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sábado, 21 de março de 2015

Alguns são todos, ou todos são alguns?

Trabalhar com a lógica as vezes nos traz algumas informações bem legais. Num conjunto de 15 cães, 3 são ferozes e maldosos (faz de conta que um cão tem esta característica). Posso dizer que todo o conjunto é feroz e maldoso? Não, seria uma sacanagem com os 12, que inclusive são maioria. E se dizer que todos não são ferozes e maldosos? Também seria sacanagem com os demais de fora, além de acobertar os ferozes e maldosos. A lógica é clara (e usamos em vários conhecimentos, muito comum na matemática). "Alguns não são todos, e todos não são alguns". Quando damos aulas aos alunos do Ensino Fundamental e Médio, é comum, às vezes, colegas comentarem sobre determinada turma, em função de alguns alunos "bagunceiros". Tipo, "aquela turma não dá pra trabalhar", "é horrível". Pronto, transformamos o "alguns no todo". E isto é ruim pra quem? Para aquela maioria que não era "horrível" como se propagava com este discurso, mas pagava o pato. 
O objetivo aqui não é tratar de como os professores devem agir numa situação destas, mas demonstrar como, por falta de uma compreensão elementar de lógica, sacaneia-se muitas pessoas de bem. O senso comum, apesar de ser por onde devemos começar uma análise, é provido de vários preconceitos (conceitos prévios, não provados, portanto não verdadeiros). E também por operações lógicas desatentas. Uma delas é justamente esta: Confundir Alguns com Todos, e Todos com alguns.

Hoje, e de muitos anos, pois já abordava isto lá pelos idos de 1989, no campo da política, há grupos de pessoas alicerçadas por grupos de Mídia (TV, Rádio, Jornal), que alimentam esta terrível argumentação totalmente desprovida de lógica. Vejamos: quando algumas pessoas (políticos) se corrompem, e como é possível corromper individualmente, não há necessidade do todo, no caso os partidos. Estes apenas tem suas Comissões de Ética para tratar do assunto e suas propostas e bandeiras, que é onde as pessoas poderiam e deveriam estabelecer os debates, defendendo ou combatendo (ideias) de um lado ou outro.
Assim, se uma agremiação tiver milhares de membros, e 5 ou 8 forem corrompidos ou corruptores, eu posso dizer que "Alguns são todos". Da mesma forma não. Assim, apenas estaremos sacaneando os corretos, e ainda ajudando os corruptos a se esconderem no meio de todos. Por isso não gosto destas generalizações, que a própria lógica demonstra, não resolvem o problema. Neste caso, teríamos que verificar onde estão as situações mais propícias para a corrupção. Uma delas está bem clara. Financiamento privado por grandes grupos econômicos a candidatos, que eleitos, estão sujeitos a defenderem os interesses destes grupos (até aí, ainda não se configura exatamente a corrupção, mas a opção de lado). Mas em determinado momento em que estas empresas tem interesses em licitações por exemplo, aí sim, percebemos como funciona o causo. E uma vez investigados nomes que, por ventura, possam estar envolvidos, e uma vez comprovados, será que podemos concluir que "Todos são Alguns". 
Esta noção do senso comum, muito apreciada e difundida justamente por grupos econômicos que operam com a corrupção, ajuda em muito a manter os corruptos quase a salvo, no meio de todo o conjunto. Enquanto não aprendermos a dar nome aos bois, de todos os lados, e evitar generalizar para todo o conjunto, também se estará ajudando os corruptos. O importante na política é debater os projetos, sem preconceitos ou lógicas falsas. Defender isto ou combater isto, por conta disso e disso. Pressionar o governo tal para encaminhar tal projeto. De outra forma, ajudar-se-á a manter a situação como está. Em muitas manifestações pairou o senso comum principalmente através da Rede Globo, já que a Reforma Política praticamente não foi apresentada como tema fundamental, porém a ideia de que "Alguns são todos", sim, é o que mais percebi, e pior, de um lado só. Além da falsa lógica que ajuda a corrupção, ainda tem a parcialidade. 


Carlos José  de A. Machado
 
Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 18/03/2015 
 

AS “JUSTIÇAS” BRASILEIRAS


Que o Brasil é um país politicamente singular nenhum brasileiro tem dúvida. O que pode variar é a maneira como cada um argumenta para concordar com a afirmativa. Há justificativas para todos os gostos, desde a extrema esquerda até a extrema direita. Neste último caso estamos procurando quem assuma essa condição, embora se saiba que seus adeptos são numerosos. Ninguém quer ser direitista, no Brasil.

Quis iniciar com a afirmativa acima para justificar que também reconheço a existência de peculiaridades “inexplicáveis” em todos os campos do relacionamento da comunidade com as lideranças responsáveis pela condução do País e, mais importante ainda, daqueles organismos que têm o compromisso de servir de elo de ligação confiável entre governo e sociedade, mais comumente designada como “mídia” (aportuguesando), seja ela falada, escrita ou televisionada e todas demais que tenham a faculdade de lidar, diretamente ou indiretamente, com as questões de opinião pública.

Grosso modo poderia dizer-se que temos “três justiças” no Brasil, todas elas com suas causas e consequências inerentes à responsabilidade com que cada uma é aplicada ou faz produzir seus efeitos. A primeira, lógico, é a “justiça oficial” que, definida pela nossa Constituição é exercida através de seus inúmeros organismos estatais, obedecendo às regras estabelecidas em lei. De um  modo geral funciona razoavelmente bem não fora reconhecidamente lerda. Como toda iniciativa humana, comete suas falhas. Sobre ela, assim se referiu nosso mais ilustre sábio, Ruy Barbosa: “Justiça que tarda não é justiça”. Isso, talvez, tivesse servido para a época em que foi feita a declaração. É uma discussão para outro espaço.

A segunda justiça é a da sociedade. Levados, às vezes, pelos mais estranhos motivos, os cidadãos, geralmente reunidos em um grupo ocasional, tomam a deliberação de decretar que determinada pessoa é culpada de um crime baseados apenas em pequenos indícios mesmo sem qualquer comprovação concreta. É o tipo de justiça que nos transforma em seres incapacitados de pensar racionalmente e pode ocasionar, inclusive, a prática da pena capital – até de forma bárbara -, como ocorreu recentemente (No Estado do Paraná, se não me falha a memória) e ocasionou a morte de uma pessoa por espancamento sob suspeita de um crime que, depois, foi concluído que não havia de fato cometido.

