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segunda-feira, 2 de abril de 2012

Pesquisa sobre história ambiental do bioma Pampa é publicada em capítulo

Uma proposta de história ambiental do bioma Pampa, da época da megafauna à introdução da agricultura tal como ela existe hoje no Rio Grande do Sul. A leitura parte de análise de dados existentes na literatura científica sobre características do Bioma hoje e indícios sobre como era a relação entre a flora e a fauna do Pampa ao longo de períodos marcados por inovações trazidas pelo ser humano. 

O parágrafo acima serve como uma primeira apresentação do capítulo “Uma pequena história ambiental do Pampa: proposta de uma abordagem baseada na relação entre Perturbação e mudança”, assinado pelo professor Rafael Cabral Cruz, do Campus São Gabriel da Universidade Federal do Pampa, em parceria com o pesquisador e docente Demétrio Luis Guadagnin (UFSM). O capítulo integra o e-livro A Sustentabilidade da Região da Campanha- RS: Práticas e teorias a respeito das relações entre ambiente, sociedade, cultura e políticas públicas, coordenado pelos professores Benhur Costa, João Quoos e Mara Dickel. 

O livro foi publicado pelo PPG em Geografia e Geociências da UFSM e o capítulo se encontra disponível para download .
Uma interpretação da evolução do bioma 

O capítulo sistematiza uma linha do tempo para a cobertura vegetal da paisagem do pampa gaúcho a partir de indícios científicos sobre como eram - e se modificaram - o nível do mar, o relevo e as formas animais e vegetais no período a partir de 18 mil anos atrás, tendo em conta o conceito do Ecossistema Humano Total – ETH, no qual os elementos da paisagem transformados pelo ser humano interagem com os demais elementos através de fluxos de massa, energia e informação. 
A proposta de cronologia engloba quatro marcas temporais, que são consideradas os ciclos de transformações ambientais. A primeira é a chegada do ser humano à região do Pampa, processo que teria levado à extinção de animais herbívoros de grande porte e à modificação da constituição vegetal, de campos baixos para plantas de campos altos. A segunda marca é a chegada dos europeus, que introduziram o gado no Pampa e fomentaram o crescimento populacional e uma nova forma de organização das coletividades humanas, com estâncias e cidades. 
A agricultura industrial marca o início do terceiro ciclo, com uma aceleração das mudanças na cobertura vegetal e a implantação de uma matriz de agroecossistemas, o que levou a lavoura (incluindo a silvicultura) a ocupar o espaço de campos nativos, áreas úmidas e florestas aluviais e a promover uma inserção de espécies para manutenção do gado. Um dos resultados em termos ecológicos é a redução da biodiversidade, enquanto ocorre culturalmente uma desterritorialização do gaúcho, uma vez que se reduziu o espaço da estância e das vivências que formaram esse tipo humano. 
As mudanças climáticas induzidas pelo ser humano indicam o quarto ciclo de transformações, com uma sinergia entre alterações naturais e os aumentos na emissão de gases que alteram o funcionamento do efeito estufa, por meio do desmatamento e da queima de combustíveis fósseis, provocando o que se chama de “savanização” do clima no Pampa, com temperaturas mais quentes, chuvas sazonais e mudanças na flora e na fauna. O capítulo aponta que ainda existem incertezas quanto a este cenário, considerado como uma possibilidade em estudo. 
Um dos apontamentos do estudo indica uma aceleração do ritmo de mudanças dos elementos do bioma pampa. Enquanto no primeiro ciclo o período de alterações durou milhares de anos, com a chegada do homem europeu e o desenvolvimento social e tecnológico, as mudanças passaram a ocorrer em escalas de centenas e depois, dezenas de anos. O professor Rafael diz não acreditar que esse processo pudesse ter sido diferente: 
