sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Abram Alas para a Paz


Aproximam-se os dias em que Rei Momo volta a imperar. Em Jaguarão, assim como em todo o país, os foliões tomam conta das ruas numa das manifestações populares mais tradicionais do Brasil. Mais que uma simples festa, o Carnaval gera grande movimentação na economia com o turismo e serviços. Somos um povo internacionalmente reconhecido por sua hospitalidade, pacífico e cordial. Temos conquistado, depois de muita luta e aprendizado, mesmo com percalços e dificuldades, um país com democracia plena. Entretanto, o acirramento na esfera da política, com o sentimento de raiva e violência a florescer em manifestações nas ruas e nas redes sociais, não se justifica . A democracia pressupõe que possamos divergir, debater, confrontar, em num ambiente de respeito às instituições democráticas e também de respeito à pessoa do adversário. Porém, muitas vezes, nos deixamos levar por sentimentos de raiva e descontrole quando nos encontramos com ações desqualificadas que buscam criminalizar a política, dizendo barbaridades como as de que “ninguém presta”, “tudo está mal”, “só podia ser no Brasil” e outras cositas más, que não retratam a verdade e que cansa quem trabalha um por país cada vez melhor. Não podemos deixar que isto contamine o Carnaval. E também, por que não, a Copa do Mundo.

Há algum tempo, fui agraciado e tenho na minha mesa de trabalho, um folheto com conselhos sábios do Chico Xavier, denominado Em seu Benefício, e que gostaria de compartilhar com você, caro leitor. Muitos já o conhecem, sem dúvida, mas tenho certeza de que lhes será de muita serventia para enfrentar essas prováveis atribulações. Ei-los:

-Não se agaste com o ignorante; certamente, não dispõe ele das oportunidades que iluminaram seu caminho.
-Evite aborrecimentos com as pessoas fanatizadas; permanecem no cárcere do exclusivismo e merecem compaixão como qualquer prisioneiro.
-Não se perturbe com o malcriado; O irmão intratável tem, na maioria das vezes, o fígado estragado e os nervos doentes.
-Ampare o companheiro inseguro; talvez não possua o necessário, quando você detém excessos.
-Não se zangue com o ingrato; provavelmente, é desorientado ou inexperiente.
-Ajude ao que erra; seus pés pisam o mesmo chão, e, se você tem possibilidades de corrigir, não tem o direito de censurar.
-Desculpe o desertor; ele é fraco e mais tarde voltará à lição.
-Auxilie o doente; agradeça ao Divino Poder o equilíbrio que você está conservando.
-Esqueça o acusador; ele não conhece o seu caso desde o princípio.
-Perdoe ao mau; a vida se encarregará dele.
Diria também: espere sua vez de entrar na avenida, curta seu trio, sua escola, seu bloco.
Brinque o Carnaval com alegria, paz e muita festa!

Jorge Passos

Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 26/02/2014


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

“PEGA NA COLA QUE O RESTO NÃO AMOLA!”

Eram os anos cinquenta, em Jaguarão predominavam como assuntos ora o futebol, ora as carreiras de cancha reta que deslocavam a política para uma abordagem secundária e as cores partidárias se trocavam conforme o livre arbítrio de cada um. No Café do Comércio, andava-se de uma mesa para outra e se constatava essa predileção entre os diversos clientes, não se tinha muito a escolher. Agora os carreiristas eram mais chegados à barbearia do Márcio Tissot, outro aficionado que atraía e dava linha para os clientes, demorando-se em suas conjeturas turfísticas que enervavam aqueles que não estavam a fim de papo.

Na época, recém se fundara o Jockey Club de Jaguarão, modismo que provocou algum esvaziamento nos estádios de futebol existentes na cidade, prejudicados pela concorrência com os páreos de longa distância, aos domingos, no Prado local. Disputavam a corrida principal o parelheiro Lord, pertencente a meu primo Anysio de Souza Resem, e a potranca Princesa, de propriedade do Dr. Ernesto Marques da Rocha, ex-prefeito do Município, em infindáveis tira-teimas consequentes das discussões que se sucediam na barbearia do Márcio, nenhum deles querendo dar o braço a torcer.

