------
Assim,
voltando ao fio da meada, lá estávamos, minha esposa, meu amigo e
eu, no Café Tribunales, na plaza Independência, centro de
Montevidéu, esperando há algo em torno de meia hora, quando entrou
o casal. Ela, pequena e falante, ele, quase indistinguível,
escondido em uma gabardina pesada, que parecia um pouco fora de
contexto, pois o frio não era tanto naquele dia. A gola alta deixava
ver pouco seu rosto, porém a voz, nos raros momentos em que falou,
tinha o sotaque e a tonalidade nasal dos discos que ouvíamos. Essas
eram características inconfundíveis. Edna falou e falou, por duas
horas ao menos, dizendo que estavam sendo perseguidos, principalmente
por uma emissora de televisão que os havia encontrado no centro do
Uruguai. E dizia enfaticamente que não poderíamos tirar fotografias
pois mostrariam onde estavam e isso seria muito perigoso para eles. E
assim, colocando um clima sombrio no ambiente, seguiu falando e
falando. De tudo, além de umas poucas palavras do Belchior (ele
sempre chamava seus interlocutores de “professor”), eu só
recordo que notamos que não tinham como pagar o que pediram. Estavam
com fome e isso podíamos perceber claramente. Pagamos de bom grado o
que consumiram e, ao nos despedirmos, perguntaram se não podíamos
nos encontrar no outro dia, na hora do almoço. Lembrei-me que esse
era o título de outra de suas canções. Ela frisou então que o
Belchior só comia peixes e frutos do mar. Lembramo-nos de um
restaurante na orla de Montevidéu. Ártico, isso, Ártico, no bairro
de Punta Carretas. Combinamos o encontro.
No
outro dia - um desses em que o céu de Montevidéu não se decide
entre uma chuva fina, a famosa llovizna, e um sol de inverno -
chegamos ao restaurante. Eles já estavam lá, ao fundo, em um lugar
em que se podia enxergar os campos onde havia alguns uruguaios
jogando futebol, fazendo pouco caso do chuvisqueiro. Era sábado, dia
ideal para exercício naquela orla magnífica.
Edna
novamente conversou por todos, mas de vez em quando se ouvia o
Belchior falando. Ao pronunciarmos esse nome, ela pediu que
mudássemos para “Antônio”. O mistério aumentava. Respeitamos
seu pedido e esse passou a ser o nome usado por nós desde então.
Perguntamos se comia paella, assentiu. Creio que pedimos dois pratos
grandes. Passou o tempo, conversas e conversas, sem a revelação do
que eles realmente queriam de nós. Chegou a hora de fechar o
restaurante. Edna perguntou se podiam sair conosco à noite para
algum outro restaurante. Concordamos. Afinal, era para isso que
tínhamos vindo a Montevidéu. Combinamos o encontro.
À
noite nos encontramos na frente da parrillada El fogón, aonde sempre
íamos em nossas estadias anuais na capital uruguaia. Essa
parrillada, uma das melhores de Montevidéu, fica na calle San José,
atrás da principal, 18 de Julio, bem no centro da cidade. Nessa
noite aconteceu, embora poucos ali percebessem, um dos maiores
encontros de músicos latino-americanos da região, pois, ao lado da
nossa mesa sentou uma família em que um de seus membros era Daniel
Viglietti, o compositor de A desalambrar, Milonga de andar lejos,
Canción para mi América, e de outras pérolas do cancioneiro
latino-americano. Tínhamos o seu disco A dos voces, com o poeta
Mario Benedetti. Um dos trabalhos artísticos fundamentais para quem
quer conhecer algo da cultura e da música uruguaia. Belchior, ao
vê-lo ali tão perto, em um gesto marcante, fez questão de se
levantar e ir falar com seu colega uruguaio. Conversaram um pouco,
não mais que 5 minutos, e ouvi que ele dava um “bom proveito”
para os que estavam em volta da mesa do Viglietti, despedindo-se.
Sobre o que falaram não sabemos. Achei que não me cabia perguntar.
Gosto de pensar que falaram de alguma música, de alguma parceria
possível, de outros artistas de sua geração, de amigos comuns, ou
de encontros que tiveram em festivais pelo mundo.