-A percepção deste processo pela sociedade não é um processo unicamente de informação, mas depende de transformação das representações sociais, e este processo envolve a mudança da cultura dominante e do sistema capitalista que a mantém.
Em relação ao processo de “savanização” (clima mais quente, chuvas sazonais) do território que constitui o bioma Pampa, o professor Rafael ressalta que é um cenário possível, talvez o mais provável conforme os estudos realizados pelo INPE, não se tratando de uma “profecia”.
- A questão não é se a savanização está ocorrendo, mas, sim, como a sociedade vai lidar com os riscos associados a esta possibilidade, cada vez mais forte.
Ele afirma ainda que amenizar os efeitos é uma atitude que vai envolver muito trabalho de pesquisa para estudar a sinergia entre a mudança no uso da terra, a mudança climática e as práticas de manejo dos remanescentes de bioma Pampa.
Sociedade e natureza
O professor Rafael explica que uma contribuição do estudo é a compreensão de uma co-evolução entre o ser humano e os ecossistemas:
- Como o clima do RS é florestal, a ausência de manejo pelo ser humano pode levar ao desaparecimento deste bioma, pois o devir seria o estado (do Rio Grande do Sul), dado tempo suficiente sem manejo pelo ser humano, estar coberto pelas formações florestais do bioma Mata Atlântica. Deste modo, a conservação do bioma Pampa não pode ser pensada sem o manejo humano. A questão é "qual o manejo adequado?" 
A discussão é urgente, afirma o professor Rafael, especialmente em função do quadro de mudanças climáticas - os cenários mais prováveis podem conduzir a uma savanização do clima, o que afetaria os esforços para um manejo racional do bioma. 
A leitura histórico-ambiental proposta por estudos como o apresentado pelos professores Rafael Cabral Cruz e Demétrio Guadagnin propõe uma visão da Ecologia na qual a relação sociedade – natureza seja estudada de forma não-dualista.
- O ser humano é parte da natureza e assim deve ser estudado. Ele é parte do processo de auto-organização do ecossistema total humano. Este processo pode conduzir a múltiplos cenários possíveis de futuro, dependendo da forma como se processam as decisões do ser humano.
O professor afirma que a ligação entre a sociedade e a natureza é um processo auto-organizativo e de caráter histórico, pois os eventos do passado condicionam, de forma não-determinante, os cenários possíveis no futuro. Por esta linha de raciocínio, a compreensão da dinâmica do bioma ou da paisagem não pode ser feita sem a reconstrução das diversas alterações que o trabalho humano provocou no processo de auto-organização dos seres vivos do ecossistema ao longo do tempo. 
De um convite a um capítulo
A história sobre como surgiu a pesquisa é pitoresca. O professor Rafael conta que foi convidado para ministrar uma palestra sobre tradicionalismo e bioma Pampa em um CTG de São Gabriel em 2007, uma vez que o MTG havia determinado a questão ambiental como tema.
- Como eu não era vinculado ao MTG, pensei no que um pesquisador na área da Ecologia de Paisagem poderia contribuir, e resolvi contar uma história ambiental do pampa, de forma sintética.
A primeira palestra foi bem recebida a ponto de render convites para apresentação em vários eventos do MTG em São Gabriel e Santana do Livramento, e atividades da UNIPAMPA, e em outras ocasiões, como um encontro de formação de professores no município de Rosário do Sul, e mesmo em um evento da maçonaria em Dom Pedrito. 
As palestras levaram a um convite para palestrar em um evento do PPG em Geociências da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Após o evento, o professor Rafael convidou o professor Demétrio Guadagnin, professor da UFSM, que é biólogo da conservação e com experiência no estudo de espécies invasoras no bioma Pampa, para auxiliar na sistematização e aperfeiçoamento da abordagem, em um trabalho que levou três anos para chegar ao capítulo publicado.

