domingo, 3 de novembro de 2013

Velhas Brancas - Mário Barbará no La Mancha


Depois de quatro meses apresentando o melhor da música gaúcha e fronteiriça, o Espaço Cultural de Verão La Mancha , inaugurado em novembro de 2012, realizou na noite de 01 de março de 2013, o show de encerramento da sua Primeira Temporada. Considerado um dos marcos da música nativista, Mário Barbará , acompanhado do guitarreiro Sérgio Souza e do percussionista de São Borja, Paulinho Gerard, fez um show memorável e que possibilitou a todos nós, reencontrarmo-nos com seus grandes êxitos, Velhas Brancas, Desgarrados, Campesina e tantos outros.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Achados e Perdidos

 Semana passada aconteceu-me algo que a todos desagrada e traz transtornos. Indo de bicicleta para o trabalho, no meio do trajeto percebi que meu bolso já não trazia o que deveria trazer. Minha carteira com documentos pessoais, cartões e alguns trocados. Voltei rapidamente pelo caminho, mas já não encontrei o que havia perdido. Como de costume nesses casos, pedi aos meus amigos das rádios para colocar os avisos correspondentes. Até o momento em que escrevo esta, de nada tive notícia. Já tomei as providências cabíveis, bloqueio de cartões, registro do famoso BO, solicitação de segunda via de documentos. Um pouco trabalhoso, mas conformar-se com os desígnios da sorte, parece ser o caminho mais adequado.

Porém, essa semana não seria apenas de ocorrências desafortunadas e de perdas. Caiu-me nas mãos um livro que indico por ser leitura que, sem dúvida, os agraciará com reflexões de grande sabedoria sobre a vida e o destino humanos. Trata-se de as Cartas a Lucílio, do filósofo romano Sêneca. O nome do livro de bolso, editado pela LPM, é Aprendendo a Viver e traz uma coletânea de 29 textos dentre os 124 daquela que é considerada a obra prima do filósofo latino e que foram escritas entre os anos 63 e 65 da nossa era.

Nas cartas a Lucílio, personagem talvez fictício, para conformar o gênero literário adotado na época, a epístola, a mesma do Novo Testamento, Sêneca, remetente e ao mesmo tempo destinatário, escreve sobre os temas que devem proporcionar ao homem uma reflexão cotidiana a respeito da vida e não de questões vazias. A filosofia antes de tudo é para ser vivida. Reflexões sobre o tempo, solidão, velhice, sobre as lamentações, a insaciável busca de bens e prazeres, a doença, etc. Reflexões com muita sabedoria e argumentação característica da tradição greco latina.

Neste dia dois de novembro celebramos e reverenciamos a memória dos antepassados. Diz Sêneca na epístola em que aborda o pesar pelos amigos falecidos. “ Para mim, o pensamento sobre os amigos falecidos é doce e brando, pois os tive sabendo que ia perdê-los, e quando os perdi, era como se ainda os tivesse. (…) Por isso, desfrutamos avidamente da presença dos amigos, porque não podemos ter certeza por quanto tempo ainda os teremos. Pensemos que, frequentemente, os relegamos por alguma longa viagem, ou que, muitas vezes não os vemos mesmo morando no mesmo lugar, e compreenderemos que , quando estavam vivos, perdemos muito tempo.(...) Quem amavas morreu, procura outro para amar. É melhor recuperar um amigo que chorar. (…) Pensemos pois, querido Lucílio, logo nós também iremos para onde ele já foi e lamentamos. Talvez, se os sábios dizem a verdade, se há um lugar que nos recebe, aquele que pensamos que morreu simplesmente nos precedeu. Passa bem!”

Perdi uma carteira e achei um filósofo. A fortuna me sorriu sem dúvida!