O Lord não tinha lá o seu pedigree, pois era descendente duma eguinha zaina e mansa que tio Cantalício tinha em sua chácara, após o passo dos Correias. Resultara do cruzamento com o tordilho Nico, este sim um excelente troteador e puxador do carrinho que conduzia Anysio para visitar a noiva na estância do futuro sogro, no Cerrito. Mas aquele era um animal diferenciado que logo revelou seus pendores para o galope nas pistas de corrida, vindo a tornar-se alegria de muitos apostadores na fase inicial quando pagava generosas “poules”, as quais em seguida deixaram de ser compensadoras...Porém, havia um complicador nessa história toda. Era o jóquei Matraca, um mestre nas rédeas apesar de muito chegado a um trago amigo que, às vezes, sumia na véspera e só aparecia todo borracho pouco antes de correr – e dê-lhe banho frio para se compor. Assim meu primo se viu obrigado a construir uma casinha de alvenaria na chácara do seu pai Cantalício, com um quarto para alojar Matraca e o tratador “seu” Benício, encarregado de vigiar os passos daquele, tendo ao lado a baia que abrigava Lord. E de madrugada, todo dia, saiam os dois para varear e cronometrar os tempos do parelheiro.

Anysio me falava que se dedicaria a viajar por todo Estado caso dispusesse de um capital maior, possibilitando-lhe a corrida do Lord em localidades onde não fosse conhecido para obter melhores ren­dimentos. Até que o doutor Ernesto se dando conta do melhor desempenho deste em relação à Princesa, terminou comprando-o. E o primo, acreditando nas melhores condições financeiras do seu rival para explorar o potencial do seu cavalinho, não relutou em se desfazer deste. Acontece que Marques da Rocha se enfezou com a aquisição e terminou “queimando” suas fichas em canchas de baixo retorno...

Quando chegava à chácara de tio Cantalício, sempre procurava tomar meus mates com “seu” Benício e Matraca, levando alguns livros para que eles se distraíssem durante a semana. Numa dessas ocasiões, “seu” Benício Tissot, que também era pai do barbeiro Márcio e de uma filharada imensa dessas de campanha, convidou-me para ir até sua casa situada “logo ali” quem vai para a capela de São Luiz. E lá fui eu, roçando fundilhos em cima dos pelegos da sela de um petiço, a visitar o humilde rancho desse tratador. Foi uma festa a nossa chegada. Na porteira, a filha mais moça do velho, toda sorridente, e ele me larga uma pérola:
-“Que tal, te agrada essa prenda?”


José Alberto de Souza 


Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 19/02/2014

                            Cronica retirada do Livro Digital    O VELHO “CHATEAU” DAQUELES RAPAZES DE ANTIGAMENTE
                                                                                Acesse o Livro completo clicando AQUI

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Carlos Careqa: desarrumando a ordem, por Aquiles Reis

Tem disco novo de Carlos Careqa na praça. Coisa meiga nunca será. Careqa tem um pé no absurdo. Há até quem ouse dizer que sua música nem música é – mas ela é música, sim senhor; música para mexer com a gente, trazendo-nos para o oco do seu turbilhão criativo. Careqa é desestruturador por natureza.

Compositor e cantor, ele é um eterno buscador de estranhezas poéticas. Assim, escutamos as suas músicas sem conseguir enquadrá-las em nenhuma categoria da música popular, muito menos em nenhuma vertente político-partidária-musical. Dir-se-ia, com razão, que ele é um maluco beleza redivivo.

Sua música é profana, meio circense, assim como seus versos e suas ideias. Assim ele vai, sem dogmas nem certezas absolutas... Apenas vai. E nós o acompanhamos, às vezes sem entender direito o que diz o poeta Carlos, às vezes sem sacar inteiramente a concepção sonora das músicas do compositor Careqa, mas sempre instados por ele a remexer em preceitos que entendemos como imutáveis desde que nos entendemos por gente.

O novo CD (belíssima capa) de Carlos Careqa, produzido por ele, Marcio Nigro e Mario Manga, é Palavrão – música infantil para adultos (Barbearia Espiritual Discos). Nele, treze composições suas, nas quais o adulto submerge no universo infantil, valendo-se da experiência adquirida e do imaginário da criança que mantém dentro de si. Para tanto, ele não mede palavras. Vale tudo, escatologia e termos chulos. O resultado é um sorriso grudado nos lábios e uma permanente tensão no ouvinte: “Até onde irá esse absoluto desprendimento do compositor, para expressar-se de uma forma que não estamos acostumados a ouvir num disco musical?”.

