quinta-feira, 24 de julho de 2014

Memórias de o que já não será

Novo livro de contos de Aldyr Schlee tem lançamento na BPP


Em parceria com a editora ARDOTEMPO , a Bibliotheca Pública Pelotense (BPP) está convidando para o lançamento do novo livro de contos de Aldyr Garcia Schlee, no próximo dia 31. MEMÓRIAS DE O QUE JÁ NÃO SERÁ é a décima obra de ficção  - nove de contos e um romance - do autor nascido em Jaguarão e radicado em Pelotas. A partir das 18 horas, no salão nobre da BPP, Schlee participa de uma conversa com os leitores e, na sequência, de sessão de autógrafos. Com vários prêmios nacionais e estaduais de literatura , o autor publicou seu primeiro livro ( Contos de Sempre) em 1983. Aldyr Schlee atua ainda como tradutor, em especial de autores argentinos e uruguaios. Também versou para o espanhol  obras de João Simões Lopes Neto e Cyro Martins.
 
Confira a programação:
 
O QUE - Edição especial do Conversa Sobre Livros, com Aldyr Garcia Schlee. Lançamento do livro de contos MEMÓRIAS DE O QUE JÁ NÃO SERÁ , conversa com os leitores , sessão de autógrafos e coquetel.
 
QUANDO E ONDE -  31 de julho de 2014, 18 horas,  no salão nobre da Bibliotheca Pública Pelotense - Praça Cel Pedro Osório, 103 , Centro , Pelotas RS.
 
QUEM - Editora ARDOTEMPO e Bibliotheca Pública Pelotense. Apoio Livraria Mundial


Aldyr Schlee - Desenho: Alfredo Aquino
O QUE FOI E JÁ NÃO SERÁ

Debruço-me sobre o que foi: aquilo que foi e já não é. 

O que foi (e já não é) pode ser apenas passado: é aquilo que simplesmente deixou de ser; mas, o que me interessa neste livro é o que foi e já não será, que é mais que passado: é aquilo que não pode mais ser, que perdeu a razão de ser, a finalidade de ser, e que não adianta ser – porque está definitivamente perdido por falta de serventia ou de utilidade (condenado como objeto ao mofo dos antiquários ou à catalogação dos museus; esquecido, como fato, pela necessidade de olvido; e abandonado, como ocupação, pela perda de propósito e de sentido).

Aldyr Garcia Schlee
Capão do Leão
Primavera de 2013
 
TEXTO CONTRACAPA "MEMÓRIAS DE O QUE JÁ NÃO SERÁ"
Aldyr Schlee ( trecho)
 
No dia em que ele atravessou a Ponte sozinho só por atravessar, sem ter nada que fazer aqui, ele quase que pensou uma porção de coisas. Chegou a parar bem no meio, no meio do rio – com um pé no Brasil, outro no Uruguai; chegou a se debruçar na balaustrada. Olhou bem em frente, vendo o rio que se perdia na curva ali adiante; voltou-se para lá, de onde vinha; virou-se para cá, para onde ia. Estava sem ter o que fazer, sozinho. Quando parou, debruçado na balaustrada, foi como se achasse graça de estar ali, olhando o rio correr; foi como se pudesse entender que tudo fazia diferença, mas nada era importante.
                                                                                                                 
Sorriu ao ver a sombra da Ponte como que passando, também, como o rio – e nela a própria sombra presa à Ponte, passando como a Ponte e como o rio. Era como se o rio se refizesse ali na sombra da Ponte, como se a sombra se fosse mas já não fosse, como se ela nem passasse e ficasse, sem ter ido, porque sombra; mas indo, porque rio.

Ele sentiu algo esquisito por dentro – nem arrepio nem enjôo nem sufocação nem tonteira, mas diria que um pouco disso tudo junto, como se ali tivesse deixado de viver por um instante; melhor: como se nesse mesmo instante ali tivesse vivido demais, tivesse vivido demais para um vivente.

 
Sobre o autor:

ALDYR GARCIA SCHLEE

Fronteiriço de Jaguarão, o escritor Aldyr Garcia Schlee é um autor bilíngue, que escreve e publica sua obra tanto em português como em espanhol. Como ficcionista, venceu a I Bienal de Literatura Brasileira (Contos de sempre), a II Bienal (Uma terra só), e foi finalista do Prêmio Casa de las Américas, em Cuba (Linha Divisória). Recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura em 1997, 1998, 2001, 2010 e 2011, primeiro com a tradução de Facundo, de Sarmiento; e depois com os livros Contos de futebol, Contos de verdades, Os limites do impossível e Don Frutos. Este, um romance lançado pela edições ardotempo, em 2010, foi considerado o Livro do Ano, pelo jornal Zero Hora; sendo o autor distinguido como Fato Literário de 2010, em concurso da Rede Brasil Sul de TV - RBS TV

De Aldyr Garcia Schlee a edições ardotempo publicou, em 2011, as reedições de Contos de futebol, Contos de verdades e Uma terra só (nome este dado a uma rua de Jaguarão, em homenagem ao autor). Ainda em 2011, a ardotempo editou a tradução comentada de Schlee do Dom Segundo Sombra, de Ricardo Güiraldes; e em 2012, a 2ª edição em português de O dia em que o Papa foi a Melo (El dia en que el Papa fue a Melo fora editado originalmente em espanhol pela Banda Oriental, Montevidéu, assim como Cuentos de Fútbol). Antes desta edição de Memórias de o que já não será, da reedição de Linha divisória e da edição comemorativa de Contos de Sempre, em 2013 foi editado o inédito livro de contos de Schlee Contos da vida difícil.

Schlee é doutor em Ciências Humanas. Foi dese-nhista profissional (vencedor de Concurso Nacional para a escolha do uniforme da seleção brasileira de futebol), jornalista (Prêmio Esso de Reportagem), e professor da Universidade Católica e da Universidade Federal de Pelotas (até 1992). Depois atuou como professor visitante do Programa de Pós Graduação em Letras da PUCRS, em Porto Alegre. Foi Consultor Jurídico do Ministério das Relações Exteriores (1976-77) para a redação final do Tratado da Lagoa Mirim, firmado entre Brasil e Uruguai.

(Editora ardotempo)
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