quarta-feira, 23 de julho de 2014

O varejão evangélico e a sessentona sexy



Vi no centro de Porto Alegre a placa de uma loja: Varejão Evangélico. Vi o anúncio de uma massagista nos classificados do Correio do Povo: Sessentona de Cachoeirinha. O que será que o Varejão Evangélico vende que outros não vendem? Se a moda pega, logo teremos produtos orgânicos evangélicos, refrigerantes zero açúcar e zero tentação, tudo benzido ainda por cima. Isso me lembra de uma campanha bolada por um amigo meu, a Coleção Nosferatu Infantil, com brinquedos para a Romênia. Mas um caderno em forma de ataúde e um lápis que também serve de estaca, ou pasta de dente com sabor de sangue, não dão pra saída, convenhamos.

Quanto à Sessentona de Cachoeirinha, ela diz que faz o diabo a quatro, até inversão. Eu, o sessentão da Vila Nova, não tenho ideia do que seja essa tal de inversão, mas temo que a coisa acabe em torcicolo ou numa crise de ciático ou mesmo numa bacia deslocada. Depois talvez dê para brincar de adeus às armas, quer dizer, de paciente e enfermeira, seu ignorante. De qualquer forma incluí a dita inversão na minha lista de alegrias da melhor idade.

Senti, de um modo obscuro, que há uma ligação entre o Varejão Evangélico e a Sessentona de Cachoeirinha. Mas qual, além da óbvia promessa de uma realização intangível? Será que a Sessentona é tia do dono do Varejão? Não sei. São misteriosos os caminhos do Senhor.

Inteligências e burrices múltiplas
O conceito das inteligências múltiplas pegou, me parece que com razão. Eu, pelo menos, sou bem espertinho para umas coisas, mas até hoje tenho problemas com a tabuada do sete pra cima, por exemplo. Agora, o que há de reconfortante nesse conceito tem também de amedrontador, basta olhar para ele de trás pra frente: as burrices múltiplas. Se fizermos direito as contas, é possível descobrir que somos estúpidos em muito mais coisas do que somos inteligentes. Vou mais longe. Não só não somos inteligentes em tudo, como nem sempre somos inteligentes no que somos comprovadamente inteligentes. Qualquer coisinha do dia a dia pode nos desafinar, uma noite mal dormida, um desencontro, uma chuva, um esquecimento, uma broxada. Quantas vezes uma amizade ou inimizade nos obscureceu o raciocínio? Os famosos testes de QI são ótimos, quando aplicados em máquinas.

QBS
Sempre desejei ver um teste que medisse nosso quociente de bom senso. Acho bom senso mais importante que inteligência. Ou bom senso é um tipo de inteligência? Leva jeito de ser. Mas o diabo é que o bom senso sofre da mesma precariedade. Vi mais de uma vez pessoa de comprovado bom senso cometendo desatinos como qualquer papalvo ou doidivanas.
Em literatura, por exemplo, o bom senso não recomenda usar palavras como papalvo e doidivanas. Por falar nisso, em literatura o bom senso é um bom guia em matéria estilística, uma ferramenta pra hora de passar a limpo, mas pouco mais. Os melhores livros nasceram de apostas loucas, de aventuras extravagantes, de delírios, de pesadelos.

Anúncios fúnebres
Notei que os anúncios de falecimento ou convite para missa de sétimo dia costumam sair no rodapé da seção de polícia dos jornais. Por quê? O mistério é metafísico ou essas páginas são mais baratas apenas? Notei outra coisa também: nomes como Carlinda, Estranzulina, Herculano ou Libânio são vistos apenas nesses anúncios. Jamais se viu uma Estranzulina viva e atuante. Essa gente parece sair do nada direto pro cemitério. O pior é que as fotos que ilustram os anúncios são típicas. Mesmo fora de contexto, sabemos: trata-se de defunto.

Paternalismo
Vi muitos empresários dizerem que o povão não deve ver no Estado um pai, mas, sim, botar o pé na rua e se virar em nome da livre concorrência. Mas vi esses mesmos empresários mamando nas tetas do Estado a vida toda. Oquei, oquei. É preciso ver uma mãe no Estado, não um pai. Que cabeça a minha.

Choros
Quem não chora não mama, como dizia o bebê de Rosemary.

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