quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Calmaria

Fotografia Araquém Alcântara


Vejo as luzes do navio, não sei se é cedo ou tarde, ainda não dormi.

De certo modo tenho ciúme dele, pelo fato de que tem um porto aonde chegar.

Olho pra ele: claridade em meio à escuridão; presença no vazio; imponência na simplicidade; Gigante que rasga o céu de Poseidon, mas que se obriga a ser guiado por um simples rebocador.

Algo me atormenta e não é a tormenta que se anuncia. Os clarões dos raios se confundem com os lampejos de lembranças...

O mar me parece doce, se comparado com o gosto das lágrimas que derramei... na verdade, ainda derramo.

E junto delas vem uma tormenta pior do que as do alto mar... a tempestade que um coração inquieto provoca... e eu, um nau à deriva, tenho ciúmes de um barco, só porque ele tem um porto para lhe fazer abrigo.

Um porto que espera por barcos, por outros barcos talvez... não sei dizer.

Ainda espero que venha a calmaria.

Jorge Araújo Azambuja
(Rio Grande,19/12/2012)
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