terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Náufragos Urbanos - Deve ser o rio. Só pode

Na Coluna Magis, publicada no Diário Popular nesta segunda-feira, 21 de dezembro, ,  o jornalista Pablo Rodrigues dedica o espaço ao espetáculo Náufragos urbanos, no Teatro Esperança.

Em Jaguarão, todos são devedores do rio. Por lá, quem não conhece o rio, desconhece o homem. O rio - a travessia - o homem. Em Jaguarão, a poesia de Martim César é hoje rosiana e reveladora canoa: “rio abaixo, rio a fora, rio a dentro”. Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça: Náufragos urbanos - Cartas de marear, de Martim César, Ro Bjerk e Ricardo Fragoso. Poesia pura, em canções.
O leitor duvida, crê que exagero? Veja um breve trecho do samba Faca de ponta (Carta 2):
“Às vezes o mundo nos pega de ponta
Nos leva por conta sem nos consultar
E somos tão frágeis pra vencer a corrente
Que nos leva, inclemente, pros perigos do mar
Mas nem por isso, amigo, eu descreio do mundo
Pois já sei, lá no fundo, que viver é lutar
Para aqueles que querem que eu lamente os espinhos
Planto flor nos caminhos e convido a sonhar”

No recital de apresentação de Náufragos urbanos, na última sexta-feira à noite, o público do Teatro Esperança viu-se remoçado. E - “A vida nos pede bem mais!” - despertou, como quem de repente se lembrasse que, postas à parte todas as míseras tristezas cotidianas, teve, tem e sempre terá vocação à alegria. E à beleza. Porque há, sim, o direito à alegria. E à beleza. Sei que não falo só por mim. Definitivamente, não falo só por mim. Falo por quem nem sei. Tanta gente à minha volta.
Tudo em Náufragos urbanos é talento e delicadeza. Em Casa vazia (Carta 4), canção digna de um Lupicínio Rodrigues, o diálogo entre a voz de Ro Bjerk e a flauta de Gil Soares encanta, abre portas e escancara janelas: leva o ouvinte, não sem doçura, à casa da melancolia. Herdeiro de Neruda, Martim César é capaz de falar - com igual engenho - sobre lutas e amores. Ouso dizer que, atualmente, na poesia do Rio Grande do Sul, não há quem dele se aproxime, tamanha versatilidade em compor.
As parcerias do álbum são todas acertadíssimas. O time de músicos foi escolhido a dedo. Além dos excelentes Ricardo Fragoso (que assina quase todas as músicas com Martim), Ro Bjerk e Gil Soares, também transitam pelas canções Paulo Timm, Aluisio Rockemback, Renato Popó, Fabrício Moura (Pardal), Jucá de Leon, Daniel Zanotelli, Lyber Bermudez, Eduardo Varella, Davi Mesquita Batuka, Jortan Lima e Hélio Mandeco.
Ainda na noite da última sexta, o público do Teatro Esperança pôde arrepiar-se, antes da apresentação de Náufragos urbanos, com a voz firme e doce de Laura Correa, cantora uruguaia de apenas 16 anos inacreditavelmente pronta para os palcos. Vê-la, em Jaguarão, misturada a Martim e a tantos outros, é reafirmar que, sim, Schlee esteve sempre certo: na fronteira, tudo é “uma terra só”.
Uma cidade vale pelo tanto que acrescentou de patrimônio cultural ao mundo. A Jaguarão, bastaria ter parido Aldyr Garcia Schlee e sua literatura. Há quem trocaria reinos por O dia em que o papa foi a Melo ou Contos gardelianos. Contudo, esta pequenina terra jaguarense - maravilhoso mundo - não se cansa de parir artistas, de espalhar encantamento e luta. Deve ser o rio. Só pode.
Gracias, Martim! Gracias, Jaguarão!


Time de músicos do Náufragos Urbanos no Teatro Esperança


segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Aldyr Garcia Schlee em Defesa da Democracia

Escritor, jornalista e professor emérito da UFPel, o jaguarense Aldyr Garcia Schlee, que recentemente foi agraciado com a Ordem do Mérito Cultural do Brasil, em ato político realizado no sábado , dia 19 de dezembro,  diante do Teatro 7 de abril, na praça Cel. Pedro Osorio, por ocasião da aula pública em “Defesa da Democracia”,  manifestou-se assim:
"Lamento que precisemos estar aqui, hoje, em praça pública para defender a Democracia. Lamento muito, porque, aos 81 anos, já não imaginava mais… ver a democracia ameaçada em nosso país.
E percebam que agora, já não são os bandidos fardados de ontem que nos ameaçam e ameaçam o povo brasileiro; agora são os filhotões da ditadura militar outrora acobertados na velha Arena, são eles que se arrogam a dar o golpe, disfarçados escandalosa e convenientemente de arenistas em pepistas e de pepistas em “progressistas”; ou disfarçados escandalosa e convenientemente de arenistas em pefelistas e de pefelistas em “democratas” – a contar ainda os metidos na conveniente, escandalosa e disfarçada absorção do periclitante comunismo do PCB pelo pseudo socialismo direitoso do PPS; – e a contar ainda o constante e inabilitante afundamento político-eleitoral do outrora democrático e promissor PSDB, nas suas sucessivas derrotas nacionais e nas ridículas brigas internas de seus caciques, que transformaram o partido, agora, na desarticulada máquina que se quer escandalosamente, disfarçadamente e convenientemente, detonadora e propulsora do golpismo brasileiro, com o irrestrito, incondicional e mal-disfarçado apoio (como não poderia deixar de ser) das máximas entidades patronais da indústria, do comércio, da agricultura… e de toda a mídia monopolista com elas mancomunada no país inteiro, chancelando, difundindo e propalando as campanhas de desinformação, ignorância, intolerância, ódio, rancor, mentira, injúria, difamação e calúnia, especialmente contra a presidenta da República.
Fora Dilma, fora PT são expressões postas na boca de uma pobre gente – não de gente pobre – pobre gente que vemos por aí desinformada, ignorante, intolerante, cheia de ódio e rancor injustificáveis; e difusora irresponsável de mentiras grosseiras e de criminosas injúrias, difamações e calúnias contra quem quer que seja o objeto de sua ira e raiva. Uma pobre gente – não uma gente pobre – que, portando contraditórios símbolos nacionais, inclusive a camiseta canarinho enxovalhada pela CBF, nem ao menos sabe, certamente, por que mesmo poderia desejar Dilma fora da presidência e o PT fora da luta política –a não ser para que, assim, não houvesse necessidade nem perigo de eleição, e os caciques seguidamente derrotados nas urnas não corressem risco de mais um tombo eleitoral, capaz de conduzi-los ao ostracismo que os ameaça e que tanto merecem.
Tenho por certo que o golpe contra o qual nos manifestamos aqui, hoje, não haverá: a Justiça já corrigiu e recompôs os limites da ação política desencadeada pelo golpismo no Congresso. Mas a defesa da democracia continua.
Com ela, com a defesa da democracia, estamos comprometidos – o que significa estarmos comprometidos com a vontade do povo brasileiro, expressa nas urnas em eleições livres, democráticas e inquestionáveis que garantiram e garantem à presidenta Dilma Rousseff uma mandato que vai até 2018.
Não ao golpe!
Não à infâmia!
Não à mentira!
Não à injúria, à difamação e à calúnia!
E viva o povo brasileiro! "

