terça-feira, 3 de agosto de 2021

Soterrados - Martim Cesar

"O Grito" pintura de Edward Munch

SOTERRADOS

Sobre meu corpo uma pedra
Sobre a alma uma montanha
Em volta, uma estranha guerra
Que em lama e sangue se banha
Guerra surda e disfarçada
Como se fosse inventada
Ou fosse em outro país
Guerra com luzes maquiada
Com brindes comemorada,
Sob o espocar dos fuzis
Mas aqui, sob a pintura,
Resta o quadro verdadeiro
A tarde clara é escura
E é intenso o nevoeiro
Nem a certeza do sol
Que voltará algum dia
Cala essa dor de estar só
Sobre uma terra vazia
Vazia, mas não de homens,
Nem de mulheres vazia,
Carente, mas sim da fome
Da vida amena e sadia
Que entenda meu sentimento
Povo do chão de onde eu vim
Esse infindável lamento
Que cresce dentro de mim
Represa em mar rebentando
Punhal cortando a mordaça
Um afogado respirando
O ar que passa... e não passa!
Da gente que é minha gente
Pois de seu barro fui feito
Nascidos do mesmo ventre
Com igual bondade no jeito
Por isso, povo, não cales
Minha voz saindo da tua
Se vivo em teus mesmos bares
Se ando em tuas mesmas ruas
Qual a trincheira, eu sei bem,
Em que devemos estar
Tu, por povo... e eu também,
Nascidos do mesmo lar
Mas, talvez, por artimanha
De quem bate e esconde a mão
Aquele que hoje apanha
Não saiba ver seu vilão
E, assim, em bandos distintos,
Como seres diferentes
Frente a frente, estamos nós.
E essa é a dor que mais sinto!
Ao ver que há tanto inocente
Apoiando seu próprio algoz
Sobre meu corpo uma pedra
Sobre a alma uma montanha
Em volta, uma estranha guerra
Que em lama e sangue se banha
Há lobos feito cordeiros
E mentiras em mil faces
Mas só um rosto verdadeiro
Por trás de tantos disfarces
Tantas perdas, tantas vidas
Cortadas antes do fim
É como se todas elas
Morressem dentro de mim
Por isso, povo, permita
Meu grito desesperado
Bem mais que pedras me oprimem
Tantos sonhos soterrados
Sobre meu corpo uma pedra
Sobre a alma uma montanha
Quero sorrir e não posso
A dor me alcança e me ganha
Pois mesmo que a luz retorne
E derrote essa escuridão
A inocência quando morre
Não volta a seu mesmo chão
Ainda assim seguir lutando
Mesmo assim seguir em frente
E sempre em nós resistindo
Nossa bondade insistente
Quando as palavras não bastam
Frente à imponência das armas
Quando a truculência é aplaudida
E a arte ao lixo é jogada
Quando a ganância triunfa
E polui as águas e as almas...
Não abdicar da utopia
Não se bandear de trincheira
Não crer que a intolerância
É só mais uma bandeira
Não ver a desigualdade
Como um acaso divino
Nem a carência de tantos
Como obra do destino
Assim juntos venceremos
Mesmo sendo derrotados
Porque os rastros que deixamos
Não podem ser apagados
Mesmo que os outros não saibam
E ocultemos nossa essência
O que somos... nós sabemos!...
Não se engana a consciência
Por isso que essa montanha
Que tanto me oprime agora
Pode até ser cordilheira
Ocultando a real história
Mas bem mais cedo que tarde
Bem mais perto que distante
Irá nascer outro sol
De uma manhã mais radiante
E esse dia que sonhamos
E que virá com certeza
Verá o rio da nação
Vencer mais essa represa
E juntos festejaremos
(Mesmo os que já não estão
Pois tudo que aqui fizemos
Deixa suas marcas no chão)
E já não mais soterrados
Sob tanta hipocrisia
Minha mão na tua mão
Feito quem luta e confia
Gritaremos que a ilusão
Que a nossa ingênua utopia
Não se dobraram à opressão
Que a arte e sua rebeldia
Que a luz de cada canção
Que a força da poesia
Semearam, dia após dia,
O fim dessa escuridão.
Martim César


