terça-feira, 2 de maio de 2023

Gravidez e Primeira Infância - A importância do Relacionamento Mãe - Filho - Luciara Nobre Queijo

 


Assista a live de Luciara Nobre Queijo, psicóloga, sobre as experiências pessoais da gestação, parto, cuidados com o bebê, amamentação, importância do relacionamento mãe filho para o desenvolvimento da Criança e do adulto que será. Luciara Nobre Queijo - Psicóloga - - CRP 07/07491 Especialista em Psicologia Clínica, Especialista em Psicologia Educacional e Licenciada em Psicologia. Atendimento Online: Whats (53) 99165-4692

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

El Chofer del Diablo - O homem que passava o Brizola na fronteira de Jaguarão - Rio Branco

 



Esta entrevista foi algo totalmente inusitado e sem planejamento nenhum. Como se diz, obra da fortuna. Estou sozinho no canteiro da rua, defronte ao comitê central do Partido dos Trabalhadores em Jaguarão, durante o pleito municipal de 2020. O pessoal todo lá dentro está organizando a caminhada. 

O seu José Francisco gomes Mendes (vim a saber seu nome em meio à conversa) detém o carro e me pergunta: Este é o partido do Brizola? E aí eu respondo que não, mas que o PDT faz parte da aliança que concorre na eleição. Então, como uma espécie de reclamação há muito guardada, me diz que nunca deram importância para ele. Logo comecei a filmar porque pressenti que o relato poderia tornar-se algo muito interessante e, quem sabe, um registro histórico. 

Além do governador Brizola o seu José nos conta outro fato muito interessante. Ele também foi encarregado de passar pela Ponte a esposa do Presidente João Goulart, então exilado na Argentina.  Dona Maria Theresa hospedou-se no Gran hotel Italiano em Rio Branco e, disfarçada de "mulher da vida", recostada sobre o ombro do Chofer do Consul, efetuou exitosamente a travessia para o Brasil pela Mauá. 

Sobre a narrativa do seu José, faço apenas um reparo: A medalha que ganhou refere-se à inauguração da Ponte Internacional entre Quaraí no Brasil e Artigas no Uruguay, em 22 de maio de 1947, no encontro entre os presidentes Eurico Gaspar Dutra e Tomás Berreta. Provavelmente o então eleito deputado estadual naquele ano, Leonel Brizola, esteve presente no evento e obteve o medalhão que depois presentearia ao cônsul do Uruguay em Jaguarão, seu amigo, Senhor Jorge Bitar. O diplomata, por sua vez, regalou-a ao seu motorista, o seu José. 

Em depoimentos nas redes sociais após a publicação deste vídeo, a sobrinha do cônsul, senhora Cristina Bitar Arismendi, relata que o Seu José era conhecido como "El chofer del Diablo". Segundo ela, Bitar tinha um cunhado em Pelotas, Sr. Jorge Real, o qual era mão direita de Brizola. Através desse parentesco, e por ser o senhor Bitar cônsul e dispor de imunidade diplomática, foi que se arranjou a passada do governador Brizola no porta malas do auto dirigido pelo seu José, com chapa consular para a cidade de Rio Branco, pela Ponte Mauá. 

Cristina remata concluindo que este é um pouco da história sobre a audaz aventura e travessia orquestrada por seus tios pela Ponte Mauá do "Chofer del Diablo" e de Leonel de Moura Brizola. 

Em outro depoimento, o senhor Walter Larrosa Garcia, testemunha que na época foi colega de trabalho do José no Gran Hotel Italiano, em Rio Branco, hotel de propriedade de Jorge Bitar Abdala, onde esteve alojado um dos secretários de Brizola durante um bom tempo. Talvez estivesse ali planejando a passada do eminente governador.

Jorge Passos

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Fábio Amaro - Babel - Poesia

 


A LOUCA

Uma louca dançava
arrastando o vestido na chuva.

Não tinha paciência
para absurdos.

Quando a gente lhe dizia
sobre abrigar-se
das águas
ela respondia:

- Conjugo o que vem do céu
com as inexatidões do meu coração
e assim é que desabrocho meus jasmins.

Ninguém entendeu,
mas todos calaram a boca.


Fábio Amaro nasceu na fria noite de 28 de agosto de 1977, na cidade de Pelotas. É poeta, PhD em Relações Internacionais e Professor na Universidade Federal de Pelotas. Publicou dois volumes de poesia, O Carrossel dos Desvarios Voláteis, em 1999 e, O Terceiro Lado da Moeda, em 2017.

