domingo, 21 de julho de 2013

Poesia : Dos rascunhos para o público

Novos projetos culturais tem estimulado a disseminação de obras e a evolução literária dos poetas de Pelotas


Por: Ana Cláudia Dias
A leitura ainda é a melhor maneira de se qualificar autores e apreciadores do gênero, dizem poetas (Foto: Jô Folha - DP)
A leitura ainda é a melhor maneira de se qualificar autores e apreciadores do gênero, dizem poetas (Foto: Jô Folha - DP)
Projeto do músico Vicente Botti está na 15ª edição (Foto: Jô Folha - DP)
Projeto do músico Vicente Botti está na 15ª edição (Foto: Jô Folha - DP)
Daniel Moreira e Ediane Oliveira estão entre os fundadores da revista eletrônica Mandinga (Foto: Jô Folha - DP)
Daniel Moreira e Ediane Oliveira estão entre os fundadores da revista eletrônica Mandinga (Foto: Jô Folha - DP)
Depois de tempos de monotonia, o envolvimento em torno da poesia, em Pelotas, tem dado sinais de que está se revigorando novamente. Nos últimos quatro anos diferentes projetos que envolveram o gênero - confrarias e a retomada dos saraus, característicos do século 19 no município - atestam que a produção deste ramo da literatura ganhou novos autores, que trouxeram trabalhos eloquentes e de qualidade. Enfim, um fortalecimento que faz a alegria dos apreciadores, poetas e futuros poetas, que se sentem mais à vontade para mostrar suas criações.
Neste ano, o 160º de nascimento do poeta, dramaturgo e jornalista Francisco Lobo da Costa deu mais um impulso em torno da discussão do gênero. A data do aniversário de Lobo da Costa, 12 de julho, passou há pouco mais de uma semana a ser dedicada à poesia e aos seus autores, com o Dia do Poeta Pelotense. A homenagem em forma de projeto de lei, proposta pelo vereador Luiz Henrique Viana (PSDB), foi sancionada no dia 10 deste mês pelo prefeito Eduardo Leite.
A projeção da obra do poeta pelotense, um dos nomes mais expressivos do movimento romântico na literatura gaúcha, também vai inspirar a 41ª Feira do Livro de Pelotas, de 31 de outubro a 17 de novembro, que homenageará Lobo da Costa. Com o tema Poetize sua vida a Feira promete ser mesmo especial. A organizadora Gilcéia Bender, da Maxi Eventos, diz que autores ligados à área estão ajudando a compor uma programação com foco na poesia. A ideia é oferecer oficinas, encontros do público com quem que escreve, estimular os pequenos estudantes à leitura e à escrita do gênero e proporcionar que a produção poética esteja presente durante todo o evento.
Mudança no cenário
Para autores como Daniel Moreira e Ediane Oliveira essa é uma excelente notícia. Natural de Caçapava do Sul, Moreira, 34, tem dois livros editados Poemas urbanos, em 2009, e [re]Versos, de 2012. Há quatro anos, quando lançou a primeira coletânea, a cena literária de Pelotas não estava convidativa, lembra o autor.
Até então, Moreira era frequentador do Café com Poesia, projeto realizado no extinto bar Minifúndio. Para alegria do poeta, na sequência da estreia literária foi convidado para participar do primeiro Sarau Poético-Musical da Bibliotheca Pública Pelotense (BPP), em maio do ano seguinte.
De convidado passou a organizador do sarau por nove edições, juntamente com Daniela Castro e Mara Agripina. Paralelamente a cena poética pelotense começou a se movimentar com outros eventos, como o Poesia no Bar, criado pelo músico Vicente Botti. O projeto previa a distribuição de poesias, escritas por autores locais ou não, no formato de marcadores de livros, durante uma atividade artística.
Na época, Vicente Botti convidou Moreira para participar arregimentando autores. A concepção de arte dos marcadores ficou a cargo do designer Valder Valeirão. “O bar entrava com o custo da impressão”, conta Moreira. A iniciativa bem-sucedida congregou outros poetas. Atualmente o Poesia no Bar transita também fora de Pelotas e a sua 15ª edição ocorreu na sexta-feira em Jaguarão.
Daniel Moreira que participa deste e outros projetos conta que a parte mais surpreendente destes encontros, para ele, é quando se abre para o público falar. A partir daí novos contatos são feitos. “Tem curiosidades, como a do rapaz que me perguntou 'como se faz para virar poeta'”, lembra. A resposta foi simples: “... ler muito, ouvir muito e participar dos eventos”.