sábado, 5 de dezembro de 2015

Poema no meio do mundo


Para Enrique Bacci

          Está certo que a vida é uma sucessão
          E que virão os novos
- que já fomos um dia –
Para nos substituir.
É a lei da vida. Imutável em nossa mutação.
Mas não é justo sairmos de cena
Enquanto ainda há aplausos,
Mesmo que sejam esparsos
E de lugares distantes na plateia.

Pois eu te recordo, Enrique,
Com tua voz suave de metálicas sonoridades,
Com tua poesia de infinitos transvias,
Todos partindo de tua enigmática Paso de los Toros,
Cruzando sem passaporte as fronteiras
De países e de espíritos
Todos sedentos de vida e de utopia.

Eu te recordo, Enrique
Amigo de cafés montevideanos
Onde nunca estivemos juntos.
Mas onde, eu sei, sempre estivemos
Conversando sobre a magia das palavras,
Divagando sobre Quixotes e amores felinianos,
Perdidos – eles e nós – no meio do mundo
Em Midland, Enrique... em Midland.

Martim César Gonçalves






domingo, 15 de novembro de 2015

1001 noites: Da lama de Mariana ao caos de Marianne


Por Joanneliese Freitas * 

A lama, apesar de ter sido vomitada de modo repentino, contínuo e violento para quem lá estava, chegou em minha mente e coração aos poucos. Adentrou como é propriedade da lama aquosa: lentamente, invadindo sem permissão, sub-repticiamente contaminando cada canto. E vai secando e endurecendo ali onde eu ainda podia ter um pouco de esperança.

A lama vai secando e endurecendo minha visão e meu entendimento – em um processo vagaroso e lento, porém contínuo e decisivo. Aos poucos, tomo ciência, mas também em um processo contínuo e violento: perdemos referenciais históricos, perdemos vidas. Acidente. Perdemos peixes, perdemos um rio, não, a bacia hidrográfica, o bioma. Acidente? Terror? Gente brigando por água.

Perdemos o senso, e o futuro? Ah, o futuro deságua no mar... De repente: bombas, bombas, gritos, tiros, confusão, o que está acontecendo? Pessoas arrastando seus mortos pelas ruas de Paris! Paris! Não é de lá que herdamos nossos valores de liberdade, igualdade, fraternidade?


Ao jogarem uma bomba em Marianne os estilhaços pararam em Minas Gerais. Também nossa referência de luta pela liberdade, da negritude aleijada produzindo arte, com suas riquezas agora jogadas no inconsciente da lama coletiva. Marianne, embale e vele suas centenas de mortos de uma noite, nós embalaremos e velaremos nossa noite de lama por centenas de anos... Mas o dia em Curitiba amanheceu azul! Será ainda um sinal de esperança? Não, pois os sonhos que também herdamos de Beirute e de Bagdá com suas histórias que nos embalam também ardem, a 1001 noites... Mas quem se lembra delas? São histórias para crianças...  

* Psicóloga, Professora da UFPR (Universidade Federal do Paraná). 

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Poema sobre o empedrado



Gosto da solidão dos meus passos sobre a rua
Dentro da noite...
Nada perturba meus pensamentos nessas horas
Pois minha cidade tem ruas silenciosas
Que ainda não aprenderam a linguagem barulhenta
Das cidades grandes

E se um galo canta ao longe
Eu me rio só
Recordo as buzinas que infernizavam meus ouvidos
E eu me rio só

Não sou um mero passante
Numa noite qualquer

Sou e sempre vou ser
Parte de tudo isto.

Martim César Gonçalves

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Jaguarenses levam a maioria dos prêmios no Festival Nacional da Moenda da Canção de Santo Antônio da Patrulha

Martim César e Zebeto Correia, grandes  vencedores com "Aprendizagem"

Por Elis Vasconcellos

O festival terminou na madrugada do dia 16 de agosto e premiou a música Aprendizagem, de Martim César e Zebeto Correia, representando Jaguarão e Belo Horizonte-MG, como a grande vencedora, melhor letra e melhor melodia do festival. A música As mãos de um mago, de Martim César e Alessandro Gonçalves, representando Jaguarão, obteve o terceiro lugar, fazendo assim com que a cidade de Jaguarão tivesse duas músicas premiadas nesse que é um dos maiores festivais do Brasil, atualmente, tanto em número de inscrições, como em participações de outros estados do país.