Pelos títulos, dá para sacar aonde a coisa vai: “Por Que a Vovó Tá Fria?”, “Exame de Fezes” (O exame é legal, mas tenho medo/ De segurar o potinho/ Vai que ele escapa do meu dedo/ E acabo me sujando todinho), “Rap do Peido”, “Eu e Reginaldo”, “O Menino e a Menina” (A menina é diferente do menino/ O menino tem uma torneirinha/ E a menina tem uma conchinha/ Que bonitinha a conchinha da menina), “O Diamante Azul do Vovô” (Vovô tomou o diamante azul/ Agora não pode ficar mais de pé/ Quando eu sento no colo dele/ Ele diz que é o celular), “A Tia da Escola”, “Meleca”, dentre outros.

Para acompanhar o cantor teatral que Careqa é, Manga e Nigro se valem de arranjos em que predominam programações de bateria e sampler, guitarras, baixo, teclados, vocais, violão, bandolim, percussão, cavaquinho, cellos e violinos. O repertório varia entre funk, rap, rock, marchinha, valsa e reggae, tudo com a inventividade levada às últimas consequências.

Careqa sente prazer no desfazimento do já estruturado, em abalar os aparentemente sólidos pilares de sustentação da ordem vigente, em buscar o caos na organização secularmente estabelecida, bagunçando conceitos, revendo certezas, ampliando visões, tratando o errado como certo, o feio como belo. Carlos Careqa cria para derrubar sentidos preexistentes.

Aquiles Rique Reis é músico e vocalista do MPB4

Fonte:  http://jornalggn.com.br 


No vídeo abaixo uma mostra do primeiro CD de Carlos Careqa, OS HOMENS SÃO TODOS IGUAIS, com participações de Arrigo Barnabé, Tetê Espindolla, Cida Moreira, Itamar Assumpção, Tangos e Tragédias.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Fronteiras de uma vida plena

Acompanhando as inquietações de um amigo em sua crise pós 40 anos, percebi uma alma perspicaz, lutadora e vencedora diante da fronteira entre o que ele tinha realizado (com sucesso) e a falta de desafios para o resto de sua vida.

O colapso afetava a mente e o corpo. Tinha a sensação de estar desagregado de seu contexto e desconectado dos seus sonhos. Mantinha em curso um único projeto de vida que era vencer a rotina e adiar a morte, pelo menos física, pois a mente já lhe parecia moribunda, por não saber o que acontecia.

Os retumbantes sucessos na vida pessoal, financeira e emocional traziam um orgulho do passado, mas o sabor da vida se amargava na falta de propósito e tudo o que foi vivido vitoriosamente se tornava um peso para mudar e só restava viver o nada interior, regado pela falta de desafios.

Um nada assentado em toda a sua história, em seus percursos intelectuais, cheios das coisas já vividas, parecia o bastante para qualquer alma conformada. Formou-se um círculo pernicioso em que o pensamento, alimentado pelo conhecimento, se tornava uma arma arguta voltada para sua própria cabeça, criando labirintos recônditos cheios de desvios de sentido.

As perguntas, que sempre foram o alimento de seus pensamentos, passaram a machucar um espírito carente de soluções, respostas pragmáticas para sua angústia.

Era preciso sair do buraco que estava cavando em sua volta, e isolando-o das pessoas mais importantes de sua vida.

A busca, inicialmente inglória, o conduziu ao ato de defesa na persecução da lógica da preservação. Primeiro houve o empenho em eliminar o que, supostamente, acreditava que não queria, mas isso se tornou um processo limitante e claustrofóbico, que reforçou o ensimesmamento.

Os labirintos da alma lhe apresentavam caminhos de questionamentos sem sentido até que se deparou com o verdadeiro dilema de sua fronteira: manter-se no velho ou nascer no novo? Manter-se no velho significava continuar definhando em suas angústias, mantendo as lembranças vivas de sua história ritualizada na coisificação do dia a dia. Nascer de novo era o rompimento com o passado, levando apenas as experiências, sem saber a dimensão e o que se perderia nesse novo.