Jorge Passos

Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional  em 30/10/2013


quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Poesia na Mesa: para comer, degustar e sentir


A Mandinga Arte Literatura tem como um dos objetivos fomentar a discussão, o debate, a reflexão e o intercâmbio com temas relacionados à poesia. Pensando nesta importância em compartilhar e expressar em forma de conversas e experiências poéticas, foi criada a ação “Poesia na Mesa”, que consiste em três encontros, dois na Bibliotheca Pública Pelotense e um no Casarão 06, durante a 41ª Feira do Livro de Pelotas, com diferentes temas postos à mesa.

Atividade com debates em torno da poesia traz o cotidiano de três autores na primeira edição.

Pensar a poesia como parte da vida de cada poeta, explorando as suas mais diversas formas de vivências, é uma das propostas da primeira atividade do Poesia na Mesa. Abrindo com o tema “Lugar Comum – Vida e Movimento”, três poetas de diferentes formas e relatos, estarão compartilhando suas experiências e suas excitações com a poesia no seu cotidiano.

A primeira noite da ação Poesia na Mesa, terá como convidados os poetas: Álvaro Barcellos, Marília Kosby e Valder Valeirão. Com mediação de Junelise Martino, o evento ocorre na Bibliotheca Pública Pelotense, às 18h30, do dia 2 de Novembro (sábado). 


O quê: Poesia na Mesa – Lugar Comum – Vida e Movimento.
Quando: Sábado, 2 de Novembro de 2013.
Onde: Bibliotheca Pública Pelotense, às 18h30

Realização: Mandinga Arte Literatura

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Pessoas que marcam uma cidade

Desfile da SAC abre o Carnaval na sexta-feira

De vez em quando fico pensando nas coisas de minha cidade. Dos eventos, das situações interessantes. E começo a observar que em muitos acontecimentos que viraram tradição, acabamos identificando pessoas que foram muitas vezes "pivôs" para que eles se propagassem. Acho importante reverenciá-las. Eu costumo chamar estas de "pessoas estrela". Pois passam por algum lugar e deixam marcas iluminadas. Claro que, em geral, grandes coisas não se faz sozinho, mas com certeza estas coisas não saem do papel se alguém não se proponha a dar o "pontapé" e dizer "vamos".

A partir daí, vou citar dois exemplos daqui da região do Rio Jaguarão, que me traz à mente uma pessoa que teve participação fundamental para que estes eventos surgissem e se tornassem o que são hoje.

Começamos então por aquele que se transformou na Abertura Oficial do Carnaval de Jaguarão. O desfile da SAC, Sociedade Amigos do Coronel, idealizada pelos filhos do "Coronel Lima" e amigos, no comecinho dos anos 80. O coronel Lima, ou Major Lima como o conhecia na época, foi meu professor de Matemática Financeira, aliás fantástico professor. De uma simples brincadeira, uma "Rainha das Piscinas", só que com homens vestidos de mulheres, se transformou nesta imensa festa que acontece todos os anos na sexta de carnaval. Já o outro evento vai aparecer por volta de 2005, no Balneário Lago Merin (aqui no lado Uruguaio) com uma festa na casa de um dos filhos do "Coronel Lima", que pela envergadura que foi alcançando, passou a ser organizada em outros locais bem como a participação de outros grupos, além dos "vecinos del Lago", também o Poder Público. Hoje tornou-se, nada menos, que a abertura da temporada de verão na Lagoa. Para quem acompanha vai perceber uma multidão que desfila pela principal rua do Balneário, muita música e com direito a vários Shows, que começam bem cedo e vara a madrugada. Trata-se do Luau no Balneário Lago Merin, aqui do lado uruguaio.

Para aqueles leitores que conseguem visualizar estes dois acontecimentos, não tenho dúvida que vem logo à mente a figura do amigo Kiko Lima. Este nosso conterrâneo esteve na articulação e criação destes dois eventos que "simplesmente" abrem dois grandes acontecimentos da região: O carnaval de Jaguarão e a Temporada de Verão no Lago Mirim. E tem outro, tão significativo como os citados. A limpeza anual do Rio Jaguarão organizada em conjunto com o Rotary e voluntários. 

