quarta-feira, 30 de abril de 2014

Quando passou por mim a história encilhada

Enquanto o vice-presidente João Goulart visitava a China, a convite do governo de Pequim, Jânio Quadros renunciava à Presidência da República, em 25 de agosto de 1961. Nas eleições, de modo sarcástico, o povo brasileiro tinha inventado a chapa híbrida Jan-Jan, como que provocando a anarquia generalizada. Não deu outra. O imprevisível “homem da vassoura”, acometido de crises existenciais, ficou a ver fantasmas por toda parte, assustando-se com o peso da responsabilidade pela votação maciça, e deixou a nação entregue à sanha dos aproveitadores do momento. A confusão tomou corpo com a resistência dos militares à posse de Jango na mais alta investidura republicana, impedindo até mesmo que regressasse à pátria. Graças ao movimento da Legalidade liderado pelo cunhado e governador gaúcho Leonel Brizola, no entanto, foi possível a sua entrada no Brasil (via Montevidéu), chegando a Porto Alegre no dia 5 de setembro.

Eu cursava o 1º ano de Engenharia da UFRGS e tive as aulas suspensas por alguns dias, enquanto a balbúrdia corria solta em Porto Alegre e boatos fervilhavam por todos os cantos. Pairava no ar a ameaça de bombardeio ao Palácio Piratini, Brizola já se entrincheirava com bateria antiaérea na cobertura e armas distribuídas à população para que resistisse a possíveis ataques. Também era improvisado um estúdio nos porões palacianos, com o transmissor confiscado da Rádio Guaíba, para formar a chamada Rede da Legalidade.

Foi um tempo de come-bebe-dorme onde eu morava, a Pensão Familiar Ludwig na Rua Andrade Neves, imediações do famoso mata-borrão, construção de madeira da antiga Caixa Econômica Estadual, situado na esquina com a Avenida Borges de Medeiros. Ali  funcionava o centro de alistamento de voluntários para a Campanha da Legalidade, ao qual me dirigi acompanhando uma amiga que pretendia se inscrever no corpo de Enfermagem. Assim que concretizou seu intento, ela sugeriu que eu também aderisse. Desconversei, disse que tinha muita gente, que eu passava depois. Tirei o corpo fora.

Quando saímos do prédio, ficamos apreciando os exercícios de ordem unida que um sargentão reformado passava para um grupo de recrutas. “Em meu pelotão, não vou admitir nenhum covarde e ai daquele que der no pé, vai se haver comigo!”, dizia em altos brados para se fazer ouvir, sobrepondo-se ao som estridente do alto-falante que arremetia com o Hino Rio-grandense. Bancos fechados, peladura geral, nosso lazer consistia em subir a ladeira da General Câmara rumo à Praça da Matriz e misturarmo-nos ao povão que desafiava as bombas prometidas.


José Alberto de Souza


Publicado na Coluna Gente fronteiriça do jornal Fronteira Meridional em 23/04/2014

Cronica retirada do Livro Digital    O VELHO “CHATEAU” DAQUELES RAPAZES DE ANTIGAMENTE

segunda-feira, 21 de abril de 2014

A Santa Ceia e os 33

Los Treinta y Tres Orientales
Estréia no dia 23 de abril, as 20 horas na TVE do RS com sessão simultânea no Grande Hotel em Pelotas, a nova produção da Moviola filmes, Linha Imaginária, documentário sobre o universo da fronteira Brasil – Uruguay, com muitas imagens e entrevistas com pessoas feitas aqui em nossas comunidades. A Linha imaginária é um conceito expresso na obra do Aldyr Schlee, linha ilusória de separação entre esses mundos tão irmanados, com muitas semelhanças, mas também muitos contrastes e diferenças.

Uma dessas diferenças entre estes dois povos tem sido a relação do estado com a Igreja. O Uruguay historicamente desde sua formação, caracteriza-se pelo laicismo, a separação entre os assuntos da republica e a religião. Não é por acaso que a legislação uruguaya tem sido vanguarda na região, o país foi o primeiro a instituir a lei do divórcio em 1907 e ultimamente, com relação ao aborto e à descriminalização da maconha. Este perfil laico da Banda Oriental também se reflete nos feriados e na sua denominação e motivação. Do lado de lá temos a Batalla de Las Piedras, Jura a Constituição, Dia da Raça, Desembarque dos Treinta y Tres. Por aqui, temos Senhora dos Navegantes, Dia da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, Festas Juninas. No Brasil nós estamos na Semana Santa, nossos hermanos, na Semana do Turismo.

