domingo, 14 de setembro de 2014

A Banda Feminina do Imaculada

Pude apreciar neste 7 de setembro, com a tarde maravilhosa de sol que fez, alguns desfiles na 27 de Janeiro. Escolas, Programas Sociais, Projetos Educativos, Bandas marciais, abrilhantaram os festejos. Este jeito de comemorar a Independência creio que já é patrimônio cultural de nossa cidade. Peculiar, típico de cidades do interior onde ainda é prestigiado. A comunidade toda se envolve, tanto os que vão às ruas para presenciar seus filhos, parentes e amigos desfilando, como os que participam efetivamente nos cortejos. 
 
Defronte aos Correios, onde ocorria a Concentração, pude ver um menino vestido com um uniforme tipo Dragão da Independência, casaco azul, barretim com penacho branco. Olhei para ele e me vi em 1965, ano no qual fui convidado a ser, o que muito ainda me orgulha de ostentar em meu currículo, mascote da Banda Marcial do Colégio e Escola Normal Imaculada Conceição. E não era qualquer Banda! Era a Primeira Banda Marcial Feminina do Estado do Rio Grande do Sul formada pelas alunas do Ginasial e Normal! Eu era do primário, que era mixto. 
 
Apesar do tempo transcorrido, ainda recordo as repercussões de espanto e incredulidade quanto ao êxito da proposta que esse ambicioso Projeto de montar uma banda marcial exclusivamente feminina, idealizado e bancado pela Irmã Corália, provocou na cidade e no próprio Colégio. Tratava-se de um grande desafio para as alunas tocar instrumentos de sopro, clarineta, trompete, pistón e de percussão mais pesados, que eram tradicionalmente exclusividade masculina. Faziam parte das primeiras voluntárias para dar inicio ao aprendizado com o saudoso Professor Rossi, conceituado maestro da Banda do Exercito, minha prima Maria Rita Campos e sua colega de ginásio, Ana Luiza Silveira. Depois, por falta de tempo do Rossi e porque a nossa incansável freira queria intensificar os estudos musicais de suas meninas, foi contratado um professor da Banda do Gonzaga de Pelotas que se hospedava na Casa do Maestro Rainha. Estive conversando com a Rita, ela contou-me que hoje se assombra ao recordar, como na época, podia tocar com destreza aqueles toques de reunir, dispersar. O Projeto da Banda Marcial Feminina só pode ser concretizado pela dedicação total da Irmã Corália. Professora de matemática, ela era de uma rigidez e cobrança severíssima! Mas quem estivesse participando da Banda tinha sua proteção. Fazia vistas grossas para algum errinho de equação. Mas ai da aluna que errasse um tom no trompete, ou quebrasse o ritmo da batida no surdo! 
 
Em 1966 a Banda do colégio das Freiras já estava no auge. Participou em Porto Alegre de um concurso de Bandas Marciais sendo premiada nas primeiras colocações, só ficando atrás da Banda do Colégio São João, que tinha perto de 160 componentes. Aqui em Jaguarão, havia forte competição com a Fanfarra do Espírito Santo. Era moeda corrente que muitos alunos do Colégio Estadual, que depois também foi o meu, não se conformavam com o sucesso das gurias do Imaculada e num desfile de 7 de setembro, seguiram atrás da Banda feminina tentando atrapalhar com o barulho forte de seus tambores (porque sopros não tinham), as evoluções das meninas. A Corália ficou brabíssima e na hora, mandou parar de tocar enquanto não se dispersassem os inimigos. Foi uma verdadeira guerra!

Eu me saía relativamente bem na minha missão de mascote. Nessa de Porto Alegre não participei, mas lembro de que fomos numa exibição da Banda em Melo. Naquela época, ir a Melo, capital de Cerro Largo, era uma aventura e tanto. Lá ia eu, girando meu bastão de malabarista, liderando as quarenta belas meninas da Irmã Corália. Só uma vez passei por apuros na minha exitosa carreira de mascote. Num arriamento de bandeiras no Largo, posicionei-me arriscadamente perto demais do bumbo manejado por uma das mais possantes alunas do Imaculada. Tinha um braço de fazer inveja ao Thor manobrando o martelo. No momento solene em que se deu inicio ao Hino Nacional, na introdução épica em que rufam os tambores, na reboleada evolutiva das baquetas, senti um estouro na minha testa. Aquilo foi como um raio em céu azul. Atordoei quase chegando a desmaiar. A Corália lançou-me um olhar desesperado. Mantive a altivez e galhardia apesar do golpe. Afinal era a honra e a imagem do nosso Colégio que estava em jogo. 

Jorge Passos 

Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 10/09/2014 

Pátio Interno do Colégio Imaculada Conceição
 
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