quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O Lado de ver a Fronteira

Vaivém das fronteiras- diversidade além dos limites geopolíticos impostos

Na concepção topográfica determinada pelas cartografias da criação e fortalecimento dos Estados modernos durante o século XIX, na invenção de territórios homogêneos que se organizavam segundo exigências de aparelhos e estratégias estatais, reconheciam-se as fronteiras em confins naturais, constituindo-se por elementos de uma doutrina chamada geopolítica, o que atribuía a marcos geográficos uma função determinante na história política. No entanto, um rio, um deserto ou uma montanha só podem ser considerados referências de divisão quando ainda não tocados pelas sociedades. Se, em casos de expansão militarizada, eles oferecem obstáculos notáveis, em tempos de paz um rio, por exemplo, pode ser uma via de transporte, mobilidade das pessoas e intercâmbio de mercadorias, ocasionando relações culturais, o que pulveriza as clássicas soberanias e dilui as definições rígidas da fronteira. Opera-se aí um modus vivendi que conforma um espaço que contém influxos para além das nacionalidades, resultando em dinâmicas sociais compartilhadas entre fronteiriços de ambos países em contato.

Nas escolas situadas nas proximidades do limite entre o Brasil e o Uruguai, tanto antes como agora, os falares mesclados de português e espanhol evidenciam a interação existente na fronteira. Sérgio da Costa Franco destaca, no livro Origens de Jaguarão, o discurso de um inspetor de escola em 1907, quando advertia as autoridades do seu país sobre dificuldades no ensino causadas pelo contato com o brasileiro. Dramaticamente, como funcionário público que zela por rígidas e definitivas identidades nacionais, o tal inspetor uruguaio não percebia a riqueza da diversidade cultural e fazia a crítica:

Nuestras escuelas fronterizas, diseminadas en la extensa región donde domina la lengua portuguesa y los hábitos y costumbres brasileños, y donde nuestros compatriotas no saben que lo son – o parecen no saberlo –, requieren, exigen, imponen una especial enseñanza para los niños que las frecuentan. Esos niños son orientales sí, casi en su totalidad, pero abrasilerados!

Na contramão desse posicionamento está a produção do poeta Fabián Severo, natural da fronteiriça cidade de Artigas, Uruguai, que busca a poesia na alma e o que encontra é uma linguagem original que dá uma tonicidade própria e libertária, fora de qualquer padrão restritivo, como no poema intitulado “Trinticuatro”:

Mi madre falava mui bien, yo intendía.
Fabi andá faser los deber, yo fasía.
Fabi traseme meio litro de leite, yo trasía
Desí pra doña Cora que amañá le pago, yo disía
Deya iso gurí i yo deiyava.
Mas mi maestra no intendía. […]

Indiferentes ou hesitantes em sua consciência de nação, os habitantes da fronteira criam a sua pátria particular e heterogênea, como evidencia o poeta jaguarense Martim César ao declarar o reconhecimento de histórias e culturas diferentes, mas que se conjugam na mesma raiz:

Venho da mesma raiz
Profunda e antiga do pago
E essa estirpe que eu trago
Desde a ancestral matriz
Moldou a pátria que eu fiz
No vaivém das fronteiras
Em duas Américas lindeiras
No garrão do continente...
Dois idiomas diferentes
Mas só uma gente campeira”!

Parece também ser essa a identificação que Sergio Faraco encontra na narrativa de Mario Arregui, como declarou em correspondência ao autor uruguaio no período em que fazia a tradução para o português de contos do seu amigo. Na carta, expõe diferenças entre seus territórios, mas mais do que isso percebe aproximações que os fazem conterrâneos da mesma “nação pampiana”: “O Uruguai e o Rio Grande se parecem. O Rio Grande padece a influência deletéria do imperialismo cultural do centro do país e é nessa medida que teus contos recobram a índole do homem do campo – inclusive o rio-grandense – e, exagerando, sua ‘nacionalidade’”. Essa é a perspectiva que aponta o pensador Homi Bhabha ao perceber uma cultura que se situa em um terceiro espaço, onde o lado de lá e o lado de cá se encontram nas travessias, no alargamento das margens e nos limites apagados, conformando um entre-lugar.

Entendida nas suas referências simbólicas e por seu caráter cultural, esse terceiro espaço transcende ao imaginário e coloca em evidência outras percepções geográficas, onde as direções de fronteira afora impõem revisões políticas, históricas, linguísticas e identitárias para mostrar outras dimensões do seu significado, o que dispersa centralismos, homogeneidades e únicas verdades.

Carlos Rizzon
Professor Letras Unipampa

Texto publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia 30/01/2013

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