sábado, 17 de novembro de 2012

HEROICIDADES E HONRAS INCERTAS

Por Carlos Rizzon

Capitanes de la Defensa de Paysandú, hermanos Pedro, Maximo y Rafael Rivero, 
capitanes Lidoro Sierra y Garcia. Diciembre de 1864.  
            Na década de 60 do século XIX, às vésperas da Guerra do Paraguai, distúrbios políticos internos no Uruguai provocaram enfrentamentos bélicos que envolveram brasileiros no cerco da cidade uruguaia de Paysandu e, em contrapartida, a invasão da cidade brasileira de Jaguarão por parte de uruguaios. Por suas resistências, ambas cidades passaram a ostentar títulos de cidades heroicas. As glorificações dessas heroicidades permanecem ainda hoje no orgulho dos seus cidadãos, no entanto, de um modo quase total, não se sabe mais as causas que motivaram as guerras entre as nações vizinhas. Atualmente, a rua principal de Jaguarão, por exemplo, tem o nome de “27 de janeiro”. O dia é 27. O mês é janeiro. Mas se refere a qual ano? Fazendo-se essa pergunta às pessoas na cidade, raras são os que respondem “1865”. Isso reflete que o que sobrevive não é o conjunto daquilo que existiu no passado, mas uma escolha de parcialidades. A história contada hoje nas ruas de Jaguarão rejubila-se em falar que sua população se defendeu e “correu os castelhanos” a “pelegaços” e água quente. No outro lado do rio que demarca a divisa entre o Brasil e o Uruguai, livros de história apresentam outra versão sobre o mesmo episódio, enfocando que uma força brasileira de mais de 500 homens foi derrotada, deixando em poder dos blancos uruguaios armas e cavalhadas e um estandarte imperial. Dizem também que, após sitiarem a cidade, retiraram-se por falta de armamento.

Os acontecimentos do final de 1864, na cidade uruguaia de Paysandu, e de janeiro de 1865, em Jaguarão, estão diretamente relacionados. No ano de 1864, o caudilho uruguaio do partido colorado Venancio Flores sitia com seu exército a cidade de Paysandu. O caudilho contou com o apoio do presidente da Argentina, o general Bartolomé Mitre, e com a cumplicidade do Império brasileiro, comprometido com interesses de brasileiros que viviam nos campos uruguaios e que estavam ameaçados de expulsão do Uruguai pelo governo dos blancos. Dessa forma, Venancio Flores pôde reunir ao seu lado 16.000 homens dos exércitos de três nações para enfrentar cerca de 700 homens que defendiam aquela cidade. A historiografia tradicional uruguaia costuma colocar o cerco de Paysandu no plano da disputa entre blancos e colorados, minimizando o componente dos interesses estrangeiros. No entanto, para a historiografia tradicional brasileira, o mesmo acontecimento faz parte do preâmbulo da Guerra do Paraguai, o que justifica a intervenção do Império no território uruguaio. Se as interpretações políticas avaliam o episódio em uma ou outra conjuntura, o certo é que o fato representou consequências em quaisquer dos contextos. O sítio a Paysandu durou de 2 dezembro de 1864 a 2 de janeiro do ano seguinte, até a cidade ser tomada pelos colorados que, depois, seguiram com seus aliados rumo a Montevidéu para ocupar o poder. Procurando forçar os brasileiros a recuarem para defender suas fronteiras, os blancos do norte do Uruguai atacaram Jaguarão. Sem alcançar seus objetivos, retiraram-se no dia seguinte, o famoso 27 de janeiro, dia em que a população civil de Jaguarão expulsou os “castelhanos”.