Assim, aproveitei este espaço do Gente Fronteiriça para agradecer e reverenciar esta simples e grande personalidade da fronteira: Francisco "Kiko" Lima.

Carlos José A. Machado (Prof. Maninho)

Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 23/10/2013 


sábado, 26 de outubro de 2013

ZH - Aldyr Garcia Schlee fala da presença da fronteira em sua obra

Aldyr Garcia Schlee trata da fronteira imaginada em sua literatura na sétima entrevista da série

Foto: Fernando Gomes / Agencia RBS

"Meus personagens são os rejeitados", diz escritor

Carlos André Moreira
carlos.moreira@zerohora.com.br

Em três décadas de uma carreira paciente, Aldyr Garcia Schlee tornou-se um dos grandes contistas do Estado. Nesta sétima entrevista da série, ele fala da Fronteira imaginada de sua literatura.


Zero Hora — Seu primeiro livro sai em 1983, em uma época em que o senhor já contava por volta de 50 anos e tinha uma carreira como ilustrador e artista gráfico. Por que tão tarde?
Schlee — Acho que porque, naquela época, não havia muita oportunidade de publicação, ao contrário do que acontece hoje. Era caro e impensável alguém se lançar literariamente mandando imprimir por conta seu próprio livro. Não passava pela minha cabeça isso. Por isso, concorri em alguns concursos literários, em todos com alguma marca que me incentivou a continuar. Tentei primeiro aqui no RS, com um livro chamado Jaguarão e o Resto do Mundo, que ganhou menção honrosa. Depois, concorri duas vezes ao prêmio José Lins do Rego, também com um livro chamado Jaguarão Universo, em que, de certa maneira, recolhi uma parte do Jaguarão e o Resto do Mundo, e esses dois acabaram sendo publicados posteriormente em cada uma das partes do Contos de Sempre. Então, eu esperava uma oportunidade de publicar.

ZH — Contos de Sempre e Uma Terra Só, seus dois primeiros livros, parecem comungar de um propósito comum: mostrar a fronteira como uma região de identidade única no tempo, no caso de Contos de Sempre, e no espaço, em Uma Terra Só. Foi um projeto consciente?
Schlee — Eu não gosto de dizer que eu tenha um projeto literário, que tenha pretendido exatamente: “vou fazer assim”. Não consigo entender nenhum colega meu, nenhum autor que tenha um projeto literário, não creio nessa definição. Comigo, o que aconteceu foi que eu tinha esses dois livros de contos que haviam vencido concursos, e os dividi no primeiro livro, mas tinha o impacto do tempo decorrido, e eu os inverti no volume, a seção que eu denominei Contos de Ontem eram os mais recentes, e os Contos de Hojeeram os mais antigos. Essa era uma perspectiva estritamente temporal. Já no livro seguinte, Uma Terra Só, eu tinha pretensão de fazer o leitor atentar para um mundo que não é o verdadeiro, e sim o meu mundo imaginado, meu mundo literário, que eu pretendi conquistar e acabei por ele conquistado, porque não tenho condições de sair dele.

ZH — É estranho o senhor falar na ausência de um “projeto”, já que os seus livros caracterizam-se por uma unidade temática (O Dia em que o Papa Foi a Melo, Contos de Futebol).
Schlee — São livros em que trabalho em cima de uma tese. Há um determinado momento nesse meu mundo literário em que descubro alguma coisa para desenvolver em forma de tese, para demonstrar ao leitor minha visão de mundo. Nesse aspecto, há um certo conteúdo pedagógico. É uma pretensão grande, mas eu vejo assim. Então, quando eu parto para um livro como O Dia em que o Papa Foi a Melo, estou perplexo diante dessa visita do Papa, sendo o Uruguai um país laico declaradamente. Não só porque está expresso na Constituição, mas porque o Uruguai é laico de fato, e em 1904 já não havia mais crucifixos em repartições públicas, uma discussão que fomos ter agora aqui no Brasil. Sabendo que nesse país laico, na sua zona mais pobre, paupérrima, o papa iria fazer uma visita, fiquei atônito. Então resolvi não ir a Melo no dia 8 de maio de 1988, o dia em que ele foi. Mas fui na semana seguinte. E consegui entrevistas e toda uma documentação para escrever um livro de contos.