A terceira justiça é a praticada pela mídia. Embora não venha implicar uma pena capital em sua ação, é a mais devastadora delas pelo número de pessoas que pode atingir com uma simples citação. Tão logo um crime é trazido ao conhecimento da opinião pública pelos responsáveis pela investigação, mesmo que ainda não exista qualquer decisão judicial os nossos comunicadores já escolhem a “quem” culpar. A partir daí já podem começar a atribuir uma infinidade de irregularidades que passam a manchetear em caixa alta em jornais ou até em especiais de TV. Se o denunciado é uma personalidade no meio político as suas mazelas passam a dominar o noticiário e os principais âncoras fazem citações quotidianas sob qualquer pretexto, reforçando sua “condenação”. Alguém poderia perguntar: “Mas, e se o denunciado for absolvido em todas as instâncias?”. A resposta vem da forma mais sem compromisso possível: “Bem, ele não é culpado, mas poderia ser, não é? Desculpem a nossa falha...”

Só para não deixar a afirmativa sem ao menos algum exemplo, basta rememorarmos casos que tiveram grande repercussão entre os muitos que já ocorreram nos mais diversos meios de comunicação. Quem não lembra dos episódios “Ministro Alceni Guerra”, e dos professores da “Escola de Base de Brasília”?. Todos “condenados” pela mídia e, depois, inocentados pela justiça oficial. E há, também, um que atingiu diretamente os gaúchos. Quem não sabe que um de nossos deputados federais foi lançado à execração pública e acabou perdendo seu mandato? Uma revista semanal de circulação nacional “confundiu” cem dólares com cem mil dólares e não quis voltar atrás porque as suas revista já haviam sido impressas? Recentemente, a mesma revista teve um de seus diretores envolvido com o doleiro do caso Senador Demóstenes/Carlos Cachoeira, só que a única menção que ela fez sobre o fato foi a de que os duzentos contatos telefônicos feitos, pelo jornalista, com o doleiro eram por motivos “profissionais”.

Na verdade, o objetivo principal deste artigo é lançar um alerta para o que está ocorrendo em relação à divulgação de diversos problemas que o País vem enfrentando, sejam eles econômicos ou políticos. A grande mídia oligopólica, a serviço da direita e da elite brasileira, está cerrando fileiras na busca de um impedimento da Presidenta e, para tanto, qualquer meio é válido para atingir seu objetivo. É necessário que cada brasileiro, antes de tomar qualquer posição, faça uma análise profunda da situação não se deixando levar pela massificação da ideia de que tudo no Brasil se tornou um caos. Não sou defensor incondicional de tudo o que o Governo vem fazendo. Acredito que há muitas falhas, mas não vou incorrer na leviandade de querer contribuir para a instalação de um quadro reacionário, a serviço de interesses que não são os da população menos favorecida, mas, apenas, concorrerá para a manutenção de benesses seculares que uma parcela reduzida de privilegiados continua a desfrutar.
 
Wenceslau Gonçalves
 
Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 11/03/2015

 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Habemus Cine

Por Jorge Passos

Estes dias, fiquei impressionado com um vídeo que vi , produção dos alunos de Produção e Política Cultural  da Unipampa. Ana Barbara Klenk Serra, Leandro Vieira de Amorim, Luma Reis Ferreira, Marcela Hernandes Pedreira, Marjorie Mendonça C. Fernandes e Magno da Costa Paim realizam um projeto de um curta-metragem de ficção que será realizado em Jaguarão. O filme acompanha a vida e rotina de Lóri (24 anos) uma mulher que ao se descobrir grávida desenvolve os cinco estágios da Morte/Luto e não consegue compartilhar o segredo com ninguém. Na construção da personagem elaboraram um ensaio de aproximadamente 5 minutos e  que está disponível no You Tube, busquem pelo nome “Pesquisa Estética- Fluxo”.

Provoquei o confrade Sérgio Christino, colaborador desta coluna, meu filósofo particular , estudioso de Hegel, e meu parceiro  fundamental na edição do Barqueiro do Jaguarão, para se manifestar sobre o referido trabalho dos meninos da Unipampa. Compartilho com vocês, caros leitores amantes do cinema, suas impressões: 

"Vendo este ensaio/pesquisa lembro de uma dificuldade apontada em um documentário que assiti en passant outro dia no Arte 1. O trabalho do crítico de cinema traz esta armadilha que eu só tinha percebido ao comentar "O poeta é o caranguejo que pulou do balde".

De fato a dificuldade está em ter de expressar algo, usando uma linguagem diferente daquela a respeito da qual se quer expressar este algo. Há coisas que são da linguagem visual e ponto. Não adianta você querer descrever o que sente quando vê um vídeo em que aparecem os ângulos formados pelos pingos de chuva rebatidos pelo teto de um automóvel, muito menos você escrever a respeito de como são estes-pingos-estes-ângulos-este-teto-de-carro-esta-chuva-esta-pessoa que-experimenta-o-delírio-visual.

Como ensaio/pesquisa ele - Fluxo - é tocante, mesmo que não se saiba que tem um argumento (inquietaçao da gravidez) e mesmo enfrentando esta dificuldade do crítico que menciono, o impacto é o de um aquecimento ideológico (no bom sentido), para captar a mulher/natural em seu isomorfismo gestáltico: útero-espaço-dentro-fora.

O que está dentro é o mesmo que está fora, ou seja a vida. Esta coisa do espaço e da natura - mater/madeira/maternidade/mãe/árvores em bosque, são muito tocantes.

O espaço está duplamente significado, certo? Dá pra ver nas tomadas junto à natureza e nas tomadas de signos urbanos - quer cena mais aberta e mais fechada ao mesmo tempo que aquela do Bloco do Janjão. Toda a abertura de movimento e sons da festa de rua e a expressão da personagem - que carrega em sua histriônica expressão facial toda a clausura, toda a expectativa enigmática que nada revela, apenas sugere.


Tem, ainda, uma coisa de ar, de respiração, de pulmão, de estrutura para conter o ar que paira e que não sei explicar!!!!!"

Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 11/02/15



sábado, 14 de fevereiro de 2015

Reflexões Fundamentais

Por Carlos José de A. Machado

O imediatismo do cotidiano de nossas vidas acaba levando muitas pessoas a não usarem a capacidade de utilização de uma arma fundamental para a transformação da própria existência.  A possibilidade de enxergar além daquilo que parece ser, de redirecionar nossa vida se assim for necessário. É pensar novos caminhos e não acreditar que é impossível.     