Diário do Rio de Janeiro, edição do dia 11 de fevereiro de 1865, publica carta do correspondente em Pelotas
 sobre os  acontecimentos em Jaguarão - fonte Biblioteca Nacional

A divergência dos discursos entre vencedores e vencidos sobre um mesmo fato do passado é explicada pelo pensador francês Paul Ricoeur, que fala da ficcionalização da história e da historicização da ficção através de um entrecruzamento de narrativas históricas e literárias. Enredando a invenção com os acontecimentos ocorridos nas duas cidades, os escritores Aldyr Garcia Schlee, brasileiro, e Mario Delgado Aparaín, uruguaio, rememoram os fatos para potencializar questionamentos e desmistificar glórias que recobrem o imaginário popular. Em No robarás las botas de los muertos, Delgado Aparaín dá identidade a personagens anônimos que participaram na defesa de Paysandu. Sua obra dialoga com La defensa de Paysandú, texto testemunhal do soldado Orlando Ribero, que é apontado como uma das melhores fontes sobre os acontecimentos do final de 1864 no Uruguai. No entanto, Ribero, ao mesmo tempo em que não esquece de enaltecer seus líderes e de se colocar como protagonista em muitas ações, deixa no anonimato seus companheiros, dando-lhes papel coadjuvante. No romance de Delgado Aparaín, por sua vez, uma personagem apenas mencionada por Ribero como um voluntário espanhol é nomeada e tem história: trata-se de Martín Zamora, que teria se incorporado na defesa da cidade não por um ideal, mas para salvar sua própria pele, uma vez que estaria condenado a fuzilamento por contrabando no momento em que Paysandu é sitiada por exércitos dos uruguaios colorados, do Brasil e da Argentina.

Inversamente, sem pegar em armas, mas igualmente sem reconhecer apego à nação, a personagem don Sejanes, que dá nome a um conto de Aldyr Garcia Schlee, não se envolve na defesa de Jaguarão quando atacada pelos blancos uruguaios. Para ele, nascido na vizinha Melo, no lado uruguaio, e batizado na paróquia de Jaguarão, não existiam motivos para o enfrentamento entre brasileiros e uruguaios. Don Sejanes sequer reconhecia essa divisão, pois tinha consciência que ele mesmo era fruto de uma diversidade de povos: “sabia que era um pouco índio e espanhol e português, mas que era mais oriental e brasileiro, se tivesse que ser algo além de ser gaúcho como queria e gostava”, descreve o narrador. Vivendo no trânsito de um a outro lado do rio Jaguarão, don Sejanes não reconhece a separação estabelecida por aqueles que se julgam donos das terras. Assim, não vê motivos para defender um território que, no seu entender, não pertencia a ninguém e que deveria ser compartilhado entre os que nele vivessem.

Apresentando considerações mais amplas, o romance No robarás las botas de los muertos e o conto “Don Sejanes” desestabilizam os motivos que sustentam o orgulho afirmado em Paysandu e em Jaguarão. Na obra do autor uruguaio, denuncia-se a formação de uma aliança entre os colorados uruguaios, a Argentina e o Império brasileiro para derrubar um governo constituído legalmente. Contrariamente à glorificação de personagens famosas que lutaram na defesa da cidade que textos canônicos, históricos ou literários, manifestam, Delgado Aparaín oferece uma trama que envolve espaços que vão para além do território uruguaio, onde os combatentes, com a defesa da cidade sitiada, estavam resistindo à destruição de valores universais. O conto de Schlee também não se restringe a um único fato histórico e, retratando a invasão uruguaia à Jaguarão, coloca vários outros questionamentos em pauta, desmistificando a bravura da defesa da cidade. Tomados isoladamente, os acontecimentos em Paysandu e em Jaguarão reforçam a construção de glórias e heroicidades. Elevadas a “cidades heroicas”, constituem versões únicas dos fatos, não considerando as diferenças e a diversidade da complexa conjuntura das nações no século XIX. Existem razões para valorizar Jaguarão como heroica se habitantes seus constituíam o exército brasileiro que, covardemente, sitiou e atacou Paysandu? Existem razões para considerar Paysandu heroica se seus correligionários atacaram covardemente a população de Jaguarão?


Carlos Rizzon
Professor  do Curso de Letras da Unipampa - Jaguarão 


Texto publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia 07/11/2012
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