segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Fronteiras de uma vida plena

Acompanhando as inquietações de um amigo em sua crise pós 40 anos, percebi uma alma perspicaz, lutadora e vencedora diante da fronteira entre o que ele tinha realizado (com sucesso) e a falta de desafios para o resto de sua vida.

O colapso afetava a mente e o corpo. Tinha a sensação de estar desagregado de seu contexto e desconectado dos seus sonhos. Mantinha em curso um único projeto de vida que era vencer a rotina e adiar a morte, pelo menos física, pois a mente já lhe parecia moribunda, por não saber o que acontecia.

Os retumbantes sucessos na vida pessoal, financeira e emocional traziam um orgulho do passado, mas o sabor da vida se amargava na falta de propósito e tudo o que foi vivido vitoriosamente se tornava um peso para mudar e só restava viver o nada interior, regado pela falta de desafios.

Um nada assentado em toda a sua história, em seus percursos intelectuais, cheios das coisas já vividas, parecia o bastante para qualquer alma conformada. Formou-se um círculo pernicioso em que o pensamento, alimentado pelo conhecimento, se tornava uma arma arguta voltada para sua própria cabeça, criando labirintos recônditos cheios de desvios de sentido.

As perguntas, que sempre foram o alimento de seus pensamentos, passaram a machucar um espírito carente de soluções, respostas pragmáticas para sua angústia.

Era preciso sair do buraco que estava cavando em sua volta, e isolando-o das pessoas mais importantes de sua vida.

A busca, inicialmente inglória, o conduziu ao ato de defesa na persecução da lógica da preservação. Primeiro houve o empenho em eliminar o que, supostamente, acreditava que não queria, mas isso se tornou um processo limitante e claustrofóbico, que reforçou o ensimesmamento.

Os labirintos da alma lhe apresentavam caminhos de questionamentos sem sentido até que se deparou com o verdadeiro dilema de sua fronteira: manter-se no velho ou nascer no novo? Manter-se no velho significava continuar definhando em suas angústias, mantendo as lembranças vivas de sua história ritualizada na coisificação do dia a dia. Nascer de novo era o rompimento com o passado, levando apenas as experiências, sem saber a dimensão e o que se perderia nesse novo.

A angústia da encruzilhada era não poder seguir nos dois sentidos e escolher um caminho é certamente deixar outras infinitas possibilidades para trás. Do mesmo modo, não escolher é também uma escolha e nenhum caminho será percorrido. O mofo se formará no espírito desafiador e lutador do outrora eterno revolucionário. Seria a morte em vida o meio termo.

A nuvem negra já estava se dissipando, agora já não era mais uma busca por respostas no seu labirinto pessoal, mas um momento de decidir como seria a sua travessia, o caminho a ser escolhido, o compromisso de um encontro consigo mesmo no futuro.

A partir daquele ponto, depois da travessia, não poderia mais olhar para trás, viraria “estátua de sal” e as perdas seriam os alicerces da sua escolha por ser feliz.



Fábio Martins Oliveira

Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 12/02/2014


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