A milonga-tango “As Mãos de um Mago”, com letra de Martim César, música de Alessandro Gonçalves e arranjo do também jaguarense Fábio Costa, foi interpretada por Chico Saratt e é uma homenagem a um dos grandes nomes do cenário artístico do Rio Grande do Sul: o uruguaio Carlitos Magallanes, que reside há 40 anos no nosso estado e se notabilizou como um dos mais importantes instrumentistas de tangos e milongas em terras brasileiras, bem como solista da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) e como músico premiado em quase todos os festivais do sul do país.

"As Mãos de um Mago", interpretada por Chico Saratt, foi terceira colocada 


segunda-feira, 1 de junho de 2015

Juca Ferreira defende política cultural para as fronteiras

Uma política cultural para as fronteiras e medidas para lançar um edital específico para pontos de cultura de fronteira. Estas foram algumas propostas anunciadas no último sábado (30) pelo ministro Juca Ferreira, em Jaguarão (RS), na divisa do Brasil com o Uruguai, onde participou de uma roda de conversa chamada Diálogo da Fronteira, com artistas, gestores, produtores e fazedores de cultura locais. A ministra da Educação e Cultura do Uruguai, Maria Julia Muñoz, também participou do debate.

Ministros Juca Ferreira e Maria Julia Muñoz ressaltaram
                importância de políticas culturais para a fronteira -Foto Lia de Paula    
       

O ministro defendeu a construção, na fronteira, de um território de "amizade, parceria, vivência cultural e integração com países irmãos". O anúncio do possível lançamento do edital para pontos de cultura nas divisas já em 2016 arrancou aplausos dos participantes da roda de conversa.

"Pretendo construir uma política cultural para fronteira e Jaguarão é um ícone, um ponto de partida para isso", afirmou. "É preciso ser uma política que dê conta da diversidade presente nessas regiões e que, ao mesmo tempo, estimule a integração e as parcerias. Pensem no Ministério como um parceiro para apoiar esse processo que vocês já vivem", destacou.

A proposta recebeu apoio da ministra da Educação e Cultura do Uruguai. "Vamos estar sempre atentos a fomentar a cultura de fronteira. Ela nos une entranhavelmente. Nossos povos têm sonhos em comum", afirmou Maria Julia Muñoz.

Pontos de Cultura


Pontos de Cultura são entidades culturais ou coletivos culturais que, por desenvolver ações de impacto sociocultural em suas comunidades, são certificados pelo Ministério da Cultura, recebendo dele apoio institucional e financeiro. O Plano Nacional de Cultura - PNC (Lei 12.343/2010) estabelece em seu Plano de Metas o fomento de 15 mil Pontos de Cultura até 2020.

Em Jaguarão, o ministro ressaltou a importância dos Pontos de Cultura para o fomento da cultura de base comunitária no país. "Historicamente, as comunidades acharam uma forma de qualificar seu ambiente e superar a ausência do Estado. Muitas vezes, em um ambiente degradado e submetido à violência, as pessoas produzem um ambiente mágico que só a arte e a cultura são capazes de fazer", comentou.

Ferreira enfatizou, ainda, que os Pontos de Cultura são "parte insubstituível" da Cultura brasileira, presentes em todo o país, desde a periferia até as comunidades indígenas. "É preciso reconhecer o direito do povo brasileiro de ter apoio do Estado para que se desenvolva. Nós vamos trabalhar para ampliar essa experiência", frisou.

Outras demandas


Ao longo do evento, participantes puderam expor seus pontos de vista e fazer demandas. Luta contra a intolerância religiosa, maior acesso à cultura, investimentos para o setor do audiovisual da região e a cultura vista como vetor de integração e de desenvolvimento regional foram alguns dos temas tratados.

Outro pedido de destaque foi a necessidade de descentralização na distribuição de recursos para a área cultural. Em relação a esse aspecto, mais uma vez, o ministro foi enfático ao defender a reforma da Lei Rouanet.

"A lei Rouanet representa 80% do dinheiro que o governo tem para aplicar na cultura. É mal aplicado porque, em última instância, quem define o uso é o departamento de marketing da empresa. E a empresa se associa a quem pode dar retorno de imagem a ela, então, a restrição é imensa", lamentou.

Além de Juca Ferreira e da ministra da Educação e da Cultura do Uruguai, estiveram presentes à roda de conversa o prefeito de Jaguarão, Cláudio Martins, a presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Jurema Machado, e o diretor do departamento de Relações internacionais do MinC, Gustavo Pacheco, entre outros.

O Diálogos da Fronteira foi um dos compromissos cumpridos pela comitiva do Ministério da Cultural em Jaguarão ao longo do último sábado (30). Ao longo do dia, o ministro visitou espaços culturais e participou de cerimônia de celebração do reconhecimento da Ponte Barão de Mauá como primeiro bem binacional reconhecido como Patrimônio Cultural pelos países do Mercosul.

Fonte: Cecília CoelhoMinC

Ministro Juca Ferreira caminhou pela Ponte Mauá
Cerimônia de descerramento de Placa na Ponte Mauá, Patrimônio Cultural do Mercosul


 

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Voluntários da Pátria de Jaguarão

Voluntário desconhecido pousa
 para foto em estúdio
Por Jorge Passos

Damião; pardo; desta Província; 20; Sr. Ramão Francisco de Lemos; data da concessão 08-07-1867; data registro 09-07-1867 (Livro 3, p. 33r). Descrição: A carta foi concedida “para que sirva como substituto de meu filho João Nepuceno de Lemos, pelo tempo de 9 anos, em um dos corpos de 1ª Linha do Exército que lhe for designado conforme é concedido por Lei”. O referido senhor pediu a seu filho João Nepuceno Lemos que a assinasse a rogo. 