Existe uma parábola que nos ajudará a entender onde quero chegar “Havia uma corrida de sapinhos onde o ganhador seria condecorado com uma grande premiação.  Mas o público que estava ao redor (achando impossível os sapinhos chegarem  até o final da pista sem desistirem,  uma vez que era muito longa) gritava e ironizava os sapinhos: - Vocês não vão conseguir, vocês não vão conseguir....   E pouco a pouco cada sapinho ia desistindo. Permanecia apenas um. Que, parecendo não dar bola para o que o senso geral dizia, seguiu em frente até chegar ao final.  Foi aí que todos perceberam que o  sapinho em questão não os escutava pois era surdo.”

Ora, é assim que muitos de nós, homo sapiens agimos.  Acreditamos que isso e aquilo é impossível.  Por isso é preciso, eventualmente, pararmos e “taparmos nossos ouvidos e olhos” tão acostumados com o dia a dia, e refletir sobre os acontecimentos.  É necessário utilizar aquela arma que citei, que nada mais é do que a Reflexão Filosófica.  Pensar de forma radical, rigorosa e global sobre os fenômenos que acontecem (para usar um conceito da filósofa Marilena Chauí). 

É claro que não precisamos direcionar esta nossa arma para tudo. Mas é fundamental, de vez em quando, utilizá-la com vigor. Claro que,  sem dúvida,  no nosso IMEDIATISMO  seria uma coisa quase “impossível” (não é mesmo?),  uma vez que não paramos para as coisas MEDIATAS (que servem a um propósito maior, ou a um alcance um pouco mais adiante).  O normal é pensarmos: “Quando não tiver nada pra fazer aí então eu paro para  uma reflexão deste gênero”.  Só que aí já poderá ser tarde ou nossa vida já ter andado um longo caminho sem melhoras substanciais.   E daí, acaba-se vivendo “a vida que nos é dada, da forma que nos é colocada”, o que não nos difere de forma significativa dos demais primatas.  

Estas pequenas grandes paradas para a reflexão filosófica é que servem para as grandes transformações de nossa vida, de nosso cotidiano e de nosso mundo.   Se isto não for importante então realmente, não precisamos da FILOSOFIA.  Afinal não “vamos conseguir”, certo?
 
Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 04/02/15

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Amor da Rua do Cordão

Já me lembro certa feita, nos idos de mil novecentos, quando ainda as terras do sul não sabiam que a liberdade era para todos e dos porões da casa grande nasciam histórias, ouvia-se na praça, os barulhos contínuos, ritmos da palha e da flanela firmes que deslizavam como uma mão suave! O sapateiro lusitano... não qualquer! Mas, aquele que veio de além-mar, procurando uma nova terra, um novo horizonte!

Achou-se por aqui, quedou-se por aqui... Era ela o motivo! Escrava de origem. Tratada ao longe das aspas de quem tem nome grande e sangue azul, ainda sob o jugo da escravidão, em um tempo em que a cor da pele obrigava e forçava a todo tipo de indignidade.

Aquela do sangue escuro, alforriada pela mão do seu amado lusitano, vê diante de si, aberta pela mão suave de seu esposo, a porta da dignidade social. Sim! A morena jambo lustrou e cuidou do brilho de seu novo senhor! Suas vidas misturam-se, amordaçando todo preconceito e estranhamento da vida cotidiana da então pacata terra do Jaguarú, que não suportava tal feito. Ele cumpre o que prometera: tira-a da escravidão, deixa-a livre! Ela, encantada por seu novo senhor, já novamente assume outra escravidão amiga, casa-se com seu agora senhor de liberdades e carinhos.


O tempo passou, a história da escrava de mãos suaves continua cravada entre as pedras da rua de chão batido, de nome Cordão. Ao passar pela casa antiga, nenhum vivente imaginaria tamanha trama, nesta pequena rua do Cordão. Das amarras da dor, para o cordão faceiro, coisas de gente que abre a porteira quando a oportunidade aparece como visita, mas acaba adotada para sempre. Hoje ainda resta o fruto do amor. Já velha pelo tempo, já querida por aqueles que amam os amores que não seguem as linhas brutas da razão.  

Magnum Patrón Sória


Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Meridional em 21/01/2015

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Florêncio, Vigário pelos quatro costados

Dedico a coluna desta semana a um grande amigo de meu pai e minha família, meu Padrinho, Padre Florêncio Lunelli. 

Para regozijo da comunidade de Jaguarão, querido e admirado por todos,  ele retornou à nossa cidade para fixar moradia na Casa Paroquial da Matriz do Divino. Recupera-se com êxito de alguns problemas de saúde. Nada demais, velhice, disse-me ele.  

Há alguns dias, manuseava seu livro, “Memórias de um vigário”  editado em 1990 e planejei publicar um de seus contos aqui no Gente Fronteriça. E nada melhor do que faze-lo agora, quando está aqui conosco, na terra que tanto ama. 

Reproduzo as palavras do saudoso Cura Vicente  Ramos no prefácio do citado livro, para definir o Padre Florencio. “Es vigário por los cuatro costados. Ser vigário no es una profesión, es una vida, es un sublime destino y un verdadero desafío. Quizá una de las vocaciones más comprometidas y profundamente humanas, porque el vigário no tiene horarios, no se aposenta, y todos sus minutos están envueltos y dominados por su sublime misión”.    

Vamos ao causo escolhido,  o qual revela um dos seus grandes divertimentos, a pescaria, e que tem por título: Põe Cachorro Nisso!

Um dos fracos do vigário é a pescaria. Se os deveres lhe permitissem, iria pescar pela manhã e, se o convidassem à tardinha, ou à noite, lá estaria correndo de novo.

Com seu companheiro Joãozinho, de mais  de oitenta anos, hoje falecido, lá foi ele para as bandas do Juncal, no açude de um grande amigo. Com a devida licença e prazer do dono, se instalaram  nas suas margens. Lançadas as linhas, presas aos guizos e sininhos que indicavam as primeiras “mamadas” do peixe e fazem o pescador atento à disparada para a fisgada, foram surpreendidos pela chegada do proprietário, seu Edgard. Trazia-lhes além da costela, o assador. Que cavalheirismo, delicadeza e amizade.

É claro que, enquanto assava a apetitosa carne de ovelha o seu Xisto (este o nome do empregado) mandava os seus tragos de caipirinha. Faz parte do ritual.

E entre os “causos” que se contavam, narrou: “Certa feita, lá pelas alturas de São Diogo (fronteira do Uruguai com Herval) apareceu tanto cachorro comedor de ovelhas, que, escondido num mato, matei pra lá de cem”! Foi então que o seu Joãozinho não se conteve e numa risada gostosa que quebrou as trevas da noite, arrematava: “eta mundo velho, bota cachorro nisso”!

Sempre se ouve contar que caçador e pescador são mentirosos. Não é que mintam. É que, “quem conta um conto, sempre acrescenta um ponto”. Daí, porque tanto os números, quanto as medidas e os tamanhos aumentam.


