quarta-feira, 5 de junho de 2013

O Fantasma da Torre Minervina


As reminiscências do José Alberto de Souza publicadas nesta coluna, levaram-me também a remexer no meu bau de lembranças jaguarenses e, para minha surpresa, qual a que emergiu? A de um fantasma beato, o da Torrre da Minervina. Ele surgia às sextas-feiras, por volta da meia-noite, no já distante agosto de 1962. Era um vulto branco que percorria o muro lateral da Igreja, na rua Coronel de Deus Dias, logo desaparecia e surgia de novo, agora lá em cima, contornando a marquise da torre. Um dos primeiros a presenciar essa possível assombração foi um brigadiano, conhecido como Cabo Godinho, ao concluir sua pacata ronda ciclística. Levou um susto tão grande que quase caiu da bicicleta. Dirigiu-se então à toda para o Café do Comércio, ainda aberto, embora o adiantado da hora e contou o que vira, apavorado. Havia um grupo de poucas pessoas, conversando em torno de uma única mesa e ninguém levou a sério sua narrativa. Muito menos o Reingantz, proprietário da casa, que já fechava as portas ruidosamente para os retardatários se retirarem.

Entretanto, para o medo de alguns e a descrença de muitos, dali em diante mais e mais pessoas começaram a ver esse tipo de aparição, no mínimo uma vez por semana. Até que cerca de dois meses depois, altas horas, um grupo de pessoas ansiosas aguardava o surgimento do fantasma. A fraca iluminação daquele tempo, com escassas lâmpadas do tipo doméstico, fazia as árvores da rua General Osório projetar grandes sombras que, aliadas à neblina que caia lentamente, criavam um clima de suspense londrino. E foi aí que o Bica, meu amigo de infância, mais o Antoninho Becker, colocaram água fria na fervura. Apareceram armados de revolver e espingarda com a intenção de dar uns tirinhos no fantasma e ver o que acontecia. Nem precisou fazer o primeiro disparo, a assombração - que não era do outro mundo mas daqui mesmo - tomou uma chá de sumiço e nunca mais apareceu.

Hoje, passados mais de 50 anos, é possível revelar os autores da façanha. Um deles era o meu irmão Paulinho Fagundes Azevedo, que embora fosse dez anos mais novo do que eu, já faleceu. Eu reclamo que a turma daquele tempo está sempre furando a fila, mas não adianta. A maioria já passou para o plano espiritual, deixando-nos na saudade. Os outros eram o Nelson e o Valquir Del Pino, tendo ainda um conselheiro filosófico, professor do Colégio Espírito Santo, cujo nome já não recordo. Mas foi ele quem aconselhou a descer o pano final, antes que ocorresse uma tragédia. Os atores fantasmas eram dois, porque assim podiam atuar em sintonia. Enquanto um desaparecia aqui embaixo, o outro imediatamente surgia lá no alto da torre, abrindo os braços, todo de branco, aumentando o mistério.

E embora eles tenham usado como cenário o venerável espaço externo de uma igreja, creio que o bom Pai do Céu logo os perdoou. Afinal, era apenas uma turma de jovens e sua brincadeira não magoou ninguém. Em meio a tantos problemas cabeludos criados pelos adultos, até Deus até deve gostar de espairecer e dar uma risada ante uma boa e inocente piada.

Pedro Fagundes Azevedo

Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 29/05/2013




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