Na
saída do El Fogón, Edna pediu para que os deixássemos onde estavam
hospedados. Era um pequeno e velho hotel na rua logo abaixo da San
José, mais próxima à rambla (orla). Uma zona menos iluminada e um
pouco menos segura. Até os dias de hoje, sempre que vou a
Montevidéu, passo em frente ao lugar e relembro a cena. O hotel fica
na calle Soriano, já próximo ao seu final (ou seu início), umas
três ou quatro quadras do Teatro Solís e do mágico bar Fun Fun
(aquele que tem a assinatura do Carlos Gardel no balcão). Antes de
deixarmos o casal no hotel, que não recordo o nome, combinamos
pegá-los no dia posterior para irmos até a feira de
Tristán-Narvaja, no bairro Cordón, evento que sempre ocorre aos
domingos sobre as ruas desse mesmo nome.Ali,
sentaram-se em um banco um pouco longe da feira, pois não quiseram
percorrê-la conosco. Certamente para ele não ser reconhecido. Sem
dar espaço a contra-argumentos, a Edna disse que nos esperariam para
a despedida. Quando voltamos estavam ali, no mesmo lugar. Edna então
pediu para que arranjássemos um lugar para eles do lado uruguaio da
nossa fronteira. Foi com essa proposta na mente que nos despedimos. E
partimos rumo ao Brasil, para Jaguarão, com 420 km de estrada plana,
tendo a verde e bucólica campanha uruguaia em nossa visão. Essa
paisagem é sempre um bálsamo para quem gosta de viajar.
Jaguarão
- Lago Merín – Divina comédia humana
 |
Lago Merín - UY - O paraíso ecológico que acolheu Belchior |
Mais
de dez anos já se passaram, velozes, fugazes como aqueles momentos
de Montevidéu e do novo encontro, e cá estou eu, tentando juntar
cacos de memórias de imagens que não deveriam ser definitivas, mas
que, infelizmente, foram. Sempre pensei que encontraria o Belchior
outra vez – e reviveríamos tudo outra vez (outro título de uma de suas canções) - em um show, ou em
algum restaurante, talvez em Porto Alegre ou em outro local, onde
ele, cercado de fãs, dando autógrafos e sorrindo por baixo do
imenso bigode, reconheceria em nós os guris de Jaguarão que foram a
Montevidéu encontrá-lo. Diria certamente: “Como vai, professor?”.Creio
que era julho, mas poderia ser agosto, quando fomos encontrá-los
novamente. Desta vez em Rio Branco, a cidadezinha uruguaia que fica
do outro lado do rio Jaguarão. O combinado por mensagem era que eles
desceriam antes do terminal de ônibus, no lugar em que se fazem os
documentos de entrada e saída do Uruguai, os vistos, no chamado
Passo de Fronteira. Eu havia trabalhado ali e conhecia cada recanto
dessa construção. Mas jamais esperava que estivessem sentados, sem
malas, no banco que fica do outro lado em relação àquele que
chegávamos, ou seja, do lado que aponta para Montevidéu, de onde
eles tinham vindo. Por isso passamos diretamente da primeira vez, sem
vê-los, e só quando empreendemos a meia-volta com o veículo, já
achando que não tinham vindo no ônibus da Expreso Rio Branco, é
que nos deparamos com a cena. Os dois sentados, sem nem fazer menção
de estarem preocupados com uma não vinda nossa e com apenas uma
única maleta como bagagem. Ainda hoje é essa a imagem que mais nos
marcou de seus encontros. Ambos ali imóveis, num banco de estação,
olhando para o Sul da América, para a imensa planura uruguaia. Esse
quadro da memória sempre me lembra a música Carito do argentino León Gieco (para mim um Belchior, em sua versão platina): Sentado
solo em um banco en la ciudad/con tu mirada recordando el litoral...
Havíamos
conseguido uma casa com uma amiga de Rio Branco, Helen Noble. Seu
marido havia morrido faz pouco. Ambos eram os grandes amigos que
tínhamos do outro lado do rio. Estavam sempre envolvidos com
questões artísticas e de integração. Pouco antes da partida do
Carlitos - o marido, que era cantor de murga (maravilhoso teatro
cantado uruguaio) e edil (vereador) local – o casal tinha levado o
nosso grupo ao Fórum Social Binacional realizado no Chuí. Sensível,
solidária, ativista cultural, ela era a pessoa indicada para
emprestar uma casa para um artista como o Belchior. E assim foi, de
muito bom grado, sempre magnânima, entregou-nos a chave. O lugar
onde os hospedamos, Lago Merín, é um balneário tranquilo que fica
a uns 20 km de Jaguarão, do lado uruguaio, como eles haviam pedido
que fosse. É uma praia de água doce que só tem um movimento
considerável nos meses de janeiro e fevereiro. Nos outros, ficam ali
só umas duas ou três dezenas de moradores, quando muito. Assim, era
certo que não teriam muito com que se preocupar sobre possíveis
encontros não desejados. Quanto à alimentação, traríamos tudo o
que precisassem uma ou duas vezes por semana. E podiam sempre contar
com os peixes que eram pescados na noite anterior, de um ribeirinho
que morava a uma quadra da casa da nossa amiga.
 |
La casa de Helem, refúgio de Belchior no Lago Merín |
Tudo
correria bem, não fossem alguns senões. Mas, porém tem um porém...
