cidade na quinta-feira, a opinião geral é de que tivemos um grande carnaval.

Estávamos presentes quando silenciou repentinamente a festança devido ao acidente. O que houve , se perguntaram todos, quando correu a noticia do acidente fatal envolvendo um Trio Elétrico. Foi comoção geral. Estava indo pra casa quando dois rapazes , recém-chegados de carro de uma cidade vizinha, nos perguntaram: “já terminou? Nos disseram que o carnaval daqui ia até as 5 da manhã!” Expliquei-lhes o acontecido, motivando a suspensão.

No domingo pela manhã andei pela cidade. Não se sabia o que ia acontecer. Alguns diziam que o carnaval seria suspenso. Pensei naquelas milhares de pessoas que tinham se deslocado para cá, pousadas cheias. O que fariam? Mais tarde, soube da reunião na prefeitura convocada pela organização. Participavam a Liga de Carnaval, os trios, lideres de blocos, BM,  presidentes de Escolas. Até os ambulantes foram chamados. Há que se ressaltar a maturidade e a correção das decisões tomadas. Decidiu-se pela continuidade da programação. Um evento desse porte não poderia ser paralisado sob pena de termos consequências e perdas irreparáveis, além do perigo de termos uma multidão fazendo um carnaval a revelia, sem controle. 

Já de noite, a festa continuando, mar de gente tomando as ruas novamente, ouço o Fantástico da Globo dizendo que o Carnaval de Jaguarão tinha sido suspenso por tempo indeterminado. Como sempre, a grande mídia desinforma, manipula e distorce. Não há desculpa para tanta distorção. Nos tempos de hoje com as noticias circulando à velocidade da luz, é inadmissível esse erro. Má-fé? Na afiliada RBS, o sensacionalismo era o tom da cobertura. Não importava estarmos no melhor carnaval de rua do estado, um dos melhores do Brasil. Jaguarão duplica sua população neste evento. Nem Salvador faz esse feito! E a mídia da RBS só focada no acidente trágico. Tragédia maior não será a Prefeitura de Pelotas, num verdadeiro atestado de incompetência,  não ter conseguido realizar o Carnaval?

Na segunda feira saímos no maior Trio. A sensação era estar em outra cidade. Naquelas miles de pessoas só reconheci uma de Jaguarão. A equipe de segurança nos trios era muito boa. Por falar nisso, quantas centenas de empregos temporários não são formados durante o evento, gerando renda extra e divisas para a cidade? Notou-se apenas um deficit no efetivo da BM. Sem dúvida, resultado  da gestão do  governo Sartori, que cortou diárias e horas extras dos brigadianos refletindo-se seriamente na segurança pública.


Para finalizar, resta a certeza de que o nosso Carnaval de Rua consolida-se como grande Festa Popular que a comunidade de Jaguarão sente com orgulho como sua.

Publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 19/02/2015