Há uma anedota que ilustra bem essa questão no imaginário popular. Uma senhora, dessas típicas moradoras do interior de Cerro Largo, encomenda um quadro da Santa Ceia e o coloca, flamante, exposto na parede da sala. Recebe a visita de um vizinho, don Damasio, que ao ver a nova aquisição exclama com assombro: “ Esa de Los 33 almorzando, yo no conocia!”

Uma das personalidades uruguaias que vem fazendo sucesso é o popular Presidente Mujica. Junto com Evo morales da Bolívia, Chavez e agora Maduro da Venezuela, os Kirchner na Argentina, Rafael Correia no Equador e Lula e Dilma no Brasil, formam um grupo de países que mantém uma certa política de independência em relação ao Império Americano, tão acostumado a exercer seu domínio na América Latina. Pois bem, dia destes ouvi uma das maiores asneiras de um repórter de rádio local, distorcendo declarações do Mujica, quando fez a seguinte pergunta a um conhecido comerciante que utiliza seu espaço publicitário mais para atacar o governo do PT do que para anunciar seus produtos: “ O que você acha da Copa? O grande Presidente Mujica disse que ofereceram a Copa ao Uruguay mas ele não aceitou!”. Hilário, para não dizer infeliz.

Falando em Copa, o ministro Aldo Rebelo, dos Esportes, disse que a percepção negativa da população em relação à Copa reflete uma campanha contra o governo encampada por setores da mídia. Deturpam-se informações e falseia-se a realidade, como se a Copa fosse um caos e tudo estivesse atrasado. É o que faz a Globo, com uma mão lucra, com a outra apedreja. Que a Copa vai dar lucros, está gerando milhares de empregos, vai deixar legados de várias obras de mobilidade e infraestrutura não há dúvidas. Porém , mais do que grana, o evento Copa tornará o Brasil cenário de um dos maiores espetáculos do esporte mundial com milhares de turistas vindo ao país, consumindo nossos produtos, fazendo turismo. A hora é de autoestima e não de derrotismo. Como disse o ex Presidente Lula em entrevista aos blogs na semana passada, não podemos transformar a vitória de ter conquistado a Copa e as Olimpíadas para o Brasil, em derrota.

No âmbito local, parece que a oposição alimenta-se do pasto. Bom Proveito.

Felizes Páscoas! Aleluia!


Jorge Passos

Publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Meridional em 16/04/2014


sexta-feira, 18 de abril de 2014

Onde estávamos em primeiro de abril de 1964?

Não há nada para comemorar, mas tudo para relembrar. Isto deve, ao menos, ser feito em respeito aos que foram expulsos do País, torturados ou mortos pela repressão. Aos que resistiram em nome da liberdade de todos nós, até mesmo daqueles que concordavam (e concordam) com os desmandos que se praticava.

O golpe de 64, que condenou o Brasil a uma longa noite de 21 anos, também impediu o surgimento de novas lideranças políticas que poderiam ter sido cultivadas nesse longo período de imposição de silêncios e de vozes apenas murmuradas. Até hoje o Brasil não se recuperou do atraso social e político imposto pela ditadura. As manifestações culturais, se não tivessem a chancela dos poderosos, através de seus sensores, eram simplesmente proibidas. Temos inúmeros exemplos em todos os setores das artes e da literatura.

De minhas memórias pessoais, tenho lembrança de alguns fatos que marcaram, de forma indelével, minha trajetória inicial aqui na cidade grande. Um deles é o de uma livraria sendo violada (Cabe o termo, eu acho!) em plena luz do dia. Em uma das vias mais centrais da Capital (Andrade Neves), alguns representantes dos donos da verdade jogavam pela janela para o leito da rua as obras que, na sua tacanhez, consideravam perigosas para os cidadãos comuns. Outro fato foi a invasão de uma casa modesta, vizinha a minha no bairro Glória, pelos brigadianos do antigo GOE. Naquela época, eles portavam capacetes vermelhos e espalhavam terror quando eram chamados para conter manifestações estudantis que ocorriam, geralmente, no campus central da UFRGS. Lembro, também, de uma insinuação autoritária emitida por um representante de uma multinacional do ramo de máquinas quando exercia um cargo público no qual iria, mais tarde, aposentar-me. Ao "flagrar-me" tecendo uma crítica à ação das malfadadas multinacionais que pululavam pelo País, ele me encarou de maneira autoritária, dizendo-me: "Cuidado que podes perder o teu emprego"...Isso que ele não era o "guarda da esquina" e não vestia nenhum tipo de farda!

