Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens

sábado, 9 de março de 2019

Conhecendo Don Frutos


Os segredos de Don Frutos revelados por Aldyr Garcia Schlee que nos fala sobre o romance, o processo de criação, os personagens, as fontes, as anedotas, o que foi real, o que foi ficção. . Este momento histórico para a literatura do rio Grande do Sul aconteceu após a Palestra "Conhecendo Don Frutos" por parte da Professora Maria Eunice Moreira, da PUC/RS, na III Feira Binacional do Livro de Jaguarão em dezembro de 2011 na qual Schlee foi o patrono.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Os Anos de Chumbo em Pedro e os Lobos


 Vai chegando ao final mais uma Feira Binacional do Livro em Jaguarão. Aqui vai uma dica literária da Confraria. 

Conheça os Anos de Chumbo em todos os seus detalhes e sempre narrados pela ótica da guerrilha no livro Pedro e os Lobos de João Roberto Laque.

"Esta é uma biografia que eu queria ter escrito"
 Fernando  Morais (Olga, Chateau, o rei do Brasil) 

Você sabia que existiu um tresloucado movimento guerrilheiro chamado Guerrilha de Três Passos e que a Guerrilha de Caparaó foi um retumbante fracasso da esquerda armada em Minas?

Que muitas das ações armadas foram verdadeiras cenas de comédia, cheias de desencontros e trapalhadas? Ou que um dos maiores mistérios deste período é o desaparecimento do ex-sargento do Exército e líder da VPR Onofre Pinto?

Pelo menos, você sabe quem foi Pedro Lobo de Oliveira? Então, leia Pedro e os Lobos.

No livro estão, a renúncia de Jânio, a posse de Jango, o golpe de 1964 e a resistência armada, com destaque para a origem das organizações clandestinas e um completo relato de seus atentados a bomba, assaltos a banco e sequestros de diplomatas estrangeiros.

Pelas 640 paginas de Pedro e os Lobos vão esmiuçados ainda os bastidores do poder, a edição do AI-5, a tortura imposta pela repressão política, a luta pela anistia, as greves do ABC e a redemocratização do Brasil.

De quebra, ao longo do livro está a vida louca de Pedro Lobo de Oliveira, um ex-sargento obstinado que largou tudo para mergulhar de cabeça no caldeirão fumegante da guerrilha.

Companheiro do lendário capitão Carlos Lamarca, Pedro assalta bancos, invade hospitais militares, explode quartéis e fuzila, para comemorar o aniversário da morte de Che Guevara, um capitão norte-americano que havia se tornado herói de guerra no Vietnã.

A obra gerou um documentário que está sendo filmado e foi considerada um dos cinco melhores lançamentos na categoria livro-reportagem pelo júri do Prêmio Jabuti 2011.

João R. Laque, Fernando Morais e Pedro Lobo - 3ª Bienal do Livro de S. J. dos Campos

Se você não encontrar Pedro e os Lobos nas Bancas da Feira do Livro peça seu exemplar diretamente pelo e-mail  laque@ibest.com.br 

Aproveite a superpromoção com 40% de desconto e dedicatória do autor
 

Neste Natal, faça um elogio a quem você gosta:
DÊ UM LIVRO DE PRESENTE
 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

O varejão evangélico e a sessentona sexy



Vi no centro de Porto Alegre a placa de uma loja: Varejão Evangélico. Vi o anúncio de uma massagista nos classificados do Correio do Povo: Sessentona de Cachoeirinha. O que será que o Varejão Evangélico vende que outros não vendem? Se a moda pega, logo teremos produtos orgânicos evangélicos, refrigerantes zero açúcar e zero tentação, tudo benzido ainda por cima. Isso me lembra de uma campanha bolada por um amigo meu, a Coleção Nosferatu Infantil, com brinquedos para a Romênia. Mas um caderno em forma de ataúde e um lápis que também serve de estaca, ou pasta de dente com sabor de sangue, não dão pra saída, convenhamos.

Quanto à Sessentona de Cachoeirinha, ela diz que faz o diabo a quatro, até inversão. Eu, o sessentão da Vila Nova, não tenho ideia do que seja essa tal de inversão, mas temo que a coisa acabe em torcicolo ou numa crise de ciático ou mesmo numa bacia deslocada. Depois talvez dê para brincar de adeus às armas, quer dizer, de paciente e enfermeira, seu ignorante. De qualquer forma incluí a dita inversão na minha lista de alegrias da melhor idade.

Senti, de um modo obscuro, que há uma ligação entre o Varejão Evangélico e a Sessentona de Cachoeirinha. Mas qual, além da óbvia promessa de uma realização intangível? Será que a Sessentona é tia do dono do Varejão? Não sei. São misteriosos os caminhos do Senhor.

Inteligências e burrices múltiplas
O conceito das inteligências múltiplas pegou, me parece que com razão. Eu, pelo menos, sou bem espertinho para umas coisas, mas até hoje tenho problemas com a tabuada do sete pra cima, por exemplo. Agora, o que há de reconfortante nesse conceito tem também de amedrontador, basta olhar para ele de trás pra frente: as burrices múltiplas. Se fizermos direito as contas, é possível descobrir que somos estúpidos em muito mais coisas do que somos inteligentes. Vou mais longe. Não só não somos inteligentes em tudo, como nem sempre somos inteligentes no que somos comprovadamente inteligentes. Qualquer coisinha do dia a dia pode nos desafinar, uma noite mal dormida, um desencontro, uma chuva, um esquecimento, uma broxada. Quantas vezes uma amizade ou inimizade nos obscureceu o raciocínio? Os famosos testes de QI são ótimos, quando aplicados em máquinas.

QBS
Sempre desejei ver um teste que medisse nosso quociente de bom senso. Acho bom senso mais importante que inteligência. Ou bom senso é um tipo de inteligência? Leva jeito de ser. Mas o diabo é que o bom senso sofre da mesma precariedade. Vi mais de uma vez pessoa de comprovado bom senso cometendo desatinos como qualquer papalvo ou doidivanas.
Em literatura, por exemplo, o bom senso não recomenda usar palavras como papalvo e doidivanas. Por falar nisso, em literatura o bom senso é um bom guia em matéria estilística, uma ferramenta pra hora de passar a limpo, mas pouco mais. Os melhores livros nasceram de apostas loucas, de aventuras extravagantes, de delírios, de pesadelos.

Anúncios fúnebres
Notei que os anúncios de falecimento ou convite para missa de sétimo dia costumam sair no rodapé da seção de polícia dos jornais. Por quê? O mistério é metafísico ou essas páginas são mais baratas apenas? Notei outra coisa também: nomes como Carlinda, Estranzulina, Herculano ou Libânio são vistos apenas nesses anúncios. Jamais se viu uma Estranzulina viva e atuante. Essa gente parece sair do nada direto pro cemitério. O pior é que as fotos que ilustram os anúncios são típicas. Mesmo fora de contexto, sabemos: trata-se de defunto.