Aliás, quem passaria uma noite, às vezes em meio a uma mosquitama furiosa, inconveniente e perseverante, sem contar as suas estórias, espantando o sono e esperando o tilintar das campainhas, anunciando que um jundiá ou uma traíra estão querendo disparar?  

Jorge Passos   

Publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 14/01/2015


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

OS INFERNAUTAS

Reconheço que não são conhecidos com esse nome porque assumiram a forma humana e se fazem chamar pelos nomes mais comuns, conforme o lugar em que estão. Eles, hoje, são em número considerável e seu habitat é, praticamente, o mundo. Até hoje vi muito pouca coisa que coíba suas ações cada vez mais nefastas para os seres que habitam o nosso planeta. Naqueles países onde há mais controle social, eles têm mais dificuldade em disseminarem suas infernices, mas, mesmo assim, agem, embora com menos intensidade.

Os infernautas intensificam suas ações nos períodos em que as pessoas estão mais predispostas à tolerância, que, no caso brasileiro, são, principalmente, os dias dedicados às férias, que ocorrem geralmente no verão, em locais onde as pessoas pretendem descansar sem preocupações que as afligem durante o ano, como trabalho, escola, pagamento de prestações, etc.. Durante as outras estações do ano, eles atuam mais discretamente mas, igualmente, não deixam de agir. Naqueles países onde suas ações nefastas são mais controladas eles tem mais dificuldade em disseminarem suas infernices.

O pouco que sei deles é que foram criados por um poderoso cientista habitante de um planeta muito mais adiantado do que a nosso com a finalidade de destruir os habitantes de um determinado planeta inimigo. Eles foram mandados para lá de forma disfarçada e acabaram destruindo aquela civilização à força de terem enlouquecido os habitantes do planeta. Na verdade, o método que aplicaram foi de infernizar a vida deles até que os próprios acabavam se suicidando porque não suportavam mais viverem com a presença deles. A verdadeira missão deles era, na verdade, a de “infernizar” a vida daquelas pessoas até conduzi-las à morte por uma espécie de enlouquecimento induzido. Daí o nome “infernautas”, que lhe foram aplicados pelos policiais interplanetários encarregados de capturá-los. O objetivo foi conseguido após alguns anos. O que aconteceu, então, é que, logo após esse fato, o criador deles perdeu o controle sobre eles por uma falha do sistema e eles abandonaram aquele planeta e se dispersaram, sem qualquer controle, por toda nossa galáxia. Alguns deles vieram parar na Terra e, aqui, devido a terem encontrado boas condições acabaram se multiplicando em grande proporção. O risco é maior porque eles têm uma grande capacidade de reprodução, isto é, a cada ano aumenta seu número e, portanto, cada vez será mais difícil exterminá-los.

Para que possam identificá-los melhor e saberem que precisam tomar alguma providência senão podem acabar tendo o mesmo destino da civilização extinta naquele planeta, vou descrever alguns comportamentos que eles assumem quando estão travestidos de humanos. Gostam de escutar música bem alta (o maior volume possível de um aparelho potente) e, de preferência, um som repetitivo e monótono. Às vezes a letra é praticamente inaudível porque, normalmente, é em língua diferente do país em que estão infernizando. São capazes de escutarem a mesma música desde que se levantam até a hora em que caem na cama (literalmente). Ingerem muita quantidade de bebida alcoólica. Uma de suas diversões prediletas é praticarem essas “anti-humanidades” nos horários de descanso das pessoas normais, como, por exemplo, ao meio-dia ou pela madrugada quando todos dormem. Quanto maior o número de humanos que são molestados, maior é o prazer que conseguem alcançar. O metabolismo deles funciona estimulado pelo mal que forem acumulando durante “suas infernices”.


Estamos bem na época em que os “infernautas” costumam intensificar suas ações. Portanto, quando identificar algum membro dessa espécie, se não conseguir afastar-se dele, certamente sofrerá graves consequências em sua vida normal. Não conheço alguma providência que seja realmente eficaz para nos livrarmos dos “infernautas”. Quando algum cientista descobrir alguma fórmula que atinja tal objetivo, provavelmente haverá ampla divulgação para o bem de toda a humanidade. Por enquanto, só nos resta esperar...ou rezar (os que acreditam, é claro)!

Wenceslau Gonçalves

Publicado na coluna Gente Fronteiriça do jornal Fronteira Meridional em 07/01/2015

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A magia da Lagoa

Foto: Portal del Lago Merin
 
por vicentepimentero

O apêndice da Lagoa Mirim que nos pertence como balneário de uruguaios e brasileiros no país vizinho, esconde-se em um dos paraísos mais incríveis e naturais por que não dizer da América Latina. É claro que, padrões estéticos à parte, poderia ser um destino turístico melhor balanceado, ora por sua capacidade de carga, ora pelo respeito ao meio ambiente. 

Há contradições quanto a suas belezas naturais justamente pelo impacto irreversível desse turismo de massa, que passa pela vida sem dar-se de conta, assim como pela lagoa, sem dar a ela o merecido valor. Mas como tudo na vida não são flores, ainda convivemos com essas afrontas de comportamento social que destoam com o que se quer para o nosso entorno. Quando digo o que se quer, me auto intitulo porta voz daqueles que vivem a lagoa desta maneira apaixonada, onde a relação homem e natureza atravessa os limites da preservação, seja ela, através do respeito à dita natureza ou, apenas, à contemplação da mesma. 

Fraldas usadas e jogadas na areia à parte, pode se dizer que a Laguna continua apaixonando a todos e as quantidades de famílias e pessoas que escolhem o balneário como sua casa, decidem ir morar por lá, crescem dia a dia a diversidade de sua vegetação, seja ela nativa, de médio ou grande porte, seja ela caseira, através de plantas, jardins, e amor ao meio em que se vive. 

Na lagoa a regressão de pássaros, a diversidade biológica, e o contato explícito com a natureza fazem com que qualquer pessoa se encante à primeira vista, olhar, sentir, cintilar. Os poucos quilômetros que separam o charco d'água doce do mar, trazem um ar holístico com energia pampeana que apazígua qualquer alma batida que por ali se aprochegue. O luar, assim como o pôr do sol são os mais lindos que já vi, e olha que me dedico a isso. Na lagoa o tempo é outro, naquele rinconcito al este del Uruguay, as plantas florescem com sabor a vida pura, os mais lindos pássaros te visitam na hora do chimarrão, e quando a madrugada entra os jovens se entorpecem de noite na areia tíbia onde abunda a água límpida pelos juncos. 