Na noite de primeiro de abril de 1964, ainda em Jaguarão, eu estava entrando em aula quando fui alertado por um colega de trabalho que nosso chefe (Agrônomo Regional de Jaguarão naquela época, hoje falecido) havia sido preso e encontrava-se detido na Enfermaria, transformada em local de interrogatórios de "subversivos", sob a coordenação do temido DOPS (famoso por seus métodos de tortura). A acusação era a de que ele se relacionava com um orizicultor que seria comunista. Aquela pessoa, realmente, costumava visitar-nos no escritório e dele, muitas vezes, ouvi afirmativas nacionalistas em longas análises políticas e econômicas que costumava fazer entre a fumaceira de um cigarro e outro. Após um rápido raciocínio e, por medida preventiva, saí do colégio e corri ao meu local de trabalho em busca de algum livro que pudesse despertar a ira dos inquisidores de plantão na cidade. De fato, entre os meus preferidos que lá estavam, encontrava-se uma importante obra de um conhecido autor nacionalista - Gondin da Fonseca - que alertava para os interesses econômicos estrangeiros que rondavam nosso País. Hoje, aquele livro, já esgotado, não se encontra na minha modesta biblioteca, infelizmente. Não lembro o que fiz dele. Certamente não teve o mesmo fim que dei a algumas revistas chinesas em Esperanto (El Popola Cinio) cuja assinatura vinha através da Itália por motivos óbvios.

O golpe de 64, portanto, encontrou-me, no vigor dos meus dezenove anos, atuando em várias entidades em Jaguarão: Círculo Operário, Aeroclube, Interact, entre outras. Na área estudantil, se não me falha a memória, ocupava o cargo de Secretário do Ensino Comercial na União Jaguarense dos Estudantes Secundaristas na qual, mais tarde, ocuparia a presidência.

Em Porto Alegre, aonde cheguei em dezembro de 1965, a minha atividade cultural foi dirigida ao cineclubismo, no qual fiz parte das Diretorias do Cineclube Pro Deo, da Federação Gaúcha e do Conselho Nacional. Naqueles anos, tínhamos dificuldade em exibir alguns filmes considerados "subversivos". Às vezes, as sessões começavam sem que se soubesse se seriam interrompidas ou não.

Inicialmente, na minha vida profissional era comum a realização de trabalhos à noite. Como a sede da Sudesul estava localizada na Rua da Praia muitas vezes éramos envolvidos em alguma correria com a Polícia querendo experimentar a resistência da madeira contra a carne humana.

O movimento liderado por militares contou com o apoio de lideranças políticas civis reconhecidas por suas posições direitistas. A Igreja e a mídia foram, também, esteio importante para os golpistas. A imprensa, naquele período, nem mencionava - como hoje faz - a palavra "golpe" quanto mais insinuar qualquer coisa que desabonasse os generais de então. Acrescente-se a isso o apoio institucional dos Estados Unidos que, aliás, tem larga experiência em golpes, graças a sua participação nos que ocorreram não só na América Latina como em tantos outros países.

Mesmo depois do sacrifício de pessoas que perderam suas próprias vidas para que o País fosse melhor para todos, as reformas de base tão necessárias não se concretizaram. Só elas poderão conduzir o Brasil ao completo desenvolvimento. São condição indispensável para atingirmos a igualdade própria de um País plenamente democrático. Em alguns aspectos, talvez estejamos na Idade Média. Na distribuição de renda, por exemplo, ainda somos medievais: um dia do maior salário (Ministro do STF) equivale a 60 dias do menor salário (operário sem qualificação). Isto sem apontar outras vantagens que estes não têm. Não há como justificar tamanha desigualdade.

Se somos um país pobre, todos devem pagar por isso; se somos um país rico, todos temos direito de beneficiarmo-nos dessa riqueza. Sem diferenças amazônicas.