A angústia da encruzilhada era não poder seguir nos dois sentidos e escolher um caminho é certamente deixar outras infinitas possibilidades para trás. Do mesmo modo, não escolher é também uma escolha e nenhum caminho será percorrido. O mofo se formará no espírito desafiador e lutador do outrora eterno revolucionário. Seria a morte em vida o meio termo.

A nuvem negra já estava se dissipando, agora já não era mais uma busca por respostas no seu labirinto pessoal, mas um momento de decidir como seria a sua travessia, o caminho a ser escolhido, o compromisso de um encontro consigo mesmo no futuro.

A partir daquele ponto, depois da travessia, não poderia mais olhar para trás, viraria “estátua de sal” e as perdas seriam os alicerces da sua escolha por ser feliz.



Fábio Martins Oliveira

Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 12/02/2014


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Tangos y Copas


Silencio à noite, está tudo calmo, a cidade dorme, ambição descansa.” Estes versos iniciais do tango Silencio, de Carlos Gardel e Lepera, cantados na versão brasileira por Dalva de Oliveira ficaram guardados na minha memória musical e poética. Meu pai era um amante da música – nos fez, a mim e meus irmãos, estudar piano e acordeon desde que entramos no primário. Morávamos no Rio Branco e com a Professora Elmita tínhamos as lições, ali mesmo na vizinhança do bairro. Era os anos 60, e na vitrola Philips, alta fidelidade, também rodavam Fumando Espero aquela que mais quero e o Lencinho branco, as minhas preferidas. Também tínhamos discos da Nora Ney e do Nélson Gonçalves, cantando versões de tangos famosos e da famosa orquestra de tangos do Maestro Donato Raciatti com toda a coleção. Se não me engano, a orquestra chegou a apresentar-se no Clube Harmonia por essa época. Mas não era só música. No rádio da vitrola (era um dois em um) escutava-se novelas, programas humorísticos e o futebol. Lembro bem que na Copa de 66 minha mãe colocava a imagem de Nossa Senhora Aparecida quando a situação para a Canarinho azedava. Não adiantou muito, mas acho que os dois de falta contra a Bulgária tiveram a mão da Santa. Tivemos de esperar até 1970 para levantar o caneco do tri, mas agora não era mais pelo rádio que acompanhávamos, era pela TV, dos vizinhos e do tio Monteiro em Jaguarão.

Desse esforço do Velho na nossa educação, quem vingou mesmo na música foi minha irmã maior, professora e ainda eximia em Chopin, Bach, Lizt e Schubert, no antigo piano berlinense comprado em Montevidéu. Outro ainda arranha uns acordes de baião no acordeón. A menor chegou a tocar alguna milonga na guitarra com el professor Basílio Morales. Eu, fiz 2 anos de piano , mas o que gostava mesmo era do ritmo. Tive uma carreira musical breve, digamos que numa Academia de Cantos de Cisne. Sobrou o legado de uma cultura musical que ousaria dizer rebuscada.

Porém não falo do passado com melancolia. Esta nostalgia é acompanhada de um certo sorriso no rosto. Apesar de termos sido criados numa filosofia católica de culto ao sofrimento. Há uma lenda de que o menino Jesus quando nasceu recebeu três presentes dos reis magos. O primeiro foi o Passado, para ter saudade e sofrer. O Segundo foi o Futuro, para desejar e sofrer e o Presente, oprimido por esses dois, para sofrer.

Mas sempre é bom relembrar o passado. Inclusive para poder avaliar o presente e projetar o futuro. Antigamente lutávamos por Ensino público e gratuito, hoje os alunos da Unipampa em Jaguarão lutam por ar condicionado nas salas de aula e já conquistaram uma Casa de Estudantes, cuja construção já foi licitada. Avançamos, não há dúvida. Recordam que reivindicava-se para o trabalhador um salario minimo de 100 dólares? Era bandeira de luta do senador Paim. Hoje deve valer um pouco mais de 300. Recordam-se da dívida externa impagável ? Hoje nem se fala mais disso. Para terminar, dizem que Lula trouxe a Copa do Mundo e as Olimpíadas, FHC trazia o FMI.