Paternalismo
Vi muitos empresários dizerem que o povão não deve ver no Estado um pai, mas, sim, botar o pé na rua e se virar em nome da livre concorrência. Mas vi esses mesmos empresários mamando nas tetas do Estado a vida toda. Oquei, oquei. É preciso ver uma mãe no Estado, não um pai. Que cabeça a minha.

Choros
Quem não chora não mama, como dizia o bebê de Rosemary.

sábado, 26 de outubro de 2013

ZH - Aldyr Garcia Schlee fala da presença da fronteira em sua obra

Aldyr Garcia Schlee trata da fronteira imaginada em sua literatura na sétima entrevista da série

Foto: Fernando Gomes / Agencia RBS

"Meus personagens são os rejeitados", diz escritor

Carlos André Moreira
carlos.moreira@zerohora.com.br

Em três décadas de uma carreira paciente, Aldyr Garcia Schlee tornou-se um dos grandes contistas do Estado. Nesta sétima entrevista da série, ele fala da Fronteira imaginada de sua literatura.


Zero Hora — Seu primeiro livro sai em 1983, em uma época em que o senhor já contava por volta de 50 anos e tinha uma carreira como ilustrador e artista gráfico. Por que tão tarde?
Schlee — Acho que porque, naquela época, não havia muita oportunidade de publicação, ao contrário do que acontece hoje. Era caro e impensável alguém se lançar literariamente mandando imprimir por conta seu próprio livro. Não passava pela minha cabeça isso. Por isso, concorri em alguns concursos literários, em todos com alguma marca que me incentivou a continuar. Tentei primeiro aqui no RS, com um livro chamado Jaguarão e o Resto do Mundo, que ganhou menção honrosa. Depois, concorri duas vezes ao prêmio José Lins do Rego, também com um livro chamado Jaguarão Universo, em que, de certa maneira, recolhi uma parte do Jaguarão e o Resto do Mundo, e esses dois acabaram sendo publicados posteriormente em cada uma das partes do Contos de Sempre. Então, eu esperava uma oportunidade de publicar.

ZH — Contos de Sempre e Uma Terra Só, seus dois primeiros livros, parecem comungar de um propósito comum: mostrar a fronteira como uma região de identidade única no tempo, no caso de Contos de Sempre, e no espaço, em Uma Terra Só. Foi um projeto consciente?
Schlee — Eu não gosto de dizer que eu tenha um projeto literário, que tenha pretendido exatamente: “vou fazer assim”. Não consigo entender nenhum colega meu, nenhum autor que tenha um projeto literário, não creio nessa definição. Comigo, o que aconteceu foi que eu tinha esses dois livros de contos que haviam vencido concursos, e os dividi no primeiro livro, mas tinha o impacto do tempo decorrido, e eu os inverti no volume, a seção que eu denominei Contos de Ontem eram os mais recentes, e os Contos de Hojeeram os mais antigos. Essa era uma perspectiva estritamente temporal. Já no livro seguinte, Uma Terra Só, eu tinha pretensão de fazer o leitor atentar para um mundo que não é o verdadeiro, e sim o meu mundo imaginado, meu mundo literário, que eu pretendi conquistar e acabei por ele conquistado, porque não tenho condições de sair dele.

ZH — É estranho o senhor falar na ausência de um “projeto”, já que os seus livros caracterizam-se por uma unidade temática (O Dia em que o Papa Foi a Melo, Contos de Futebol).
Schlee — São livros em que trabalho em cima de uma tese. Há um determinado momento nesse meu mundo literário em que descubro alguma coisa para desenvolver em forma de tese, para demonstrar ao leitor minha visão de mundo. Nesse aspecto, há um certo conteúdo pedagógico. É uma pretensão grande, mas eu vejo assim. Então, quando eu parto para um livro como O Dia em que o Papa Foi a Melo, estou perplexo diante dessa visita do Papa, sendo o Uruguai um país laico declaradamente. Não só porque está expresso na Constituição, mas porque o Uruguai é laico de fato, e em 1904 já não havia mais crucifixos em repartições públicas, uma discussão que fomos ter agora aqui no Brasil. Sabendo que nesse país laico, na sua zona mais pobre, paupérrima, o papa iria fazer uma visita, fiquei atônito. Então resolvi não ir a Melo no dia 8 de maio de 1988, o dia em que ele foi. Mas fui na semana seguinte. E consegui entrevistas e toda uma documentação para escrever um livro de contos.

ZH — O Dia em que o Papa Foi a Melo é um relato da visita da maior autoridade da cristandade ao Uruguai, mas o primeiro conto, o que abre o livro, enfoca um padre em crise de fé que decide não ver o papa. É a representação desse confronto que o deixou perplexo entre a figura do papa e a laicidade do Uruguai?
Schlee — Exatamente. Esse padre, que, de certa maneira, sou eu, vai negar tudo, mesmo com todo seu conhecimento do cerimonial religioso. Ele não nega apenas a questão da visita do papa, o que é elementar, superficial. Ele contesta tudo, e isso está representado em pequenos detalhes de sua indumentária, da desolação do espaço onde ele vai se meter, uma paisagem à qual o Papa não iria. Tudo isso está pesando em um conjunto do qual tentei fazer a receita desse conto, que é, de fato, uma história chave do livro. Depois tem algumas coisas no livro, como a negação do milagre, da possibilidade de um milagre... Eu não escrevi na ordem em que pus, fui alinhavando até chegar ao Conto do Turco Jaber, que é um conto louco, que denuncia, entre outras coisas, essa questão da gauchidade. Porque nós temos uma dificuldade muito grande de sermos sul-rio-grandenses. O gentílico é dominado pela palavra “gaúcho”, que se tornou sinônimo. A distância é tão grande entre o gentílico e o significado maior da palavra “gaúcho” que escandaliza.

ZH — Por que o conto? Ao longo de décadas de carreira, o senhor escreveu um único romance, e um livro de contos que se interligam, mas permaneceu focado na forma curta. Essa preferência é uma questão de fôlego literário?
Schlee — Acho que sim. Tem aquela ideia do Cortázar de que o conto é um punch, como no boxe, no qual a gente luta com o leitor e tem a chance de ganhar por nocaute. No romance, a gente ganha por pontos. Acho que por trás disso está a capacidade que a gente possa ter de tratar de um assunto de modo a manter o leitor preso a cada parágrafo ou a cada página.  O conto me garante também a proximidade do final. É um tiro curto, são mil metros no máximo, numa cancha reta, uma carreira de fôlego curto.