A casa era de praia e a Edna logo fez questão de mostrar que não
estava à altura do que esperava de nós. Sempre que íamos, ela
falava de uma casa melhor, mais nova. Quanto ao Belchior, posso
afirmar que jamais reclamou de nada. Há que se dizer também que
essa casa segue sendo alugada e que ainda nos parece muito propícia
para um veraneio em um paraíso natural como é o balneário Lago
Merín. Tempos depois foi a mesma casa em que viveu por 6 meses o
filho do Atahualpa Yupanqui, para quem conseguimos hospedagem da
mesma forma. Até hoje, O Roberto Chavero, conhecido por Coya
Yupanqui, que mora na província argentina de Córdoba, fala em
retornar e veranear na mesma casa.
Voltando
ao Belchior. Nesses meses de convivência na fronteira, tivemos uma
dúzia de encontros. Pouco mais ou pouco menos, não recordo todos.
Lembro-me de alguns deles. Uma janta no restaurante do hotel, vários
peixes assados na grelha, diversos passeios com ele sempre escondido
no banco de trás do veículo. Tudo fica bastante difuso quando as
imagens e os locais se repetem.
Lembro
que ele pediu material para pintura. Em seguida conseguimos. E vimos
que pintava impressionantemente bem. Anos depois o amigo, jornalista
e crítico musical, Juarez Fonseca, uma das maiores autoridades sobre
música do Brasil, mostrou-me algumas pinturas e desenhos do cantor,
a maioria com imagens do Carlos Drummond de Andrade, os quais
recebera como presente e haviam sido publicados anteriormente por uma revista e também publicados em um livro em parceria com o cartunista Mino. Eram estupendos. Aliás, esse termo
“estupendo”, era um que ele utilizava bastante. Naquele então,
no seu autoexílio no Lago Merín, na casa da Helen, vimos que ele
fazia de cavalete uma mesinha, forrada com uma toalha de linho, onde
distribuía os pincéis harmonicamente.
 |
As pinturas do Drummond, álbum especial, presente aos leitores da revista Caras. Os desenhos, livro do Belchior em parceria com o cartunista Mino. |
Em
uma das primeiras tertúlias que fizemos recordo que pedimos para que
cantasse algo. Edna interveio dizendo que ele não podia, pois a
gravadora não permitia. Em outra vez, o meu irmão, depois de cantar
uma música, em um gesto espontâneo, passou o violão para ele. Foi
uma expectativa imensa quando vimos que tomou o violão em suas mãos.
Ela estava em outra sala, mas percebeu o que ocorria, talvez pelo
silêncio expectante do momento, e chegou logo dizendo que ele não
podia, repetindo que estava proibido terminantemente pela gravadora.
Nunca soubemos a que gravadora se referia. Ele, constrangido,
entregou o violão, concordando com ela que não podia cantar, mas
completou que recitaria uma poesia do Baudelaire e prontamente nos
brindou com um excerto que creio ser de Fleurs du mal, em um francês
que para nós, brasiguaios, sem muito conhecimento do idioma de
Victor Hugo, pareceu-nos (e devia ser) perfeito. Penso que lembrei
logo, sorrindo, que era também contraditório, pois ele havia dito
muito antes: Minha fala nordestina/quero esquecer o francês...
Nessas
noites de encontro com eles nos fundos da casa da Helen, onde ficava
a parrilla para os assados, levávamos um amigo nosso árabe,
conhecido por ser bom cozinheiro e, também, por estar sempre
disposto para uma festa. Era ele quem assava os peixes para o
“Antônio”, descobrindo os gostos culinários do cantor. Sempre
recebia em troca palavras elogiosas para o tempero e a textura dos
peixes que preparava. “Estupendo”. Em uma dessas vezes, ele, para
agradar, resolveu fazer uma torta especialmente preparada segundo as
preferências do Belchior. Para sua surpresa, quando, depois da
janta, trouxe do carro a iguaria, foi cortado abruptamente pela Edna,
que logo atalhou dizendo que ele não poderia comer algo que era
nocivo à sua saúde. E que ele não poderia nem mesmo ver a torta,
fazendo com que o Said, o amigo árabe (chamado de turco, como todos
seus compatriotas da fronteira), com a torta ainda sendo equilibrada
perigosamente na mão, voltasse quase instantaneamente com a sua
surpresa para o nosso carro. No momento rimos muito da cena. O
“turco-árabe-palestino” não gostou nada do que ocorreu e lembra
até hoje da afronta.
