quarta-feira, 30 de abril de 2014

Quando passou por mim a história encilhada

Enquanto o vice-presidente João Goulart visitava a China, a convite do governo de Pequim, Jânio Quadros renunciava à Presidência da República, em 25 de agosto de 1961. Nas eleições, de modo sarcástico, o povo brasileiro tinha inventado a chapa híbrida Jan-Jan, como que provocando a anarquia generalizada. Não deu outra. O imprevisível “homem da vassoura”, acometido de crises existenciais, ficou a ver fantasmas por toda parte, assustando-se com o peso da responsabilidade pela votação maciça, e deixou a nação entregue à sanha dos aproveitadores do momento. A confusão tomou corpo com a resistência dos militares à posse de Jango na mais alta investidura republicana, impedindo até mesmo que regressasse à pátria. Graças ao movimento da Legalidade liderado pelo cunhado e governador gaúcho Leonel Brizola, no entanto, foi possível a sua entrada no Brasil (via Montevidéu), chegando a Porto Alegre no dia 5 de setembro.

Eu cursava o 1º ano de Engenharia da UFRGS e tive as aulas suspensas por alguns dias, enquanto a balbúrdia corria solta em Porto Alegre e boatos fervilhavam por todos os cantos. Pairava no ar a ameaça de bombardeio ao Palácio Piratini, Brizola já se entrincheirava com bateria antiaérea na cobertura e armas distribuídas à população para que resistisse a possíveis ataques. Também era improvisado um estúdio nos porões palacianos, com o transmissor confiscado da Rádio Guaíba, para formar a chamada Rede da Legalidade.

Foi um tempo de come-bebe-dorme onde eu morava, a Pensão Familiar Ludwig na Rua Andrade Neves, imediações do famoso mata-borrão, construção de madeira da antiga Caixa Econômica Estadual, situado na esquina com a Avenida Borges de Medeiros. Ali  funcionava o centro de alistamento de voluntários para a Campanha da Legalidade, ao qual me dirigi acompanhando uma amiga que pretendia se inscrever no corpo de Enfermagem. Assim que concretizou seu intento, ela sugeriu que eu também aderisse. Desconversei, disse que tinha muita gente, que eu passava depois. Tirei o corpo fora.

Quando saímos do prédio, ficamos apreciando os exercícios de ordem unida que um sargentão reformado passava para um grupo de recrutas. “Em meu pelotão, não vou admitir nenhum covarde e ai daquele que der no pé, vai se haver comigo!”, dizia em altos brados para se fazer ouvir, sobrepondo-se ao som estridente do alto-falante que arremetia com o Hino Rio-grandense. Bancos fechados, peladura geral, nosso lazer consistia em subir a ladeira da General Câmara rumo à Praça da Matriz e misturarmo-nos ao povão que desafiava as bombas prometidas.


José Alberto de Souza


Publicado na Coluna Gente fronteiriça do jornal Fronteira Meridional em 23/04/2014

Cronica retirada do Livro Digital    O VELHO “CHATEAU” DAQUELES RAPAZES DE ANTIGAMENTE

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