ZH — E o que o leva a Don Frutos, um romance de 600 páginas?
Schlee — Eu não tinha alternativa. Estava atulhado de informação e comprometido com a necessidade de abordar o fato de que Fructuoso Rivera, duas vezes presidente do Uruguai, esteve em Jaguarão, minha terra... Um sujeito desses passando pela minha cidade não pode me escapar. Então eu tive que me atirar em cima dessa história, com a ajuda de um pesquisador chamado Amilcar Brum, que se deu ao trabalho de ir a Montevidéu para desencavar tanto material que eu poderia ter escrito três livros, separando por temas. Por exemplo, coisas que não aparecem muito no livro, como a intervenção brasileira, uruguaia e argentina no Paraguai, que não está lá porque o Rivera morreu antes. Mas eu tinha o tema do Rivera em Jaguarão e por ali fiquei.

ZH — Don Frutos parece singular não só pela extensão. É a única história em que o senhor enfoca diretamente uma figura de poder. O fato de Rivera estar doente quando chega a Jaguarão foi o elemento que tornou esse vulto “humano” para ser abarcado pela sua ficção?
Schlee — Exato. No primeiro capítulo do Don Frutos, a decadência física dele é notória, com o homem se mijando, dependendo da mulher e de um outro cara para ajudar a se movimentar, sem ter mais nada. E adiante no romance, a morte do Rivera pode ser lida de várias maneiras, até mesmo por quem domina a grande literatura uruguaia moderna, ao saber que aquele militar que era o secretário particular do Rivera, Onetti, era de fato parente do Juan Carlos Onetti. Há um falso diálogo final, no qual Rivera se refere a seu ajudante Capitão Onetti, que é feito com uma colagem de textos do Onetti escritor.

ZH — Havia, então, uma dificuldade em lidar com o caráter biográfico da narrativa de um símbolo político, dificuldade expressa na estrutura do livro?
Schlee — Tem outras coisas, como por exemplo a vinculação com os índios, ou o fato de ele os ter traído ou não, aquela famosa matança dos charruas. Eu estava sempre no fio da faca. O que eu tenho de documentação real do Rivera, conseguida pelo Amilcar Brum, são papéis do governo, da Assembleia Constituinte, da Câmara, do Senado, das igrejas. Agora, biografias do Rivera, eu tive que repassar todas as que havia disponíveis. Para as escritas pelos blancos, o Rivera era um bandido, ladrão, safado. Para os colorados, era um herói nacional, fundador do país. Eu tive que ficar em cima disso, e em nenhum momento pretendi que o leitor acreditasse que ele era bom ou mau, eu queria, como fiz em toda minha ficção, fugir do  maniqueísmo.

ZH — O senhor é conhecido no Rio Grande do Sul e no Uruguai, mas não no Brasil. Crê que paga o preço por lidar com um território ficcional tão restrito?
Schlee — No Uruguai eu sou considerado autor uruguaio, e fiz parte de uma coleção publicada pela editora Banda Oriental. Mas eu não quero me enganar em cima de proporções. Se em um país com 3 milhões de habitantes e um território menor do que o RS, se lá eu sou muito mais conhecido, proporcionalmente, do que no Brasil, é porque não há proporcionalidade cabível entre Brasil e Uruguai. A minha literatura, que pode ser muito conhecida dentro do Uruguai, é virtualmente desconhecida no Brasil, primeiro pela dificuldade temática. O meu mundo literário tem pouco a ver com o Brasil. E não sairei desse mundo em um esforço falso para ganhar leitores, porque se eu deixá-lo, estou perdido.

ZH — O senhor lida com o lado B da mitologia da formação do território. Quando lança Contos de Futebol, esse olhar se dirige ao lado avesso de outra mitologia, esta contemporânea, a do futebol. Foi um passo consciente?
Schlee — Não, eu queria apenas escrever um livro de futebol. A explicação está em um conto chamado Encanto de Futebol, cujo título diz tudo. Esse “encanto de futebol” contaminou uma série de coisas relacionadas à minha vida, o encanto com o futebol uruguaio em particular. Por isso esse livro saiu como Cuentos de Fútbol primeiro no Uruguai. É um livro uruguaio,  ainda que não tanto como o Limites do Impossível e principalmente O Dia em que o Papa Foi a Melo.



ZH — Em Contos de Verdades,  o senhor escreve “causos”, mas os chama de “verdades”, mesmo sendo histórias que se apresentam como verdadeiras, mas podem não ser.
Schlee — Eu não havia pensado nisso, mas é assim mesmo. Eu estou falando de “verdades” nesse livro mais ou menos do mesmo jeito que se desenvolvem os “causos”, as “fofocas”, para usar uma expressão mais vulgar, e que dão origem à construção de uma verdade que não é necessariamente verdadeira.

ZH — Em Contos de Sempre e Uma Terra Só seus personagens se expressam em uma mistura de espanhol e português, como na fronteira. A partir deLinha Divisória, não apenas o personagem no diálogo, mas o próprio narrador deixa um idioma contaminar o outro. Por quê?
Schlee — Eu aprendi que é possível o narrador assumir a maneira de ser do personagem, deixando de narrar à sua própria maneira. Então, no momento em que estou fazendo uma narrativa referente a um personagem, eu me sinto autorizado a usar esse recurso. Porque há uma dificuldade muito grande para qualquer autor que, como eu, trabalha com personagens rústicos, geralmente pobres, sem educação formal, como são os párias. Os meus personagens são os rejeitados da sorte. Essas pessoas não têm a minha formação, mas têm seu próprio modo de pensar. E quando tento reproduzir o pensamento deles, eu me sinto autorizado a usar esse recurso. É uma coisa que eu vejo que enriqueceu muito a literatura do Simões Lopes Neto, por exemplo.

ZH — Os Limites do Impossível: Contos Gardelianos é um livro em que o senhor mescla conto e novela ao narrar uma trama única tecida das histórias das mulheres que orbitaram o pai de Carlos Gardel. Como chegou a essa história?
Schlee — Essa história eu resolvi escrever no momento em que tive certeza de que era preciso denunciar as arbitrariedades do então presumido pai de Carlos Gardel a partir de tudo o que ele fez na política do Uruguai, mas particularmente em relação ao nascimento desse filho, fruto de estupro e incesto. Então achei que a narração não deveria se referir diretamente a ele, mas às mulheres que tiveram a ver, direta ou indiretamente, com o nascimento de Carlos Gardel.