Por
último, recordo que montamos uma estratégia. Enquanto minha esposa
conversava com a Edna, eu falaria com o Belchior. Nas poucas palavras
que dizia, ele sempre gostava de falar comigo sobre literatura e um
pouco de filosofia. Falava que estava trabalhando em umas traduções,
creio que do Dante. Como eu tinha diversos livros que poderiam lhe
interessar, combinamos que eu levaria alguns para que ele pudesse
retomar seu hábito de leitura. Disse-lhes alguns títulos, ele
escolheu os que queria, ou que não tinha lido. A memória pode me
enganar, mas se não recordo com clareza, ao menos imagino um brilho
diferente em seu olhar, ou mesmo um leve sorriso.
No
próximo encontro, que foi o último, levei os livros que me pediu.
Pedro Páramo, Por quem os sinos dobram, Sobre heróis e tumbas...
creio que eram esses. Quero, mas não consigo recordar como foi
exatamente a despedida. Havia um certo clima diferente, porém nunca
fui dado a percepções mais detalhistas. Tenho para mim que deve ter
sido somente um “até mais, professor”, como das outras vezes.
O
certo é que, alguns dias depois, recebi uma mensagem eletrônica
onde o contato deles dizia:
Prezado.
Falei com a Edna e com o Belchior, e eles me pediram para te enviar
este recado: Agradecem pelo empréstimo dos livros e DVDs. Os seus
pertences estão na casa da sra. Helen. No entanto, outros dois
livros seus e um livro e canetas da sra. Helen ficaram no hotel em
seu nome, onde eles disseram que jantaram com vocês uma noite. Até.
Rafael.
Assim,
abruptamente, terminavam os nossos encontros com o Antônio, mais
conhecido por Belchior, um dos poetas-músicos-filósofos mais
importantes da música brasileira e latino-americana.
Em
respeito ao que nos foi pedido, jamais tiramos uma fotografia ao seu
lado. Nem em Montevidéu, nem no Lago Merín. Essa não-evidência em
imagens é justamente o que nos faz sentir mais próximos a ele.
Tenho certeza de que se ele tivesse seguido seu caminho natural e nos
encontrasse hoje em dia, certamente diria, com seu maravilhoso
sotaque nordestino: “Obrigado, professor!”.
P.S.:
Tempos
depois eu soube que o Belchior seguiu vivendo mais um ou dois meses
no Lago Merín, hospedado por um conhecido personagem local. A prova
inconteste disso era uma série de fotografias. Fotografias... e não
eram 3x4. Eis a divina comédia humana. Soube também que houve um
dia em que uma das músicas dele, de eterna incompreensão, de alguma
forma havia se materializado em Jaguarão. Mas por favor, não saque
a arma no saloon, eu sou apenas um cantor....
Nesse
dia, a Leci Brandão tinha vindo fazer um show na cidade. Ao saber
disso, Belchior conseguiu que o levassem discretamente de carro até
a frente da Casa de Cultura, local onde a cantora estava aguardando
para a hora do espetáculo que iria se realizar no Largo das
Bandeiras, o ponto central de Jaguarão. Então, segundo o que me foi
contado, ele pediu para alguém avisar a Leci que “o Belchior
queria falar com ela”. A Leci, obviamente, ficaria surpresa com a
notícia e, também, obviamente - imensamente solidária como sempre
foi, ativista cultural, além de cantora da gema -, iria ao encontro
do famoso colega na mesma hora. Mas qual? Um dos promotores do
evento, talvez se arvorando de protetor da contratada, simplesmente
barrou o mensageiro e, ainda pior, barrou a própria mensagem. Creio
que a Leci nunca soube do fato e o Belchior voltou para o balneário
como um simples adolescente que fora barrado em um baile. Em cada
esquina que eu passava, um guarda me parava, pedia os meus documentos
e depois sorria, examinando o três-por-quatro da fotografia....

Sim,
Antônio, ou melhor, Belchior, tinhas razão, sempre tiveste razão.
O tempo passa, as gerações mudam, mas ainda somos os mesmos e
vivemos como nossos pais.Martim César - Jaguarão, maio de 2022.