segunda-feira, 6 de maio de 2013

Sobre Orelhas, Tarzan e Apreciações Críticas

O grito de Tarzan limpava qualquer orelha

Tarde da noite, enquanto a cidade comemorava o natal, encaminhou-se ao prostíbulo onde trabalhava sua amada e entregou-lhe sem cerimonia um pequeno involucro. Era o seu presente. Macabro. Nele estava sua orelha direita. A dele, Van Gogh. Esse estranho e inusitado episódio de auto mutilação ocorrido em 25 de dezembro de 1888,  transformou a aurícula do então miserável pintor holandês numa das orelhas mais famosas do mundo. Sem dúvida há muitas outras, menos famosas, mas muito conhecidas. Inclusive seus donos são conhecidos por serem delas  portadores.   No lugar normal, onde se espera que estejam, em suas cabeças e exercendo sua função em prol da audição. Se bem que tê-las como característica anatômica principal não é muito prazeroso.

Há outras orelhas dignas de nota, e não pelo seu tamanho avantajado ou pelo seu destino cruel. Recebi convite que muito me honrou, para escrever a orelha do próximo livro do Poeta Martim César, Sobre Amores e Outras Utopias,  que deve ser lançado em breve. Missão de alta responsabilidade a qual não me esquivei.  Muitas pessoas compram um livro pela sua orelha. Ali se atiça a curiosidade do leitor, seduz-se à leitura. Uma orelha malformada pode ser uma tragédia. Pode significar o encalhe de uma edição inteira. 

Este assunto recordou-nos, a mim e ao Sérgio Christino, o que ocorreu a uma colega do ginásio. Tínhamos de semestralmente  ler um livro e dele fazer uma apreciação crítica. Ler,  para muitos era tarefa hercúlea e crítica então, poucos tinham ideia do que fosse isso.  Acontece que a citada colega apresentou um trabalho portentoso. A professora, cética quanto à autoria do texto, impecável, pressionou implacavelmente a menina até conseguir a confissão. Ela , quase aos prantos revelou a fonte. O texto era cópia da Orelha do Livro. Havia outros que se socorriam de amigos, irmãos, conhecidos, que gostavam de leitura e podiam dar uma mãozinha nessa hora tão difícil. Noutro caso, desta vez com o Professor Abel, o colega, que só tinha tempo para a guitarra em sua banda da jovem guarda,  apresentou seu trabalho sobre o livro A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo. O Professor, sabendo da pouca afinidade do aluno com as lides da leitura escolar, estranhou a boa confecção do texto apesar de algumas omissões. Para tirar as dúvidas,  perguntou oralmente ao nosso guitarrista: vem cá, nesse livro faz-se referencia a alguma ilha?  Ante a questão, o nosso músico não hesitou (hesitar poderia ser uma declaração de culpa). Ilha? Não, não havia nenhuma ilha. Que estranho, retrucou o Abel, apondo um redondo zero na apreciação crítica do nosso infeliz colega. Esta história da Moreninha passa-se inteiramente na Ilha de Paquetá e pode-se dizer que é quase personagem central do romance!

E há mais um caso. Dessa feita foi com um colega já veterano. Vamos ao próximo, disse o Professor. Fulano! Qual o livro que o Sr.  leu?  Tarzan, respondeu o aluno. Ouviu-se um murmurejar na sala. Apesar dos nossos poucos conhecimentos sobre a matéria, a obra de Edgar Rice Burroughs, o criador do Rei das Selvas, não era muito conceituada em termos literários. Na verdade porém, o zumzumzum devia-se a uma onda de descontentamento por parte de todos que leram pesados romances. Afinal, quem não via os filmes do Johnny Weissmuller, o mais famoso Tarzan,  e lia as HQ das aventuras do Homem Macaco? 

Silencio resignado do paciente professor. O resenhista do Tarzan começou a ler. A cena que nos ficou na memória é ele repetindo interminavelmente entre snifes e fungadas  (movido sinceramente pela emoção, transtornado, ou talvez gripado, com coriza?) referindo-se ao Lord Greystoke, pai do menino perdido na Jungle: Pobre homem...Pobre homem...

Jorge Passos

Publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional  em 30/04/2013


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