Mandinga Arte Literatura
Com o cenário positivo, os poetas resolveram ir além da promoção de eventos culturais. Há poucas semanas criaram o Mandinga Arte Literatura, um espaço na internet para “fortalecer a produção, o intercâmbio e a divulgação da diversidade artística, sem fronteiras e sem limites”, segundo os fundadores. Mas também uma revista on-line, que na primeira edição, além de poemas, traz fotografias da artista visual Camila Hein.
À frente da revista estão Duda Keiber, Ediane Oliveira, Jairo Tx, Ju Blasina, Junelise Martino, Valder Valeirão, Vicente Botti e o próprio Moreira. O projeto ambicioso prevê ainda a edição e a distribuição de livros, no futuro. “Hoje temos os editais para financiamento, mas eles não são tudo. O Mandinga quer incentivar a publicação e ajudar os autores a buscar esses caminhos”, fala a poetisa Ediane Oliveira.
Com a experiência de duas publicações, a primeira pela editora Alcance, de Porto Alegre, e a segunda, um projeto independente com financiamento público, Moreira diz que o mais difícil é a distribuição. Para o autor, fazer tudo é um “processo bacana”, mas extremamente “desgastante”.
Nesse sentido a internet tem sido outra grande aliada dos poetas pelotenses. Através dos sites, blogs e redes sociais os escritores conhecem outros e trocam trabalhos e experiências. Livros de Moreira, por exemplo, foram para outros estados por causa desses novos amigos. “Pelo Brasil a gente vê um pessoal muito atuante”, diz Daniel Moreira.
Ediane Oliveira que também trabalha na produções dos eventos, além de escrever, diz que nos últimos anos viu o surgimento de alguns dos poetas da nova geração. “É ótimo ver a evolução, nós temos jovens poetas bons, que impressionam pela qualidade.”
Nesse sentido, Moreira chama a atenção de nomes de autores, a exemplo, de Rogério Nascente, Gabriel Borges da Silva, Marília Kosby, Alexandre Vergara, Duda Keiber, Márcio Ezequiel, Martim César, Ju Blasina, entre outros. Nem todos são nascidos em Pelotas, mas transitam pela região manifestando seu jeito lírico de olhar o mundo.
Tanto Moreira, quanto Ediane comentam o fato de os autores da Zona Sul terem por perto um dos nomes mais prestigiados da área na atualidade, Angélica Freitas, que nasceu e reside no município. “É maravilhoso termos aqui em Pelotas uma escritora premiada e que tem colaborado muito com esse processo”, fala Ediane.
Autora de Rilk shake (2007) e mais recentemente Um útero é do tamanho de um punho (2012), além de ter publicações em coletâneas e ser coautora da graphic novel Guadalupe (2012), em parceria com o quadrinista Odyr, Angélica é um grande incentivo aos novos. “Ela é a poeta-mor do momento”, fala Moreira.
Incentivo nas escolas
E quando se fala em incentivo à literatura, Ediane e Moreira vão direto ao ponto: educação básica. “A criança do primeiro grau é a mais interessada em poesia que o adolescente”, fala Daniel Moreira. “Falta incentivo na educação a partir da literatura. A escola faz da literatura algo muito teórico e chato”, diz Ediane.
O contista e poeta Márcio Ezequiel, 41, porto-alegrense que reside em Pelotas desde 2009, é bem cético com relação à educação formal. O autor argumenta que as escolas precisam trabalhar mais a escrita criativa e outras formas de expressão. Para ele as instituições de ensino não formam leitores qualificados, muito menos escritores ou pessoas mais ligadas aos detalhes da vida. É preciso desenvolver um olhar além do senso comum, afirma.
Para Ezequiel, a internet e os blogs demonstram “uma energia enorme de escrita e expressão reprimida”. Segundo o autor, os novos precisam se dedicar ao aprendizado da escrita. “Para escrever bem tem que ler muito. Tem que conhecer os gêneros literários, até mesmo para superá-los com novos formatos”, fala.
Uma saída, seriam os governos e entidades civis promoverem concursos e oficinas literárias. “As recentes manifestações pelo país mostraram claramente que sem conhecimento não há rebeldia inteligente. Sem leitura, música, cinema e arte não há poesia. Não há lirismo que sobreviva”, diz.


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