Para ser Lagunero basta somente saber algumas coisas, entre elas, que ali habitam seres totalmente apaixonados e entrelaçados com a natureza. Vou usar uma frase que meu caro amigo Odyr publicou, há muitos anos atrás, quando falava do meu primeiro bar, lá na cidade de Pelotas...."vá, mas não avise os Alliens"

Publicado no Jornal Meridional , edição de 07/01/2014

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Histórias do meu Barbeiro

Sábado, ante que a chuva me pegasse , passei de bike pela nova Santos Dumont. Avança o asfaltamento. Deve estar concluído ainda nesta semana. Certamente a Comunidade do Bairro Germano está contente com este verdadeiro presente de natal. Também os moradores da Gustavo Guimarães e da XV de Novembro pós BR 116. É uma das maiores obras de pavimentação que já vi realizadas em nossa cidade. Pois não envolveu apenas a colocação do asfalto, mas também a drenagem total das ruas e a confecção de calçadas em todo o trajeto. Como diz o gaúcho, de luxo!

Falando em gaúcho, esta história me foi contada pelo meu barbeiro, o Formiga. De vez enquanto faz algum bico de segurança em baile, festa, trio elétrico. Mas já está um pouco afastado dessa nobre ocupação. A idade vai chegando, a gente cansa de se incomodar diz ele. Mas, dia desses, mais precisamente durante a Semana Farroupilha, foi convidado para trabalhar num fandango da Chama Crioula . Vai ser barbada disseram. Ganhas uns bons trocos sem te incomodar. Olha, mas que barbada que nada. Chegando lá, foi meia hora e a lambança já tava comendo sem parar. Entre um entrevero e outro, me sai o chefe com um índio que media uns dois metros agarrado pelo pescoço e me grita, pega ele pelos pés porque não para de espernear! Fui agarrar o gauchão pelas patas e só senti a espora me rasgando o blusão novo de ponta a ponta. Prejuízo total, lamenta o Formiga.

E no Salão dele, além do bom e barato corte, sempre tem desses causos divertidos. Quando eu morava em Brasília, volta e meia pegava um avião pra cortar o cabelo aqui. E as amizades do meu barbeiro? Gosto dos apelidos: O Cabeça de Louça, o Rudi Camotim, que é o mesmo “Mulher de Quarenta” e outros tantos parceiros pitorescos. O Rudi Camotim ganhou o apelido de Mulher de Quarenta porque foi tricampeão do show de calouros num bar ali na Rua do Cordão cantando esse sucesso do Rei Roberto. Depois, foi proibido de competir com essa música. Não tinha graça. Até agora, ainda não conseguiu se achar com o violeiro que o acompanha numa tão boa pra repetir o feito. Não sabe bem se a questão é de tema ou de afinação.

Do Cabeça de Louça, tem a história de um baile lá pela Pindorama. Convidou o Formiga. Chegaram lá, e o nosso amigo reconheceu o lugar. De dia, borracharia, de noite, inferninho. Mas o local era de classe. Só gente boa, cerveja gelada. Só não achava o banheiro. Onde é que fica, perguntou o Formiga. Tás vendo aquela porta de geladeira Frigider? Entra por ali. Lugar de classe esse que o Cabeça de Louça leva a gente.


E a do amigo pedreiro, que chegou mostrando a jaqueta nova comprada na Joínha, vermelha com cavalo amarelinho nas costas? Vou estrear ela no baile do Instrução hoje. Vamos Formiga? Chegando lá, já na entrada, me conta o Formiga , olhei no corredor e vi um cara de jaqueta verde e um cavalo amarelinho nas costas. Fomos tomar uma ceva no balcão e vi mais uma. Essa era marron, mas o cavalo era amarelinho e também tava nas costas. No salão, de longe, de reolho, num relance, me pareceu ver mais uma meia dúzia de cavalos amarelos troteando ao som da música. Olhei pro meu amigo e disse, pô, ta fazendo sucesso essa tua jaqueta da Joínha! Rapaz, o loco ficou tão brabo que foi no banheiro e voltou com a jaqueta amarrada na cintura. Amanhã ela vai pro cimento!

Jorge Passos

Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 23/12/2014

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

IPVA com desconto

Desconto no IPVA para pagamento até  02 de janeiro.
Quem não gosta de um bom desconto? 

Reproduzo informações do site do  Jornal do Comércio do RS sobre as condições para obtenção desse benefício.

Os proprietários de veículos que quiserem aproveitar o 13º salário para pagar o Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) 2015 podem começar a fazê-lo a partir de hoje, 17 de dezembro. Além de antecipar o cumprimento de uma obrigação do ano que vem, os motoristas irão gozar de descontos que variam entre 9,7% e 27,27%, anunciou a Receita Estadual. O contribuinte que deseja consultar o total em descontos do IPVA pode obter as informações através do hotsite ipva.rs.gov.br  e do aplicativo para smartphone da Nota Fiscal Gaúcha (NFG Móvel).

Quem pagar o IPVA até o dia 2 de janeiro obterá desconto mínimo de 3% concedido pela Receita Estadual, somados ao valor da Unidade de Padrão Fiscal (UPF) de 2014, cuja atualização terá 6,7% de acréscimo. Os condutores que não tiverem recebido multa em dois anos recebem o desconto do Bom Motorista e podem ter dedução de até 15% - para quem não foi multado há um ano, o índice é de 10%.

O Desconto do Bom Cidadão, por sua vez, dará aos proprietários de veículos que acumularam 100 notas fiscais no programa NFG mais 5% de desconto, válidos para pagamentos antecipados ou não, e 2% para quem tiver acumulado até 99 notas.

A partir do primeiro dia útil de janeiro, o pagamento antecipado do imposto poderá ser feito até março com descontos no parcelamento, sendo que o proprietário do veículo precisa pagar a primeira parcela até 31 de janeiro – as duas subsequentes serão em fevereiro e março. Os descontos são de 3% para a primeira parcela, 2% para a segunda e 1% para a terceira. Proprietários que não optarem pelo pagamento antecipado terão seus vencimentos entre abril e julho, conforme a placa do veículo.


A expectativa de arrecadação com o IPVA 2015 é de R$ 2,38 bilhões, sendo que 40% do valor pago pelo contribuinte fica com o Estado e os outros 40% com o munícipio onde o veículo foi emplacado e 20% são destinados ao Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb). O governo do Estado pretende arrecadar R$ 690 milhões até 2 de janeiro.