 

segunda-feira, 26 de julho de 2021

*UMA CHARLA SOBRE O EPISÓDIO ALÉM DA FRONTEIRA*

 

A partir de hoje, até a próxima sexta-feira, dia 30 de julho, vamos publicar diariamente cinco bate-papos sobre a criação dos roteiros, ouvir depoimentos de convidados e curiosidades sobre a produção e as filmagens dos episódios que fazem parte do longa-metragem *Fronteriz@s*.
A primeira charla é sobre o episódio *Além da Fronteira*. Participação de Alexandre Mattos Meireles (diretor e corroteirista), Adry Silva (corroteirista), Cintia Langie (Assistente de Direção e Montadora) e Hilton Oliveira (ator). Mediação de Ricardo Almeida, produtor geral do longa *Fronteriz@s*.
Já está lá no portal: www.fronterizos.org


segunda-feira, 15 de março de 2021

Asas, garras e sonhos


 Tinha asas. E pensar que todos nós, caídos do céu, já tivemos asas. 


Tinha asas, não como as de um pássaro precipitado ao precipício,

Resistindo ao vento, irresistível sopro.

Tinha asas, não como as de um anjo, imperfeição perfeita,

Solidão desfeita pela vida eterna.

Tinha asas, não como as que batem fortes, sustentando o corpo,

Imitando as luzes que imitam o tempo.

Tinha asas, não como voluntário apêndice, fantasia crédula,

Poder infinito sob olhar brilhante.


Tinha garras. E pensar que todos nós, única origem, já tivemos garras.

Tinha garras, não como as que sangram presas, necessária luta,

Amoral disputa pela luz do sol.

Tinha garras, não como as que prendem e soltam, liberdade efêmera,

Prisão passageira a caminho, a caminho.

Tinha garras, não como sedução desperta, sussurrar malévolo

Que provoca pânico, convulsões de amor.

Tinha garras, não como defesa lógica, atuar certeiro,

Álibi bendito a esperar momento.


Tinha sonhos. E pensar que todos nós, papéis em branco, já tivemos sonhos. Tinha sonhos, não como delírios súbitos, loucuras secretas,

Obscenas faces ocultas da vida.

Tinha sonhos, não como matéria ampla, fronteiras largas,

Caminho envolto em mantas e pedras (arredondadas).

Tinha sonhos, não despertos ao acaso, prolongada hora

De sabor ardente, de ardor urgente.

Tinha sonhos, não de indecifráveis símbolos, de irrefletida face,

Obscura fonte de mensagens certas.


Tinha asas.

Tinha garras.

Tinha sonhos.

Tinha medo.


E. J. Martins

Nov/99

É verdade?

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Al Mestre Vado

 

MESTRE VADO
Llora tu viejo cachimbo
en notas enronquecidas
sangra por dentro y no entiende
el porqué de tu partida
El pueblo que tantas noches
se deleitó en tu instrumento
tristemente ve apagarse
la estrella de tu talento
Integrarás otro bloco
con sonido celestial
animando para siempre
otro eterno carnaval
Con la humilde sencillez
de un ser humano ejemplar
nos legaste la enseñanza
que el rumbo, se hace al andar
Mestre Vado, Jaguarense
vivirás en la memoria
de la gente, pues no mueren
quienes marcaron la historia

Carolino Correa

domingo, 19 de julho de 2020

JAGUARÃO – LENDAS, MITOS E PROFECIAS (PARTE III)



Amanhã, tomorrow

Táxis, uruguaios e refrigerantes.

Cerveja barata, carros velhos e tijolinho. Nesse universo quântico, a moeda dita os
costumes. É fronteira, transmutação atravessamento. Toda ideologia flerta com o capital
adequado, oportuno.

Naquele antigamente, os excêntricos: T. das Galinhas, terrível pitonisa! Sputnik,
Luminário, Pitrês; Odé, Odé, banana- com seu terrível e temeroso tourette, Locke de
Vara, Locke da Rodoviária, M. Franco, Echevenguá, exalavam um mar de energia e
premonição. Visionários, arrojados, impetuosos profetas, não temiam o futuro!