Esta é uma das Cartas de alforria que consta dos Documentos da Escravidão, pesquisa com Catálogo Seletivo De Cartas De Liberdade realizada no Acervo dos Tabelionatos de municípios do interior do Rio Grande do Sul pela APERS , na parte que se relaciona ao município de Jaguarão. Como se vê, trata-se de concessão de liberdade ao cativo com a condição deste, substituir o filho do Senhor como voluntário na Guerra do Paraguai.

“La Guerra Grande” ou “Guerra Maldita” como ficou conhecido o maior conflito ocorrido na história da América do Sul cumpriu em 2014, 150 anos. Conforme o historiador Mário Maestri, a guerra do Paraguai, apesar da sua importância, é semi-desconhecida no Brasil e pouco abordada pela nossa historiografia tradicional. Em artigo publicado recentemente, o Professor da UPF afirma que “o conflito foi deflagrado pela invasão do Uruguai pelo Império do Brasil, sem declaração de guerra, em outubro de 1864, para manter direitos semi-coloniais impostos quando de invasão anterior, em 1851! Agressão exigida pelos estancieiros sulinos, general Netto à cabeça, que mantinham a escravidão no norte do Uruguai que dominavam, apesar de abolida naquele país em 1842-46!” . Jaguarão foi diretamente atingida por esses acontecimentos no 27 de janeiro de 1865, quando da invasão dos blancos à nossa cidade, evento que nos rendeu o epíteto de heroica.

No Brasil, depois de um inicio de entusiasmo popular, criou-se o Corpo de Voluntários da Pátria, para canalizar o sentimento patriótico dos que desejavam lutar pelo País. Porém, logo escassearam os alistamentos e o recrutamento começou a ser forçado. A substituição do recrutado ou designado para a guerra, por um escravo, era uma das maneiras de fugir do sangrento conflito. Os nossos antepassados jaguarenses não hesitaram em recorrer a esse privilégio. Afinal, segundo o escritor Joaquim Manoel de Macedo, líder da facção avançada do Partido Liberal, "os brasileiros não se alistavam voluntariamente por acreditarem que só os pobres lutavam".

Fazendo justiça aos homens de Jaguarão que , provavelmente com sua morte nos campos de batalha lutando pelo Brasil, conquistaram a liberdade, coletei no catálogo acima citado os nomes dos escravos que publico a seguir, ressaltados em negrito, com os respectivos senhores e ou parentes destes, substituídos. Como gaúchos que somos e por exaltar nossas façanhas servindo de modelo a toda Terra, nada mais justo que permitir à comunidade negra de nossa cidade, o reconhecimento a seus antepassados, aos que realmente foram para a frente de combate , os nossos Voluntários da Pátria.

Faustino José Gonçalves ; Sr. Honório José Gonçalves 
Damásio Francisco de Brum ; Sr. Manoel Francisco de Brum 
Jacinto Leodoro; Sr. Evaristo José Gonçalves, em lugar do filho Evaristo José Gonçalves Júnior 
Benedito José Nobre ; Sr. Ismael José Nobre
Paulo Inácio Rodrigues; Sra. Justa Dias Rodrigues, substituindo seu filho Lino Inácio Rodrigues
Tomás de Melo em lugar de Manoel Cândido de Melo, filho do Senhor 
José Maria Dias ; Sra. Maria Inácia Rodrigues Dias, em lugar do filho Manoel Inácio Dias
Lucas Caetano dos Santos; Sr. Manoel Corcino dos Santos 
Paulo Corrêa da Silva ; Sr. João Jacinto Corrêa da Silva 
Eleutério Porto ; Sr. Joaquim Teixeira Porto, substituindo o filho Manoel Joaquim Porto
Adão Cunha; Sr. Basílio Evaristo, em lugar do enteado Fortunato Antônio da Cunha
Estevão ; Sr. Tomás de Farias Santos, no lugar do sobrinho Luís Gidião de Farias
Narciso; Sra. Maria Dias Terra, em lugar do filho Felício Francisco Terra
Marcelino; Sra. Joaquina Maria da Conceição, em lugar de Antônio Vieira de Freitas
Manoel; Sr. Jacinto Corrêa de Araújo
Benedito; Sr. Clarimundo Álvaro de Melo, em lugar do filho Loregildo Pereira de Melo
Damião; Sr. Ramão Francisco de Lemos, substituindo o filho João Nepuceno de Lemos
Elias ;Sr. Angelino Dutra da Silveira, em lugar do filho Leandro Dutra da Silveira
Inácio; Sr. Antônio Joaquim Lima
[sem nome] ;Sr. Joaquim Soares de Souza.


Os escravos quando da libertação ou alforria, geralmente adotavam o sobrenome dos seus antigos senhores. Não adicionei à lista, os escravos da Freguesia de São João Batista do Herval e da Freguesia de Nossa Senhora das Graças de Arroio Grande que, à época, pertenciam a Jaguarão. Para se ter uma ideia da importância do escravagismo por aqui, Jaguarão em 1859 tinha 5.056 escravos, só perdendo em número, para a capital , Porto Alegre, que dispunha de 8.417 escravos.


Retirado de "Comprando e vendendo escravos na fronteira" de Jônatas Caratti

CLIQUE AQUI    Para consultar a íntegra da Pesquisa sobre as Cartas de liberdade do RS 


Imagens da Guerra do Paraguai

Guarda Pessoal de Caxias. Todos negros. Quem pode afirmar que não  há algum 
escravo liberto de Jaguarão nesta foto?