Jorge Passos

Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 05/02/2014

A linha imaginária - Jaguarão Making Of


Making of das gravações na cidade de Jaguarão, para o documentário "Uma Terra Só", realização da Moviola Filmes com financiamento do ProCultura RS. As gravações em Jaguarão/Rio Branco ocorreram no dia 06 de setembro de 2013. Mais informações em www.moviolafilmes.com.

Imagens
Cíntia Langie, Felipe Freitas e Alberto Alda

Montagem
Cíntia Langie

Trilha
Eduardo Varela

Realização
Moviola Filmes

Financiamento
ProCultura RS
Secretaria de Estado da Cultura RS

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Juremir: Esclarecimentos sobre a Direita Miami

O mais comum é que cada personagem não tenha consciência da sua personalidade. O Brasil vem sendo dominado, na classe média e na mídia, por um tipo muito especial, o lacerdinha, representante da direita Miami. 


É um pessoal que se acha sem ideologia, pois, para o lacerdinha autêntico, ideologia é coisa de esquerdista comedor de criancinha. A direita Miami acredita que todo esquerdista é comunista de carteirinha e que sonha com uma sociedade no modelo da Coreia da Norte.


O ideal da direita Miami é comer hambúrguer na Flórida, visitar a Disney todos os anos, ler a Veja, ver BBB, copiar e colar artigos de colunistas que falam todo dia da ameaça vermelha – e não é o Internacional nem o América do Rio -, esbaldar-se em shoppings sem rolezinhos, salvo de patricinhas e mauricinhos, e denunciar programas governamentais, exceto de isenções de impostos para ricos, como esmolas perigosas e inúteis.


A direita Miami tem uma maneira curiosa de raciocinar.
– Se você é esquerdista, por que vai à Europa?
– Não entendi a relação – balbucia o ingênuo.
– Se você é esquerdista, por que tem plano de saúde?


A direita Miami contabiliza as mortes produzidas pelo comunismo, no que tem razão, mas jamais pensa nas mortes produzidas pelo capitalismo no passado e no presente. Mortes por fome, falta de condições sanitárias e doenças evitáveis não impressionam os lacerdinhas. Não parece possível à direita Miami que se possa recusar o comunismo e o capitalismo brasileiro. A social-democracia escandinava, por exemplo, não chama atenção dos sacoleiros de Miami. É uma turma que quer muito Estado para si e pouco para os outros. De preferência, muito Estado para impedir greves, estimular isenções fiscais para grandes empresas e reprimir movimentos sociais.


O mais curioso na direita Miami é que, embora defenda o Estado mínimo na economia, salvo se for a seu favor, gosta de Estado robusto em questões morais como consumo de drogas e de sexualidade, aquelas que, mesmo criticando, costuma praticar e exigir tratamento diferenciado quando o Estado flagra algum dos dela em conflito com a lei. A direita Miami fala ao celular, dirigindo, sobre a sensação de impunidade no Brasil e, se multada, denuncia imediatamente a indústria da multa.


A direita Miami é contra cotas, Bolsa-Família, ProUni e todos esses programas que chama de assistencialistas e eleitoreiros. Vive de olho no impostômetro e, para não colaborar com a excessiva arrecadação dos governos, faz o que pode para sonegar o que deve ao fisco. Roubar do Estado que gasta mal parece-lhe um dever moral superior.
Um imperativo categórico.


A direita Miami vive denunciando Che Guevara, mas nunca fala de Pinochet. Se dá uma melhorada na economia dos camarotes, pode torturar e matar. As vítimas são esquerdistas mesmo. A direita Miami adora metrô em Paris, quando vai até lá, apesar de achar que tem muito museu chato e pouco shopping bacana, mas é contra estação de metrô no seu bairro. Tem medo que atraia “marginais”. A última moda da direita Miami é o sertanejo universitário. Quanto mais a tecnologia evolui, mais a direita Miami se torna primária. O que lhe falta, resolve com silicone.

Juremir Machado da Silva

         Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 29/01/2014

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Devir

Compor poesia é sobrevivência,
é saber que há um fluxo que grita de dor,
nas linhas duras onde se inscrevem as palavras doces
que permitem que a alma não feneça com a saudade,
as perdas e o tempo que tudo consome.