Propenso a desvarios, tem na poesia o reduto de seus despautérios e vislumbra nela o pilar de sua sanidade. 




sexta-feira, 12 de agosto de 2022

PROGRAMAÇÃO DA IV SEMANA DO PATRIMÔNIO DE JAGUARÃO/2022

 



13 AGO 22 (Sábado)


LOCAL : Prédio Tiaraju (Rua 15 de novembro, frente ao Museu Carlos Barbosa)


19:00 h : Cerimônia de abertura comissão organizadora e autoridades


19:15 h : Recepção para a abertura da Exposição do Pompílio Neves de Freitas

Mão Branca-Lucia Passos. A exposição estará aberta a visitações do dia 13 de agosto ao dia 21 de agosto, entrada franca


A exposição das Rainhas Negras do Clube 24 de Agosto

A exposição será na UNIPAMPA, na Galeria Intercultural Magliani – GIM



15 AGO 22 (Segunda Feira)


15:00 h Na Rua Uma Terra Só


Corredores Iluminados (UNIPAMPA) -Momento de Solenidade colocação da placa de Qr-Code do projeto.


20:00 h No Auditório do IFSUL


Olhares sobre o Patrimônio Cultural Uruguaio: uma conversa fronteiriça - Live com os arquitetos-Alberto Leira Regueiro e Rafaela Nieto Marques da Rocha, mediação com as arquitetas Adriana Pagliani Ança e Cláudia Anahí Aguilera Larrosa.


16 AGO 22 (Terça-Feira)


Exposição de fotografias da família de Carlos Barbosa - A exposição será no Museu Dr. Carlos Barbosa, entrada franca e iniciará no dia 16 de agosto ao dia 21 de agosto


09:30 h as 12:00 14:00 as 18:00 na Igreja Matriz do Divino


Visita Guiada - Padre Valdeir da Paixão Silva Marque sua visita: (53) 3261-1978


18:30 h Theatro Esperança


Abertura Oficial da Exposição artesanal - Registros de educação: Arte de rua, patrimônio e as paisagens da fronteira


19:00 h Theatro Esperança


Roda de Conversa: O saber fazer da lida campeira na pampa

Dr. Daniel Vaz-UFPEL e mediação Ma. Miriel Bilhalva HerrmannUFPEL.


17 AGO 22 (Quarta-Feira)


08:30 h Biblioteca Pública


I Simpósio Educação e Turismo nas Escolas - PETE SMED e Organização


14:00- 17:00h Fundação Carlos Barbosa


Oficina Museal com o Dr. Diego Lemos Ribeiro- UFPEL *Vagas limitadas 16 pessoas


18 AGO 22 (Quinta-Feira):


09:00- 12:00 h Theatro Esperança


Visitação a exposição- com a professora Andréa Lima e seus alunos (a)


14:00 h Cemitério das Irmandades


Visitação guiada - Rafael Schranck Chagas e organização - Marque sua visita: (53) 99155-7258


19:00 h Theatro Esperança

ABERTURA DA FALA 2022 - Feira Alternativa de Literatura e Arte da Fronteira. Mesa: Magnum Patron Sória (Presidente da Sociedade Independente Cultural-SIC), Kênya Martins - Coordenadora da FALA 2022 e Carlos José de Azevedo Machado - Prof. IFRS/Bento, vice-presidente da SIC e membro do Fronteras Culturales.


Apresentação do curta-metragem “CASA DE RIO” (do filme Fronteriz@s, uma produção conjunta da SIC e Fronteras Culturales). Bate papo com os seus produtores e organizadores: Temática: Integração cultural fronteiriça - Ricardo Almeida (Consultor em assuntos de fronteiras) da Coordenação do Fronteras Culturales e Produtor Geral do filme, Luiz Alberto Cassol (Diretor do Curta “Casa de Rio”), Maria Fernanda Passos (jornalista e roteirista do Curta), Jorge Passos, Mireya Brochado e outros protagonistas do Curta Casa de Rio.

19 AGO 22 (Sexta-Feira)

09:30 - 12:00 h UNIPAMPA

Talk show Experiências culturais - Unipampa Campus Jaguarão. Coord. Ângela Ribeiro, Kênya Martins /Curso tecnologia gestão Turismo Unipampa - Grupo de pesquisa turismo Fronteira e Desenvolvimento e Prof. Carlos José Machado-IFRS. Público-alvo: 3º ano do Ensino Médio e público geral.