Quem era designado como voluntário e não dispunha de escravo para ir no seu lugar, ou 600 mil réis para pagar pela dispensa,  vivia drama satirizado na charge abaixo.  A honra e a coragem cediam lugar ao medo.


Patriotismo Escravocrata



O prejuízo dos Fazendeiros na Guerra


- Imagens colhidas no Site da Universidade Federal do ParanáSetor de Ciências Humanas, Letras e Artes- Departamento de História - História do Brasil II (HH061) Professor responsável: Luiz Geraldo Silva. 

A legislação da guerra, ainda, permitiu um a outra forma de enviar para as fileiras do Exercito escravos: o substituto. Pela lei n° 1220. de 20 de julho de 1864, ainda em vigor durante a guerra, se permitia aos recrutados e voluntários a isenção militar por substituição de indivíduos idôneos para o mesmo serviço, faculdade que igualmente foi concedida aos guardas nacionais tanto pelo artigo 126 da Lei n. 602 de 19 de setembro de 1850. como pelo Decreto n° 3513 de 12 de setembro de 1865 - OS [IN] VOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA NA GUERRA DO PARAGUAI - dissertação de Marcelo Santos Rodrigues da UFBA.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

13 de Maio: A Revolução Abolicionista

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Por Mário Maestri *

Em 13 de maio, a Abolição celebrou 123 anos. O Brasil foi uma das primeiras nações americanas a instituir e a última a abolir a escravidão. Dos 511 anos de história do Brasil, mais de 350 passaram-se sob o látego negreiro. A Abolição já foi celebrada com vigor e alegria. Hoje, conhece verdadeira desqualificação. Sua negação é obra sobretudo do movimento negro organizado que com razão lembra a miséria atual de grande parte do povo negro. Essa visão bem intencionada consolida interpretações caricaturais do 13 de Maio que escamoteiam a essência da gloriosa revolução abolicionista de 1888.
Celebrar o 13 de Maio não significa reafirmar os mitos da emancipação do negro em 1888 ou de Isabel como Redentora. Significa recuperar a importância da superação da escravidão e da participação dos trabalhadores escravizados naquelas jornadas revolucionárias. O povo negro pobre sempre intuiu a importância de 1888. Esse sentimento profundo não nascia da propaganda das classes dominantes, mas da memória popular sobre acontecimento magno para os subalternizados.

Não há sentido em antepor o 20 de Novembro, celebração da confederação dos quilombos de Palmares, ao 13 de Maio, fim da escravidão. Apesar de saga luminar, Palmares jamais propôs – e não podia ter proposto – a destruição da escravidão como um todo. E foi derrotado. A revolução abolicionista, movimento nacional, foi vitoriosa ao superar para sempre o escravismo. Desconhecer o seu sentido revolucionário é menosprezar a essência escravista do passado e o caráter singular da gênese do Brasil.

Estudos clássicos como Os últimos anos da escravatura no Brasil, de Robert Conrad, apresentam a Abolição, em seu tempo conjuntural, como produto do abandono maciço pelos cativos das fazendas cafeicultoras, sobretudo paulistas, nos meses finais de cativeiro. Um movimento que se impôs sob uma tensão extrema, que ceifou a vida de não poucos cativos e abolicionistas consequentes.

O fim do cativeiro deveu-se à massa escravizada, aliada aos abolicionistas radicalizados. Em 13 de maio, a herdeira imperial apenas sancionou lei aprovada pelo Parlamento dos proprietários, lavrando o atestado de óbito de instituição terminal. Nos 66 anos anteriores, os Braganças haviam defendido o cativeiro, com dentes e unhas.

Em um sentido estrutural, foi sobretudo a oposição permanente do cativo ao trabalho feitorizado que construiu as condições que levaram, mais tarde, à destruição da escravidão. Uma oposição que impôs limites insuperáveis ao desenvolvimento tecnológico da produção, determinando gastos de vigilância e coerção que terminaram abrindo espaço para formas de produção superiores.

Em 1888, pôs-se fim ao modo de produção escravista colonial que ordenara o Brasil por mais de 300 anos. É um anacronismo negar essa realidade devido às condições econômicas, passadas ou atuais, da população negra. Os limites da Abolição eram objetivos. No final da escravidão, a classe servil era categoria em declínio que lutava essencialmente pelos direitos cidadãos, reivindicação que uniu trabalhadores escravizados rurais e urbanos. Em 13 de maio, setecentos mil cativos e ventre-livres obtiveram a liberdade civil.

O programa abolicionista de modernização e democratização do país continha a distribuição de terras entre os ex-cativos e os pobres. O movimento abolicionista foi desorganizado pelo golpe republicano de novembro de 1889, que entregou o poder às classes proprietárias regionais.

Com o 13 de maio, superavam-se as diferenças entre trabalhadores livres e escravizados, iniciando-se a história da classe operária como a compreendemos hoje. A revolução abolicionista foi o primeiro grande movimento de massas do Brasil e constitui, até agora, a única revolução social indiscutivelmente vitoriosa no país.

* Mário Maestri, 62, é professor do Curso de História e do PPGH da UPF. E-mail: maestri@via-rs.net

Artigo Publicado em 15/05/2011 no  http://www.diarioliberdade.org


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Pensando o Nu na História da Arte com o Professor Dr. Clóvis da Rolt


Dentro da Programação da II Semana da diversidade Sexual de Jaguarão, acontece neste sábado, 18 de abril, as 16 h, no auditório do Círculo Operário, a Atividade "Pensando a Produção Cultural" com o Tema "Ocultamentos e Revelações: Pensando o Nu na História da Arte" com o Palestrante, Professor Dr. da Unipampa, Clóvis da Rolt e com mediação da Me. Marina Reidel. 

