segunda-feira, 25 de agosto de 2014

E por falar no apito tão estridente do carromotor

Em remotas eras, certo amigo me apresentou a uma bela “dama da noite”, conhecedora profunda do comportamento masculino, tecendo rasgados elogios à minha pessoa, apesar de não merecidos. Do alto de sua refinada experiência, essa dona não chegou a colocar em dúvida aquelas referências, porém, colocou-se a desfiar todas as decepções que lhe ensinaram a conhecer melhor o sexo oposto. E nos apontava apenas uma distinta figura do seu relacionamento como modelo de cavalheirismo, pautado em atitudes de respeito indiscriminado à condição social de cada criatura e que se chamava João Batista.

Assim, em rápidas pinceladas, apresento o perfil desse indivíduo que deixo em suspenso para compreender a profunda ansiedade por que passa todo ser humano ante as resultantes traduzidas pela química das reações emocionais. Dizem os espiritualistas que já somos programados desde os planos superiores. De modo inconsciente, mal percebemos os sinais que nos chegam através de inúmeras ofertas sociais de interação aos pares no meio onde vivemos com o fim de perpetuar a própria estirpe. E o nosso espírito vaga por ai perdido para encontrar afinidade de gostos e ideias.

Agora, imagine-se como estudante, dinheiro contadinho, que vai passar fim de semana na casa de parentes, em Barra do Ribeiro. A seu lado, viaja linda jovem, calada, que vai desembarcar numa parada logo adiante a fim de fazer baldeação a um ônibus de partida para Sertão Santana. Da sua janela, você avista ela embarcando no outro veículo e lançando para si um significativo sorriso. Você pensa em tomar outro rumo, mas ai surge o dilema de quem vai lhe pagar a passagem de volta. Cada um segue o seu caminho até nunca mais, pois aquele desencontro já fora previsto em sua programação.

Tantas partidas e chegadas nestas estações aonde nos conduz o destino que a gente não deixa de esquecer as muitas paragens de nossa existência. E ali naquela aduana no lado uruguaio da Ponte Internacional Mauá, hoje é difícil de conceber a ausência daquele carro motor que ia e vinha pelos trilhos de Rio Branco a Montevidéu, levando e trazendo aquelas pessoas complicadas para se identificar nas suas pretensões como de passeio ou negócio. Passageiros das mais diversas origens, misturando-se em multicoloridas roupagens que mal denunciavam seu modo de vida.

Afinal quem era João Batista? Boêmio, solteirão inveterado, filho de fazendeiro que ajudava o pai nas lides campeiras, com tempo suficiente para se dividir entre a dureza da atividade rural e as ocupações comerciais que não prescindiam de sua presença na cidade. Tínhamos um amigo comum, Vitório Silva, um velho companheiro das rodadas no Café do Comércio, que sempre me falava das qualidades de João Batista, as quais eu ia agregando com admiração, apesar de não lhe desfrutar da intimidade. E o Vitório foi quem me contou um acontecimento rocambolesco, envolvendo aquele nosso personagem.

Estavam os dois passando de automóvel pela Aduana uruguaia no momento em que os passageiros embarcavam no carro motor, quando João Batista viu aquele perfil de rosto feminino que lhe encantou. Parecia que lhe sopravam: “Esta é a mulher da tua vida”. O trem já ia saindo, mas ele não teve dúvida para instruir Vitório: “Vamos até a estação da Cuchilla, que lá eu compro a passagem e pego o carro motor, preciso falar com aquela moça que nem conheço. Tu telefonas para o representante de meu pai em Montevidéu, Mateo Gallindo, que me espere lá na chegada desse trem, pois necessito acertar um negócio com ele. E levas o nosso carro para casa em Jaguarão”.

Nem preciso contar que ele terminou casando com a "involuntária visão", embora tivesse se apresentado a ela de botas e bombachas, a mesma roupa com que saíra da campanha. Apenas contando com presumíveis préstimos de uma pessoa de Montevidéu, que só distinguia de ouvir falar em seu nome.

José Alberto de Souza 

Publicado em 13 de agosto de 2014 na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional
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