ZH — O Dia em que o Papa foi a Melo e Os Limites do Impossível, a bem dizer, anteciparam respectivamente O Banheiro do Papa, longa ficcional de Cesar Charlone, e o documentário El Padre de Gardel, que teve uma sessão recente na Capital. Como vê essa circunstância, uma vez que em ambos os casos não parece ter havido menção a seu tratamento anterior do tema?
Schlee — O que eu fiquei estranhando é o quanto sou desconhecido. O Banheiro do Papa tem uma história que poderia ser inspirada no Conto V de O Dia em que o Papa Foi a Melo, também chamado de Melo Era uma Festa, com todas aquelas decepções dos personagens... O clima é o mesmo, os acontecimentos correspondem, os caras que fizeram o filme tiveram o mesmo sentimento que eu tive de identificação com aquelas pobres pessoas que gastaram os últimos centavos que tinham, mataram um leitãozinho de estimação roubaram uma capivara para poder oferecer comida aos brasileiros, porque ia ter 40 mil brasileiros lá. Eram pessoas não à procura de um milagre, mas buscando criá-lo, e foram frustradas. O papa passou, virou lixo tudo aquilo. O filme mostra uma ideia que está lá no meu conto, a de alguém que pensa em fazer uma latrina. Mas o protagonista não está no conto, a guria que queria ser radioatriz não está no conto, e aqueles personagens me emocionaram às lágrimas. Não tenho do que reclamar, fico feliz que tenham feito um filme tão bom. Esse documentário do Gardel eu não vi. Os fatos, os acontecimentos históricos que sustentam a minha ficção no caso dos Contos Gardelianos, são comprovados e são os mesmos que devem ter sustentado o documentário. Não tenho como me queixar de nada. Só fico com pena que estejamos tão perto e tão longe do Uruguai ao mesmo tempo, o que comprova que meu mundo literário é limitado e distante.

ZH — Contos da Vida Difícil, seu livro mais recente, retrata um momento em que Jaguarão se torna ponto de passagem do tráfico de mulheres – na sequência da construção da ponte que liga a cidade a Rio Branco, no Uruguai. Havia a intenção de confrontar essa ponte, signo de passagem, com a situação dessas mulheres, presas à prostituição no município?
Schlee — Bem observado. Se há alguma possibilidade de encantamento com esse tema, como também em relação ao futebol, é no fato de ser um assunto que Jaguarão considerou necessário esconder e fazer de conta que não é parte de sua memória. Isso aconteceu de uma forma que eu não procurei explicar, porque eu próprio não encontro explicação. Por que esses fatos raramente respingaram algumas famílias de Jaguarão? Por que a maioria das pessoas de Jaguarão esqueceu disso? Por que não se fala que o cabaré que foi tão importante, o do Tomazinho, ainda existe como prédio pertencente a um clube social, o Instrução e Recreio? Os sócios se envergonhariam de dizer “aqui funcionou um cabaré”? Não sei se terá sido isso, mas os acontecimentos eram tão contraditórios que em cima deles eu tinha de construir algo.

ZH — O primeiro conto desse livro, Carnet de Divertissement, é sobre um caderninho de nomes dos clientes dos cabarés. E o senhor o compara textualmente a um “caderno de venda”. Essa frase tem o intuito de equiparar as mulheres ali escravizadas a mercadorias de comércio, ?
Schlee — Sim. Ao citar os fregueses cujos nomes aparecem nesse caderno, estou denunciando que muitos deles viraram nomes de rua e é melhor nem seguir adiante. É uma justificativa em parte para essa minha narrativa estar rompendo com esse pacto de silêncio e esquecimento.

Os livros
 Contos de Sempre (contos, 1983)
 Uma Terra Só (contos, 1984)
 O Dia em que o Papa Foi a Melo (contos, 1991, publicado primeiro Uruguai, em espanhol, e editado no  Brasil, em português, em  1999)
 Contos de Futebol (contos, 1997)
 Linha Divisória (contos, 1998)
 Contos de Verdades (contos, 2000)
 Os Limites do Impossível: Contos Gardelianos (contos, 2009)
 Don Frutos (romance, 2010)
 Contos da Vida Difícil (contos, 2013)

Fonte: http://zerohora.clicrbs.com.br    Série obra completa26/10/2013 

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Apresentação dos Contos da Vida Difícil por Aldyr Garcia Schlee


A DIFÍCIL VIDA FÁCIL

Estes Contos da vida difícil são uma obra da imaginação que não vai além do imaginável, porque está contida na busca das razões do esquecimento, na revelação de certas lembranças não-autorizadas e na tentativa nem sempre bem sucedida de recuperação de uma olvidada memória coletiva.

São velhas e sumidas histórias jaguarenses que todos fizemos questão de ocultar desde o início do século XX e cuja lembrança foi preciso reprimir, excluir e suprimir, especialmente a partir de 1930 − e até hoje, já vão quase cem anos.

Jaguarão, que só em 1904 tivera enfim seu porto fluvial aberto à navegação com o Uruguai, viu construir-se entre 1920 e 1930 a grande Ponte Internacional que a ligaria definitivamente ao país vizinho. Nesse período, centenas e centenas de homens − um milhar e pico de homens, talvez − das mais variadas raças e mais diferentes procedências, dos mais diferentes ofícios e das mais variadas habilidades viveram na cidade aquilo que se chamaria “a grande epopéia da construção da Ponte”. Foram dias, meses e anos em que naturalmente a cidade se encheu de mulheres, apareceram automóveis e gramofones, surgiram negócios e empregos, construíram-se casas e fortunas − era farra e trabalho, trabalho e farra. De noite, havia luz elétrica, música e bochincho: os cabarés iluminavam-se até de manhã; e mesmo os lugares mais pobres, os tristes puterios das margens do rio ficavam acordados no alvoroto que se armava noite afora (e era como se fossem alegres, e ricos).

Entre 1930 e 32, as redes de traficantes de mulheres tornaram-se escandalosamente públicas nos limites do Brasil com o Uruguai. Nossa fronteira transformou-se num lugar privilegiado para a circulação de mulheres europeias e dos proxenetas que buscavam introduzi-las no Brasil a partir do Atlântico Sul, fugindo da perseguição policial que atingia “o tráfico de escravas brancas” na Argentina e no Uruguai. O Rio de Janeiro era o mercado de colocação preferido; Montevidéu, um refúgio e base de operações; e Jaguarão, com nosso rio e sua Ponte, o lugar escolhido para uma parada delas, de passagem clandestina para o Norte.

Essas informações (como tantas outras sobre o assunto), eu as obtive em um livro. publicado com o título Las rutas de Eros (Taurus, 2006), pela pesquisadora uruguaia Yvette Trochon sobre o tráfico de mulheres nos países do Atlântico Sul, de 1880 a 1932, incluindo estudos documentados das condições sociais, políticas e econômicas que tornaram possível, na época, a difusão por aqui do rendoso negócio de compra e venda de seres humanos.

Poderá parecer que estes contos, rompendo com um silêncio cúmplice e conivente sobre as misérias da chamada “vida fácil”, não passem da retomada de um passado distante. Contudo, restritos aos limites do imaginável, situam-se no plano de uma mesma e permanente realidade que, se não se esquece e se oculta deliberadamente, tem sido abordada com os prejuízos e preconceitos característicos de uma sociedade conformada por suas próprios mazelas.

