quarta-feira, 10 de julho de 2013

O simbolismo latente de uma imagem

Uma fotografia da turismóloga Elisângela Costa Barcellos me provoca o que pensar, pois ali se encontram alinhadas imagens da pira da Pátria, da estátua da Liberdade e da Igreja Matriz de Jaguarão. E eu fico pensando se na genialidade desse ângulo de focagem não estaria implícita uma premeditada escolha na construção do mais importante monumento situado na antiga Praça 13 de Maio (hoje denominada Doutor Alcides Marques). Mário Maestri já elaborou artigo transcrito na Confraria dos Poetas de Jaguarão, abordando sua inconformidade ao se privilegiar 20 de novembro em detrimento daquela data histórica que marcou o resgate nacional da cidadania do afro descendente.

Essa inquietação me motivou a buscar dados históricos acerca daquele obelisco e, como não dispusesse de imediato dessas fontes, vali-me de consulta ao notável historiador rio-grandense Dr. Sérgio da Costa Franco, que me respondeu nos seguintes termos: “Prezado conterrâneo: Na coleção do jornal jaguarense "A Ordem", de que existe uma coleção no Museu Hipólito da Costa, há várias referências à Estátua da Liberdade. Como o projeto nasceu ainda no tempo da Monarquia, para celebrar a abolição da escravatura e a Princesa Isabel, o jornal, que era do Partido Republicano hostilizou a ideia, já a partir de 24-01-1889. A pedra fundamental foi lançada em 3 de fevereiro daquele ano e a proposta da ereção do monumento foi do vereador Antônio da Costa Silveira.  Depois do advento da República, em janeiro de 1890, a Junta Municipal resolveu alterar as placas da base da coluna, certamente para retirar louvores à Monarquia e implantar homenagem à proclamação da República. A construção foi demorada e, por algum tempo, existia apenas a coluna com uma haste de ferro, onde deveria ser fixada a estátua de mármore. O cronista de "A Ordem" considerava isso ridículo, e, no Carnaval de 1890 houve gozações em torno disso, e o jornal republicano chegou a sugerir a demolição. Porém, em julho de 1891,  a Junta Municipal mandou completar o monumento, encomendando a estátua e determinando providências para o acabamento. Daí em diante, o jornal não toca mais no assunto, induzindo à conclusão de que tudo foi concluído. Restaria examinar outras fontes, lá mesmo em Jaguarão. Um abraço do Costa Franco.”

Evidente que nossa querida artista jamais imaginaria o feliz achado da sua composição e que esta imagem viesse a confirmar o velho jargão “vale mais que mil palavras”. Quanta gente não andou ali pelo entorno desse monumento sem enxergar aquele alinhamento. Parece até que ditas construções quisessem nos transmitir alguma mensagem que permaneceria oculta na passagem do tempo. Eis que estas visuais palavras afloram através de um momento privilegiado e vivido pela sensibilidade de quem as soube auscultar. Embora semioculta no recanto sombrio, pode-se perceber ainda a Pira antecedendo a figura do obelisco e caracterizando o patriotismo do povo brasileiro. A Estátua ali erguida homenageando a redentora Princesa Isabel a fim de comemorar a Abolição da Escravatura - posteriormente obscurecida com a Proclamação da  República – deve significar os anseios desse mesmo povo de atingir os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, então o clamor universal da época. Em posição discreta, ao fundo, dividida ao meio nos hemisférios da razão e da emoção, a nossa Igreja Matriz lança suas bênçãos divinas de inspiração para essa perfeita harmonia entre símbolos.


Ao menos, divulgando essa magnífica obra da artista conterrânea , emoldurada pelo conhecimento daquele ilustre escritor jaguarense, contribuímos para despertar o interesse sobre a importância desse belo monumento da nossa terra.

José Alberto de Souza

Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 03/07/2013



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