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sábado, 21 de maio de 2011

Língua e Ignorância

Nas duas últimas semanas, o Brasil acompanhou uma discussão a respeito do livro didático Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, distribuída pelo Programa Nacional do Livro Didático do MEC. Diante de posicionamentos virulentos externados na mídia, alguns até histéricos, a ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LINGUÍSTICA - ABRALIN - vê a necessidade de vir a público manifestar-se a respeito, no sentido de endossar o posicionamento dos linguistas, pouco ouvidos até o momento.

Curiosamente é de se estranhar esse procedimento, uma vez que seria de se esperar que estes fossem os primeiros a serem consultados em virtude da sua expertise. Para além disso, ainda, foram muito mal interpretados e mal lidos.
O fato que inicialmente chama a atenção foi que os críticos não tiveram sequer o cuidado de analisar o livro em questão mais atentamente. As críticas se pautaram sempre nas cinco ou seis linhas largamente citadas. Vale notar que o livro acata orientações dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) em relação à concepção de língua/linguagem, orientações que já estão em andamento há mais de uma década. Além disso, não somente este, mas outros livros didáticos englobam a discussão da variação linguística com o intuito de ressaltar o papel e a importância da norma culta no mundo letrado.

Portanto, em nenhum momento houve ou há a defesa de que a norma culta não deva ser ensinada. Ao contrário, entende-se que esse é o papel da escola, garantir o domínio da norma culta para o acesso efetivo aos bens culturais, ou seja, garantir o pleno exercício da cidadania. Esta é a única razão que justifica a existência de uma disciplina que ensine língua portuguesa a falantes nativos de português. 

A linguística se constituiu como ciência há mais de um século. Como qualquer outra ciência, não trabalha com a dicotomia certo/errado. Independentemente da inegável repercussão política que isso possa ter, esse é o posicionamento científico. Esse trabalho investigativo permitiu aos linguistas elaborar outras constatações que constituem hoje material essencial para a descrição e explicação de qualquer língua humana.

Uma dessas constatações é o fato de que as línguas mudam no tempo, independentemente do nível de letramento de seus falantes, do avanço econômico e tecnológico de seu povo, do poder mais ou menos repressivo das Instituições. As línguas mudam. Isso não significa que ficam melhores ou piores. Elas simplesmente mudam.
Formas linguísticas podem perder ou ganhar prestígio, podem desaparecer, novas formas podem ser criadas. Isso sempre foi assim. Podemos ressaltar que muitos dos usos hoje tão cultuados pelos puristas originaram-se do modo de falar de uma forma alegadamente inferior do Latim: exemplificando, as formas “noscum” e “voscum”, estigmatizadas por volta do século III, por fazerem parte do chamado “latim vulgar”, originaram respectivamente as formas “conosco” e “convosco”.

Outra constatação que merece destaque é o fato de que as línguas variam num mesmo tempo, ou seja, qualquer língua (qualquer uma!) apresenta variedades que são deflagradas por fatores já bastante estudados, como as diferenças geográficas, sociais,etárias, dentre muitas outras. Por manter um posicionamento científico, a linguística não faz juízos de valor acerca dessas variedades, simplesmente as descreve. No entanto, os linguistas, pela sua experiência como cidadãos, sabem e divulgam isso amplamente, já desde o final da década de sessenta do século passado, que essas variedades podem ter maior ou menor prestígio. O prestígio das formas linguísticas está sempre relacionado ao prestígio que têm seus falantes nos diferentes estratos sociais. Por esse motivo, sabe-se que o desconhecimento da norma de prestígio, ou norma culta, pode limitar a ascensão social. Essa constatação fundamenta o posicionamento da linguística sobre o ensino da língua materna.

Independentemente da questão didático-pedagógica, a linguística demonstra que não há nenhum caos linguístico (há sempre regras reguladoras desses usos), que nenhuma língua já foi ou pode ser “corrompida” ou “assassinada”, que nenhuma língua fica ameaçada quando faz empréstimos, etc. Independentemente da variedade que usa, qualquer falante fala segundo regras gramaticais estritas (a ampliação da noção de gramática também foi uma conquista científica). Os falantes do português brasileiro podem fazer o plural de “o livro” de duas maneiras: uma formal: os livros; outra informal: os livro. Mas certamente nunca se ouviu ninguém dizer “o livros”. Assim também, de modo bastante generalizado, não se pronuncia mais o “r” final de verbos no infinitivo, mas não se deixa de pronunciar (não de forma generalizada, pelo menos) o “r” final de substantivos. Qualquer falante, culto ou não, pode dizer (e diz) “vou comprá” para “comprar”, mas apenas algumas variedades diriam 'dô' para 'dor'. Estas últimas são estigmatizadas socialmente, porque remetem a falantes de baixa extração social ou de pouca escolaridade. No entanto, a variação da supressão do final do infinitivo é bastante corriqueira e não marcada socialmente. Demonstra-se, assim, que falamos obedecendo a regras. A escola precisa estar atenta a esse fato, porque precisa ensinar que, apesar de falarmos “vou comprá” precisamos escrever “vou comprar”. E a linguística ao descrever esses fenômenos ajuda a entender melhor o funcionamento das línguas o que deve repercutir no processo de ensino.
Por outro lado, entendemos que o ensino de língua materna não tem sido bem sucedido, mas isso não se deve às questões apontadas. Esse é um tópico que demandaria uma outra discussão muito mais profunda, que não cabe aqui.
Por fim, é importante esclarecer que o uso de formas linguísticas de menor prestígio não é indício de ignorância ou de qualquer outro atributo que queiramos impingir aos que falam desse ou daquele modo. A ignorância não está ligada às formas de falar ou ao nível de letramento. Aliás, pudemos comprovar isso por meio desse debate que se instaurou em relação ao ensino de língua e à variedade linguística.