Wenceslau Gonçalves
wenceslaugoncalves.blogspot.com.br

Publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 09/04/2014


quarta-feira, 16 de abril de 2014

Brasil, Argentina e o Cone Sul

José Luis Fiori

Pela primeira vez, países que comandaram, em rivalidade, desenvolvimento da América do Sul, aliaram-se. Com qual sentido? Enfrentando que oposição de Washington?

A extensão da bacia hidrográfica Rio do Prata, e a imensa fertilidade de suas terras, explicam, em boa medida, a importância estratégica do Cone Sul, dentro do sistema internacional. A Bacia do Prata, constitui uma região geoeconômica plana, contínua e relativamente homogênea, que atravessa fronteiras e integra partes importantes dos territórios argentino, uruguaio, paraguaio e boliviano, e do próprio território brasileiro, banhado pelo Rio Paraná, e pelos seus afluentes, Paranaíba, Grande, Tietê e Paranapanema. Essa região de enorme potencial econômico, foi transformada num só tabuleiro geopolítico, pelas “guerras de independência”, e pelas “guerras platinas”, que se sucederam até a segunda metade do século XIX, culminado com a Guerra do Paraguai, que marca o início da competição secular entre a Argentina e o Brasil, pelo controle do Cone Sul. Um século, exatamente, em que a Argentina se transformou no primeiro grande “milagre econômico” da América do Sul, entre 1870 e 1940; e em que o Brasil se transformou no segundo grande “milagre econômico” do continente, entre 1937 e 1980, completando ao final, mais de cem anos de alto crescimento contínuo, dentro de uma mesma região, algo absolutamente incomum na história do desenvolvimento capitalista.

O take off do “milagre econômico” argentino ocorreu logo depois da Guerra do Paraguai, e da unificação definitiva do estado argentino, na década de 1860. Obedeceu a uma estratégia geopolítica claramente expansiva e de disputa pela hegemonia do Cone Sul, com o Brasil e o Chile. Essa estratégica orientou, desde o início, as guerras argentinas de conquista territorial do oeste e do sul, assim como seu desenvolvimento econômico e sua aliança quase incondicional com a Inglaterra. Entre 1870 em 1930, a economia argentina cresceu a uma taxa média anual de cerca de 6%, e no início do século XX, a Argentina havia se transformado no país mais rico do continente sul-americano, e na sexta ou sétima economia mais rica do mundo, com uma renda per capita que era quatro vezes maior que a dos brasileiros, e quase o dobro da dos norte-americanos, naquele momento. Nessa hora, a Argentina teve todas as condições para se transformar na potência hegemônica da América do Sul, e numa importante potência econômica mundial.

Mas não foi isto que aconteceu, depois de 1940, quando a Argentina entrou num longo processo entrópico de divisão social, e crise política crônica, ao não conseguir se unir em torno de uma nova estratégia adequada ao contexto geopolítico e econômico criado pelo fim da II Grande Guerra, pelo declínio da Inglaterra e pela nova supremacia mundial dos Estados Unidos. Como se fosse uma sequência ou consequência quase direta dessa desaceleração argentina, o Brasil viveu o seu próprio “milagre econômico” – entre 1937 e 1980 – orientado por uma estratégia igual e contrária, de resposta e superação do desafio argentino, através de uma política de rearmamento das Forças Armadas e de desenvolvimento e industrialização da economia brasileira. Essas ideias foram elaboradas e amadurecidas durante as duas primeiras décadas do século XX, mas só foram implementadas de forma sistemática e consistente a partir da década de 30, quando a economia brasileira cresceu à uma taxa media anual de 7%, ultrapassando a Argentina e transformando-se na principal economia da América do Sul.

Mas esse quadro favorável e de crescimento contínuo foi alterado pela crise econômica e pelas mudanças geopolíticas da década de 70, quando o governo brasileiro foi obrigado a redefinir sua estratégia de inserção internacional, e sua própria política de desenvolvimento econômico. Foi nesse momento que governo militar do general Geisel propôs a transformação do Brasil numa “potência intermediária”, e num “capitalismo de estado”. Mas esse projeto dos militares brasileiros foi atropelada pela politica externa, pela politica econômica internacional dos Estados Unidos e pela oposição de uma parte das elites que haviam apoiado o regime militar.

