quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Um guri em busca de aventura


Cavalgada tradicional do Vinte de Setembro

Meus sonhos me aprontam cada “gancho”! Pois não é que me deparo com uma comadre que falava para outra ter lido no jornal uma reportagem sobre os perigos aos jovens saindo a cavalgar fora da cidade. “Peraí, eles passeavam a cavalo dentro da cidade?” – estranhei, quase invadindo a cena. Porém, veio-me à mente uma de minhas estadias na cidade de Tapes - RS, situada às margens da Lagoa dos Patos e considerada a mais plana ao nível do mar, onde constatei não ser incomum esse costume, mesmo fora do tradicional desfile no feriado comemorativo de 20 de setembro.

Nada mais natural para que se favoreçam longas caminhadas a pé ou pedaladas de bicicleta, apesar do comodismo daqueles que não dispensam o automóvel para se deslocar em pequenas distâncias. E do lazer daqueles que ainda têm como alternativa a prática da equitação no perímetro urbano. Sem submeter suas montarias a grandes esforços, os ginetes também desfrutam de um prazer mais ecológico e saudável. Eles circulam nas vias públicas, inteiramente despojados de qualquer pretensão de impressionar com suas esporádicas passagens, que nem chegam a ser notadas no passeio.

Essa conversa das comadres falando do inconveniente dos jovens pegarem a estrada montados em seus pingos me jogou em tempos distantes quando minha cidade parecia pequena demais para minhas perspectivas de vida. Jaguarão era o universo a que me restringia como se não bastassem minhas explorações pelas ruas, quando as percorria de cabo a rabo, uma por uma, às vezes, tentando chegar a pé nas vilas mais pobres e afastadas, em busca da aventura de sentir a realidade de outras paragens. Quantas vezes não me detive ali no Prado, querendo prosseguir pela saída da cidade.

Houve ocasiões em que alugava bicicleta para prolongar esses trajetos. Mesmo assim, essas novas expectativas não passavam de entradas Uruguai adentro, pela ponte cruzando o rio e seguindo na direção da Cochilla para trazer “pan alemán” ou então esticando mais até o cansaço me parar lá pelos lados da Tablada. Outras vezes, a gente pegava um pequeno bote para navegar rio acima, onde nos perdíamos num dos inúmeros braços e ficávamos horas dando voltas, sem a mínima orientação, apenas na base de tentativas para encontrar o caminho de volta ao curso principal das águas.

Um dia havia de chegar a que surgisse oportunidade de sair daquele insulamento e lá fui eu de carona num "jipão" do Exército, a convite do primo Cesário, para passar uns dias em sua residência de Bagé, onde servia numa das guarnições locais. Pelo caminho, a estadia no Paris Hotel, de Pelotas, contemplava pela janela entreaberta do quarto em que estávamos hospedados a imensa torre metálica do relógio do Mercado Público, cujo carrilhão batia preciso as horas. Eu começava a desbravar o mundo...

José Alberto de Souza

Texto publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia 19 de setembro
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