quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Das minhas reminiscências

O primeiro da esquerda, o "grande" Heponino Costa (maior folião de todos os tempos), 
Tutuca (camisa brilhante), bem atrás o altão Abregildo (foi zagueiro do Cruzeiro), 
"loco" Ever Nieto (primo do Vitor Hugo), corneteiro desconhecido,  e Osmar Garcia
 (lutador e centroavante do Jaguarão). Agachados: Adão (do Sheda), Guilherme 
(zagueiro do Navegante)  e  o José Alberto de Souza.

Preciso esclarecer que, órfão de pai e mãe, José Dalberto e Maria Francisca, fui criado como filho pelos meus tios Cantalício e Florisbela, que me acolheram em sua residência em Jaguarão. Era um sobrado, onde funcionava a livraria e tipografia na parte térrea, sendo a parte de cima ocupada como moradia da família; situava-se na esquina das ruas 27 de Janeiro e Andrade Neves, a bem dizer o coração da cidade, pois ali também estavam localizados o Banco do Estado do Rio Grande do Sul, o restaurante Gruta Jaguarense e o Café do Comércio, tradicionais pontos de encontro da população. Contíguos ao nosso prédio, tínhamos a Prefeitura Municipal, pela 27, e o Snooker do Oliosi, pela Andrade Neves. O sobrado possuía seis sacadas, cinco das quais davam para a rua principal, a 27, e dali se podia observar todo o movimento urbano. No carnaval, não se dormia a noite inteira e ficávamos assistindo de camarote o desfile dos blocos carnavalescos e dos carros alegóricos, além do corso das rainhas dos clubes Harmonia, Jaguarense, Caixeiral, Instrução e Recreio, 24 de Agosto. Na época, os principais blocos carnavalescos eram o Bataclã, os Marujos do Amor e o Troveja Mas Não Chove, que costumavam se apresentar durante o dia, antes dos desfiles, na frente das residências para angariarem recursos ou para agradecerem àqueles que tinham assinado os seus Livros de Ouro.

Assim, apesar de introspectivo, posso dizer que, cercado pela agitação de tantos ruídos urbanos, os mesmos sempre soaram para mim como uma sinfonia, contribuindo bastante para me despertar uma provável paixão sonora. Ainda hoje, ecoam nítidos os acordes de é com este que eu vou sambar até cair no chão, aquele samba de Pedro Caetano que ficou gravado em minha memória, desde o tempo em que seguia o bloco Marujos do Amor, comandado pelo incrível folião Heponino Costa, através das ruas de Jaguarão. Ou então ia assistir a passagem do Troveja Mas Não Chove, o cordão do Curto, precedido pelas evoluções das asas imensas do morcego do Ari, seguido pelo carro da Arara – “arara aí vai, arara aí vem” –. Que, dizem as más línguas, certa ocasião, obrigou a que se aumentasse a altura do portão da garagem onde fora construído, para sair à rua. E ainda tinha a borboleta do Rosa que abria caminho ao passo imponente do seu Teodoro, presidente perpétuo da Sociedade 24 de Agosto, dirigindo o tradicional Bataclã. E aí me animei a botar na rua minha fantasia de cowboy, calça, colete, chapéu e canana para revólver de chumbo, máscara preta tipo zorro, que eu mesmo confeccionei com a embalagem das resmas de papel da tipografia costurada em barbantes. Saí de fininho. Quando o pessoal em casa me viu na avenida, eu estava sendo depenado pela molecada, Cho mascarado, deixando-me de cuecas. Depois, comecei a sassaricar nos bailes do Clube Jaguarense, cujo presidente, Comendador Arnaldo Dutra, mandava-me permanente para todos os dias de folia a fim de preceder a comparsa. Na rua, desfilávamos fardados com camiseta de time de futebol, correndo como se estivéssemos entrando em campo, junto com alguns aspirantes cariocas do Regimento que batiam triângulo ao estribilho de Dim-dim-dim, saravá pai Joaquim. Ou então nos ensinavam a cantar Oi, Iaiá, cadê o vaso, / o vaso de fazê cocô? / Eu vou lhe contar um caso, / eu defequei no vaso, / me limpei co’a flô. / Sacanage, sacanage / e você não sabia / que o vaso era só / de fazê lavage. Por pouco, pouco, não apanhamos da assistência.

José Alberto de Souza

poetadasaguasdoces.blogspot.com.br

Texto publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia 06/02/2013


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