ZH — O Dia em que o Papa Foi a Melo é um relato da visita da maior autoridade da cristandade ao Uruguai, mas o primeiro conto, o que abre o livro, enfoca um padre em crise de fé que decide não ver o papa. É a representação desse confronto que o deixou perplexo entre a figura do papa e a laicidade do Uruguai?
Schlee — Exatamente. Esse padre, que, de certa maneira, sou eu, vai negar tudo, mesmo com todo seu conhecimento do cerimonial religioso. Ele não nega apenas a questão da visita do papa, o que é elementar, superficial. Ele contesta tudo, e isso está representado em pequenos detalhes de sua indumentária, da desolação do espaço onde ele vai se meter, uma paisagem à qual o Papa não iria. Tudo isso está pesando em um conjunto do qual tentei fazer a receita desse conto, que é, de fato, uma história chave do livro. Depois tem algumas coisas no livro, como a negação do milagre, da possibilidade de um milagre... Eu não escrevi na ordem em que pus, fui alinhavando até chegar ao Conto do Turco Jaber, que é um conto louco, que denuncia, entre outras coisas, essa questão da gauchidade. Porque nós temos uma dificuldade muito grande de sermos sul-rio-grandenses. O gentílico é dominado pela palavra “gaúcho”, que se tornou sinônimo. A distância é tão grande entre o gentílico e o significado maior da palavra “gaúcho” que escandaliza.

ZH — Por que o conto? Ao longo de décadas de carreira, o senhor escreveu um único romance, e um livro de contos que se interligam, mas permaneceu focado na forma curta. Essa preferência é uma questão de fôlego literário?
Schlee — Acho que sim. Tem aquela ideia do Cortázar de que o conto é um punch, como no boxe, no qual a gente luta com o leitor e tem a chance de ganhar por nocaute. No romance, a gente ganha por pontos. Acho que por trás disso está a capacidade que a gente possa ter de tratar de um assunto de modo a manter o leitor preso a cada parágrafo ou a cada página.  O conto me garante também a proximidade do final. É um tiro curto, são mil metros no máximo, numa cancha reta, uma carreira de fôlego curto.


ZH — E o que o leva a Don Frutos, um romance de 600 páginas?
Schlee — Eu não tinha alternativa. Estava atulhado de informação e comprometido com a necessidade de abordar o fato de que Fructuoso Rivera, duas vezes presidente do Uruguai, esteve em Jaguarão, minha terra... Um sujeito desses passando pela minha cidade não pode me escapar. Então eu tive que me atirar em cima dessa história, com a ajuda de um pesquisador chamado Amilcar Brum, que se deu ao trabalho de ir a Montevidéu para desencavar tanto material que eu poderia ter escrito três livros, separando por temas. Por exemplo, coisas que não aparecem muito no livro, como a intervenção brasileira, uruguaia e argentina no Paraguai, que não está lá porque o Rivera morreu antes. Mas eu tinha o tema do Rivera em Jaguarão e por ali fiquei.

ZH — Don Frutos parece singular não só pela extensão. É a única história em que o senhor enfoca diretamente uma figura de poder. O fato de Rivera estar doente quando chega a Jaguarão foi o elemento que tornou esse vulto “humano” para ser abarcado pela sua ficção?
Schlee — Exato. No primeiro capítulo do Don Frutos, a decadência física dele é notória, com o homem se mijando, dependendo da mulher e de um outro cara para ajudar a se movimentar, sem ter mais nada. E adiante no romance, a morte do Rivera pode ser lida de várias maneiras, até mesmo por quem domina a grande literatura uruguaia moderna, ao saber que aquele militar que era o secretário particular do Rivera, Onetti, era de fato parente do Juan Carlos Onetti. Há um falso diálogo final, no qual Rivera se refere a seu ajudante Capitão Onetti, que é feito com uma colagem de textos do Onetti escritor.