O tema relativo ao mercado prostibulário e, especialmente ao tráfico de mulheres foi sempre desenvolvido através de estereótipos, no plano do melodrama de folhetim e do convencionalismo conformista, através de um discurso moralizador de grande poder emocional que o deturpa e que encontra eco na pregação de certos religiosos e reformadores sociais.

Por tudo isto, as histórias de mulheres e homens de vida fácil, girando em torno da sedução barata, da violência gratuita e da perversidade maniqueísta, não têm lugar aqui.

Aldyr Garcia Schlee
Capão do Leão, verão de 2013


O novo livro de Aldyr Garcia Schlee, Contos da vida difícil, será lançado nacionalmente no próximo dia 23, na Bibliotheca Pública Pelotense.


domingo, 28 de julho de 2013

Lançamento do Varal Antológico III



Participando como um dos co-autores de Varal Antológico III, gostaria de contar com a presença dos caros amigos, a fim de nos prestigiar no lançamento dessa obra que deverá ocorrer no próximo dia 2 de agosto (sexta feira), às 19 horas, na Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina. 

José Alberto de Souza

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Inscrições para o Prêmio Sesc de Literatura 2013 seguem até 31 de julho


Candidatos podem concorrer nas categorias conto e romance.
Prêmio Inscrições para o Prêmio Sesc de Literatura 2013 seguem até 31 de julho
Já estão abertas as inscrições para o Prêmio Sesc de Literatura 2013. Os candidatos podem concorrer nas categorias conto e romance, porém os textos precisam ser inéditos. A distinção foi criada em 2003, com o objetivo de identificar escritores cujas obras possuam qualidade literária para edição e circulação nacional. As inscrições seguem abertas até 31 de julho pelosite www.sesc.com.br/premiosesc. Os interessados devem preencher o formulário e enviar a obra para a Gerência de Cultura do Sesc/RS (Av. Alberto Bins, 665 – 5º andar).
Os livros devem ser destinados ao público adulto, em língua portuguesa e o autor deve ter mais de 18 anos. O processo de seleção das obras é feito em duas etapas. Inicialmente, cinco subcomissões regionais fazem uma pré-seleção das obras para encaminhamento à comissão final. O júri final elege as obras vencedoras, podendo selecionar até três menções honrosas em cada categoria. O candidato é julgado através de um pseudônimo.
O Prêmio Sesc de Literatura é um concurso anual, voltado para escritores inéditos, que publica e distribui obras literárias de qualidade por meio de uma seleção democrática e criteriosa. Com esse Prêmio, os escritores entram para o catálogo da Editora e passam a receber os direitos autorais correspondentes à comercialização em livrarias, além de terem seus livros distribuídos para toda a rede de bibliotecas e salas de leitura do Sesc em todo o país e para escritores, críticos literários e formadores de opinião.
A iniciativa visa revelar novos talentos e promover a literatura nacional: mais do que oferecer uma oportunidade a novos escritores, o Prêmio Sesc de Literatura cumpre um importante papel na área de cultura, proporcionando uma renovação no panorama editorial brasileiro. O edital com as informações completas sobre o Prêmio Sesc de Literatura está disponível no site www.sesc.com.br/premiosesc.
Sobre o Sesc - No Rio Grande do Sul, o Sesc está presente nos 497 municípios gaúchos com atividades sistemáticas em áreas como a saúde, esporte, lazer, cultura, cidadania, turismo e educação. Desta forma, o Sesc/RS desempenha o papel social, assim como o Senac o da qualificação profissional do Sistema Fecomércio-RS, entidade que atua em âmbito econômico, político e social pela constante qualificação e desenvolvimento do setor terciário gaúcho. Saiba mais sobre a entidade em www.sesc-rs.com.br.
Fonte: http://www.ecult.com.br