Neste ano, apenas os motoristas que realizaram pagamento antecipado nos últimos três anos ou que adquiriram um veículo em 2014 irão receber a correspondência de cobrança do IPVA. A expectativa, diz o subsecretário da Receita Estadual Ricardo Neves Pereira, “é que 2,3 milhões de cartas deixem de ser enviadas, o que trará uma economia de R$ 7 milhões para o Estado”.

Jorge Passos

Publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 17/12/2014

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Mensagem ao “Arcanjo”Rafael Pinto


Batias bem o componedor na caixa dos tipos ao compasso duma melodia surgindo em tua cabeça, enquanto apareciam caracteres de todos os lados.

Mal sabias que, naquela dança animada, a cultura vinha aos borbotões, as palavras e linhas do texto se transformando em nascente pensamento.

Mesmo assim não te descuravas daqueles difíceis significados e interagias pelo ritmo de tua inspiração, em contraponto às rebuscadas frases.

Tuas mãos esculpiam uma harmonia perfeita da forma com o conteúdo, os dedos encardidos de artífice compondo a mais limpa das obras gráficas.

Eras Mestre em corrigir a ortografia nos descuidados originais e eu aquele Aprendiz a quem fazias sem querer pegar gosto pelo idioma pátrio.

Quando cochilavas à beira da bancada, oxalá teus sonhos pudessem alcançar a evolução da prensa de Gutenberg até a atual Era da Informática.

E assim me tornaste um escriba sem maiores pretensões do que jogar com as letrinhas como costumava fazer antigamente nos tipos de antimônio.

Depois de publicada esta “Ode à Tipografia” no blogue do Poeta das Águas Doces, de São Paulo, Luiz Augusto Dutra Resem me chama atenção pela coincidência do dia da postagem, 04 de dezembro, e aponta que, nessa data, em 1937, exatamente há 77 anos, seu avô Cantalício Resem fundava o jornal “A Folha”. Então, o tipógrafo Rafael Pinto já exercia suas atividades em “A Miscelânea” e praticamente me viu nascer, já que sua esposa Dª. Ismaela chegou a ser minha babá, quando passei a ser integrante da família Resem. Um anônimo colaborador da nossa imprensa, de inestimáveis serviços prestados à coletividade, cujo reconhecimento merece ser estendido a todos seus descendentes.

José Alberto de Souza

Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 10/12/2014


domingo, 14 de dezembro de 2014

Festa do Interior

Foto Prefeitura de Jaguarão Digital
  
Que noite a de domingo! Depois de um dia nublado e ventoso prenunciando temporal, o entardecer trouxe a calmaria. A chuvarada passou por cima, como faz tantas vezes por aqui. Dizem que a topografia da nossa cidade a protege. Fazia muito calor. Da janela entreaberta olhei para as árvores do canteiro central e nenhuma folha se movia. Também não se movia o ataque do Imortal Tricolor na Fonte Nova. O zagueiro do Grêmio havia sido expulso e logo em seguida o Bahia marcou um gol de falta. Melancólico final de campeonato, só amenizado pela goleada no grenal. Desliguei a TV. Chega de sofrimento. Convidei minha esposa para darmos uma caminhada pelo centro. A cidade fervilhava.

O clima apetecia o saboreio de um sorvete, foi o que fizemos. Enquanto nos deliciávamos com o gelado, olhei para a porta envidraçada da confeitaria e comentei que a 27 de Janeiro estava com cara de “18 de Julio”, a avenida central de Montevideo. Com as devidas proporções, parece mesmo, concordou ela. -Olha, o que mudou esta cidade de uns dez anos pra cá é incrível. Recordo quando vinha dar aula por aqui, era um marasmo total, completou. 
 
No Largo das Bandeiras, que eu gostaria de chamar de Largo Mestre Vado, pois ali é o espaço dedicado às manifestações populares e à arte, estava acontecendo a terceira noite da IV Feira Binacional do Livro. Sucesso total. O povo tomou conta de todos os lugares. Aqui uma nota. Merecida homenagem ao escritor jaguarense Eduardo Alvares de Souza Soares agraciado com o patronato da Feira. Seus livros sobre a Igreja Matriz, Ponte Internacional Mauá, Olhares sobre Jaguarão, Coletânea de crônicas na antiga Folha, sobre o Poeta Lobo da Costa, além de vários artigos nos Cadernos Jaguarenses, são de valor inestimável para a história de nossa cidade e o resgate de seu patrimônio cultural. 
 
A nossa Feira voltou para alegria de todos. Ela tem características peculiares. Engloba no mesmo espaço, o livro, a música e a gastronomia. Elementos inseparáveis. Une o popular e o erudito. 
 
Quase meia noite e a festa continuava. Resolvemos voltar para casa. Observamos que o movimento não era concentrado somente na praça central. Em toda a avenida principal o trânsito de automóveis e pessoas caminhando, continuava. Na Comendador Azevedo, os trailers estavam repletos. Gente que “gosta mais de ouvir o silêncio e prefere mais o sossego do que o juntamento”, como diria minha avó, pensei. Não importa. Estavam fazendo parte da paisagem dessa noite de domingo numa Jaguarão que vibra. E que noite de domingo!

Jorge Passos

Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 03/12/2014

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

QUAL É SUA PROFISSÃO?

O episódio ao qual quero referir-me é sobre o comportamento de uma autoridade do Judiciário, que veio a público há poucas semanas. Se o participante fosse alguém da chamada “classe política”, por certo não causaria muita surpresa e talvez nem chamasse muito a atenção porque, ultimamente, o “esporte preferido” de grande parte dos veículos de imprensa do País tem sido o de bater em ocupantes de cargos eletivos, mormente os de situação, no âmbito nacional. Isso com, ou sem razão, ressalve-se. 
 
Aqui vacilo, buscando um termo que sintetize a atitude que, no meu entender, acabou, talvez, causando algum estrago na imagem de uma corporação que deveria ser um modelo de comportamento a ser seguido. Opto por reconhecer que a atitude tomada por um senhor juiz em uma barreira de trânsito pode muito bem ser enquadrada no termo “carteiraço” o que é facilmente entendido por todos. Sua Excelência, com isso, passou a ser “vítima” de uma servidora pública enquadrada em “abuso de poder” por tentar cumprir com seu dever de ofício. Não creio que o fato gerador da sanção que sofreu tenha sido uma mera expressão que teria sido emitida pela funcionária.
Abro um parêntese. Do que tenho lido sobre o assunto, julgo que quem melhor conseguiu resumir essa triste passagem de autoritarismo foi nosso mais novo imortal, Zuenir Ventura, que, numa frase antológica, diz: “Nele (o episódio), Deus não aparece ou aparece disfarçado, mas é evocado e confundido com um juiz” (Jornal O Globo, 8.11.14). Fecho parêntese.

