quinta-feira, 10 de julho de 2014

"De como o Fórum do Patrimônio Histórico e Cultural de Jaguarão (2009) levou ao que chamo Renascer Jaguarense"


Prof. Carlos José de Azevedo Machado (Maninho)
Mestrando em Memória Social e Patrimônio Cultural/ICH/UFPEL


Em abril de 2009, quarto mês da gestão da Secretaria de Cultura, onde tive o privilégio de estar no comando de uma excelente equipe por 19 meses, organizou-se o Fórum do Patrimônio Histórico e Cultural de Jaguarão que aconteceu de 01 a 04 de abril daquele ano. A ideia surgiu nos primeiros dias de janeiro, quando nos fizemos a seguinte pergunta: E agora "cara pálidas"? pergunta feita em relação ao quê fazer com o Patrimônio histórico cultural desta cidade, o qual tem um significado enorme, e encontrava-se em processo de deteriorização e/ou um aparente esquecimento de sua importância. Antes, levantávamos as bandeiras como ativistas ou professores, mas não havia um sinal firme e afirmativo por parte dos poderes públicos da cidade em partir para uma prática mais consistente. Mas agora a coisa era conosco. Então, fomos à obra. Em contato com o Iphan1, através da presidente da regional Sul, Arquiteta Ana Lúcia Meira, fizemos as primeiras conversas. Sentimos a vontade e o desejo por parte daquele órgão, e em especial da Ana Meira, em trabalhar com esta cidade. Então construímos este Fórum com participação de gestores da região e integrantes do Iphan de Brasília e da região sul. Até chegarmos ao evento, já havíamos construído uma parceria com a Unipampa-campus Jaguarão, através da então diretora Profª Maria de Fátima Bento Ribeiro, a qual teve uma grande importância nesta caminhada.

Construído esta etapa, descobrimos de antemão da necessidade do Iphan em escolher um local para sediar o chamado Centro de Interpretação do Pampa. Assim o Fórum, além de colocar Jaguarão no mapa deste órgão, serviu para consolidar a cidade, em especial, as ruínas da Enfermaria Militar, no alto do cerro da Pólvora, como o local ideal para o Centro. Além disto, garantiu a vontade política do Iphan de abraçar a primeira fase do Teatro Esperança, hoje já no processo final da segunda fase.

Fórum
O Fórum consistiu em vários painéis com experiências de outras cidades como Bagé e Rio Grande. Apresentou-se o projeto de Restauro do Teatro Esperança, através do Arquiteto William Pavão além de vários painéis com professores e especialistas da área2. A mim foi solicitado a apresentação dos Projetos Jaguar (inicio da década de 80) e Jaguararte (Projeto da SIC3, colocado em prática no início dos anos 90). 

Com presença de alunos de uma escola municipal além das autoridades e convidados, aproveitei para colocar o desafio de envolver toda a comunidade com este tema, uma vez que sem isto, não haverá compromisso nem paixão para proteger seu patrimônio histórico e cultural, até porque muitos não o enxergarão como seu.
Dos resultados do encontro, talvez um dos mais visíveis, aconteceu em uma reunião fora da programação, numa pequena sala do histórico prédio da Casa de Cultura. Nele estavam presentes além de mim e o prof. Alan de Mello4, (pela Secult5), Maria de Fátima B. Ribeiro (diretora da Unipampa), Profª Maria Beatriz Luce (então reitora da Unipampa), Ana Lucia Meira (Iphan) e, se a memória não me falha, Beatriz Muniz Freire (historiadora do Minc). Na ocasião selamos a ideia do Centro de Interpretação do Pampa no local onde se encontravam as ruínas da Enfermaria Militar de Jaguarão. Mais do que isto, garantimos que a gestão seria feita pela Unipampa. Esta ideia já vinha sendo amadurecida, partindo de uma premissa básica: As Administrações Municipais tem uma rotina de mudanças mais rápidas, onde muitos projetos não gozam de continuidade por falta de vontade política entre uma gestão e outra. Já nas universidades, apesar de possibilidades de mudanças políticas no governo central, elas gozam de uma estabilidade muito maior. Isto garantiria que o CIP6 seguisse seus passos independente do "humor" das gestões do município. Além do próprio custo de manutenção que seria quase impossível para um município com pouco mais de 30 mil habitantes.

Este pequeno artigo tem dois intuitos: Um é ajudar a entender um pouco de como se chegou a escolha do local do CIP na cidade de Jaguarão, haja vista que poderia ser em qualquer outra cidade do pampa. E outro é o de ajudar a entender o como é importante pensar e planejar o lugar onde queremos chegar, buscando parcerias positivas para que as coisas aconteçam. Este Fórum é um bom exemplo, mas obviamente que foi um processo que não se resumiu aos 4 dias que ele ocorreu. Por fim, o Seminário Internacional do Bioma Pampa em setembro de 2009, também discutido no Fórum, a criação da Associação das Cidades Histórica do Rio Grande do Sul (2009), o tombamento nacional do Centro Histórico em 2011, a escolha de 11 projetos de restauro no PAC das Cidades Históricas em 2013, possibilitando 40 milhões para estas obras, são exemplos de que quando pessoas interessadas na formação de uma amanhã melhor, se encontram nos lugares certos, com certeza vão pensar e elaborar projetos que abrirão novos horizontes, no caso do município de Jaguarão, talvez a abertura de um processo maior o qual chamo de Renascer Jaguarense.

1 Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
2 Entre outros podemos citar: Professores Fábio Vergara Cerqueira, Ester Judite Bendjouva Gutierrez e Ana Lucia Costa de Oliveira (UFPEL), Roséli Safons (então Secretária de Cultura de Bagé), Robsom Almeida (na época, pelo Projeto Monumenta), Aldyr Garcia Schlee (escritor) e Prof. Andrey Rosenthal Schelle (Universidade de Brasília).
3 Sociedade Independente Cultural, fundada em 16 de fevereiro de 1987.
Mestre em Memória Social e Patrimônio Cultural (UFPel), na época Diretor do Patrimônio Histórico, e parceiro fundamental na idealização deste evento. Atualmente é Professor da Unipampa.
5 Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Jaguarão.
6  Centro de Interpretação do Pampa
 





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