sexta-feira, 18 de abril de 2014

Onde estávamos em primeiro de abril de 1964?

Não há nada para comemorar, mas tudo para relembrar. Isto deve, ao menos, ser feito em respeito aos que foram expulsos do País, torturados ou mortos pela repressão. Aos que resistiram em nome da liberdade de todos nós, até mesmo daqueles que concordavam (e concordam) com os desmandos que se praticava.

O golpe de 64, que condenou o Brasil a uma longa noite de 21 anos, também impediu o surgimento de novas lideranças políticas que poderiam ter sido cultivadas nesse longo período de imposição de silêncios e de vozes apenas murmuradas. Até hoje o Brasil não se recuperou do atraso social e político imposto pela ditadura. As manifestações culturais, se não tivessem a chancela dos poderosos, através de seus sensores, eram simplesmente proibidas. Temos inúmeros exemplos em todos os setores das artes e da literatura.

De minhas memórias pessoais, tenho lembrança de alguns fatos que marcaram, de forma indelével, minha trajetória inicial aqui na cidade grande. Um deles é o de uma livraria sendo violada (Cabe o termo, eu acho!) em plena luz do dia. Em uma das vias mais centrais da Capital (Andrade Neves), alguns representantes dos donos da verdade jogavam pela janela para o leito da rua as obras que, na sua tacanhez, consideravam perigosas para os cidadãos comuns. Outro fato foi a invasão de uma casa modesta, vizinha a minha no bairro Glória, pelos brigadianos do antigo GOE. Naquela época, eles portavam capacetes vermelhos e espalhavam terror quando eram chamados para conter manifestações estudantis que ocorriam, geralmente, no campus central da UFRGS. Lembro, também, de uma insinuação autoritária emitida por um representante de uma multinacional do ramo de máquinas quando exercia um cargo público no qual iria, mais tarde, aposentar-me. Ao "flagrar-me" tecendo uma crítica à ação das malfadadas multinacionais que pululavam pelo País, ele me encarou de maneira autoritária, dizendo-me: "Cuidado que podes perder o teu emprego"...Isso que ele não era o "guarda da esquina" e não vestia nenhum tipo de farda!

Na noite de primeiro de abril de 1964, ainda em Jaguarão, eu estava entrando em aula quando fui alertado por um colega de trabalho que nosso chefe (Agrônomo Regional de Jaguarão naquela época, hoje falecido) havia sido preso e encontrava-se detido na Enfermaria, transformada em local de interrogatórios de "subversivos", sob a coordenação do temido DOPS (famoso por seus métodos de tortura). A acusação era a de que ele se relacionava com um orizicultor que seria comunista. Aquela pessoa, realmente, costumava visitar-nos no escritório e dele, muitas vezes, ouvi afirmativas nacionalistas em longas análises políticas e econômicas que costumava fazer entre a fumaceira de um cigarro e outro. Após um rápido raciocínio e, por medida preventiva, saí do colégio e corri ao meu local de trabalho em busca de algum livro que pudesse despertar a ira dos inquisidores de plantão na cidade. De fato, entre os meus preferidos que lá estavam, encontrava-se uma importante obra de um conhecido autor nacionalista - Gondin da Fonseca - que alertava para os interesses econômicos estrangeiros que rondavam nosso País. Hoje, aquele livro, já esgotado, não se encontra na minha modesta biblioteca, infelizmente. Não lembro o que fiz dele. Certamente não teve o mesmo fim que dei a algumas revistas chinesas em Esperanto (El Popola Cinio) cuja assinatura vinha através da Itália por motivos óbvios.

O golpe de 64, portanto, encontrou-me, no vigor dos meus dezenove anos, atuando em várias entidades em Jaguarão: Círculo Operário, Aeroclube, Interact, entre outras. Na área estudantil, se não me falha a memória, ocupava o cargo de Secretário do Ensino Comercial na União Jaguarense dos Estudantes Secundaristas na qual, mais tarde, ocuparia a presidência.

Em Porto Alegre, aonde cheguei em dezembro de 1965, a minha atividade cultural foi dirigida ao cineclubismo, no qual fiz parte das Diretorias do Cineclube Pro Deo, da Federação Gaúcha e do Conselho Nacional. Naqueles anos, tínhamos dificuldade em exibir alguns filmes considerados "subversivos". Às vezes, as sessões começavam sem que se soubesse se seriam interrompidas ou não.

Inicialmente, na minha vida profissional era comum a realização de trabalhos à noite. Como a sede da Sudesul estava localizada na Rua da Praia muitas vezes éramos envolvidos em alguma correria com a Polícia querendo experimentar a resistência da madeira contra a carne humana.

O movimento liderado por militares contou com o apoio de lideranças políticas civis reconhecidas por suas posições direitistas. A Igreja e a mídia foram, também, esteio importante para os golpistas. A imprensa, naquele período, nem mencionava - como hoje faz - a palavra "golpe" quanto mais insinuar qualquer coisa que desabonasse os generais de então. Acrescente-se a isso o apoio institucional dos Estados Unidos que, aliás, tem larga experiência em golpes, graças a sua participação nos que ocorreram não só na América Latina como em tantos outros países.

Mesmo depois do sacrifício de pessoas que perderam suas próprias vidas para que o País fosse melhor para todos, as reformas de base tão necessárias não se concretizaram. Só elas poderão conduzir o Brasil ao completo desenvolvimento. São condição indispensável para atingirmos a igualdade própria de um País plenamente democrático. Em alguns aspectos, talvez estejamos na Idade Média. Na distribuição de renda, por exemplo, ainda somos medievais: um dia do maior salário (Ministro do STF) equivale a 60 dias do menor salário (operário sem qualificação). Isto sem apontar outras vantagens que estes não têm. Não há como justificar tamanha desigualdade.

Se somos um país pobre, todos devem pagar por isso; se somos um país rico, todos temos direito de beneficiarmo-nos dessa riqueza. Sem diferenças amazônicas.


Wenceslau Gonçalves
wenceslaugoncalves.blogspot.com.br

Publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 09/04/2014


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