Exposição Itinerante Rainhas Negras do Clube 24 de Agosto - NEABI Mocinha - Unipampa Campus Jaguarão.

09:30 – 12:00 14:00 18:00 h Igreja Matriz

Visitação guiada (Padre Valdeir da Paixão Silva) 1 – Marque sua visita: (53) 3261-1978

19:00 h Theatro Esperança

Roda de Conversa - Patrimônio Material e Imaterial com a Dra. Maria de Fátima Bento Ribeiro e Dra. Naiara de Souza

20 AGO 22 (Sábado)

15:00 h Rua João da Costa Chaves e Ilê Axé Mãe Nice D' Xangô

Visitações - Caminhos histórico cultural pelos patrimônios negros de Jaguarão Rua João da Costa Chaves - Profa. Dra. Giane Vargas e Ilê Axé Mãe Nice D' Xangô (Leandro Tavares)

Ativismo e protagonismo negro em Jaguarão/RS, fronteira Brasil-Uruguai - Liziana Farias Neves e familiares de João da Costa Chaves; e roda de Conversa Espaço Ilê Axê - Yalorixa Mãe Nice D' Xangô.

21 AGO 22 (Domingo)

14:00- 17:00 h Mercado Público

Exposição de automóveis antigos e clássicos - Jaguar Car Antigos e Museo de Medios de Transportes de Rio Branco - Organizador: Eduardo Monção Zart




domingo, 7 de agosto de 2022

UM DIA EN RIO BRANCO -URUGUAY ( Século XX)

Amanheceu. Da quinta vem o ruído da enxada limpando o pasto na volta dos morangos. São poucos, mas bem cuidados. O terreiro das galinhas já foi varrido e os ovos das poedeiras colhido. Ouço o trotezito do carro de la panaderia Los Claveles entregando o pão recém saído do forno. Rio Branco vai acordando. Tomo café para ir ao colégio das Freiras e o pai me avisa que a Rural não pegou. "Sobe lá na aduana e vê se não tem algum marinero, o Medina ou o Borges pra me ajudar a dar uma empurrada. "

Subo pelas escadinhas da ponte onde já se ve a correria com o carromotor chegando. Passou pela estação Presidente Getulio Vargas, Poblao de Vargas como se dice por acá. Vem apinhado.

No meio da ponte já está se aninhando na calçada o nego Véio vendedor de bananas. Ele larga as bananas ali no chão e os passantes, com suas maletas de garupa sobre os braços que vão comprar açúcar, yerba, rapadura y otras cositas más no Armazém Oscar Amaro em Jaguarão, ja vão adquirindo una penca que vai ser derrubada de uma sentada ali na sombra dos arcos da ponte.

Do outro lado, também de um trem, este, um Maria Fumaça que veio de Rio Grande e passou pela estação Basílio, vai descendo o pessoal cruzando a Mauá destino à Casa Azpiroz, Tienda Machado, Casa de las Lanas, Casa Simon, Casa Martinez, el almacen del basco don Amado e outros comercios chicos que vendem de tudo que é bom do Uruguay, lanas, cobertores, telas balmoral, casacos de burma, quesos, dulce de leche, aceite y galletas Maestro Cubano, aquelas que vem nuns latões grandes que depois é bom de guardar os mantimentos em casa. Algum desses viajantes até pensa em passar uns dias na fronteira hospedado ali no hotel italiano, comer una buena parrilla no Oásis acompanhado por una Norteña e quem sabe dar un paseo de bolanta por la cuchilla, visitar os parentes que aqui ficaram e curtir la sesion de sabado nel cine Rio Branco que en la cartelera anuncia la pelicula de guerra "Los Cañones de Navarone". Imperdible.

O velho, depois de me dar uma carona na rural até o colégio, já está na loja. As vezes, quando tem muito movimento, como parece ser hoje, até almoça por lá. De tarde, depois dos temas feitos, também vou pra loja, ajudo com algum pacote, cevo o mate, mesmo pra algum cliente que puxa conversa, e me entretenho, por entre o burburinho das mulheres , que essas são mais falantes, experimentando roupas, o recrecrec das tesouras cortando telas, as negaceadas murmuradas da balconista Muñeca dizendo pra minha mãe: "esa, baja todo y no compra nada."