Ah, linhas duras do meu ser incompreendido!
Ah, desespero de pulsões ardentes que se consomem com o ato do escrito
Que dor sadia que permite o compor de minhas ânsias e o livrar de minhas palavras trancadas!
Quero sempre sobreviver ao fenecimento das palavras que se esvaem de minha mente
Para deleitar, com meus olhos e, já de volta, trazê-las ao deleite de minha alma poética.

Magnum Patron Sória

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Renato Borghetti e Chico Saratt - Romaria


Momentos do show histórico de um dos maiores instrumentistas brasileiros no Espaço Cultural La Mancha em 17 de janeiro de 2014. No palco, o seu parceiro de 25 anos, Kako Pacheco no bomboleguero, seu filho no cajón, Chico Saratt na voz e violão e Arthur Bonilla no violão.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Xarope Infalível


Estava eu a pesquisar nos arquivos da Biblioteca Nacional algo sobre os acontecimentos de 27 de janeiro de 1865 em jornais da época quando me deparei com uma joia no Jornal A Constituição no mesmo ano de 1865 . O anúncio do famoso Xarope Vegetal de Penedo, de cura infalível para as moléstias do peito. O Dr João Augusto Penedo apresenta os títulos de professor de Chymica e Pharmacia pela Faculdade de Montevideo e aprovado pela imperial academia do Rio de Janeiro e cavaleiro da imperial ordem da Rosa. Alerta o doutor Penedo que cada vidro do xarope é acompanhado de um folheto assinado pelo punho do autor, e bem assim na advertência que se acha em uma das faces do vidro se encontra a sua rubrica; além disso cada caixa de 12 vidros conterá um atestado por ele assinado, selado e reconhecido por tabelião. Os vidros que não forem acompanhados destes requisitos são falsos.

Esclarece o João Penedo, que estando uma pessoa de sua família muito enferma de afecção pulmonar e tendo já, perdidas as esperanças, seguiu conselho de um amigo que lhe indicou algumas plantas utilizadas pelos jesuítas que fariam bem aos pulmões. Delas fez um xarope que teve um resultado assombroso. “ Basta dizer-lhes que a doente, que fora reputada perdida e no período mais longo da enfermidade, meses depois se achava nutrida, com boa cor e robusta, deduzindo desta cura que o medicamento tinha feito cicatrizar os tubérculos que já dilaceravam os pulmões”. Resolveu então o Sr Penedo comercializar o produto.

E onde entra Jaguarão nesta história? Ora, no reclame, Penedo publica depoimentos de médicos e de várias pessoas que utilizaram com exito seu Xarope e aqui reproduzo o atestado de dois jaguarenses.

Atesto que padecendo minha mulher de uma afecção pulmonar bastante antiga acompanhada de impertinente tosse e dor no peito, sem que se colhesse resultado algum dos mais judiciosos medicamentos a que foi submetida, me deliberei aplicar-lhe o medicamento que se denomina XAROPE VEGETAL DE PENEDO, com o qual obteve uma cura radical, visto que tendo decorrido bastante tempo desde que isso sucedeu, jamais lhe repetiu tal incomodo: o que atesto é verdade – cidade de Jaguarão , 20 de julho de 1860 – Querubim Furtado

Agora quem depõe sobre as maravilhas da infusão é Manoel Furtado Pacheco, em Jaguarão, na data de 01 de agosto de 1960: atesto que minha mulher foi atacada de uma perigosa enfermidade do peito acompanhada de insuportável tosse: e conquanto sua idade poucas esperanças desse, por ser uma senhora de 78 anos, tive contudo o prazer de a ver completamente restabelecida com o uso do Xarope vegetal de Penedo. Todo referido é verdade, por isso de bom grado passo o presente.

Jornal ligado ao Partido Conservador apoiando a autoridade do Imperador Pedro II, A Constituição foi fundado num momento de prosperidade e efervescência política e intelectual em Fortaleza, decorrente, sobretudo, da riqueza gerada pela alta das exportações nacionais de algodão, o mais importante produto da economia do Ceará.

Sobre os acontecimentos das guerrilhas entre blancos e colorados que deram origem à escaramuça dos blancos em Jaguarão há interessantes aportes em A Constituição. De toda forma, vê-se que região estava muito conturbada e a Guerra do Paraguai viria logo a seguir como consequência dos conflitos no Rio da Prata.

Jorge Passos

Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 21/01/2014