Bem, até aí tudo normal. O carteiraço é uma instituição nacional reconhecida como benéfica para quem a utiliza e maléfica para quem sofre seus efeitos. Sua avaliação depende da posição em que se encontram seus protagonistas. Ela é praticada por indivíduos pertencentes aos mais diversos segmentos sociais. É usada até por quem, eventualmente, não tem uma posição que possa utilizar a malandragem. Às vezes com igual sucesso. Para quem se julga mais importante do que seu semelhante, o objeto da humilhação é, na verdade, uma pessoa de menor valor e certamente precisa “ser colocada em seu devido lugar”. Há quem diga que esse tipo de preconceito remonta aos tempos da nefasta escravidão que manchou a história deste País. Está, portanto, consagrada em nossa cultura.
Desculpem os leitores, mas, depois dessa introdução o que quero mesmo é registrar minha preocupação com o que considero o mais grave dessa situação. Refiro-me ao fato de que o “inventor” dessa estupidez autoritária foi consagrado por seus pares do Judiciário quando foi aplicada uma sanção pecuniária à servidora que cumpria seu dever. Isto significa que, se o autor for vitorioso até o final da querela, provavelmente a ser definida pela mais alta Corte da Justiça apropriada para dirimir a questão, a própria instituição estará consagrando a atitude de Sua Excelência como correta e, portanto, quem abusou da autoridade foi realmente a funcionária ao interpelar um membro do Judiciário que não portava os documentos que os demais cidadãos comuns precisam ter consigo quando conduzem um veículo automotor. Parece-me que isso seria abrir um precedente para que outras tantas “autoridades” possam utilizar o tradicional carteiraço sem qualquer risco de sofrerem reprimenda de suas corporações.

Vou mais longe ainda: se todas as corporações se movimentarem em torno de privilégios vai ser necessário elaborar-se listagens daqueles que estiverem isentos de punições e imagino que poderiam ser incluídas outras profissões nesse rol, como jornalistas, médicos, parlamentares, etc. Qualquer ação do servidor nesse tipo de atividade ficará, então, sujeita à censura dos deuses que, eventualmente, estejam dirigindo um automóvel quer a serviço ou em merecido lazer. Sugiro, também, que, antes de qualquer providência, o funcionário de serviço, ao constatar uma infração, formule uma pergunta que pode passar a ser freqüente: “Qual é sua profissão”. Assim pouparíamos tempo e dinheiro para o Estado e algum vexame e sanção para o servidor, é claro.

Wenceslau Gonçalves

Publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 26/11/2014


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Um Sobrado e sua gente


Preciso esclarecer que, órfão de pai e mãe, José Dalberto e Maria Francisca, fui criado como filho pelos meus tios Cantalício e Florisbela, que me acolheram em sua residência em Jaguarão.

Era um sobrado, onde funcionava a livraria e tipografia na parte térrea, sendo a parte de cima ocupada como moradia da família e situava-se na esquina das ruas 27 de Janeiro e Andrade Neves, a bem dizer o coração da cidade, pois ali também estavam localizados o Banco do Estado do Rio Grande do Sul, o restaurante Gruta Jaguarense e o Café do Comércio, tradicionais pontos de encontro da população.

Contíguos ao nosso prédio, tínhamos a Prefeitura Municipal, pela 27, e o Snooker do Oliosi, pela Andrade Neves. O sobrado possuía seis sacadas, cinco das quais davam para a rua principal, a 27, e dali podia-se observar todo o movimento urbano.

No carnaval, não se dormia a noite inteira e ficávamos assistindo de camarote o desfile dos blocos carnavalescos e dos carros alegóricos, além do corso das rainhas dos clubes Harmonia, Jaguarense, Caixeiral, Instrução e Recreio, 24 de Agosto.

Na época, os principais blocos carnavalescos eram o Bataclã, os Marujos do Amor e o Troveja Mas Não Chove, que costumavam se apresentar durante o dia, antes dos desfiles, na frente das residências para angariarem recursos ou para agradecerem àqueles que tinham assinado os seus Livros de Ouro.

Nesse casarão, aconteceram os casamentos das filhas de Cantalício - Nilza e Lucy. 

Nas férias, o nosso sobrado lotava recebendo os filhos e netos de Cantalício, muitos deles nascidos ali mesmo. Era a Nilza e o Cesário, prolíficos por natureza, com Evandro, Graciema, Cesário Filho, Graciara, Gracíola, Gracília e Gracira, seus filhotes.

Luiz Cesário da Silveira, casado com a Nilza, já falecido, iniciou sua carreira militar servindo como aspirante no 13º. RCI, chegou a coronel na ativa. Foi o primo carnavalesco que costumava reunir uma turma de tenentes, toda emperiquitada, para sair fazendo farra pela rua. Cliente privilegiado da Gruta, cujo dono, o saudoso Domingos Isaias Leite, tinha o apelido de Camões por ser português e caolho como o poeta patrício, o Cesário não resistia aos apetitosos pratos expostos na vitrine daquele restaurante e sempre atravessava a rua para saborear daquelas iguarias, não obstante reclamasse dos preços praticados, chamando carinhosamente aquele de ladrão e por aí afora.

Pois este mesmo Cesário, gozador emérito, certa feita estava na sacada quando avistou o Camões na porta da Gruta, correu ao banheiro, voltou a tempo de pega-lo atravessando a rua em diagonal ao Café e, aos gritos de Ladrão, Ladrão, pega esta, lançou-lhe uma serpentina... De papel higiênico.

Depois, começaram a aparecer o Anysio e a Lecy, sua primeira esposa já falecida, e os rebentos José Augusto, Lia e Luiz Augusto.

Em seguida, foi a vez da Lucy e do José Hidalgo Filho, já desencarnado, geradores da prole de Maria da Graça, Átila, Lorena e as gêmeas Maria da Luz e Anaí.

E, por último, do segundo casamento do Anysio com Mirnaloy, também já falecida, passaram a habitar a casa seus filhos Anysinho e Quênia.

Ali também residiram, até morrerem, a mãe e um dos irmãos de Cantalício, Delfina e Modesto. Eram freqüentadores assíduos da casa o irmão e o cunhado de Florisbela, João Teixeira no jogo da bisca do final de semana, e Joaquim Mello, português viúvo de Maria José, sempre exaltando as vantagens da sua pátria.

Com eles, convivi boa parte da minha existência.


