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sábado, 8 de outubro de 2011

Do blog do Cabrita: Poemas do Tranströmer ao português



Tranströmer: pegadas na neve


Tomas Tranströmer. Não calculo o que seja ter nascido com o nome de a quem caiu o céu em cima da cabeça, mas desde que em 2004, em Lisboa, comprei uma tradução que reúne toda a sua obra, Baltiques (Gallimard), que é um dos meus poetas de cabeceira. Também o tinha na excelente tradução em espanhol da Hiperion, mas esse foi-se no bolso de um amigo que tem sempre os bolsos esburacados. Procurei várias vezes um sueco que quisesse fazer comigo uma tradução do poeta, e inclusive nesse intuito escrevi um email a Henning Mankel, que vive a maior parte do ano em Maputo, mas só obtive o silêncio. É pena porque adoraria fazê-lo. Se alguém conhecer um sueco amante de literatura e que fale português diga-me. E Tranströmer fascina-me ainda mais, sabendo-o em silêncio desde Novembro de 1990, quando foi vítima de um derrame cerebral que primeiro o atirou para uma afasia profunda e depois para o silêncio, que mata entregando-se à sua grande paixão: ouvir música.
Aqui vos deixo três pequenas versões e prometo voltar a tentar rapidamente novas versões, aliás como também de Adonis, o poeta sírio que, segundo as notícias, estava com ele na linha de partida para o Nobel, e de quem também gosto igualmente muito. 


1
Farto dos que chegam atulhados
em palavras e nomes – uma algazarra
mas nada de linguagem –
parto para a ilha coberta de neve.

O indomável não tem nomes.

Brancas, as suas páginas
encadeiam em todos os sentidos.
Dou de caras com as pegadas
de um cervo na neve:

nada de palavras mas uma linguagem.


2
Em passo lépido, a árvore sob a chuva
passa ao nosso lado no escorrido da pintura.
Reserva-se uma missão: transborda a vida
na chuva como a um melro num pomar.

Assim que a chuva pára, imobiliza-se a árvore.
e brilha, serena e muito direita na noite estrelada,
esperando como nós pelo instante
em que os flocos de neve farão desabrochar o universo.


3
As orquídeas.
Os petroleiros passam furtivos ao longe.
Lua cheia.

Antonio Cabrita

quarta-feira, 27 de abril de 2011

António Cabrita: Dúvidas de um Professor

Reproduzimos do " Raposas a Sul" , blog do António Cabrita, escritor e jornalista português residente em Maputo.

matta, coigitum: o mundo é complexo, não é?

Há situações que nos deixam desarmados, sem saber exactamente como reagir.
Procurava explicar aos meus alunos da universidade, do curso de Teatro, a diferença entre “teatro psicológico” e “teatro metafísico”, segundo o Artaud. E deu-me para exemplificar com a possessão.
Expliquei-lhes, na Europa acredita-se mais na dimensão psicológica: que uma pessoa cresce fomentando uma personalidade própria e que esta é intencional, dotada de vontade própria, pelo que cada um pode moldar o seu destino; enquanto aqui, em África, se acredita mais no agente externo, na influência que um espírito possa exercer sobre nós, apesar de nós e muitas vezes contra nós.
E, continuei, isto implica horizontes virtuais muito diferentes: na Europa as barreiras, os condicionamentos do que nos pode limitar, são tangíveis, são as circunstâncias sociais, as quais podem dificultar mas não impedem o acesso a uma consciência de si, portanto, há a sensação de que moldar, mudar o destino e a vida só depende de nós, i. é, idealmente, a vontade pode controlar o destino.
Aqui as barreiras são mistéricas, invisíveis, sobrenaturais, e não há limites para os efeitos dos espíritos sobre nós (O Espírito sopra onde quer, lê-se no Ezequiel), pelo que estamos mais indefesos e menos capacitados para dizer «eu», no sentido duma potência que se exerça. E então ficamos mais nas mãos do destino, sofremo-lo, não o dominamos.
E por isso, concluía, os africanos estão mais em condições de produzirem um teatro trágico ou metafísico do que um teatro psicológico.
Estou a reduzir muito, aquilo que foi uma longa exposição. Que acabava brincando: «mas como só na semana passada fomos possuídos 3 vezes, e já somos  experts na possessão, podemos passar aos meandros da psicologia, e minuciar agora as suas ilusões…». E vejo que se alastra um silêncio pesado, com velame e fortes rajadas de vento. Com a pulga atrás da orelha, ataco a coisa de frente: já alguém aqui esteve possesso?
E quatro alunos levantam o braço. Quatro em nove.
Peço que me contem como foi, e relatam-me experiências de alteração da consciência mas demasiado vagas e acostadas à crendice. E chego ao último que me diz: eu fui possesso há duas semanas. Peço-lhe então que pormenorize, pois tem ainda a memória fresca do que lhe aconteceu. E diz-me, eu estava no culto… Que culto? Da Igreja Universal, retorque. Fui tomado por uma inquietação e perguntei, há mais alguém aqui da Igreja Universal, e quatro alunos levantam o braço. Fiquei paralisado.
Não é a primeira vez que deparo com este facto, aqui. Normalmente metade da turma vive a cavalo entre duas epistemes, digamos assim, entre dois tempos históricos e cognitivos. Lembro-me, no ano em que cheguei, do longo debate entre os alunos, na universidade onde então dava aulas, porque no noticiário da maior televisão privada tinha passado “uma reportagem” sobre uma mulher que havia parido um bule e três chávenas de chá. E do burburinho, da discussão apaixonada que isso provocou na cidade, com metade da gente a jurar já ter assistido a fenómenos semelhantes. Mas para além do caricato, na verdade, não sei se sei exactamente lidar, enquanto professor, com quem vive entre dois modos de vida e de percepção tão distintos, vestindo um e outro consoante a conveniência. Tento, mas têm sido incertos os resultados.
E posso adquirir, assimilar, aprender uma coisa – o que quer que seja – se a minha gramática emocional pertencer a «outro lugar»? Ou posso ter dois amores, absolutos de manhã, parcelares à tarde, sem estoirar com os dois a prazo? Do ponto de vista da língua este “bilinguismo” não tem sido fértil: há mesmo um fosso de aprendizagem entre quem teve o português como língua mãe desde sempre e quem mamou primeiro noutra língua – o shangana, o ronga, o bitonga –, é uma coisa que qualquer professor isento sente. E pode-se ser um “actor completo” sem, dominarmos a língua a ponto de nos perdermos nela? Podemos de manhã fazer exercícios a partir dos métodos stanilavskianos e à noite participarmos na orgia dos espíritos do bispo Macedo, servindo dois deuses? Como “dar a ver” Picasso por braile? O teatro para eles é uma extensão do rito, ou é ao contrário? Há evidentemente pontos de contacto, mas eu que sempre fui um homem de fé (que se vestisse alguma religião seria budista) pressinto que terei de penar para converter em melhores alunos quatro flechas do Macedo.
Falo disto porque acho mesmo que é um desafio e que deve ser debatido e já decidi: na próxima aula incidirei nesse cruzamento entre teatro e rito.
Teremos de aprender conjuntamente, se calhar terei de me converter para captar o âmbito. Já me vejo de bispo, Bispo Cabrita. Ou será mais vantajoso ser Apóstolo, como o Tadeu? Talvez o Grotowski me promova a cardeal. Mas aí só trilarei ou acederei à palavra?   

António Cabrita  (27/04/2011)

Visite o Blog do Cabrita:   http://raposasasul.blogspot.com

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