ZH — Havia, então, uma dificuldade em lidar com o caráter biográfico da narrativa de um símbolo político, dificuldade expressa na estrutura do livro?
Schlee — Tem outras coisas, como por exemplo a vinculação com os índios, ou o fato de ele os ter traído ou não, aquela famosa matança dos charruas. Eu estava sempre no fio da faca. O que eu tenho de documentação real do Rivera, conseguida pelo Amilcar Brum, são papéis do governo, da Assembleia Constituinte, da Câmara, do Senado, das igrejas. Agora, biografias do Rivera, eu tive que repassar todas as que havia disponíveis. Para as escritas pelos blancos, o Rivera era um bandido, ladrão, safado. Para os colorados, era um herói nacional, fundador do país. Eu tive que ficar em cima disso, e em nenhum momento pretendi que o leitor acreditasse que ele era bom ou mau, eu queria, como fiz em toda minha ficção, fugir do  maniqueísmo.

ZH — O senhor é conhecido no Rio Grande do Sul e no Uruguai, mas não no Brasil. Crê que paga o preço por lidar com um território ficcional tão restrito?
Schlee — No Uruguai eu sou considerado autor uruguaio, e fiz parte de uma coleção publicada pela editora Banda Oriental. Mas eu não quero me enganar em cima de proporções. Se em um país com 3 milhões de habitantes e um território menor do que o RS, se lá eu sou muito mais conhecido, proporcionalmente, do que no Brasil, é porque não há proporcionalidade cabível entre Brasil e Uruguai. A minha literatura, que pode ser muito conhecida dentro do Uruguai, é virtualmente desconhecida no Brasil, primeiro pela dificuldade temática. O meu mundo literário tem pouco a ver com o Brasil. E não sairei desse mundo em um esforço falso para ganhar leitores, porque se eu deixá-lo, estou perdido.

ZH — O senhor lida com o lado B da mitologia da formação do território. Quando lança Contos de Futebol, esse olhar se dirige ao lado avesso de outra mitologia, esta contemporânea, a do futebol. Foi um passo consciente?
Schlee — Não, eu queria apenas escrever um livro de futebol. A explicação está em um conto chamado Encanto de Futebol, cujo título diz tudo. Esse “encanto de futebol” contaminou uma série de coisas relacionadas à minha vida, o encanto com o futebol uruguaio em particular. Por isso esse livro saiu como Cuentos de Fútbol primeiro no Uruguai. É um livro uruguaio,  ainda que não tanto como o Limites do Impossível e principalmente O Dia em que o Papa Foi a Melo.



ZH — Em Contos de Verdades,  o senhor escreve “causos”, mas os chama de “verdades”, mesmo sendo histórias que se apresentam como verdadeiras, mas podem não ser.
Schlee — Eu não havia pensado nisso, mas é assim mesmo. Eu estou falando de “verdades” nesse livro mais ou menos do mesmo jeito que se desenvolvem os “causos”, as “fofocas”, para usar uma expressão mais vulgar, e que dão origem à construção de uma verdade que não é necessariamente verdadeira.