José Alberto de Souza

Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 19/11/2014

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O Navio Fantasma

O Grande Altair devorado pelo Mar
Na madrugada do dia 6 de junho de 1976, soprava um vento fortíssimo em meio a uma tempestade nunca vista pelas praias do sul. Djalma, um pescador bageense acostumado a fisgar traíras no Arroio Valente, saiu de dentro da barraca armada nas areias do Cassino e se tocou em direção a um boteco, ali perto da Querência, para comprar uma garrafa de cana.

Com aquele vento, o negócio era ficar dentro da barraca e esperar o temporal passar. Djalma não tinha andado mais que uns cinco quilômetros quando avistou, na praia, o “maior peixe” de sua vida: um navio enorme, cujas cores, branco, cinza e laranja, brilhavam a cada novo relâmpago dentro da noite escura dando a impressão que continuava seu trajeto areia a dentro. Djalma, que ainda não tinha bebido nada, lembrou disso para se dar por conta que se tratava mesmo de um enorme navio encalhando na beira da praia e não de um tipo de visão etílica.

Djalma então voltou imediatamente para a barraca e convocou os colegas pescadores para ajudarem no salvamento dos marujos que procuravam sair do navio. Djalma, Beto e outros quatro pescadores da turma, levaram até o local a canoa Pingo de Ouro, que pertencia ao grupo, e demoraram quase três horas para retirar do Altair todos os 21 tripulantes sãos e salvos. Sim, Altair era o nome do navio de bandeira argentina que acabara de encalhar na Praia do Cassino.

A carga do Altair era de três mil toneladas de trigo que foi totalmente perdida. Durante muito tempo era possível ver aquela mancha amarelada composta pelos grãos do trigo na água que, de acordo com o vento e a direção das ondas, em alguns dias chegava até a praia do Hermenegildo, no Chuí. O lugar passou a ser ponto de referência na praia do Cassino. Tudo passou a ser, antes ou depois, do “navio afundado”. Várias espécies de peixes e outros animais marinhos passaram a fazer dos seus restos a sua morada e o local ficou também conhecido como um bom lugar para pescar.

Não há quem passe por lá e não bata uma foto, com os restos do navio encalhado ao fundo, como lembrança do Cassino. Quem ainda não fez isso poderá ter perdido a chance pois nestes últimos 34 anos o mar foi implacável com ele. Quase não há mais nada para se ver. Nada mesmo, se compararmos com as primeiras fotografias do Altair encalhado. Vários colegas do Estadual,como a nossa fotógrafa Liliana, já posaram com a família por lá. Muitos outros bageenses, além do Djalma e da Liliana, já viram esse navio.

Não é de hoje que a Praia do Cassino é uma das preferidas do pessoal de Bagé. Outros naufrágios ocorreram na praia do Cassino, mas o único navio que permaneceu lá, com seus restos para contar a história, foi o Altair.

Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 12/11/2014 

Extraído do blog http://velhaguardacarloskluwe.blogspot.com.br  "O Navio Fantasma, A proeza do Djalma"

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Jaguarão Recantos e Encantos



O título acima refere-se ao Programa da TVE do RS sobre a cidade de Jaguarão, sua Memória, sua Cultura, sua Política, realizado no ano de 1983. A iniciativa do Professor Carlos José Maninho que com o auxílio do José Alberto de Souza, conseguiram resgatar na emissora de TV Educativa do RS o vídeo completo do Programa possibilitou-nos, apesar da qualidade deficiente das imagens , digitalizadas do VHS, a edição do conteúdo em partes que estamos publicando no nosso canal do You tube e postando no Blog da Confraria.

A equipe da TVE, segundo nos diz o apresentador Dilermando Torres, colheu as imagens durante um dia inteiro. Valdo Alves Nunes e Jorge Garcia, mentores do Projeto Jaguar, estão presentes e seus diálogos vão servindo de roteiro em todo o andamento do programa. No inicio, conversam à beira do Guaíba relembrando o Rio Jaguarão e sua importância como elemento fundador da cidade. Participação do Grupo Americando, formado por Helio Ramirez , Plinio Silveira e Jorge Passos, cantando Puente Mauá, música de Hélio Ramirez e letra de Don Duca Marins. Interessantes imagens da beira rio mostrando que os camelôs localizavam-se na extensão das calçadas da 20 de setembro antes de migrar para o atual camelódromo.

Já em Jaguarão, nossos dois guias introduzem o tema do patrimônio histórico com seu casario, hoje tombado pelo IPHAN. É filmado inteiramente em seu interior, o Sobrado do Barão, com depoimento do dono de retificadora localizada, à época, no térreo do Sobrado, senhor Gilberto Mesones. A seguir é mostrado o Mercado Público tendo por fundo musical um chorinho executado pelo Mestre Vado, "Tira-Teima", do compositor jaguarense Carmelo Goulart. No final desta sequencia temos a imagem do nosso inesquecível mestre do sax. Finalizando esta parte, imagens do casario e interior do jardim do Museu Carlos Barbosa e porta esplendidamente trabalhada em casa da Rua XV. A Loja Maçônica de Jaguarão, fundada em 1854, tem a construção do seu Templo e instalações interiores explicada pelo saudoso Professor Hermenegildo Ortiz, Primeiro Vigilante na Ordem da Instituição. José Caetano, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Jaguarão, fala sobre o acervo da Casa.

Estas as partes que já estão publicadas. Há muito mais. Sarau no Museu Carlos Barbosa com a Professora Verdina Raffo ao piano e voz do tenor Jarbas Taurino, imagens do professor Stefano Roncato no Teatro Esperança executando uma peça no violino, entrevista com Sérgio da Costa Franco.São imagens de alto interesse histórico e que fazem parte de nosso patrimônio cultural.

Você, caro leitor, pode acessa-las na internet digitando na pesquisa do You tube “Jaguarão recantos e encantos” que será direcionado aos vídeos.

Reproduzo palavras do professor e ex-secretário de Cultura Carlos José Maninho: “ programa histórico que apresenta imagens e entrevistas feitas no ano de 1983 . Importante momento, precursor do que viria a acontecer em 2010, quando começam a se concretizar alguns sonhos que foram sonhados juntos. Com o trabalho desenvolvido pela Prefeitura e Secult, conseguiu-se junto ao IPHAN, que este praticamente adotasse nosso patrimônio. Daí adviriam o Restauro do Teatro Esperança, Enfermaria (que foi além do que se imaginava), Mercado Público, e muito mais pela frente, se os brasileiros permitirem, e eu acredito nisso!”

Nós também!
Jorge Passos

Publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 15/10/2014

Clandestino - Gilberto Isquierdo e Said Baja

  Assim como o Said, milhares de palestinos tiveram de deixar seu país buscando refúgio em outros lugares do mundo. Radicado nesta fronteir...