sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

MUNDO HOMEM...! (Nada mudou, Bandeira.)

Vi uma vez mais aquela criatura,
Semelhante a de um filme de terror,
Apesar de viva
Ontem, dez e tanta da noite, véspera de natal.

Os brilhantes pisca-piscas
Nas árvores, delimitavam
Os horizontes de uns e outros;
Afoitos passantes
Com suas híper vias sacolas,

Extras sorrisos, americanas
Fantasias, mac donos
De fartas ceias
Em noite de natal.

E lá está ele;
Indignamente um não-gente, morto-vivo;
Pulsa, é humano (ao menos parece)...

Vejo-o sempre próximo ao abrigo São Paulo,
Deitado no chão, encharcado de aguardente,
Aguardando uma eterna e inexistente vaga.
Não posso denominá-lo um bêbado,
Seria pouco, creio...

Talvez por misericórdia ou humorismo macabro,
Alguém doou-lhe uma velha roupa de papai noel,
Única indumentária sobre seu corpo
(Se aquilo assim pudesse ser chamado).

Em seus braços e pernas haviam faixas e gesso,
Fruto de não sei quantos acidentes,
Incidentes e álcool excedente.
Parece múmia, tantas gases envoltas pelo corpo,
(Se aquilo pode ser visto como tal).

Deitado na terra, sujo, moribundo,
Bêbado e delirando, não consegue se levantar,
Apesar da mochila vazia às costas.
Morre aos poucos,
Poucos o vêem.

Será que tem família, filhos(as),
Esposa, mãe, pai, irmãos, amigos
Ou algum passado?
Quem conhece sua história?
Algum registro, quem sabe, lembrança
De uma existência humana?

Véspera de natal.
De noite feliz; oh Senhor...!
Que escuridão se encerra em
Suas noites moribundas?

E todos passam por ele;
Sequer compreendem sua vida,
Que apesar de tudo, existe (não para ele).
Contudo, apressados, seus iguais ora riem,
Ou se enojam, salvo um ou outro.

O que senti foi repulsa desta sociedade
Onde os senhores do tele-natal
Mandam repetir nos meios de comunicação
Mentirosamente, a persistente
Idéia de um natal feliz "para todos"

Omitindo para o mundo
O fato ilógico de
Um cão abandonado
Viver melhor
Do que
Estes não-seres,
Vistos
Repetidamente
Natal após outro...

Elder Pacheco

Militante histórico das lutas sociais em Minas Gerais, irmão e companheiro,

Axé para todos(as)

dez/2010

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