
O microfone era
colocado em um pedestal no centro do estúdio e os speakers atuavam de pé, ao
redor, sem que houvesse mesa nem cadeira. A turma queria porque queria meus
comentários em viva-voz e, então, passei a receber fichas de reclames para
desencabular de vez. Eu já vinha fazendo algumas intervenções. “O que você
recomenda, Abel Kaur, para entorses e luxações?” A resposta vinha no capricho:
“Ge-lol-lol!” Gaita era goal-keeper de segundo team, lutador e acrobata. Logo
que eu dizia algo na “latinha”, ele se punha plantar bananeira, o que me
obrigava a conter o riso, desesperadamente. Numa dessas, eu lia um reclame de
creme dental e veio a dúvida em pleno ar: “Não esqueçam: para um sorriso
bonito, não deixem de usar o creme dentri... dentri... dentri...” Ainda bem que
Cláudio me socorreu: “Perdão, caros ouvintes, quebrou o disco! Não deixem de
usar o creme dentifrício...”
Retornei a Jaguarão em
1959 e acabei aceitando convite do primo Anysio para assumir a gerência de A
Folha. Pau para toda obra. Redator, diagramador, tipógrafo, cobrador,
relações-públicas, tudo comigo. Eu já me preparava, em Porto Alegre, para o
vestibular de Engenharia na UFRGS e tive de planejar as coisas da melhor forma
possível. Outra vez como correspondente da Folha da Tarde, a Caldas Jr. até
pediu que eu lançasse em Jaguarão o concurso da Mais Bela Gaúcha. A rotina foi
estabelecida e chamei o amigo Flávio Brum para os comentários dos jogos,
assinados simplesmente como “Flávio”, pedindo que eu não revelasse a sua
identidade – ninguém mesmo se dava conta. Ele chegou a comentar uma partida em
que atuara como half esquerdo no Navegante F.C., valendo-se de sua prodigiosa
memória! Quem fazia o programa de esportes da emissora eram o Jara Nunes como
narrador e o Paulinho Azevedo na reportagem de campo, que andavam cabreiros
sobre quem era o tal Flávio do jornal, mas eu vinha com a desculpa de “arma
secreta”.
Jara era o dono do
pedaço e me pediu para colaborar com perguntas nas entrevistas de sua mesa
redonda (a emissora já contava com móveis). Paulinho fazia os comerciais,
enquanto Jara e eu conversávamos com o convidado. Certo dia, fiquei sozinho com
todas as tarefas, encarregado de entrevistar o jogador Pedro Brechane, vulgo
“Pedrinho Cachorro” do Esporte Clube Cruzeiro do Sul. De cara, recomendei que
ele ficasse o mais à vontade possível, que o bate-papo ficaria “só entre nós e
o povo”. Estourei o horário da programação, em vingança contra os ausentes.
José
Alberto de Souza
Publicado na Coluna Gente fronteiriça do jornal Fronteira Meridional em 15/01/2014
Cronica retirada do Livro Digital O VELHO “CHATEAU” DAQUELES RAPAZES DE ANTIGAMENTE