Maria José Foltran 
Presidente da Abralin


Capítulo do livro didático que gerou a polêmica: Clique aqui para ler

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Língua. Rio que não pode ser represado

Foto Araquem Alcântara


“A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil”     
( Manuel Bandeira)



Reproduzimos resposta do Prof. Dr. Clecio dos Santos Bunzen Júnior à Procuradora Janice Ascari.


Cara Procuradora da República, 

Como professor adjunto de uma universidade pública, sinto-me “chocado”. O meu “choque” (diferente do seu) não é com a proposta didática da coleção “Viver, Aprender”, mas com a postura da mídia e de seus interlocutores. Ao ler a notícia sobre uma possível ação no Ministério Público, fiquei pensando como vocês não conhecem as discussões sobre ensino de língua, materiais didáticos e, especialmente, de Educação de Jovens e Adultos. 
A coleção em discussão não apresenta novidade, uma vez que os livros didáticos de ensino fundamental I, II e Médio já apresentam tal discussão desde o final dos anos 70. A grande novidade (talvez!) é apresentar tal questão sobre a língua para jovens e adultos. Então, qual seria o problema? A ação no Ministério Público será contra todas as coleções didáticas e gramáticas pedagógicas que mostram que a língua não é estática? Se tais coleções fazem tal proposta é porque há uma discussão no Brasil, legitimada pela academia e pelos documentos oficiais. A falta de conhecimento sobre ensino de língua materna, sobre os Referenciais Curriculares da EJA e sobre os critérios de avaliação mostra que a ação no Ministério tende a fracassar. Qual é o argumento? Que o livro didático (“a”, “b”, “c”, “n”) ensina o aluno a falar errado? Se for, há vários equívocos: (1) o livro não ensina ninguém a falar, mas promove atividades que façam o falante refletir sobre sua língua; (2) não é apenas essa coleção que faz tal trabalho com a variação linguística; (3) tal coleção se baseia em discussões teóricas no campo da Sociolinguistica, da Linguistica Aplicada, da Sociologia da Educação, etc. Como a autora da coleção falou, ela não estava ensinando a escrita formal e pública, mas estava discutindo sobre diferentes formas de “falar” e sua adequação a uma situação específica. Tal questão já foi discutida em outros países, por isso ela não é “recente”. Talvez, o que é recente é saber que as pessoas sabem pouco sobre Educação de Jovens e Adultos. Então, como discutir a proposta do livro em análise sem pensar que os cursos de licenciatura no Brasil não discutem o ensino de EJA.
Acho que há vários problemas na EJA que poderiam ser alvo de discussão e de políticas públicas, mas a discussão parece-me que é outra: vocês atacam o atual Ministro da  Educação, o PT, o ex-presidente através da autora do livro didático. Parece-me um bom momento para discutirmos o ensino de língua no Brasil, mas, repito, tal discussão não é nova. 
Enfim, acho completamente impossível defender uma ação no Ministério Público sem conhecimento sobre os direitos universais linguísticos, as propostas de ensino de língua no Brasil desde os anos 70, as outras coleções de livros didáticos de ensino de língua materna, sobre os critérios de avaliação do PNLA, etc. 
A autora do livro didático está sendo acusada de uma questão que não é pessoal (por isso, não é um erro), mas uma posição política e pedagógica que defendemos em várias obras, discussões, cursos de formação, avaliação de materiais didáticos, etc. Por tal razão, não é um crime. Se fosse um crime, teríamos que prender muitas pessoas. Quando começará a caça às bruxas? No entanto, antes de afirmarmos que tal ação pedagógica é um “crime”, sugiro definir que tipo de “crime” com base nas discussões sobre política linguística. O total desconhecimento dessa política nos faz afirmar informações (na mídia, nos blogs) que deixam muitos professores, pesquisadores e interessados no ensino de língua literalmente “chocados”. 


Prof. Dr. Clecio dos Santos Bunzen Júnior 

Mestre e Doutor em Linguistica Aplicada pela Unicamp
Professor da Universidade Federal de São Paulo 

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