sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Apresentação dos Contos da Vida Difícil por Aldyr Garcia Schlee


A DIFÍCIL VIDA FÁCIL

Estes Contos da vida difícil são uma obra da imaginação que não vai além do imaginável, porque está contida na busca das razões do esquecimento, na revelação de certas lembranças não-autorizadas e na tentativa nem sempre bem sucedida de recuperação de uma olvidada memória coletiva.

São velhas e sumidas histórias jaguarenses que todos fizemos questão de ocultar desde o início do século XX e cuja lembrança foi preciso reprimir, excluir e suprimir, especialmente a partir de 1930 − e até hoje, já vão quase cem anos.

Jaguarão, que só em 1904 tivera enfim seu porto fluvial aberto à navegação com o Uruguai, viu construir-se entre 1920 e 1930 a grande Ponte Internacional que a ligaria definitivamente ao país vizinho. Nesse período, centenas e centenas de homens − um milhar e pico de homens, talvez − das mais variadas raças e mais diferentes procedências, dos mais diferentes ofícios e das mais variadas habilidades viveram na cidade aquilo que se chamaria “a grande epopéia da construção da Ponte”. Foram dias, meses e anos em que naturalmente a cidade se encheu de mulheres, apareceram automóveis e gramofones, surgiram negócios e empregos, construíram-se casas e fortunas − era farra e trabalho, trabalho e farra. De noite, havia luz elétrica, música e bochincho: os cabarés iluminavam-se até de manhã; e mesmo os lugares mais pobres, os tristes puterios das margens do rio ficavam acordados no alvoroto que se armava noite afora (e era como se fossem alegres, e ricos).

Entre 1930 e 32, as redes de traficantes de mulheres tornaram-se escandalosamente públicas nos limites do Brasil com o Uruguai. Nossa fronteira transformou-se num lugar privilegiado para a circulação de mulheres europeias e dos proxenetas que buscavam introduzi-las no Brasil a partir do Atlântico Sul, fugindo da perseguição policial que atingia “o tráfico de escravas brancas” na Argentina e no Uruguai. O Rio de Janeiro era o mercado de colocação preferido; Montevidéu, um refúgio e base de operações; e Jaguarão, com nosso rio e sua Ponte, o lugar escolhido para uma parada delas, de passagem clandestina para o Norte.

Essas informações (como tantas outras sobre o assunto), eu as obtive em um livro. publicado com o título Las rutas de Eros (Taurus, 2006), pela pesquisadora uruguaia Yvette Trochon sobre o tráfico de mulheres nos países do Atlântico Sul, de 1880 a 1932, incluindo estudos documentados das condições sociais, políticas e econômicas que tornaram possível, na época, a difusão por aqui do rendoso negócio de compra e venda de seres humanos.

Poderá parecer que estes contos, rompendo com um silêncio cúmplice e conivente sobre as misérias da chamada “vida fácil”, não passem da retomada de um passado distante. Contudo, restritos aos limites do imaginável, situam-se no plano de uma mesma e permanente realidade que, se não se esquece e se oculta deliberadamente, tem sido abordada com os prejuízos e preconceitos característicos de uma sociedade conformada por suas próprios mazelas.

O tema relativo ao mercado prostibulário e, especialmente ao tráfico de mulheres foi sempre desenvolvido através de estereótipos, no plano do melodrama de folhetim e do convencionalismo conformista, através de um discurso moralizador de grande poder emocional que o deturpa e que encontra eco na pregação de certos religiosos e reformadores sociais.

Por tudo isto, as histórias de mulheres e homens de vida fácil, girando em torno da sedução barata, da violência gratuita e da perversidade maniqueísta, não têm lugar aqui.

Aldyr Garcia Schlee
Capão do Leão, verão de 2013


O novo livro de Aldyr Garcia Schlee, Contos da vida difícil, será lançado nacionalmente no próximo dia 23, na Bibliotheca Pública Pelotense.


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