quinta-feira, 21 de março de 2013

Lembranças do Caminho

A Lua da Minervina - Devoto da Imaculada, meu pai sempre tirou o chapéu quando passava por aqui.

Que saudade!

- Das pandorgas feitas pelas mãos de pianista do meu Pai – artísticas confecções – inigualáveis no acabamento e na graciosidade de vôo.


- Da “Hora do Ângelus”, pela voz do Padre Mário, na Rádio Cultura. Sentados à cozinha a Mãe e eu. Ela concentrada na Ave-Maria e eu sonhando em ter a perna mais comprida que a da cadeira.


- Dos divinos sorvetes da Dona Fifa, quando os raros cobres do vazio bolso paterno nos permitiam.


- Das matinês do Cine Theatro Esperança; dos seriados de Buck Jones e Hopalang Cassidy; dos filmes antigos/atuais do Carlitos/Chaplin; da ingênua beleza da Marilyn (embora os mais velhos enxergassem outros atributos).


- Da “Maria-fumaça”, partindo da estação, carregada de lenha e viajantes, no furioso resfolegar, silenciado antes do seu desaparecer na planície sem fim.


- Dos banhos no riacho do Empedrado - menos do afogamento, quando fui salvo pelos cabelos. Uma dívida impagável. O meu benfeitor foi abatido, pouco depois, por uma leucemia aos doze anos.


- Da minha primeira Professora (com P maiúsculo!) – Jalusa Pereira Borges. Austera, uma esfinge de rigidez, e extremamente simpática ao ofertar-me o brinde pela primeira colocação (dez/56). Guardei-o, até extraviar-se no espólio do matrimônio anterior.


- Da doce coleguinha das aulas do Joaquim Caetano, pouco mais velha do que eu. Quase namoradinha. Nunca tomei coragem da iniciativa, outro tomou.


- Da velha pereira do quintal vizinho, até que o galho, insatisfeito com o meu cavalgar, quebrou, e o braço direito também se partiu (dez/57). Ainda assim, adoro pera.


- Dos civilizados, ingênuos e alegres carnavais de antigamente, embora o sono chegasse antes do encerramento do desfile.


- Dos Ford Fairlane/56 e dos Chevrolet Bel Air/57, nos seus flamantes e exibidos passeios pela rua principal; a Vinte e Sete.


- Do final do campeonato mundial de 58, quando a cidade explodiu numa só alegria. Não sabia que tantos gostassem de futebol.


- Do meu primeiro – e único – cachorro. Em homenagem ao herói das histórias em quadrinhos, batizei-o de Valente. Extrema ironia; apanhava de todos. A única batalha enfrentada com estardalhaço era com a roda do velho táxi do seu Pelufo. Perdeu-a também e enterrado no quintal ficou.


- Das “charretes”, puxadas por cavalos, lá do Uruguai; transporte pessoal de outro tempo em tempo alheio.

 
Que saudade da década de cinquenta! Da criança que um dia também o fui. 


Envelhecemos,  a década e eu. Mas esse detalhe pouco importa. O mais importante é que, daqui a cinquenta anos, as crianças de hoje possam também sentir uma benéfica saudade de um tempo que não mais voltará.

Lino Marques Cardoso
 escrito em 12/09/2005

Publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia 05/03/2013

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