Clóvis da Rolt  é docente na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), Campus Jaguarão-RS. Possui graduação em Licenciatura Plena em Artes Plásticas (Universidade de Caxias do Sul), Especialização em Ética e Filosofia Política (Universidade de Caxias do Sul), Mestrado em Ciências Sociais (Universidade do Vale do Rio dos Sinos) e Doutorado em Ciências Sociais (Universidade do Vale do Rio dos Sinos). Realizou período de estudos de doutorado na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Granada (Espanha), mediante bolsa do Programa de Formação Permanente da Fundación Carolina e Junta de Andaluzia. Atua no campo das Artes Visuais e da Antropologia com especial interesse nos seguintes temas: história e teoria das artes visuais, antropologia cultural, processos identitários no âmbito da pós-modernidade, imaginário e hermenêutica.

O Evento é organizado pelo PET Produção e Política Cultural da Universidade Federal do Pampa e Instituto Conex com o apoio do Círculo Operário de Jaguarão.   





domingo, 22 de março de 2015

PEDRA SÓ - Poema de José Inácio Vieira de Melo




Às cinco horas da tarde,
no céu da Pedra Só,
um cavalo emerge das nuvens
e uiva para a lua.
Às cinco horas em ponto,
na fazenda Pedra Só,
a lua é o olho do dragão.

E a moça de Jorge de Lima
é enorme, enorme,
e engole a lua
e vai ficando
menor, menor.

Mas continua caindo
num desembesto sem fim
até virar Alice.

E logo ali, um alce.
E logo ali,
o galo de Abraão Batista
numa briga feroz
com o boi do Patativa.

Às cinco em ponto da tarde,
no reino da Pedra Só,
Federico Garcia Lorca
montado num corcel de algodão
crava seu punhal de prata
nos olhos da escuridão.


JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

PEDRA SÓ - Poema de José Inácio Vieira de Melo, do livro "Pedra Só" (Escrituras Editora, 2012). Recitado por José Inácio Vieira de Melo. Ilustrações de Juraci Dórea. Músicas: JIVM, Uakti, Oliveira de Panelas & Téo Azevedo, Quinteto Armorial, Zabé da Loca. Edição de audio: Vandex. Edição de vídeo: Ricardo Bertol. Direção: Gabriel Gomes e José Inácio Vieira de Melo.

sábado, 21 de março de 2015

Alguns são todos, ou todos são alguns?

Trabalhar com a lógica as vezes nos traz algumas informações bem legais. Num conjunto de 15 cães, 3 são ferozes e maldosos (faz de conta que um cão tem esta característica). Posso dizer que todo o conjunto é feroz e maldoso? Não, seria uma sacanagem com os 12, que inclusive são maioria. E se dizer que todos não são ferozes e maldosos? Também seria sacanagem com os demais de fora, além de acobertar os ferozes e maldosos. A lógica é clara (e usamos em vários conhecimentos, muito comum na matemática). "Alguns não são todos, e todos não são alguns". Quando damos aulas aos alunos do Ensino Fundamental e Médio, é comum, às vezes, colegas comentarem sobre determinada turma, em função de alguns alunos "bagunceiros". Tipo, "aquela turma não dá pra trabalhar", "é horrível". Pronto, transformamos o "alguns no todo". E isto é ruim pra quem? Para aquela maioria que não era "horrível" como se propagava com este discurso, mas pagava o pato. 
O objetivo aqui não é tratar de como os professores devem agir numa situação destas, mas demonstrar como, por falta de uma compreensão elementar de lógica, sacaneia-se muitas pessoas de bem. O senso comum, apesar de ser por onde devemos começar uma análise, é provido de vários preconceitos (conceitos prévios, não provados, portanto não verdadeiros). E também por operações lógicas desatentas. Uma delas é justamente esta: Confundir Alguns com Todos, e Todos com alguns.

Hoje, e de muitos anos, pois já abordava isto lá pelos idos de 1989, no campo da política, há grupos de pessoas alicerçadas por grupos de Mídia (TV, Rádio, Jornal), que alimentam esta terrível argumentação totalmente desprovida de lógica. Vejamos: quando algumas pessoas (políticos) se corrompem, e como é possível corromper individualmente, não há necessidade do todo, no caso os partidos. Estes apenas tem suas Comissões de Ética para tratar do assunto e suas propostas e bandeiras, que é onde as pessoas poderiam e deveriam estabelecer os debates, defendendo ou combatendo (ideias) de um lado ou outro.
Assim, se uma agremiação tiver milhares de membros, e 5 ou 8 forem corrompidos ou corruptores, eu posso dizer que "Alguns são todos". Da mesma forma não. Assim, apenas estaremos sacaneando os corretos, e ainda ajudando os corruptos a se esconderem no meio de todos. Por isso não gosto destas generalizações, que a própria lógica demonstra, não resolvem o problema. Neste caso, teríamos que verificar onde estão as situações mais propícias para a corrupção. Uma delas está bem clara. Financiamento privado por grandes grupos econômicos a candidatos, que eleitos, estão sujeitos a defenderem os interesses destes grupos (até aí, ainda não se configura exatamente a corrupção, mas a opção de lado). Mas em determinado momento em que estas empresas tem interesses em licitações por exemplo, aí sim, percebemos como funciona o causo. E uma vez investigados nomes que, por ventura, possam estar envolvidos, e uma vez comprovados, será que podemos concluir que "Todos são Alguns". 
Esta noção do senso comum, muito apreciada e difundida justamente por grupos econômicos que operam com a corrupção, ajuda em muito a manter os corruptos quase a salvo, no meio de todo o conjunto. Enquanto não aprendermos a dar nome aos bois, de todos os lados, e evitar generalizar para todo o conjunto, também se estará ajudando os corruptos. O importante na política é debater os projetos, sem preconceitos ou lógicas falsas. Defender isto ou combater isto, por conta disso e disso. Pressionar o governo tal para encaminhar tal projeto. De outra forma, ajudar-se-á a manter a situação como está. Em muitas manifestações pairou o senso comum principalmente através da Rede Globo, já que a Reforma Política praticamente não foi apresentada como tema fundamental, porém a ideia de que "Alguns são todos", sim, é o que mais percebi, e pior, de um lado só. Além da falsa lógica que ajuda a corrupção, ainda tem a parcialidade. 


