segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O VELHO “CHATEAU” DAQUELES RAPAZES DE ANTIGAMENTE

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Um puxado de zinco sobre chão batido, pedras e tijolos ali disponíveis, logo se improvisava o fogão. A lata de querosene Jacaré dezoito litros tinha virado panela, já esterilizada pelo uso constante. O peixe – jundiá ou pintado – dividido em postas, cozinhava-se ensopado, em tempero de salsa, pimenta, alho e vermelhão, afora o sal, naturalmente. A água chiando, enquanto o trago corria solto de mão em mão, parecendo animar cada vez mais aquela gente na fanfarronice de seus causos.

Não fosse o dono da casa servir pacientemente os seus convidados, estes avançariam famintos na panela indefesa. Assim, o corpo alimentado, é que se lembravam de tratar do espírito. De todos os cantos do barraco, surgiam violões, cavaquinhos, bandolins, pandeiros, agês, surdos e outros acessórios imprescindíveis àquele círculo sonoro. As cordas se esquentavam na afinação dos instrumentos. Uma melodia puxando outra e mais outra e mais outra, o repertório se formava ao natural.

O tempo passando, alguém começava a se sentir melancólico em recordar alguma dor de cotovelo e não resistia àquele clima de tristeza e alegria alternadas. O sujeito ensimesmado na sua saudade se recolhia solitário em sua discrição. Mal se dava conta de que os outros percebiam a sua fossa e, cortando o embalo, logo providenciavam que se levantasse o astral. Segredos não existiam entre eles. Pois que tratasse o dito cujo de ir desabafando a sua desdita. Esta o atingindo, contagiava o todo ali presente.

A tensão do ambiente carregado, as horas calmas da noite, era chegada a ocasião de se mudar os ares – quem sabe encarar a madrugada lá fora e até acordar a causadora daquela perturbação repentina, interrompendo-lhe o sono tranquilo com uma inesquecível serenata? Que importaria a distância? Lá, todos iriam desprendidos ante o compromisso maior da solidariedade e da ventura de se fazerem presentes naquele momento decisivo na vida do companheiro. Lá, todos iriam nem que tivessem de gastar a própria sola dos pés. Para então voltarem de alma limpa e passos trôpegos, cantarolando as notas e acordes da melo-poesia que, pelo caminho, despertaria os adormecidos. Provavelmente, haveriam de se sentir aureolados a andar nas nuvens como arcanjos-seresteiros.


José Alberto de Souza

( A cronica desta semana é a que dá o nome ao novo livro de José Alberto de Souza, o primeiro em formato digital e que está sendo compartilhado livremente na web

Publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 20/11/2013


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