Volta e meia, uma vez por mês, no começo da temporada, aparece algum viajante de Montevideo com sua mala cheia de novidades que vai abrindo e mostrando pro Velho. "Ney, eso se va a vender mucho este año" dizia o vendedor, enquanto eu e minha irmã menor ficávamos encantados ali na volta, só mirando porque não se podia falar, admirando aquele mascate fumando cachimbo com relogio de corrente de ouro e mostrando as mais lindas mercadorias da capital del país y que a los brasileños les iba a gustar mucho.

Depois, já à tardinha, sentado num dos degraus da loja, ficava só observando tranquilo aquele mundo de gente percorrendo a rua central do Rio Branco, num ir e vir, no fervor de consumo, a esperar a passagem das gurias que saem do liceo. 

Jorge Passos

Antigo Liceo- hoje Restaurante Batuva




sábado, 6 de agosto de 2022

Memória das Ondas - III Onda por Thadeu Gomes

 

Mestre Vado e Leitão


Vou resumir: o Tio Leitão, foi centroavante do Jaguarão; professor Pino, Eduardo Gatinha, o influencer dos anos 60, Sputinik, Cavalo Velho, Chico Canha, Ademir, Peninha e Monteiro. Tá bom para vocês? 

Não?! Hélio, Martin, Carlão, Jorge, Paulo, Fernanda, Pardal, Javali e Aldyr. Isso diz algo? Então, estou feliz. Ainda respiro Jaguarão. Sou guri, ali, abaixo dos trilhos, Rua do Cordão, mas no meu coração não há uma Jaguarão com divisórias, porteiras e aramados. Eu a respiro toda! Essa é a onda!

Mestre Vado, Monteiro e Gocha.



terça-feira, 26 de julho de 2022

O Encontro de Aldyr Schlee com Enrique Amorin y Jorge Luís Borges no Hotel Italiano

 


No vídeo acima, registrado na II Feira Binacional do Livro de Jaguarão, em dezembro de 2011, Aldyr Garcia Schlee nos fala sobre seu projeto de escrever o livro "Contos com Espelhos" onde seus contos dialogam com os contos Borgianos.
Narra seu encontro, ainda menino, un "niño guapo", como lhe diria o escritor e poeta uruguaio Enrique Amorin, com Jorge Luis Borges no Hotel Italiano em Rio Branco.
Imagens de Borges : Galería de escritores y artistas de 1928 a 1959 por Enrique Amorim

Hotel Italiano em Rio Branco, anos 40, cenário do encontro entre Schlee, Enrique Amorin y Jorge Luis Borges.

Meu encontro com Amorim (e Borges) 

Aldyr Garcia Schlee

SEMPRE tive de Enrique Amorim uma impressão que não é a de quem o conheceu realmente; e jamais será a verdadeira, pois na única vez em que nos encontramos, não recordo que cheguei a vê-lo e não me lembro se me animei a falar-lhe, embora ele houvesse me visto e me tivesse dito ola, qué niño guapo, quando eu tinha seis ou sete anos e me levaram pela mão a Río Branco e me puseram diante dele e disseram depois que ele estava lá sim, bem sentado numa poltrona de vime no restaurant do hotel do Boroni, e tomava três dedos de fernet blanca num copo com água de sifón, ao lado de um enigmático amigo argentino que o vinha acompanhando sem pressa numa comprida viagem de automóvel ao longo da fronteira brasileira, parece que desde Salto a Artigas, depois a Santana do Livramento, por Tacuarembó, e de lá – quem sabe – a Bagé ou Aceguá, até Melo para, finalmente, chegar aqui, do outro lado do rio Jaguarão, hospedando-se ali mesmo, em Río Branco.

Se Enrique Amorim dispôs-se a atravessar a Ponte, vindo a Jaguarão, não sei; não soube nunca e não perguntei a ninguém. Desde então, muito tempo passou, apagando definitivamente de minha memória as improváveis lembranças que eu teria do autor uruguaio; e só outro dia fiquei sabendo que quem o acompanhava na viagem, como a própria razão de ser daquele longo périplo mítico sobre os coincidentes limites extremos do Norte uruguaio e do Sul brasileiro, num “país indocumentado”, era Jorge Luis Borges.

Hoje, passados de sessenta e sete a sessenta e oito anos, o anoso prédio do Hotel está transfigurado numa asséptica e arcondicionada duty free de artigos importados, onde já não sobram mais do que a bela fachada, na calle General Artigas e, pela calle General Rivera, diante do Banco de la República, a grossa parede lateral de dois pisos (nesta, não terá havido reboco nem pintura suficientes para apagar uma clara cicatriz em forma de porta, que perdura até hoje*, entre as vitrinas de baixo e sob as janelas de cima, denunciando que ali existira uma saída para a rua).   