ZH — Em Contos de Sempre e Uma Terra Só seus personagens se expressam em uma mistura de espanhol e português, como na fronteira. A partir deLinha Divisória, não apenas o personagem no diálogo, mas o próprio narrador deixa um idioma contaminar o outro. Por quê?
Schlee — Eu aprendi que é possível o narrador assumir a maneira de ser do personagem, deixando de narrar à sua própria maneira. Então, no momento em que estou fazendo uma narrativa referente a um personagem, eu me sinto autorizado a usar esse recurso. Porque há uma dificuldade muito grande para qualquer autor que, como eu, trabalha com personagens rústicos, geralmente pobres, sem educação formal, como são os párias. Os meus personagens são os rejeitados da sorte. Essas pessoas não têm a minha formação, mas têm seu próprio modo de pensar. E quando tento reproduzir o pensamento deles, eu me sinto autorizado a usar esse recurso. É uma coisa que eu vejo que enriqueceu muito a literatura do Simões Lopes Neto, por exemplo.

ZH — Os Limites do Impossível: Contos Gardelianos é um livro em que o senhor mescla conto e novela ao narrar uma trama única tecida das histórias das mulheres que orbitaram o pai de Carlos Gardel. Como chegou a essa história?
Schlee — Essa história eu resolvi escrever no momento em que tive certeza de que era preciso denunciar as arbitrariedades do então presumido pai de Carlos Gardel a partir de tudo o que ele fez na política do Uruguai, mas particularmente em relação ao nascimento desse filho, fruto de estupro e incesto. Então achei que a narração não deveria se referir diretamente a ele, mas às mulheres que tiveram a ver, direta ou indiretamente, com o nascimento de Carlos Gardel.

ZH — O Dia em que o Papa foi a Melo e Os Limites do Impossível, a bem dizer, anteciparam respectivamente O Banheiro do Papa, longa ficcional de Cesar Charlone, e o documentário El Padre de Gardel, que teve uma sessão recente na Capital. Como vê essa circunstância, uma vez que em ambos os casos não parece ter havido menção a seu tratamento anterior do tema?
Schlee — O que eu fiquei estranhando é o quanto sou desconhecido. O Banheiro do Papa tem uma história que poderia ser inspirada no Conto V de O Dia em que o Papa Foi a Melo, também chamado de Melo Era uma Festa, com todas aquelas decepções dos personagens... O clima é o mesmo, os acontecimentos correspondem, os caras que fizeram o filme tiveram o mesmo sentimento que eu tive de identificação com aquelas pobres pessoas que gastaram os últimos centavos que tinham, mataram um leitãozinho de estimação roubaram uma capivara para poder oferecer comida aos brasileiros, porque ia ter 40 mil brasileiros lá. Eram pessoas não à procura de um milagre, mas buscando criá-lo, e foram frustradas. O papa passou, virou lixo tudo aquilo. O filme mostra uma ideia que está lá no meu conto, a de alguém que pensa em fazer uma latrina. Mas o protagonista não está no conto, a guria que queria ser radioatriz não está no conto, e aqueles personagens me emocionaram às lágrimas. Não tenho do que reclamar, fico feliz que tenham feito um filme tão bom. Esse documentário do Gardel eu não vi. Os fatos, os acontecimentos históricos que sustentam a minha ficção no caso dos Contos Gardelianos, são comprovados e são os mesmos que devem ter sustentado o documentário. Não tenho como me queixar de nada. Só fico com pena que estejamos tão perto e tão longe do Uruguai ao mesmo tempo, o que comprova que meu mundo literário é limitado e distante.

ZH — Contos da Vida Difícil, seu livro mais recente, retrata um momento em que Jaguarão se torna ponto de passagem do tráfico de mulheres – na sequência da construção da ponte que liga a cidade a Rio Branco, no Uruguai. Havia a intenção de confrontar essa ponte, signo de passagem, com a situação dessas mulheres, presas à prostituição no município?
Schlee — Bem observado. Se há alguma possibilidade de encantamento com esse tema, como também em relação ao futebol, é no fato de ser um assunto que Jaguarão considerou necessário esconder e fazer de conta que não é parte de sua memória. Isso aconteceu de uma forma que eu não procurei explicar, porque eu próprio não encontro explicação. Por que esses fatos raramente respingaram algumas famílias de Jaguarão? Por que a maioria das pessoas de Jaguarão esqueceu disso? Por que não se fala que o cabaré que foi tão importante, o do Tomazinho, ainda existe como prédio pertencente a um clube social, o Instrução e Recreio? Os sócios se envergonhariam de dizer “aqui funcionou um cabaré”? Não sei se terá sido isso, mas os acontecimentos eram tão contraditórios que em cima deles eu tinha de construir algo.