Carlos José  de A. Machado
 
Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 18/03/2015 
 

AS “JUSTIÇAS” BRASILEIRAS


Que o Brasil é um país politicamente singular nenhum brasileiro tem dúvida. O que pode variar é a maneira como cada um argumenta para concordar com a afirmativa. Há justificativas para todos os gostos, desde a extrema esquerda até a extrema direita. Neste último caso estamos procurando quem assuma essa condição, embora se saiba que seus adeptos são numerosos. Ninguém quer ser direitista, no Brasil.

Quis iniciar com a afirmativa acima para justificar que também reconheço a existência de peculiaridades “inexplicáveis” em todos os campos do relacionamento da comunidade com as lideranças responsáveis pela condução do País e, mais importante ainda, daqueles organismos que têm o compromisso de servir de elo de ligação confiável entre governo e sociedade, mais comumente designada como “mídia” (aportuguesando), seja ela falada, escrita ou televisionada e todas demais que tenham a faculdade de lidar, diretamente ou indiretamente, com as questões de opinião pública.

Grosso modo poderia dizer-se que temos “três justiças” no Brasil, todas elas com suas causas e consequências inerentes à responsabilidade com que cada uma é aplicada ou faz produzir seus efeitos. A primeira, lógico, é a “justiça oficial” que, definida pela nossa Constituição é exercida através de seus inúmeros organismos estatais, obedecendo às regras estabelecidas em lei. De um  modo geral funciona razoavelmente bem não fora reconhecidamente lerda. Como toda iniciativa humana, comete suas falhas. Sobre ela, assim se referiu nosso mais ilustre sábio, Ruy Barbosa: “Justiça que tarda não é justiça”. Isso, talvez, tivesse servido para a época em que foi feita a declaração. É uma discussão para outro espaço.

A segunda justiça é a da sociedade. Levados, às vezes, pelos mais estranhos motivos, os cidadãos, geralmente reunidos em um grupo ocasional, tomam a deliberação de decretar que determinada pessoa é culpada de um crime baseados apenas em pequenos indícios mesmo sem qualquer comprovação concreta. É o tipo de justiça que nos transforma em seres incapacitados de pensar racionalmente e pode ocasionar, inclusive, a prática da pena capital – até de forma bárbara -, como ocorreu recentemente (No Estado do Paraná, se não me falha a memória) e ocasionou a morte de uma pessoa por espancamento sob suspeita de um crime que, depois, foi concluído que não havia de fato cometido.

A terceira justiça é a praticada pela mídia. Embora não venha implicar uma pena capital em sua ação, é a mais devastadora delas pelo número de pessoas que pode atingir com uma simples citação. Tão logo um crime é trazido ao conhecimento da opinião pública pelos responsáveis pela investigação, mesmo que ainda não exista qualquer decisão judicial os nossos comunicadores já escolhem a “quem” culpar. A partir daí já podem começar a atribuir uma infinidade de irregularidades que passam a manchetear em caixa alta em jornais ou até em especiais de TV. Se o denunciado é uma personalidade no meio político as suas mazelas passam a dominar o noticiário e os principais âncoras fazem citações quotidianas sob qualquer pretexto, reforçando sua “condenação”. Alguém poderia perguntar: “Mas, e se o denunciado for absolvido em todas as instâncias?”. A resposta vem da forma mais sem compromisso possível: “Bem, ele não é culpado, mas poderia ser, não é? Desculpem a nossa falha...”

Só para não deixar a afirmativa sem ao menos algum exemplo, basta rememorarmos casos que tiveram grande repercussão entre os muitos que já ocorreram nos mais diversos meios de comunicação. Quem não lembra dos episódios “Ministro Alceni Guerra”, e dos professores da “Escola de Base de Brasília”?. Todos “condenados” pela mídia e, depois, inocentados pela justiça oficial. E há, também, um que atingiu diretamente os gaúchos. Quem não sabe que um de nossos deputados federais foi lançado à execração pública e acabou perdendo seu mandato? Uma revista semanal de circulação nacional “confundiu” cem dólares com cem mil dólares e não quis voltar atrás porque as suas revista já haviam sido impressas? Recentemente, a mesma revista teve um de seus diretores envolvido com o doleiro do caso Senador Demóstenes/Carlos Cachoeira, só que a única menção que ela fez sobre o fato foi a de que os duzentos contatos telefônicos feitos, pelo jornalista, com o doleiro eram por motivos “profissionais”.

Na verdade, o objetivo principal deste artigo é lançar um alerta para o que está ocorrendo em relação à divulgação de diversos problemas que o País vem enfrentando, sejam eles econômicos ou políticos. A grande mídia oligopólica, a serviço da direita e da elite brasileira, está cerrando fileiras na busca de um impedimento da Presidenta e, para tanto, qualquer meio é válido para atingir seu objetivo. É necessário que cada brasileiro, antes de tomar qualquer posição, faça uma análise profunda da situação não se deixando levar pela massificação da ideia de que tudo no Brasil se tornou um caos. Não sou defensor incondicional de tudo o que o Governo vem fazendo. Acredito que há muitas falhas, mas não vou incorrer na leviandade de querer contribuir para a instalação de um quadro reacionário, a serviço de interesses que não são os da população menos favorecida, mas, apenas, concorrerá para a manutenção de benesses seculares que uma parcela reduzida de privilegiados continua a desfrutar.
 