Talvez possuíssem a fórmula do porvir no seu inconsciente.
Se eram loucos não sei; os outros não tinham visão.

Agora zanzamos a esmo do Brasil para o Uruguai, do Uruguai para o Brasil, numa ponte
sem trem. Silenciosa expectativa!

Precisamos de um futuro!

Precisamos de um tomorrow! De um novo Prometeu para despertar o urro do jaguar!

Thadeu Gomes.

Ao primo Zé Roberto, Jorge, amigo de muita fé e muitos manos e manas, que nos
reconhecemos como de “importância”, em alguns momentos de nossas vidas.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Adem - Ave do Paraiso

Foto cedida por Gilberto "Cabeça"

Hoje  estou  ouvindo  Creedence,  mas  poderia  ser  Nelson  Gonçalves ou  Claudia  Barroso. Aí  eu lembro que escutei  durante  toda  minha  infância  e  adolescência: “me  chama  de  gaveta  e  me  remexe  toda”  ... Uma  tirada  humorística,  com  conotação  sexual. Todo  carnaval  esperávamos  ansiosos  para  saber  das  novidades  dos personagens  tradicionais  da  folia  –  Fedegosa,  o  Índio,  o  Eli  e  os mascarados,  etc. Mas,  na  rua  do  Cordão,  expectávamos  para  ver  a  rainha,  a  diva,  a musa,  a  poderosa,  a  Deusa,  Logum  Edé:  a  Ave  do  Paraíso  –  Adem

Thadeu Gomes-jun 2020

Nota: O popular Adem na verdade tinha como nome artístico Adei, o inverso de Ieda. Sua figura foi tema do Bloco do Janjao no carnaval de Jaguarão ha alguns anos.

sábado, 6 de junho de 2020

JAGUARÃO – LENDAS, MITOS E PROFECIAS (PARTE II)


Ontem, yesterday 

O padre Luis C. disse: Por que não? Só porque ele é ateu? E nós reconhecemos a nossa ignorância naquele dia. 

Lutar contra o preconceito, racismo e outras arrogâncias, era a ordem do dia. Black Panther´s, Luther King, Malcom X, tudo ali, em Jaguarão. 

Não se podia entrar e dançar no Clube Caixeral, Harmonia, Jaguarense, Instrução e Recreio, nem no salão paroquial da Vila Kennedy, sem ter admoestado por um PM- “pessoa de cor (negro), aqui não pode se manifestar”. Ponto e vírgula! 

Eu vivi um Jaguarão racista e atrasado. Você lembra disso? Mas o passado não importa! Tudo continua mais ou menos do mesmo jeito! Voltemos ao tema: estudar, trabalhar e não se avexar.  

Acredite nos seus antepassados; estes sofreram mais do que você! Colégio Pio XII, Alberto Ribas e Espírito Santo- tenho amigos de todas as classes e cores. Autoestima, auto- afirmação. Renascendo desde as aulas da Margarida e da professora Ana Maria, irmã do Lica, filhos da dona Léa. E aí black is beautiful! 

Havia o Louco da Bita, o Jorge Arides, o Reinaldo, o Carlos Everton, o Lineu, o Carrara e outros bambas. Havia respeito. Depois da literatura latino- americana, Pasquins, Cadernos do Terceiro Mundo, Lennon e Jorge Cafrune, era hora de partir. Assim muitos se foram, levando Jaguarão consigo! Isso não é fácil, cara! Mas sempre voltamos como os Beatles e os Rolling Stones! 

Thadeu Gomes. 

Aos amigos- Gerson, sapateiro; professora Verdina, pelos saraus undergrounds, que só os eleitos frequentavam e dona Necha, que benevolente, sempre amava todos como seus filhos.

Clandestino - Gilberto Isquierdo e Said Baja

  Assim como o Said, milhares de palestinos tiveram de deixar seu país buscando refúgio em outros lugares do mundo. Radicado nesta fronteir...