terça-feira, 21 de maio de 2013

Antonio Cândido indica 10 livros para conhecer o Brasil


Por Antonio Candido.*
Quando nos pedem para indicar um número muito limitado de livros importantes para conhecer o Brasil, oscilamos entre dois extremos possíveis: de um lado, tentar uma lista dos melhores, os que no consenso geral se situam acima dos demais; de outro lado, indicar os que nos agradam e, por isso, dependem sobretudo do nosso arbítrio e das nossas limitações. Ficarei mais perto da segunda hipótese.
Como sabemos, o efeito de um livro sobre nós, mesmo no que se refere à simples informação, depende de muita coisa além do valor que ele possa ter. Depende do momento da vida em que o lemos, do grau do nosso conhecimento, da finalidade que temos pela frente. Para quem pouco leu e pouco sabe, um compêndio de ginásio pode ser a fonte reveladora. Para quem sabe muito, um livro importante não passa de chuva no molhado. Além disso, há as afinidades profundas, que nos fazem afinar com certo autor (e portanto aproveitá-lo ao máximo) e não com outro, independente da valia de ambos.
Por isso, é sempre complicado propor listas reduzidas de leituras fundamentais. Na elaboração da que vou sugerir (a pedido) adotei um critério simples: já que é impossível enumerar todos os livros importantes no caso, e já que as avaliações variam muito, indicarei alguns que abordam pontos a meu ver fundamentais, segundo o meu limitado ângulo de visão. Imagino que esses pontos fundamentais correspondem à curiosidade de um jovem que pretende adquirir boa informação a fim de poder fazer reflexões pertinentes, mas sabendo que se trata de amostra e que, portanto, muita coisa boa fica de fora. 
São fundamentais tópicos como os seguintes: os europeus que fundaram o Brasil; os povos que encontraram aqui; os escravos importados sobre os quais recaiu o peso maior do trabalho; o tipo de sociedade que se organizou nos séculos de formação; a natureza da independência que nos separou da metrópole; o funcionamento do regime estabelecido pela independência; o isolamento de muitas populações, geralmente mestiças; o funcionamento da oligarquia republicana; a natureza da burguesia que domina o país. É claro que estes tópicos não esgotam a matéria, e basta enunciar um deles para ver surgirem ao seu lado muitos outros. Mas penso que, tomados no conjunto, servem para dar uma ideia básica.
Entre parênteses: desobedeço o limite de dez obras que me foi proposto para incluir de contrabando mais uma, porque acho indispensável uma introdução geral, que não se concentre em nenhum dos tópicos enumerados acima, mas abranja em síntese todos eles, ou quase. E como introdução geral não vejo nenhum melhor do que O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro, livro trepidante, cheio de ideias originais, que esclarece num estilo movimentado e atraente o objetivo expresso no subtítulo: “A formação e o sentido do Brasil”.
Quanto à caracterização do português, parece-me adequado o clássico Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, análise inspirada e profunda do que se poderia chamar a natureza do brasileiro e da sociedade brasileira a partir da herança portuguesa, indo desde o traçado das cidades e a atitude em face do trabalho até a organização política e o modo de ser. Nele, temos um estudo de transfusão social e cultural, mostrando como o colonizador esteve presente em nosso destino e não esquecendo a transformação que fez do Brasil contemporâneo uma realidade não mais luso-brasileira, mas, como diz ele, “americana”.
Em relação às populações autóctones, ponho de lado qualquer clássico para indicar uma obra recente que me parece exemplar como concepção e execução: História dos índios do Brasil (1992), organizada por Manuela Carneiro da Cunha e redigida por numerosos especialistas, que nos iniciam no passado remoto por meio da arqueologia, discriminam os grupos linguísticos, mostram o índio ao longo da sua história e em nossos dias, resultando uma introdução sólida e abrangente.
Seria bom se houvesse obra semelhante sobre o negro, e espero que ela apareça quanto antes. Os estudos específicos sobre ele começaram pela etnografia e o folclore, o que é importante, mas limitado. Surgiram depois estudos de valor sobre a escravidão e seus vários aspectos, e só mais recentemente se vem destacando algo essencial: o estudo do negro como agente ativo do processo histórico, inclusive do ângulo da resistência e da rebeldia, ignorado quase sempre pela historiografia tradicional. Nesse tópico resisto à tentação de indicar o clássico O abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco, e deixo de lado alguns estudos contemporâneos, para ficar com a síntese penetrante e clara de Kátia de Queirós Mattoso, Ser escravo no Brasil (1982), publicado originariamente em francês. Feito para público estrangeiro, é uma excelente visão geral desprovida de aparato erudito, que começa pela raiz africana, passa à escravização e ao tráfico para terminar pelas reações do escravo, desde as tentativas de alforria até a fuga e a rebelião. Naturalmente valeria a pena acrescentar estudos mais especializados, como A escravidão africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart ou A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes, que estuda em profundidade a exclusão social e econômica do antigo escravo depois da Abolição, o que constitui um dos maiores dramas da história brasileira e um fator permanente de desequilíbrio em nossa sociedade.
Esses três elementos formadores (português, índio, negro) aparecem inter-relacionados em obras que abordam o tópico seguinte, isto é, quais foram as características da sociedade que eles constituíram no Brasil, sob a liderança absoluta do português. A primeira que indicarei é Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre. O tempo passou (quase setenta anos), as críticas se acumularam, as pesquisas se renovaram e este livro continua vivíssimo, com os seus golpes de gênio e a sua escrita admirável – livre, sem vínculos acadêmicos, inspirada como a de um romance de alto voo. Verdadeiro acontecimento na história da cultura brasileira, ele veio revolucionar a visão predominante, completando a noção de raça (que vinha norteando até então os estudos sobre a nossa sociedade) pela de cultura; mostrando o papel do negro no tecido mais íntimo da vida familiar e do caráter do brasileiro; dissecando o relacionamento das três raças e dando ao fato da mestiçagem uma significação inédita. Cheio de pontos de vista originais, sugeriu entre outras coisas que o Brasil é uma espécie de prefiguração do mundo futuro, que será marcado pela fusão inevitável de raças e culturas.
Sobre o mesmo tópico (a sociedade colonial fundadora) é preciso ler também Formação do Brasil contemporâneo, Colônia (1942), de Caio Prado Júnior, que focaliza a realidade de um ângulo mais econômico do que cultural. É admirável, neste outro clássico, o estudo da expansão demográfica que foi configurando o perfil do território – estudo feito com percepção de geógrafo, que serve de base física para a análise das atividades econômicas (regidas pelo fornecimento de gêneros requeridos pela Europa), sobre as quais Caio Prado Júnior engasta a organização política e social, com articulação muito coerente, que privilegia a dimensão material. 
Caracterizada a sociedade colonial, o tema imediato é a independência política, que leva a pensar em dois livros de Oliveira Lima: D. João VI no Brasil (1909) eO movimento da Independência (1922), sendo que o primeiro é das maiores obras da nossa historiografia. No entanto, prefiro indicar um outro, aparentemente fora do assunto: A América Latina, Males de origem (1905), de Manuel Bonfim. Nele a independência é de fato o eixo, porque, depois de analisar a brutalidade das classes dominantes, parasitas do trabalho escravo, mostra como elas promoveram a separação política para conservar as coisas como eram e prolongar o seu domínio. Daí (é a maior contribuição do livro) decorre o conservadorismo, marca da política e do pensamento brasileiro, que se multiplica insidiosamente de várias formas e impede a marcha da justiça social. Manuel Bonfim não tinha a envergadura de Oliveira Lima, monarquista e conservador, mas tinha pendores socialistas que lhe permitiram desmascarar o panorama da desigualdade e da opressão no Brasil (e em toda a América Latina).
Instalada a monarquia pelos conservadores, desdobra-se o período imperial, que faz pensar no grande clássico de Joaquim Nabuco: Um estadista do Império(1897). No entanto, este livro gira demais em torno de um só personagem, o pai do autor, de maneira que prefiro indicar outro que tem inclusive a vantagem de traçar o caminho que levou à mudança de regime: Do Império à República(1972), de Sérgio Buarque de Holanda, volume que faz parte da História geral da civilização brasileira, dirigida por ele. Abrangendo a fase 1868-1889, expõe o funcionamento da administração e da vida política, com os dilemas do poder e a natureza peculiar do parlamentarismo brasileiro, regido pela figura-chave de Pedro II. 
A seguir, abre-se ante o leitor o período republicano, que tem sido estudado sob diversos aspectos, tornando mais difícil a escolha restrita. Mas penso que três livros são importantes no caso, inclusive como ponto de partida para alargar as leituras. 
Um tópico de grande relevo é o isolamento geográfico e cultural que segregava boa parte das populações sertanejas, separando-as da civilização urbana ao ponto de se poder falar em “dois Brasis”, quase alheios um ao outro. As consequências podiam ser dramáticas, traduzindo-se em exclusão econômico-social, com agravamento da miséria, podendo gerar a violência e o conflito. O estudo dessa situação lamentável foi feito a propósito do extermínio do arraial de Canudos por Euclides da Cunha n’Os sertões (1902), livro que se impôs desde a publicação e revelou ao homem das cidades um Brasil desconhecido, que Euclides tornou presente à consciência do leitor graças à ênfase do seu estilo e à imaginação ardente com que acentuou os traços da realidade, lendo-a, por assim dizer, na craveira da tragédia. Misturando observação e indignação social, ele deu um exemplo duradouro de estudo que não evita as avaliações morais e abre caminho para as reivindicações políticas. 
Da Proclamação da República até 1930 nas zonas adiantadas, e praticamente até hoje em algumas mais distantes, reinou a oligarquia dos proprietários rurais, assentada sobre a manipulação da política municipal de acordo com as diretrizes de um governo feito para atender aos seus interesses. A velha hipertrofia da ordem privada, de origem colonial, pesava sobre a esfera do interesse coletivo, definindo uma sociedade de privilégio e favor que tinha expressão nítida na atuação dos chefes políticos locais, os “coronéis”. Um livro que se recomenda por estudar esse estado de coisas (inclusive analisando o lado positivo da atuação dos líderes municipais, à luz do que era possível no estado do país) é Coronelismo, enxada e voto (1949), de Vitor Nunes Leal, análise e interpretação muito segura dos mecanismos políticos da chamada República Velha (1889-1930). 
O último tópico é decisivo para nós, hoje em dia, porque se refere à modernização do Brasil, mediante a transferência de liderança da oligarquia de base rural para a burguesia de base industrial, o que corresponde à industrialização e tem como eixo a Revolução de 1930. A partir desta viu-se o operariado assumir a iniciativa política em ritmo cada vez mais intenso (embora tutelado em grande parte pelo governo) e o empresário vir a primeiro plano, mas de modo especial, porque a sua ação se misturou à mentalidade e às práticas da oligarquia. A bibliografia a respeito é vasta e engloba o problema do populismo como mecanismo de ajustamento entre arcaísmo e modernidade. Mas já que é preciso fazer uma escolha, opto pelo livro fundamental de Florestan Fernandes, A revolução burguesa no Brasil (1974). É uma obra de escrita densa e raciocínio cerrado, construída sobre o cruzamento da dimensão histórica com os tipos sociais, para caracterizar uma nova modalidade de liderança econômica e política. 
Chegando aqui, verifico que essas sugestões sofrem a limitação das minhas limitações. E verifico, sobretudo, a ausência grave de um tópico: o imigrante. De fato, dei atenção aos três elementos formadores (português, índio, negro), mas não mencionei esse grande elemento transformador, responsável em grande parte pela inflexão que Sérgio Buarque de Holanda denominou “americana” da nossa história contemporânea. Mas não conheço obra geral sobre o assunto, se é que existe, e não as há sobre todos os contingentes. Seria possível mencionar, quanto a dois deles, A aculturação dos alemães no Brasil (1946), de Emílio Willems; Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni, ou Do outro lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento – mas isso ultrapassaria o limite que me foi dado.
No fim de tudo, fica o remorso, não apenas por ter excluído entre os autores do passado Oliveira Viana, Alcântara Machado, Fernando de Azevedo, Nestor Duarte e outros, mas também por não ter podido mencionar gente mais nova, como Raimundo Faoro, Celso Furtado, Fernando Novais, José Murilo de Carvalho, Evaldo Cabral de Melo etc. etc. etc. etc. 
* Artigo publicado na edição 41 da revista Teoria e Debate – em 30/09/2000
   Antonio Candido é sociólogo, crítico literário e ensaísta.
Fonte: Blog da Boitempo    http://www.advivo.com.br