Foto: Luis Carlos Vaz

Hoje, de Enrique Amorim já li quase todos os livros, já traduzi muitos de seus contos, já repassei grande parte de sua correspondência, já tive acesso a muitas de suas imagens fotográficas; mas, mesmo assim, não consigo imaginá-lo como ele terá sido na poltrona de vime do restaurant do hotel do Boroni, bebendo fernet-blanca. Não chego a reconhecer nas fotografias o homem sério de rosto comprido e magro, de testa alta e olhos distantes; não consigo ouvi-lo repetir qué niño guapo com a sua mesma voz que está gravada em disco e preservada pela História. 

O Henrique Amorim que me terá conhecido, eu o imaginei outro: gordo e de terno branco – como meu tio Carlos; talvez de óculos como Zé Lins; ou capaz de grandes gargalhadas por nada, como o Amorim marido de uma tia de minha futura mulher. Aquele, o que a mim me terá dito ola, aquele era outro – que não reconheço; que não era gordo nem usava óculos nem dava grandes gargalhadas; mas era muito rico, ilustrado e viajado, exatamente como o padrinho de minha irmã (o padrinho de minha irmã, esse tinha uma grande biblioteca, uma tentadora amante francesa, e passava todos os invernos no Rio de Janeiro, onde mantinha auto com chauffeur, dispondo permanentemente de apartamento no Hotel Avenida).

De Amorim, desafiam-me retratos sobre a mesa. Como reencontrá-lo e reconhecê-lo agora, nessas fotografias antigas, se nunca o encontrei de verdade ou o conheci de mentira em minhas lembranças, apesar de sempre ter guardado e resguardado em meus olvidos sua imagem? 

Esforço-me como se quisesse reencontrá-lo e reconhecê-lo nessas fotografias, de onde me olha como nunca o vi, entre gentes conhecidas e desconhecidas, homens e mulheres, sempre muito sério ou muito sorrindo, às vezes de chapéu bem posto, às vezes de cabeça descoberta, com seu mesmo cabelo penteado com gomina e repartido do lado. Uma vez está em 1943, como teria estado em Rio Branco, dois ou três anos antes, diante de mim, ao lado de seu companheiro de viagem e do padrinho de minha irmã; mas está também em 1945, encarando-me de frente, ao lado de Nicolas Guillén, Cândido Portinari e Toño Salazar; mirando-me firme como George Raft, ameaçadoramente como George Raft, bem como George Raft; e não me adianta admirar a risada aberta de todos os dentes de Guillén ou o contido sorriso de simpatia de Portinari, nem o risinho coadjuvante de Toño Salazar.



O padrinho de minha irmã, sabe-se lá de que forma, fora encarregado por Amorim de reservar-lhe habitação no hotel do Boroni, o Hotel Italiano, que todos tínhamos como um refinado estabelecimento hoteleiro. E conseguiu mais do que arranjar aposentos para Amorim e Borges: ele conseguiu que o Boroni abrisse uma porta diretamente do quarto reservado para a rua, na lateral do prédio, garantindo a privacidade dos dois hóspedes e dispensando-os de entrarem pelo restaurant do hotel.

Eu tinha, seis ou sete anos: só sei dessas coisas por ouvir contar; mas nunca as esqueci, na esperança de imaginar -- como se relembrasse -- o que foi dito e visto, aquele dia imemorável, numa mesa do Hotel Italiano, antes que a marca tumular da porta aberta na parede se transformasse no único testemunho concreto de meu encontro infantil com Henrique Amorim. E Jorge Luis Borges!
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* Entre maio e julho de 2010, o autor esteve sem ir a Jaguarão. Quando voltou, já não encontrou a porta, a marca da porta, a marca da porta empedrada na fachada lateral do antigo Hotel Italiano, quase na esquina, diante do Banco de la República, em Rio Branco. O prédio fora, finalmente, reformado – para atender à necessidade de esconder suas feridas e revelar sua pulcritude climatizada.  Mas restaram fotos de como tudo era; de tudo como fora antes.

Foto:Luis Carlos Vaz



Los hermanos Azpiroz, Esteban, Rufina y Simon. 
Provavelmente sentados nas poltronas de vime do Hotel Italiano 


Clandestino - Gilberto Isquierdo e Said Baja

  Assim como o Said, milhares de palestinos tiveram de deixar seu país buscando refúgio em outros lugares do mundo. Radicado nesta fronteir...