Wenceslau Gonçalves
 
Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 11/03/2015

 

Mulheres Guerreiras

Já me lembro certa feita do ocorrido, na volta das barrancas de água doce do rio Jaguarão! Entrando de passo lento e firme, os valentes soldados uruguaios embretam na terra brasileira, na terra do Pedro II. Quem estava lá para defendê-la? Quem cuidaria de tamanho infortúnio? Os homens seus lutavam lá pelas bandas do Paraguai. Até seu pároco não estava presente para consolar e defender deste empreendimento bélico.

Elas! Sim, elas - as heróicas mulheres prendadas e guerreiras de sangue cozido na mistura charrua-lusitana-castelhana! Com poucos homens: dizem que havia somente alguns velhos e uns poucos jovencitos, seguem elas impondo a lei natural de preservação e contando com a escolta do General Marques de Souza. - Hasta luego!!! Gritam as heróicas guapas, munidas de seus óleos quentes, pelegos e armas caseiras das mais exóticas. Jamais se viu um quartel tão audacioso! Felizes, retornam para suas casas, trazendo na alma e nas mãos, não só a terra conquistada e defendida, mas a soberania do Império Del Rei, o poder da conquista, a imposição de uma nação. Nesta terra de nação alguma, vinte e sete de janeiro declarará esta conquista – a conquista das heróicas. Assim são as mulheres desta terra: guerreiras, heróicas, fortes, valentes, audaciosas. Filhas talvez de Ana Terra, ou simplesmente “Anas que a dor não quebra nem consome, Anas da terra-mãe e nada mais”, já dizia o poeta campeiro. 
Hoje estas guerras são estórias, pois o combate da vida, da garantia do amor contínuo e da esperança dos filhos crescerem felizes é o foco destas jaguarenses. Em suas preces, prantos e atitudes, deixam um legado universal para todos que precisarem de uma referência de como a vida pode transcender diante das situações limiares, uma vez que a bravura e a maternidade, aqui nesta terra de mulheres fortes, caminha de mãos dadas. 
 
Magnum Patrón Sória
 
Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 04/03/2015  

domingo, 1 de março de 2015

Mar de Gente


Por Jorge Passos

Mar de gente. Foi essa a expressão usada por um morador da General Osório na janela do seu camarote privilegiado para assistir o Circuito dos Trios Elétricos do Carnaval 2015. Sob o olhar imponente da Torre da Minervina, mar de gente também era a cena que se via na confluência da Deus Dias com a  Avenida 27 (foto). Desse ponto foi que acompanhei a maior parte da folia.

Houve espaço para todos,  apesar da multidão. Nos camarotes, nas janelas, nas calçadas, nos ombros dos pais, nos Trios, nos Blocos, nas Escolas de Samba, nas arquibancadas,  a maior festa popular do Brasil tinha palco magnífico em Jaguarão. Tirando-se a fatalidade que ocorreu na noite de sábado e aquela briga ocorrida entre grupos rivais de bairros da cidade na quinta-feira, a opinião geral é de que tivemos um grande carnaval.

Estávamos presentes quando silenciou repentinamente a festança devido ao acidente. O que houve , se perguntaram todos, quando correu a noticia do acidente fatal envolvendo um Trio Elétrico. Foi comoção geral. Estava indo pra casa quando dois rapazes , recém-chegados de carro de uma cidade vizinha, nos perguntaram: “já terminou? Nos disseram que o carnaval daqui ia até as 5 da manhã!” Expliquei-lhes o acontecido, motivando a suspensão.

No domingo pela manhã andei pela cidade. Não se sabia o que ia acontecer. Alguns diziam que o carnaval seria suspenso. Pensei naquelas milhares de pessoas que tinham se deslocado para cá, pousadas cheias. O que fariam? Mais tarde, soube da reunião na prefeitura convocada pela organização. Participavam a Liga de Carnaval, os trios, lideres de blocos, BM,  presidentes de Escolas. Até os ambulantes foram chamados. Há que se ressaltar a maturidade e a correção das decisões tomadas. Decidiu-se pela continuidade da programação. Um evento desse porte não poderia ser paralisado sob pena de termos consequências e perdas irreparáveis, além do perigo de termos uma multidão fazendo um carnaval a revelia, sem controle. 

Já de noite, a festa continuando, mar de gente tomando as ruas novamente, ouço o Fantástico da Globo dizendo que o Carnaval de Jaguarão tinha sido suspenso por tempo indeterminado. Como sempre, a grande mídia desinforma, manipula e distorce. Não há desculpa para tanta distorção. Nos tempos de hoje com as noticias circulando à velocidade da luz, é inadmissível esse erro. Má-fé? Na afiliada RBS, o sensacionalismo era o tom da cobertura. Não importava estarmos no melhor carnaval de rua do estado, um dos melhores do Brasil. Jaguarão duplica sua população neste evento. Nem Salvador faz esse feito! E a mídia da RBS só focada no acidente trágico. Tragédia maior não será a Prefeitura de Pelotas, num verdadeiro atestado de incompetência,  não ter conseguido realizar o Carnaval?

Na segunda feira saímos no maior Trio. A sensação era estar em outra cidade. Naquelas miles de pessoas só reconheci uma de Jaguarão. A equipe de segurança nos trios era muito boa. Por falar nisso, quantas centenas de empregos temporários não são formados durante o evento, gerando renda extra e divisas para a cidade? Notou-se apenas um deficit no efetivo da BM. Sem dúvida, resultado  da gestão do  governo Sartori, que cortou diárias e horas extras dos brigadianos refletindo-se seriamente na segurança pública.


Para finalizar, resta a certeza de que o nosso Carnaval de Rua consolida-se como grande Festa Popular que a comunidade de Jaguarão sente com orgulho como sua.

Publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 19/02/2015