Nessa história, o importante é entender que os “milagres econômicos” da Argentina e do Brasil, nos séculos XIX e XX, foram orientados por duas estratégias opostas de competição econômica e militar, pela hegemonia do Cone Sul. Essas estratégias foram formuladas internamente, mas acabaram sendo estimuladas e instrumentalizadas pela Inglaterra e pelos EUA, como forma de equilibrar as forças e neutralizar o poder expansivo do próprio Cone Sul. Desse ponto de vista, o novo projeto do Brasil e da Argentina — a construção de uma “zona de co-prosperidade” e de um bloco de poder sul-americano — é, de fato, uma revolução, na história do Cone Sul. Mas trata-se de uma estratégia que só poderá ter sucesso no longo prazo, e que enfrentará uma oposição externa e interna, ferrenha e permanente, dos EUA e dos partidários locais do “cosmopolitismo de mercado”. Nesse ponto não há como enganar-se: todo e qualquer sucesso dessa nova aliança, e dessa nova política do Brasil e da Argentina, será sempre considerado como uma “linha vermelha”, para os interesses dos EUA e de sua rede de apoios dentro continente, defensora da submissão estratégica e econômica da América do Sul à politica internacional dos Estados Unidos.


Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 02/04/2014


A Linha Imaginária – Documentário da Moviola sobre a Fronteira será lançado na TVE RS


Lançamento do novo filme da Moviola – A Linha Imaginária – ocorrerá no dia 23 de abril, quarta-feira, às 20h, na TVE RS (canal 7 – TV aberta) para todo o Estado do Rio Grande do Sul. A Linha Imaginária, novo documentário da produtora Moviola sobre a fronteira Brasil-Uruguai. Gravado em 2013 nas cidades de Aceguá, Chuí, Santana do Livramento e Jaguarão e financiado pelo Procultura-RS o média-metragem de 26 minutos aborda o universo cultural do território fronteiriço. Em Pelotas, haverá simultaneamente uma sessão do filme no Grande Hotel, com entrada franca.  



Fonte: http://www.ecult.com.br

sexta-feira, 4 de abril de 2014

A ARTE, O TEMPO E O PRODUTOR CULTURAL

Benedetto Croce


Com data de 1º de janeiro de 1913 Benedetto Croce assina um manuscrito que enviaria por correio à universidade de Houston, Texas, contendo o seu Breviário sobre estética. Completavam o volume quatro lições sobre o tema. Na primeira delas, sob o título de “O que é arte?”, afirma o autor italiano que a resposta para tal pergunta poderia ser dada em forma de piada, já que, segundo ele, “a arte é aquilo que todos sabem o que é”, pois considera que se não tivéssemos alguma informação a respeito, tampouco a pergunta poderia ser feita (CROCE, 1938).

Um livro que começa desse modo, creio eu, promete-nos ser como um diálogo entre amigos, caloroso, vivificante e de grande proveito. Há nele esse ar de conhecimento humanista e otimismo esperançoso e romântico, tão em voga entre os escritores europeus de seu tempo, quando o mundo ainda conservava certa saúde mental e alguma decência nos costumes.

O fascismo e as duas Guerras Mundiais mudariam esse ambiente burguês de cultura afrancesada e tudo começaria a desmoronar aos poucos. Em tal cenário, também as artes se ressentiriam, cedendo o espaço a movimentos da contracultura ou experimentais, como o cubismo (1912), o dadaísmo (1916), o surrealismo e a música dodecafônica (1921).

O novo século XX, da modernidade risonha, que vira surgir Charles Chaplin com seus filmes de profundo humanismo e humor reflexivo, que acreditava (ela, a modernidade, não Charlot) na ortodoxia positivista de uma civilização industrializada em constante progresso, e de capitalismo em expansão, que o próprio Chaplin retrataria com grande agudeza e hilaridade em “Tempos modernos” (1936), daria passo em breve a uma humanidade estressada, neurótica e individualista.

Reflexão oportuna a de Ernst Cassirer (2005), quem nos diz que a arte é uma intensificação da realidade, enquanto que a linguagem e a ciência são uma abreviação da mesma. Nesse sentido, a “intensificação” da realidade que hoje nos acolhe pode dar-se numa vertigem psicodélica de cores e formas abstratas ou sons repetitivos e com efeito hipnótico: as primeiras como se fossem frutos de uma psicografia, e estes na forma de um produto enlatado, maquiado, equalizado e acrescido de efeitos mnemotécnicos e insuflados com uma grande dose de narcisismo, explícito ou subliminal.