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

El País Cultural: Historias de Diccionarios


Conservadores de vida


Alberto Manguel

"El lenguaje es lo que más hace ver a un hombre: habla, para que pueda verte".
Ben Jonson, Madera, o Descubrimientos sobre hombres y materia(1640)

ESTAMOS CONDENADOS a la pérdida. Desde el momento en que llegamos al mundo, perdemos todo lo que creemos que es nuestro, desde la comodidad del útero hasta el recuerdo de toda una vida. Las circunstancias cambian, el deseo declina, nuestro recuerdo pierde su alcance. Caminamos hacia la tumba desprendiéndonos de cosas: juguetes, compañeros de juego, padres, maestros, tierra natal, entusiasmos, fechas, gustos, creencias, chucherías acumuladas sobre la orilla a través de los años. Todo estos elementos y muchos más son llevados por la corriente, olvidados (pero ahora no puedo recordar qué son) como para hacer más liviano nuestro descenso al reino de las sombras. La muerte no es, como nos gusta suponer, un ladrón en la noche, sino que se parece más bien a uno de esos invitados deshonestos que vienen a pasar un fin de semana y se van quedando poco a poco más de lo debido, ocupando cada vez más espacio en períodos cada vez más largos, hasta que sentimos que ya no nos pertenecen ni nuestra casa ni nuestra vida. "¿Dónde pusimos aquel libro?", preguntamos. "¿Dónde está aquella fotografía que yo sé que tenía?". "¿Cuál era aquel nombre, aquella dirección, aquella mirada inolvidable, aquella línea memorable?". Almas para el olvido, escribió alguien, pero el resto de las líneas que conocía también han desaparecido, llevadas en el bolsillo del ladrón, para nunca más ser vistas.

Y sin embargo, un racimo de estas cosas sigue firme, resistiendo con tozudez el secuestro, de manera tal que en la luz difusa de la vejez podemos reconocer algunos rostros familiares, algunos fragmentos variados y queridos: algunos pero no muchos, y no siempre. La mayoría de ellos no son famosos ni prestigiosos: nuestro recuerdo no es quisquilloso. Una sonrisa baja flotando, desencarnada, como la mueca del gato de Cheshire; un trozo de canción, un párrafo de un cuento, la imagen veteada de un bosque, una conversación sin importancia: estos persisten, desparramados en el suelo después de que pasa el camión de la basura. En este montón de restos hay también unos pocos objetos sólidos: tal vez una taza, una lapicera, una piedra, un volumen de poesía y, por qué no, un diccionario.



sábado, 17 de novembro de 2012

HEROICIDADES E HONRAS INCERTAS

Por Carlos Rizzon

Capitanes de la Defensa de Paysandú, hermanos Pedro, Maximo y Rafael Rivero, 
capitanes Lidoro Sierra y Garcia. Diciembre de 1864.  
            Na década de 60 do século XIX, às vésperas da Guerra do Paraguai, distúrbios políticos internos no Uruguai provocaram enfrentamentos bélicos que envolveram brasileiros no cerco da cidade uruguaia de Paysandu e, em contrapartida, a invasão da cidade brasileira de Jaguarão por parte de uruguaios. Por suas resistências, ambas cidades passaram a ostentar títulos de cidades heroicas. As glorificações dessas heroicidades permanecem ainda hoje no orgulho dos seus cidadãos, no entanto, de um modo quase total, não se sabe mais as causas que motivaram as guerras entre as nações vizinhas. Atualmente, a rua principal de Jaguarão, por exemplo, tem o nome de “27 de janeiro”. O dia é 27. O mês é janeiro. Mas se refere a qual ano? Fazendo-se essa pergunta às pessoas na cidade, raras são os que respondem “1865”. Isso reflete que o que sobrevive não é o conjunto daquilo que existiu no passado, mas uma escolha de parcialidades. A história contada hoje nas ruas de Jaguarão rejubila-se em falar que sua população se defendeu e “correu os castelhanos” a “pelegaços” e água quente. No outro lado do rio que demarca a divisa entre o Brasil e o Uruguai, livros de história apresentam outra versão sobre o mesmo episódio, enfocando que uma força brasileira de mais de 500 homens foi derrotada, deixando em poder dos blancos uruguaios armas e cavalhadas e um estandarte imperial. Dizem também que, após sitiarem a cidade, retiraram-se por falta de armamento.