Heleno Nazário para Assessoria de Comunicação Social

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

V Conferencia Internacional do Bioma Pampa - A importância da Cultura na Região que sediará o Centro de Interpretação do Pampa

Lincando com o discurso de Marco Maia, presidente da Câmara, que cobrou ações humanas para potencializar a região, Fátima Bento Ribeiro (Unipampa) disse que o Fronteira Culturales é um exemplo de ação humana, além da própria universidade com novos cursos e o Centro Cultural.


O painel II - Cultura no Bioma Pampa - movimentou a manhã de debates na V Conferência Internacional do Bioma Pampa trazendo aspectos e práticas culturais da região.
A primeira parte foi apresentada pela professora Maria de Fátima Bento Ribeiro, diretora da Unipampa Unidade Jaguarão, que trouxe o relato sobre o episódio da Carta Fronteiras Culturales - um documento coletivo dos povos da Fronteira - que pensa os pontos que mostram a importância de uma legislação própria para a região e propõe o Seminário Brasil Uruguai de Cultura que trata das políticas de cultura para a Faixa. "É um documento desconhecido, mas é um marco, porque traz uma proposta clara para a cultura. Traz ainda a proposta de uma cartografia de Fronteira, com a participação do IFsul, UfPel, entre outras instituições", contou.
Outra ação da Unipampa foi a aprovação do curso de Produção e Políticas Culturais, inédito no Rio Grande do Sul, que trata da economia da cultura e políticas para a área. "É uma ação humana para pensar a cultura na região, junto com a Pós-graduação voltada para a cultura e cidades de Froteira", informou.
A professora citou a frase de um pensandor sobre as regiões fronteiriças. "Existe uma magia para quem vive na Fronteira e a magia é a convivência com o outro", relatou.  "A grande lição do mundo é saber conviver com o outro e por isso a Fronteira tem essa característica, potencializada pela cultura pampeana, que não é brasileira, ela é brasileira, uruguaia e argentina", disse.
Com uma palestra rica em informações culturais, Fátima contou ainda sobre a criação de um Centro Cultural chamado Centro de Interpretação do Pampa, localizado nas ruínas de uma ex-enfermaria Militar tombada em Jaguarão, com espaço para artistas, para a paleontologia, para arquitetura, colocando em relevo a mestiçagem da Fronteira e os costumes.
"O Centro terá uma tecnologia em que a pessoa terá junto com as imagens sensação de frio, calor, vento, com sensações diversas. Haverá na historiagrafia uma sessão de genética dos povos da região, com sua ancestralidade bem trabalhada", disse.
"O gaúcho do pampa tem uma forte ancestralidade africana no lado materno e no paterno, espanhóis e portugueses. Esse dado é rico também porque o Centro Cultural terá um espaço dedicado à genética", ressaltou.
Lincando com o discurso de Marco Maia, presidente da Câmara, que cobrou ações humanas para potencializar a região, Fátima Bento Ribeiro disse que o Fronteira Culturales é um exemplo de ação humana, além da própria universidade com novos cursos e o Centro Cultural.
Alan Melo trouxe para o painel um vídeo da maquete do projeto, destacando a importância de patrimonizar espaços históricos para sua utilização cultural.
O espaço terá concha acústica e espaço para exposições numa área de mais de duas hectares, além de sede de aulas, administrado pela Unipampa Jaguarão.
"Convém dizer que o Museu do Pampa nasce em Livramento, chegando em Jaguarão após o desentendimento de Livramento com o Iphan. Jaguarão entendeu que o Pampa merece esse olhar apurado sobre sua natureza. É uma interpretação sobre a diversidade deste ecossistema feita por um equipamento cultural multiuso", explicou Melo.
O projeto foi viabilizado pela Unipampa, Prefeitura de Jaguarão e Iphan.
O segundo painelista foi o secretário de Cultural de Bagé, Sapiram Brito, que iniciou sua fala abordando a origem do gaúcho para chegar ao Bioma Pampa. "O Bioma Pampa é um ecossistema com a variedade de mais de 2000 espécies de plantas únicas, com gramíneas e leguminosas diferenciadas. Mas a gente acha que é a mesma grama", introduziu. O gado e a produção pecuária, afirmou o secretário, também é outro ponto ligado ao Pampa. "O gado veio para o RS procurando o seu destino, um ambiente propício para  sua natureza. Este gado, no início, era caçado", narrou o secretário da Cultura de Bagé.
O RS passou por desatenções sérias de Portugal e pelo Império brasileiro pela distância, formando-se então uma cultura peculiar, misto de isolamento e necessidade de firmação de identidade coletiva. "Nosso RS é uma imensa província mineral. Em nosso Estado, tem todos os minérios, até xisto betuminoso em São Gabriel. Só que nosso solo é raso, mas esta natureza gerou nosso tipo de cultura agropecuária", disse.
"Temos clima definido, com chuvas um tanto escassas, uma imensa bacia hidrográfica, solo propício à produção de gramíneas e leguminosas, uma insolação rara. A partir dessa realidade, aliada à nossa genética, se formou um tipo que é diferente, que não é melhor ou pior: é o gaúcho", destacou Sapiram Brito.
Segundo o secretário, há um complexo de inferioridade no Pampa, talvez pela distância, talvez pelo isolamento, mas que marca profundamente o desenvolvimento da região. Ele destacou a necessidade de se orgulhar com humildade das riquezas da região. "Fornecemos neste eixo de Fronteira uma referência cultural seguida por todo o RS", indicou.
Portanto, no entender do secretário, há potencialidades mal utilizadas na região, que acabam afastando talentos dos municípios fronteiriços. Ele chamou a atenção para a economia da cultura. "É possível ganhar dinheiro com a cultura, tem que ter persistência. Temos que nos orgulhar do que temos e como isso pode nos levar para um futuro melhor", concluiu Sapiram Brito.
Compôs a mesa ainda o presidente do Instituto Girassol, Marcelo Furtado. Ele destacou a grande diversidade da região para o turismo e o desafio, na cultura, de aproximá-la da população, que não tem acesso ao teatro, cinema, futebol, enfim, que precisa ser inserida culturalmente.
A mediação foi de Carmem Regina Silveira Nogueira, professora da Ufpel.

Texto: Josemari Quevedo

Clandestino - Gilberto Isquierdo e Said Baja

  Assim como o Said, milhares de palestinos tiveram de deixar seu país buscando refúgio em outros lugares do mundo. Radicado nesta fronteir...