ZH — O primeiro conto desse livro, Carnet de Divertissement, é sobre um caderninho de nomes dos clientes dos cabarés. E o senhor o compara textualmente a um “caderno de venda”. Essa frase tem o intuito de equiparar as mulheres ali escravizadas a mercadorias de comércio, ?
Schlee — Sim. Ao citar os fregueses cujos nomes aparecem nesse caderno, estou denunciando que muitos deles viraram nomes de rua e é melhor nem seguir adiante. É uma justificativa em parte para essa minha narrativa estar rompendo com esse pacto de silêncio e esquecimento.

Os livros
 Contos de Sempre (contos, 1983)
 Uma Terra Só (contos, 1984)
 O Dia em que o Papa Foi a Melo (contos, 1991, publicado primeiro Uruguai, em espanhol, e editado no  Brasil, em português, em  1999)
 Contos de Futebol (contos, 1997)
 Linha Divisória (contos, 1998)
 Contos de Verdades (contos, 2000)
 Os Limites do Impossível: Contos Gardelianos (contos, 2009)
 Don Frutos (romance, 2010)
 Contos da Vida Difícil (contos, 2013)

Fonte: http://zerohora.clicrbs.com.br    Série obra completa26/10/2013 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Poesia de Cordel no Sarau BPP



Projeto Sarau Poético-Musical da Bibliotheca Pública Pelotense (BPP) chega, na próxima terça (29), à sua 35ª edição. Com encontros mensais - sempre na última terça do mês - o projeto abre espaços para autores-poetas e músicos da cidade e região , além de apresentar um tema ou autor em destaque. Na edição de outubro , o tema destacado  é a poesia de cordel , manifestação típica da cultura popular do Nordeste brasileiro. A fala sobre  o tema abre o evento que, na sequência, apresenta blocos alternados de música ao vivo e poesia recitada pelos  autores convidados.Entrada franca e início às 19:30 horas, no salão térreo da Bibliotheca.
 
CONFIRA PROGRAMAÇÃO E CONVIDADOS
 
O QUE - 35ª edição  do Projeto  Sarau Poético-Musical BPP.

QUANDO E ONDE - 29 de outubro de 2013, no salão térreo da Bibliotheca Pública Pelotense. Entrada franca. Inicio às 19:30 horas.
 
TEMA EM DESTAQUE
Poesia de cordel
 
MÚSICA AO VIVO
Ricardo Petrucci, Marcela Mescalina e Lucas Barcellos
 
POETAS/ AUTORES CONVIDADOS
Alvaro Barcellos
Gil Fernandes
Sérgio Christino
 
CONVERSA SOBRE O TEMA EM DESTAQUE
Tabajara Rodrigues de Carvalho
 
PARCEIROS INSTITUCIONAIS
Confraria dos Poetas de Jaguarão
Curso de Relações Internacionais / UFPel
Faculdade de Educação / UFPel
Centro de Letras e Comunicação/ UFPel
Instituto Estadual de Educação Assis Brasil
RádioCOM.104.5FM
Grupo de Estudos em Leitura Literária/UFPel
 
 
Realização
Bibliotheca Pública Pelotense
 
Coordenação Projeto Sarau Poético BPP
Daniela Pires de Castro
Getulio Matos
Mara Agripina Ferreira
Pedro Moacyr Perez da Silveira

Clandestino - Gilberto Isquierdo e Said Baja

  Assim como o Said, milhares de palestinos tiveram de deixar seu país buscando refúgio em outros lugares do mundo. Radicado nesta fronteir...