Os acontecimentos do final de 1864, na cidade uruguaia de Paysandu, e de janeiro de 1865, em Jaguarão, estão diretamente relacionados. No ano de 1864, o caudilho uruguaio do partido colorado Venancio Flores sitia com seu exército a cidade de Paysandu. O caudilho contou com o apoio do presidente da Argentina, o general Bartolomé Mitre, e com a cumplicidade do Império brasileiro, comprometido com interesses de brasileiros que viviam nos campos uruguaios e que estavam ameaçados de expulsão do Uruguai pelo governo dos blancos. Dessa forma, Venancio Flores pôde reunir ao seu lado 16.000 homens dos exércitos de três nações para enfrentar cerca de 700 homens que defendiam aquela cidade. A historiografia tradicional uruguaia costuma colocar o cerco de Paysandu no plano da disputa entre blancos e colorados, minimizando o componente dos interesses estrangeiros. No entanto, para a historiografia tradicional brasileira, o mesmo acontecimento faz parte do preâmbulo da Guerra do Paraguai, o que justifica a intervenção do Império no território uruguaio. Se as interpretações políticas avaliam o episódio em uma ou outra conjuntura, o certo é que o fato representou consequências em quaisquer dos contextos. O sítio a Paysandu durou de 2 dezembro de 1864 a 2 de janeiro do ano seguinte, até a cidade ser tomada pelos colorados que, depois, seguiram com seus aliados rumo a Montevidéu para ocupar o poder. Procurando forçar os brasileiros a recuarem para defender suas fronteiras, os blancos do norte do Uruguai atacaram Jaguarão. Sem alcançar seus objetivos, retiraram-se no dia seguinte, o famoso 27 de janeiro, dia em que a população civil de Jaguarão expulsou os “castelhanos”.


Diário do Rio de Janeiro, edição do dia 11 de fevereiro de 1865, publica carta do correspondente em Pelotas
 sobre os  acontecimentos em Jaguarão - fonte Biblioteca Nacional

A divergência dos discursos entre vencedores e vencidos sobre um mesmo fato do passado é explicada pelo pensador francês Paul Ricoeur, que fala da ficcionalização da história e da historicização da ficção através de um entrecruzamento de narrativas históricas e literárias. Enredando a invenção com os acontecimentos ocorridos nas duas cidades, os escritores Aldyr Garcia Schlee, brasileiro, e Mario Delgado Aparaín, uruguaio, rememoram os fatos para potencializar questionamentos e desmistificar glórias que recobrem o imaginário popular. Em No robarás las botas de los muertos, Delgado Aparaín dá identidade a personagens anônimos que participaram na defesa de Paysandu. Sua obra dialoga com La defensa de Paysandú, texto testemunhal do soldado Orlando Ribero, que é apontado como uma das melhores fontes sobre os acontecimentos do final de 1864 no Uruguai. No entanto, Ribero, ao mesmo tempo em que não esquece de enaltecer seus líderes e de se colocar como protagonista em muitas ações, deixa no anonimato seus companheiros, dando-lhes papel coadjuvante. No romance de Delgado Aparaín, por sua vez, uma personagem apenas mencionada por Ribero como um voluntário espanhol é nomeada e tem história: trata-se de Martín Zamora, que teria se incorporado na defesa da cidade não por um ideal, mas para salvar sua própria pele, uma vez que estaria condenado a fuzilamento por contrabando no momento em que Paysandu é sitiada por exércitos dos uruguaios colorados, do Brasil e da Argentina.

Inversamente, sem pegar em armas, mas igualmente sem reconhecer apego à nação, a personagem don Sejanes, que dá nome a um conto de Aldyr Garcia Schlee, não se envolve na defesa de Jaguarão quando atacada pelos blancos uruguaios. Para ele, nascido na vizinha Melo, no lado uruguaio, e batizado na paróquia de Jaguarão, não existiam motivos para o enfrentamento entre brasileiros e uruguaios. Don Sejanes sequer reconhecia essa divisão, pois tinha consciência que ele mesmo era fruto de uma diversidade de povos: “sabia que era um pouco índio e espanhol e português, mas que era mais oriental e brasileiro, se tivesse que ser algo além de ser gaúcho como queria e gostava”, descreve o narrador. Vivendo no trânsito de um a outro lado do rio Jaguarão, don Sejanes não reconhece a separação estabelecida por aqueles que se julgam donos das terras. Assim, não vê motivos para defender um território que, no seu entender, não pertencia a ninguém e que deveria ser compartilhado entre os que nele vivessem.

Apresentando considerações mais amplas, o romance No robarás las botas de los muertos e o conto “Don Sejanes” desestabilizam os motivos que sustentam o orgulho afirmado em Paysandu e em Jaguarão. Na obra do autor uruguaio, denuncia-se a formação de uma aliança entre os colorados uruguaios, a Argentina e o Império brasileiro para derrubar um governo constituído legalmente. Contrariamente à glorificação de personagens famosas que lutaram na defesa da cidade que textos canônicos, históricos ou literários, manifestam, Delgado Aparaín oferece uma trama que envolve espaços que vão para além do território uruguaio, onde os combatentes, com a defesa da cidade sitiada, estavam resistindo à destruição de valores universais. O conto de Schlee também não se restringe a um único fato histórico e, retratando a invasão uruguaia à Jaguarão, coloca vários outros questionamentos em pauta, desmistificando a bravura da defesa da cidade. Tomados isoladamente, os acontecimentos em Paysandu e em Jaguarão reforçam a construção de glórias e heroicidades. Elevadas a “cidades heroicas”, constituem versões únicas dos fatos, não considerando as diferenças e a diversidade da complexa conjuntura das nações no século XIX. Existem razões para valorizar Jaguarão como heroica se habitantes seus constituíam o exército brasileiro que, covardemente, sitiou e atacou Paysandu? Existem razões para considerar Paysandu heroica se seus correligionários atacaram covardemente a população de Jaguarão?


Carlos Rizzon
Professor  do Curso de Letras da Unipampa - Jaguarão 


Texto publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia 07/11/2012

Clandestino - Gilberto Isquierdo e Said Baja

  Assim como o Said, milhares de palestinos tiveram de deixar seu país buscando refúgio em outros lugares do mundo. Radicado nesta fronteir...