O nosso tempo também poderia ser descrito como uma metáfora do mito bíblico da torre de Babel: as línguas nele se confundem, as culturas se misturam, os povos migram ou fogem da seca, da fome, do desemprego ou das guerras. Mas, outrossim, a globalização nos permite comer numa tigela chinesa um sushi japonês ou uns capeletti da Sardenha, bebendo um vinho chileno ou uma cerveja dinamarquesa, enquanto paqueramos um tablet recém comprado num shopping center ou na loja da esquina.

A internet nos apresenta todos os temas da cultura do mundo, em todas as línguas, ainda que persista um dos grandes paradoxos desta contemporaneidade: a mecanização, que nos prometia economizar tempo, veio com a sua data de validade vencida, ou lemos mal o manual: o relógio parece-nos andar muito depressa, e “ele”, o tempo, enquanto enigma metafísico, figura da linguagem, axioma einsteniano ou kuan do zen budismo, se relativiza, negativamente, encurtando-se.

Fazemos tudo às pressas, e ainda assim, a fruição da vida nos deixa com o apetite a meio resolver e, pior ainda, quanto mais pressa temos, nossa existência mais fugaz nos parece. Como um polster geist incorpóreo, o tempo continua a debochar de nós e de toda a nossa cultura científica e tecnológica, na qual parecemos estar cada dia mais atrapados, como num beco sem saída.

Há maior necessidade de informação e se nos exige uma mais completa ou específica formação profissional, a procura de um emprego melhor, ou simplesmente de um emprego qualquer que nos pague o pão e o teto. As pessoas viraram escravos dessa agoniada pressa mecânica e psicológica, e o destino da maioria se resumirá apenas a envelhecer encalhados no trânsito poluído das grandes metrópoles, no instante mais inoportuno, morrendo vítimas de estresse crônico, e crendo ter visto, ou anelando ter visto tudo e muito mais, numa bulimia de experiências e sensações que jamais foram plenamente compreendidas e satisfeitas.

Entre somas e restas, o que nos justifica e estimula, como futuros produtores culturais, é a terra prometida de uma demanda in crescendo, a incubar-se na sociedade, e que nos veria surgir ao cenário profissional como Hermes, o dos pés leves, arauto dos deuses, impelidos por promessas sedutoras, que tomara não nos reservem a sorte sofrida pelos argonautas comandados por Ulisses, nos mares tumultuosos dos quais as sereias talvez já foram expulsadas, ou cumprem humilhante servidão sob o báculo dos grandes tubarões das altas finanças, esses que, com olhar esbugalhado e concupiscente, vêem na cultura e no trabalho das musas algo assim como graciosas vestais, devotadas e sinceras, mas destinadas às vitrines da zona vermelha de Amsterdã.

A profissão de produtor cultural que, como a bela Afrodite, é recém surgida da espuma, sorri quase em êxtase, ilusionada com tantas esperanças e expectativas. Contudo, é bom sempre considerarmos que também este é o tempo da modernidade líquida de Bauman, a era do vazio de Lipovetsky, a dos polsters geist e o desmoronamento do walfare state. Este nosso tempo, viu Sun-Tzu ser ressuscitado para dirigir empresas como se fossem exércitos, e pode presenciar sem assombro que vestais e garotas de programa se misturem num night clube de Amsterdã, São Paulo ou Buenos Aires, para beber juntas um daikiri ou uma vodca aditivada.

O sol brilha mais forte neste fim da Era de Peixes —o buraco na camada de ozônio que o diga!—, por isso é bom não nos iludirmos durante o via crucis que nos espera para enfrentar o longo asfalto. Durante a incerta travessia pelo deserto da pós-modernidade, melhor será olharmos as nuvens à procura de água, e desconfiar sempre do sedutor brilho nas dunas que poderia nos enceguecer.

O grande paradoxo persiste. O enigma da esfinge dar-se-á entre o mundo da abundância sem tempo e o do tempo sem nada a nos oferecer. A grande luta continua sendo entre o ser e a nada, não entre o ter e a nada. Só assim transcenderemos a escravidão ao tempo, para que a abundância e o tempo sejam iguais e justos para todos, quando poderemos multiplicar —isto é, repartir e usufruir, sem pressa— o tempo, os pães e os peixes.
Dario Garcia
Acadêmico Unipampa 

Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 26/03/2014